Section 3: The importance of innovation and its impact on CM and PdM systems
2.3.5 Business advantages of technological advancements in relation to CM systems
Com a explosão da bomba Little Boy na cidade japonesa de Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, a possibilidade de se produzir energia nuclear em grande escala foi formalmente apresentada ao mundo, ainda que de forma tão trágica – segundo Richard Rhodes, haviam morrido cerca de 140.000 pessoas em 1945 em decorrência dos bombardeios atômicos (RHODES, 1988: 486). A partir de então, despertou-se uma grande atenção no mundo inteiro, incluindo o Brasil, sobre a questão nuclear.
Um exemplo disso é o memorando do dia 20 de agosto (14 dias após o bombardeio de Hiroshima), que o major Orlando Rangel enviou à Diretoria do Material Bélico do Exército Brasileiro, encaminhando um relatório secreto sobre a nova tecnologia, e os seus impactos no Brasil e no mundo. No documento, Rangel mostra-se profundamente impressionado com a energia nuclear, e afirma que “As possibilidades ilimitadas da utilização da energia nuclear abrem novos horizontes à humanidade, iniciando uma nova era, que já foi denominada ‘era atômica’” 6.
No citado documento, Rangel especulou que “A utilização prática e industrial do sensacional invento demorará provavelmente alguns anos, influindo, porém, imediatamente e de modo decisivo, na evolução da arte da guerra”7. O major destacou, no relatório, o pesado manto de segredo que marca o assunto nuclear, em especial os detalhes técnicos envolvendo a bomba atômica; e sugeriu a leitura de diversas entrevistas publicadas na imprensa brasileira, tanto de personalidades estrangeiras, quanto de especialistas brasileiros – incluindo Álvaro Alberto.
5 Eric Hobsbawm bem refletiu o clima geral que caracterizou o período conhecido como “Guerra Fria”, que teve início pouco após o fim da Segunda Guerra Mundial, e marcou o cenário internacional: “Gerações inteiras se criaram à sombra de batalhas nucleares globais que, acreditava-se firmemente, podiam estourar a qualquer momento e devastar a humanidade. (...) Não aconteceu, mas por cerca de quarenta anos pareceu uma possibilidade diária” (HOBSBAWM, 1995: 224).
6 Oficio de Orlando Rangel à Diretoria do Material Bélico do Exército Brasileiro, datado a 20/08/1945. IN: Arquivo Álvaro Alberto, Op. Cit.
Entretanto, não foram apenas os militares que se interessaram pela novidade tecnológica: alguns dias depois deste ofício militar, a Academia Brasileira de Ciências (ABC), da qual Álvaro Alberto era membro de longa data8, emitiu uma moção com a sua posição oficial sobre o tema. No documento - assinado por cientistas como o físico Joaquim da Costa Ribeiro; o físico alemão, radicado no Brasil, Bernard Gross; o médico Carlos Chagas Filho; além do próprio Álvaro Alberto, dentre outros -, afirmaram-se duas conclusões básicas:
“1º – Para que sirva a memorável descoberta ao bem-estar e felicidade do gênero humano, e de eficaz garantia da liberdade e da dignidade das Nações e dos indivíduos, sem as quais se fariam insubsistentes as próprias razões de viver”.
“2º - Para que ‘o maior feito da Ciência organizada, na história’, cujo surto, segundo o presidente Truman, acaba de inaugurar a ‘idade da energia atômica’, efetivamente (...) venha a tornar-se poderosa e forte influência para assegurar a paz no Mundo.” (ALBERTO, 1960: 190-191)
Segundo Shozo Motoyama, nesta sessão da ABC, Álvaro Alberto defendeu ainda uma maior atenção para a questão atômica, incluindo as suas dimensões militares; e ressaltou a importância de que fossem realizadas pesquisas mais profundas sobre a ocorrência de reservas significativas de urânio no território brasileiro (IBID).
Todavia, o Capitão de Mar e Guerra estava despertando um interesse em um assunto sobre o qual os EUA se debruçavam há anos. De fato, a questão nuclear entrou na pauta das relações Brasil-EUA no ano de 1940, quando os dois países assinaram um acordo de cooperação que autorizou os Estados Unidos a realizar estudos para localizar reservas de minerais radioativos em território brasileiro (GUILHERME, 1957: 83). Este
8 Álvaro Alberto era filiado à Academia Brasileira de Ciências desde o ano de 1921, e, como já referido anteriormente, presidiu a entidade por duas vezes. Sendo um dos mais ativos membros daquela instituição, integrou o grupo de representantes da ABC que recepcionou Albert Einstein, em sua visita ao Brasil em 1925. No ano seguinte, foi eleito membro da comissão da Academia encarregada de todas as homenagens à cientista polonesa Marie Curie, Prêmio Nobel de Física (1903) e de Química (1911), respectivamente pela descoberta da radioatividade e dos elementos químicos rádio e polônio. Nos demais anos, ocupou os cargos de segundo-secretário, secretário-geral e vice-presidente da Academia, em diferentes períodos (MOTOYAMA e GARCIA, [Orgs], 1996: 223-227).
acordo possibilitou que geólogos estadunidenses identificassem consideráveis ocorrências de tório e urânio ao longo do país9.
