O Brasil não estava isolado em sua determinação de desenvolver um programa nuclear próprio, pois outros países, inclusive nações em desenvolvimento, estavam investindo recursos em busca do mesmo objetivo. Um exemplo bastante próximo é o da vizinha Argentina, que, em meados do ano de 1953 (meses antes da aprovação da política nuclear de Getúlio Vargas), colocara em operação um acelerador em cascata de 1 MeV (Mega elétron-Volt) de potência – igual à do primeiro cíclotron da história, desenvolvido por Ernest Lawrence (ORNSTEIN, 2010).
Além disso, a nação sul-americana já havia criado laboratórios e estava conduzindo um robusto programa de formação de pessoal para o setor nuclear - por meio do treinamento de jovens cientistas nos EUA e na Europa, além da importação professores desses países (IBID). E outros países, como o Canadá, a França, a Alemanha, a Itália e até mesmo a Índia, um país então recém-descolonizado, já se empenhavam em dominar a nova tecnologia101.
Em meio a tal cenário, o CNPq de Álvaro Alberto empreendeu importantes pesquisas em busca de jazidas de minerais atômicos em território brasileiro. O Conselho, por meio do seu Setor de Pesquisas Geológicas, contratou dois técnicos
101 Para maiores informações sobre o programa nuclear indiano, consultar: JAIN, Shreyans Kumar. Nuclear Power – An Alternative. Paper publicado pela Nuclear Power Corporation of India Limited. Disponível no site: http://www.npcil.nic.in/ (acessado a 16 de julho de 2012).
estadunidenses da Geological Survey (Serviço Geológico dos Estados Unidos); e obteve a colaboração do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM)102.
Com tais colaboradores, o programa de prospecção de minérios atômicos do CNPq logrou descobertas importantes: em 1952, os geólogos norte-americanos Max G. White e Gene W. Tolbert constataram uma grande presença de urânio no município de Poços de Caldas (MG) – região na qual também foi identificada a presença de tório em estudos posteriores.
Tais resultados dos esforços de prospecção serviram de base para que o Almirante seguisse adiante com o projeto de instalar a indústria de produção de combustível nuclear. Nesse sentido, o Almirante, com o aval de Getúlio Vargas, aprofundou as negociações com o governo francês, com o qual o CNPq mantinha conversas desde 1952. Tendo por interlocutores o Comissariado de Energia Atômica da França (equivalente ao CNPq no país europeu) e a Societé des Produits Chimiques dês Terres Rares, empresa com sede em Paris, foi assinado um contrato entre as partes em novembro de 1953. O acordo previa a construção de duas usinas, sendo uma voltada ao beneficiamento de minério de urânio natural, “afim de obter sal de urânio destinado à usina II”103; enquanto a ‘usina II’ seria destinada a purificação dos sais e de fabricação de urânio nuclearmente puro104.
Como desdobramento deste acerto entre ambos os países, diversos técnicos franceses vieram ao Brasil, incluindo Francis Perrin – membro do Comissariado de Energia Atômica da França. Em depoimento à CPI de 1956, Álvaro Alberto declarou: “Francis Perrin (...) esteve no Brasil, visitou-nos e estudou conosco o problema. Ele nos deu toda a força e nos deu até garantia, o que fez por escrito, por intermédio da Embaixada da França no Rio de Janeiro” (Relatório Final da CPI de 1956 apud SALLES, 1958: 126). A previsão era de que as usinas fossem construídas na cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais, em terreno cedido pelo governador do estado, Juscelino Kubitschek, que foi eleito presidente honorário da comissão formada para cuidar do projeto (IBID).
102 “As ocorrências até agora conhecidas de minerais uraníferos no Brasil”. Relatório do CNPq datado a 23 de dezembro de 1954. IN: Arquivo Renato Archer, disponível no Acervo do CPDOC-FGV. Código: RA ap en 1954.12.00. Pasta 1, documento I-2A.
103 Minuta: Contrato Fábrica de Urânio. Documento assinado pelo CNPq e Societé des Produits Chimiques dês Terres Rares. Novembro de 1953. IN: Arquivo Álvaro Alberto Op. Cit.
