2 Methods and data
2.4 Modelling
Leis e declarações anticlericais à parte, a verdade é que fora um bispo a primeira personalidade a assinar o auto de tomada da posse de Norton de Matos como governador-geral, imediatamente após o empossado e o governador interino cessante. É a D. João da Lima Vidal, bispo de Angola e Congo, que cabe a primazia, antes de qualquer outra autoridade civil302. É verdade que nem o bispo, nem qualquer outra personalidade eclesiástica, constam da comissão de personalidades representativas da opinião pública da Angola nomeada pelo governador poucos dias depois para, sob a sua presidência, propor ao ministro das Colónias medidas para a boa administração da província303, mesmo se o bispo continuará, pelo menos enquanto o ministro das Colónias não determinar o contrário, a fazer parte do Conselho de Governo.
Já no que respeita à bagagem das convicções pessoais do recém-chegado a África, no que ao clero diz respeito, temos um documento precioso que nos ajuda a perceber que as suas públicas tomadas de posição nos meses que se seguiram à implantação da República, sobre o efeito deletério da Igreja Católica, não foram
302Cf. «Auto de posse do Governo Geral da Provincia de Angola e suas dependencias, conferida ao Ex.mo sr. major do Serviço do Estado-Maior, José Mendes Ribeiro Norton de Mattos», Supplemento ao BOPA, Vol. 40, Nº. 24, 18-06-1912, p. 3.
117 meramente oportunistas, mesmo se claramente marcadas pela exaltada conjuntura anticlerical dos primeiros tempos do regime.
Numa viagem ao Congo nos últimos dias de 1913, onde rebentara a revolta de Tulante Álvaro Buta, Norton atribui segundas intenções ao relato do superior da missão do Lunuango sobre as causas da revolta da população de uma povoação em particular, o Quifumo. Segundo o missionário, tratar-se-ia de uma reacção a actos de prepotência do administrador colonial. No seu diário pessoal, o governador-geral regista o seu desagrado: trata-se de uma «critica, encapotadamente e jesuiticamente feita, tendente a deitar por terra o ad[ministrad]or»304. É certo que a má administração do funcionário é corroborada por outras fontes e Norton acabará por afastá-lo do posto. Não obstante, o padre, apesar de não pertencer ao clero regular e muito menos à ordem dos Jesuítas, não se livra de ser qualificado com as características maléficas que muitos republicanos coevos, Norton incluído, atribuem aos membros desta congregação religiosa.
Já faltas pontuais de natureza moral por parte do clero são, na sua opinião, fruto da concupiscência, «irmã gémea» do celibato, estado ainda mais pernicioso em terras de missão isoladas. E quando a acção pastoral entra em choque com os costumes autóctones, provocando a animosidade da população, é o «papel civilizador e de ocupação» da missão que fica comprometido. A «falta de tacto» com que os padres insistem na pregação do matrimónio religioso e da monogamia aos indígenas perturba desnecessariamente a organização familiar tradicional dos africanos. Resultado? A insatisfação dos sobas que, ao invés, o governador precisa ter do seu lado.
304«Chegamos hoje ás 7h50m á Cabeça de Cobra. O Ambriz fundeou a proximamente uma milha da praia. Mandamos um escaler a terra para nos trouxe o superior da missão de Lunuango. Disse-me em resumo que o Governador do Congo tinha seguido para S.to Antonio bastante doente; que o gentio da Quifuma se tinha revoltado porque o administrador José Felix tinha feito umas descargas a um dos povos mais importantes sem razão plausivel para isso; que estava certo que eles se apresentaram logo que nada tivessem a temer; que gentios fieis que se tinham apresentado foram presos. Enfim uma critica, encapotadamente e jesuiticamente feita, tendente a deitar por terra o ad.or J. Felis[?]. Não me resta duvida que a acção deste administrador não tem sido inteligente: - é indispensavel tirar-lhe esta região de sob a sua administração». ANM, 2a viagem ao distrito do Congo. Diário, 30-12-1913 a 7-1-
118 «Vieram cumprimentar-me os sobas e povo dos arredores e foi uma carga cerrada nos padres. - Davam maus conselhos ás mulheres, alterando o uso antigo da terra sobre contractos de casamento, dizendo-lhes que elas tinham inteira liberdade de irem para onde quisessem, de abandonarem os maridos, porque era nulo o casamento que não fosse feito á face da egreja: – d'ahi uma perturbação grande na pratica de tão importante acto da vida dos povos.»
