A experiência da Reforma Universitária de 1968 na UFMG foi antecipada na gestão do Reitor Aluísio Pimenta, no período de 1964 e 1967, tornando-se modelo para outras instituições e influenciando o texto oficial da Lei nº 5.540/68, que instituiu a Reforma nas demais universidades públicas federais brasileiras (PIMENTA, 1984). Diante dessas informações, fizemos contato com o professor Aluísio Pimenta para uma entrevista sobre o período de sua gestão na UFMG, a reforma de 68 e sua opinião sobre o Reuni.
Durante a entrevista, o professor Aluísio Pimenta recordou as principais mudanças decorrentes da reforma de 68: o vestibular passou a ser unificado, introduziu-se o tempo integral e a dedicação exclusiva dos professores; extinguiram-se as cátedras, promoveu-se a integração dos cursos organizados em departamentos, e suprimiu-se o comportamento conservador dos professores catedráticos que defendiam apenas o ensino profissionalizante. Na sua análise, a integração dos cursos em departamentos propunha a ampliação da visão para trabalhar a formação profissional com a divisão da graduação em dois ciclos: o básico e o profissional. Os cursos que eram apenas profissionalizantes passariam a oferecer uma formação básica em Biologia, Química, Física e Ciências Sociais para todos os demais. Essa medida possibilitaria à universidade formar profissionais com maior visão social e
propunham formar não apenas médicos, engenheiros ou advogados, mas profissionais comprometidos com as transformações sociais. A ideia era resgatar os conhecimentos básicos e ampliar a visão para trabalhar o ensino profissional. O estudo de Química, Física e das Ciências Biológicas e Sociais, por exemplo, possibilitaria visão mais ampla do médico em seu trabalho.
O professor Aluísio Pimenta reconheceu que a reforma ocorrida no Brasil se assemelhou à da França e foi muito diferente da reforma universitária dos Estados Unidos, Inglaterra e de outros países da Europa. No Brasil já havia muitos cursos profissionalizantes de Farmácia, Odontologia, Engenharia e outros, segundo o modelo francês de universidade, enquanto nos EUA os cursos de ensino superior iniciavam-se com o ensino básico. Mesmo assim, ele avaliou que a Reforma Universitária de 1968 significou um considerável avanço da educação universitária no Brasil. Na ocasião muitos professores tiveram bolsas para estudar, tanto no País quanto no exterior, para assumirem a docência nas universidades brasileiras, porém não existia um programa de formação continuada para os professores, o que ele considerou como uma falha na estrutura.
Para ele, os professores não tinham percepção do que é ser um agente de transformação social. A contratação de profissionais para atuar nas universidades, feita por concurso público de provas e títulos, não levava em consideração a formação básica. A universidade esperava desse professor uma excelência acadêmica, alguém com visão mais ampla da sociedade e da economia. A pesquisa era pouco incentivada e a extensão quase não existia. A pós-graduação não era considerada importante. A importância estava no número de pessoas graduadas. A valorização da pesquisa era pouco desenvolvida.
Durante a gestão do Reitor Aluísio Pimenta, a UFMG passou por uma intervenção militar em 9 de julho de 1964, e que durou apenas quatro dias, devido ao apoio da sociedade mineira, à forte base de sustentação e de autoridade política de seu representante maior. No entanto, em fevereiro de 1967, Aluísio Pimenta teve seu mandato cassado no cargo de reitor da UFMG.
Posteriormente, foi aposentado com base no Ato Institucional nº 5 – AI-5, de 13 de dezembro de 1968. Exilado, passou 17 anos fora do Brasil, e teve a oportunidade de participar de vários projetos na área da educação, ciência e tecnologia (PIMENTA, 1984; RESENDE, 1998).
Para Pimenta (1984, p. 88), na implantação da Reforma houve a “destruição de uma experiência democrática”, pois “o contexto político era extremamente desfavorável à sua implementação”. O autor avalia que “a desejada criação dos departamentos gerou, ao contrário do que se esperava, imensa e profunda fragmentação das universidades”. A participação de muitos dos que trabalharam nessas instituições, com vínculos e ideais modernizadores, foi inibida e silenciada pela cassação dos direitos universitários no período do governo militar.
Mais uma vez, a UFMG demonstra seu pioneirismo e a iniciativa inovadora de mais um reitor na modernização da universidade, além do já citado Mendes Pimentel. Aluísio Pimenta implantou a efetivação do reitorado, com cumprimento de horários de trabalho e conhecimento de todo o processo administrativo e financeiro, deixando de ter o reitor um papel apenas figurativo (PIMENTA, 1984).
O entrevistado acompanha diariamente as notícias veiculadas pelas mídias e mostra-se bem informado sobre a proposta do Reuni e de sua importância para a sociedade brasileira atual. Porém, revela o receio de a expansão ficar voltada somente para o aspecto quantitativo e declara: “Não podemos aceitar as críticas da imprensa dizendo que o Reuni está trazendo problemas. É claro que traz, mas tem que ter recursos para que os professores pesquisem – se não tiver recurso não se pode ir à frente”. Acrescenta ainda que a formação de professores proposta pelo Reuni é muito importante, mas não podemos esquecer da pesquisa, para agregar as mudanças profundas que as tecnologias têm trazido para a sociedade; e volta a afirmar que é importante formar profissionais, mas não se pode esquecer das ciências básicas para se ter qualidade.
Das décadas de 70 a 90 do século passado várias medidas e interferências externas, como as do Banco Mundial, do Banco Internacional de
brasileiras, especialmente, no que se refere à expansão das nossas universidades públicas e privadas (MALANCHEN & VIEIRA, 2006). Porém, foi na primeira década do século XXI que medidas mais efetivas foram adotadas nesse sentido, especialmente através do Decreto nº 6.096/2007, que instituiu o Reuni, foco da presente pesquisa.