Outro acordo internacional de grande importância firmado pelo CNPq foi o firmado com a Alemanha Ocidental. As conversas com os alemães tiveram início já no primeiro ano de atividade do CNPq, em 1951, quando se debateu a possibilidade de contratar técnicos e cientistas germânicos para virem trabalhar no programa nuclear brasileiro105. Em tais negociações, foi cogitada a vinda de alguns dos cientistas mais proeminentes da época, como Otto Hahn (Prêmio Nobel de Química de 1944, por descobrir a fissão do átomo por meio de experiências com urânio e tório106) e Carl Friedrich Von Weizsäcker (físico e filósofo alemão, que foi Chefe de Departamento do Instituto Max-Planck Para o Progresso da Ciência107).
Segundo o general Aguinaldo Caiado de Castro (chefe do Gabinete Militar da Presidência da República desde 1952), em ofício secreto enviado a Getúlio Vargas em 25 de novembro de 1953, os principais interlocutores de Álvaro Alberto nas negociações com a Alemanha Ocidental foram “os sábios alemães Paul Harteck, antigo Professor e Reitor da Universidade de Hamburgo, atualmente dirigindo o ensino de Físico-Química no Rensselaer Polytechnic Institute (de Troy, Nova York); Wilhelm Groth, diretor do Instituto de Físico-Química da Universidade de Bonn; e Konrad Beyerle, Diretor do Instituto para Instrumentos da ‘Sociedade Max Flanck para o Progresso das Ciências’” 108.
Na mesma correspondência secreta, Caiado de Castro informou ao presidente da República que o CNPq considerou o padrão tecnológico proposto pelos alemães como o mais promissor para o desenvolvimento da indústria brasileira de energia nuclear. Os alemães estavam conduzindo pesquisas para a construção de um reator alimentado a urânio levemente enriquecido109 (1,2% de isótopos U235), que seria refrigerado a água leve. Para atingir tal grau de enriquecimento, os alemães desenvolveram ultracentrífugas
105 Ofício secreto do Álvaro Alberto para Getúlio Vargas, sobre a contratação de técnicos alemães para o CNPq. Datado a 20 de novembro de 1951. IN: Arquivo Álvaro Alberto, Op. Cit.
106 Perfil de Otto Hahn no site do Prêmio Nobel: http://www.nobelprize.org (acessado a 23/07/2012). 107 BOCK, Benedikt. Biografia de Carl Friedrich Von Weizsäcker. Disponível no site Gifford Lectures: http://www.giffordlectures.org (acessado a 23/07/2012).
108 Exposição de Motivos do CSN Nº 772, de 25 de novembro de 1953. IN: Arquivo Álvaro Alberto (Cit.).
109 Trata-se de um dos processos de fabricação de combustível nuclear, que pode servir tanto para alimentar reatores, quanto para a fabricação de artefatos atômicos. “O processo de enriquecimento isotópico consiste no aumento da concentração do isótopo físsil de urânio-235 de 0,7% (encontrado na natureza) para cerca de 4%, valor usado em reatores nucleares comerciais para geração de energia.” IN: Site do Centro Tecnológico da Marinha de São Paulo: www.mar.mil.br (acessado a 24/07/2012).
alimentadas a gás hexafluoreto de urânio (UF6)110. No mesmo documento, o general reproduziu uma declaração de Álvaro Alberto, exaltando a opção da cooperação germânica:
“É nossa firme convicção que devemos prosseguir na presente política de procurar resolver, com colaboração da Ciência e da Tecnologia Alemã, o problema do enriquecimento do urânio. Primeiro, porque assim procedendo daremos ainda um passo para a política da distribuição das tarefas por vários países, em lugar de dependermos de um ou dois, dentre os nossos Amigos estrangeiros; segundo porque conforme tudo indica, atualmente, além dos Estados Unidos, somente a Rússia e a Inglaterra parecem possuidores de instalações para a produção de urânio enriquecido. (...); quanto aos Estados Unidos da América, os seus Representantes tem repetidamente invocado o dispositivo legal que lhes proíbe formalmente fornecer combustível nuclear, mesmo aos seus amigos e aliados mais íntimos, como a Inglaterra e o Canadá.”111.