Estes eram dos poucos que, no Congo, não alinharam com os sobas que, sob a liderança de Buta, se revoltaram contra o ‘rei’ do Congo, Kiditu, por não defender como devia os interesses dos seus súbditos, alinhando de forma demasiado estreita com os portugueses na promoção, frequentemente por meios violentos, do recrutamento de trabalhadores. Embora o alvo principal da revolta fosse Kiditu305, acabava por ser também, naturalmente, uma revolta que colocava em causa a administração portuguesa. Punha em causa, em especial, a estratégia do governador de distrito José Cardoso, sancionada e elogiada por Norton, de reconhecer o poder tradicional dos sobas306, transformando-os assim em peças-chave na transmissão das instruções do governo-geral de Angola aos indígenas, em zonas onde a máquina administrativa do colonizador estava ainda longe de conseguir substituir-se às redes de poder tradicional. A acção civilizadora do poder colonial deveria fazer-se sentir através de alianças com os sobas para a cobrança do imposto de cubata e para o fornecimento de trabalhadores. O recrutamento forçado, a destruição de aldeias cujos habitantes se atreviam a deixar desertas quando o angariador oficial de trabalhadores aí chegava, entre outras violências do género, começaram a fazer com que sobas que, como Buta, até então tinham colaborado com o governo fornecendo trabalhadores, começassem a colocar em causa a aliança do seu rei tradicional com os portugueses.
305Como demonstrou Jelmer Vos. O facto de visarem sobretudo o rei do Congo e só subsidiariamente a administração portuguesa mostra como os sobas do Congo andavam equivocados sobre a verdadeira sede do poder político, numa altura em que o poder colonial começa a fazer sentir de forma mais sistemática a sua força, apertando a malha administrativa com a imposição do imposto de cubata e da obrigação de trabalho, pela via do recrutamento. Jelmer Antoon Vos, The kingdom of Kongo and its
borderlands, 1880-1915, PhD thesis SOAS-University of London, London, 2005 (policopiado), pp. 216 e
segs (cap. 7: «Forced Labour and the Revolt of Tulante Álvaro Buta»).
306As instruções regulamentares dos serviços das capitanias-mores do distrito do Congo, apresentadas por Cardoso, são aprovadas por Norton, na PP nº 1374, de 23-11-1912, na qual se determina que os governadores dos distritos da Lunda, Benguela e Huila elaborem propostas idênticas. As instruções regulamentares de Cardoso, incluíam, como dever dos capitães-mores, «enraizar no ânimo do gentio a ideia que o soba é uma autoridade reconhecida pelo Govêrno, representando uma garantia para os direitos dos indígenas, quando esteja perfeitamente subalternizada ao respectivo capitão mór e sirva de medianeiro lial e consciente entre as autoridades regulares e o gentio». «Instruções regulamentares pelas quais devem conduzir a sua acção os capitões-mores do Cuango, Damba e Bembe» in BOPA, Nº 47, 23-11-1912, pp. 823-824, alínea h.
119 Agravados pelos «maus conselhos» às mulheres ou não, a verdade é que é aos missionários baptistas e católicos que os sobas revoltados reconhecem idoneidade307 para serem testemunhas das partes, na cimeira de guerra com o administrador de circunscrição, nos dias seguintes ao ataque de Buta à zona católica de São Salvador, precisamente a parte da cidade onde residia o rei.
II.3.2.3. Primeiras impressões sobre as missões católicas e