Cinco anos mais tarde, durante a visita do recém-nomeado Secretário de Estado dos EUA, Edward Stettinus Jr., ao Brasil, em janeiro de 1945, para conversações com o presidente Getúlio Vargas sobre o pós-Segunda Guerra; o assuntou foi novamente abordado. Na ocasião, o secretário estadunidense destacou as necessidades materiais dos Estados Unidos no pós-guerra, e prosseguiu:
“Eu disse que há um determinado “T” (areia monazítica) do qual vocês têm reservas. Sucede que a Índia tem reservas desse produto e, com o baixo custo de trabalho na Índia, ela estaria em condições de vendê-lo a preços abaixo do seu no mercado internacional, a menos que possamos fazer um acordo imediato por meio do qual nos deem uma opção para os próximos cinco ou dez anos”10.
As areias monazíticas citadas são um tipo de fosfato que contém, em sua composição, cerca de 5,5% de óxido de tório (ThO2) – além de terras raras, incluindo elementos como o fosfato de cério (Ce2O3), lantânio (La2O3), dentre outros. O tório é um dos metais radioativos de aplicação no setor nuclear11, e suas áreas de ocorrência conhecidas no Brasil dos anos 1940 e 1950 se situavam na faixa litorânea que compreendia desde o sul da Bahia até o norte do Rio de Janeiro (MOTOYAMA e GARCIA, [Orgs], 1996: 77). Todavia, a monazita não era explorada apenas no Brasil
9 De fato, no ano de 1945 o general estadunidense Leslie Groves, principal líder militar do Projeto Manhattan, destacou a grande importância das reservas de tório brasileiras, demonstrando conhecer as grandes dimensões reservas brasileiras de tal minério radioativo. Com efeito, no dia 6 de fevereiro, em um memorando dirigido a Harvey H. Bundy – assistente especial do Secretário da Guerra dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial -, Groves qualificou o tório como um mineral físsil de “importância vital”, reconhecido por físicos nucleares alemães, soviéticos e franceses. O general ainda afirmou, no mesmo documento, que se os EUA controlassem o suprimento de tório do Brasil e da Índia, o governo norte-americano poderia “dominar a situação” (HELMREICH, 1986: 52-53).
10 Memorando de Stettinius, de 18 de fevereiro de 1945, FRL/BV (MOURA, 2012: 165).
11 Em conferência realizada na Escola Superior de Guerra, anos mais tarde, o cientista Joaquim da Costa Ribeiro destacou as pesquisas sobre a possibilidade de se converter o isótopo de tório Th233 em urânio U233 – que poderia ser empregado como combustível nuclear em reatores. Maiores informações, consultar: Conferência realizada na ESG, intitulada “Aplicações e futuro da energia atômica: Possível desenvolvimento no Brasil”, por Professor Joaquim da Costa Ribeiro. Código: A-050-50, 1950. Arquivo particular.
naquele momento: no período citado, os EUA negociaram a compra desse insumo com países como a Índia e a Holanda12.
Como a reunião entre Getúlio Vargas e o representante dos EUA teve lugar quando as bombas atômicas ainda estavam em desenvolvimento no país norte- americano – e, portanto, ainda eram um segredo -, Stettinius escondeu de Vargas qual a verdadeira natureza do interesse norte-americano pelas areias monazíticas. Na reunião com o presidente brasileiro, o secretário de Estado dos EUA declarou: “Eu então afirmei que esse produto era muito importante; e que o necessitávamos principalmente para válvulas de rádio, lâmpadas, etc”13.
A visita de Stettinus resultou no primeiro acordo secreto bilateral para a exportação de minérios radioativos para os EUA, assinado a 6 de julho de 1945 – poucos dias depois da primeira experiência com a bomba atômica, em Alamogordo, nos Estados Unidos14. Conforme os termos do acerto, o Brasil se comprometeu a fornecer exclusivamente aos EUA um montante anual de 5.000 toneladas de monazita, ao preço de 30 a 40 dólares por tonelada métrica, em um período inicial de três anos - prorrogáveis até um máximo de dez vezes (GUILHERME, 1957: 85).
Para fins comparativos, no mesmo ano, os EUA firmaram acordo com a Holanda para a venda de monazita, que foi vendida a um valor de US$0,67 por cada décimo de um por cento de tório contido em cada tonelada métrica, para um total de 200 toneladas métricas – com pelo menos 3% de tório em sua composição - a serem adquiridas ao longo de três anos (HELMREICH, 1986: 59). Com isso, levando-se em conta a concentração mínima de tório exigida (ou seja, 30 vezes o valor-base estipulado), o custo mínimo seria equivalente a US$20,1 por tonelada métrica de monazita – um valor consideravelmente abaixo do estabelecido pela monazita brasileira.
12 No ano de 1945, os Estados Unidos e a Holanda firmaram um acordo para a aquisição de 200 toneladas métricas anuais de monazita, com vigência de três anos. Com relação à Índia, embora o governo americano já soubesse das importância das reservas de monazita do país asiático desde os anos 1940 (quando a Índia ainda era uma colônia britânica), as negociações entre ambos os governos só tiveram início no ano de 1950 (HELMREICH, 1986: 59-60; 231-235).
13 T. M. Campvell para G. C. Herring, p. 266. (MOURA, 2012: 165).
14 No dia 16 de julho de 1945, a primeira bomba atômica da história, sob o codinome Trinity, foi detonada; na região do Novo México, nos EUA (CAMARGO, 2006: 79-81).