Baseado em tal percepção, Álvaro Alberto deu prosseguimento ao acordo com os cientistas alemães e, sempre contando com a aprovação de Getúlio Vargas, encomendou a construção de três ultracentrífugas. Além disso, o CNPq enviou três químicos à Alemanha, para aprender o manuseio do gás hexafluoreto de urânio; e, em 21 de janeiro de 1954, o governo brasileiro, via Banco do Brasil, depositou 80 mil dólares no Banco Alemão para a América do Sul, para custear a construção dos equipamentos (CAMARGO, 2006: 188-189). Interessante destacar que este padrão tecnológico é similar ao que acabou sendo adotado no Brasil anos mais tarde, sendo que os reatores das usinas atômicas de Angra dos Reis são alimentados com urânio enriquecido (IBID: 255- 276) - e a tecnologia de enriquecimento desenvolvida pela Marinha do Brasil, a de ultracentrífugas, partir de um princípio tecnológico similar ao dos equipamentos adquiridos pelo Almirante junto à Alemanha Ocidental.
O cenário parecia extremamente promissor a Álvaro Alberto, no início de 1954. Além dos acertos com a Alemanha e com a França, a formação de pessoal qualificado para o setor estava dando os seus primeiros resultados, com destaque para os três
110 Exposição de Motivos do CSN Nº 772, de 25 de novembro de 1953. IN: Arquivo Álvaro Alberto, Op. Cit.
tecnólogos brasileiros que conseguiram obter urânio nuclearmente puro na França, no dia 8 de janeiro daquele ano. Sobre tal feito, o almirante declarou:
“(...) esse fragmento metálico nuclearmente puro (...) foi produzido pelo grupo que está trabalhando sob a orientação de Alexandre Girotto, do qual fazem parte Walther Ferreira do IPT/SP (Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo) e Willer Florêncio, do Instituto de Tecnologia Industrial de Minas Gerais (...). O nitrato de uranila que é a matéria-prima que se toma como ponto de partida para a metalurgia desse urânio que estão vendo aí (...)”112.
Entretanto, um episódio mudaria totalmente o rumo do setor nuclear: a crise de agosto de 1954, cujo ápice foi o suicídio do próprio presidente da República. Getúlio Vargas já vinha sendo pressionado nos meses anteriores, em especial por parte da UDN, de setores militares oposicionistas e pela maior parte da grande imprensa no Rio de Janeiro (com exceção do jornal Última Hora) e de São Paulo. Tais forças políticas, segundo Leslie Bethel, viam em Vargas um risco iminente de um novo golpe de Estado, que pudesse inaugurar um novo período ditatorial – tal como ocorrido em 1937 (BETHEL, 2008: 116-117).
A campanha contra o presidente, teve o seu clímax com o episódio da rua Tonelero, onde Carlos Lacerda foi vítima de um atentado que resultou na morte do seu guarda-costas, o major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz. Com a investigação da Aeronáutica apontando o chefe da guarda pessoal de Vargas, Gregório Fortunato, como o mandante do crime; os partidos de oposição, e grande parte da oficialidade entre os militares, intensificaram as pressões pela renúncia do presidente da República. Politicamente acuado, e considerando a renúncia inevitável, Vargas acabou cometendo suicídio na manhã do dia 24 de agosto.
O desfecho trágico da segunda presidência de Vargas foi um golpe forte demais nas pretensões de Álvaro Alberto, do CNPq e do CSN na área nuclear. O governo que se seguiu, encabeçado por João Fernandes Campos de Café Filho (UDN-RN) não considerou o setor nuclear com a mesma importância que os seus antecessores na
112 Anais do CNPq, 190ª Sessão do Conselho Deliberativo, de 26 de janeiro de 1954 (MOTOYAMA e GARCIA, [Orgs], 1996: 91).
Presidência, e abriu caminho para uma efetiva mudança nos rumos da política atômica brasileira. Como veremos, foi o início da derrota das diretrizes de Álvaro Alberto.
Capítulo 3