Amigo, cultiva-se como o trigo. Após a longa convivência, ele oferece o pão como sinal de sua coerência. Então, reparte-se em pedaços para fortalecer ainda mais os laços. Uma amizade vale mais do que um milhão de propriedades.
Amigo é aquele que acompanha, que estranha quando mudam as aparências. É quem revela as impaciências quando vê o outro ameaçado. É quem não fica acomodado, busca informações e as passa adiante. amigo é um acompanhante, quase um amante, sem nunca ter atraiçoado.
Amigo é quem nunca deixa alguém andar sozinho; pode ser um parente ou um vizinho, está sempre presente. Não importa a distância, até o tempo perde a importância, como a cinza no braseiro ardente. Como simples camponeses, sentimos por diversas vezes, o calor afetivo de todos os continentes.
Amigo é solidário, não se arrepende, ao contrário, quer envolver-se ainda mais. Empenha o seu tempo de descanso, humildemente e manso, realiza tarefas infinitas. Faz coletas, faz visitas, mantendo-se sempre cordial. E foi assim que vimos acontecer, na Europa, as pessoas coletarem e venderem, objetos, para construir a nossa Escola Nacional.
Folhas de remédios em pacotinhos, vendidas com todo o carinho com rótulos artesanais identificando o movimento. E não foram extraídas de assentamentos, mas de lavouras doadas, pelo simples fato de que nossa luta organizada, estimulou este desprendimento.
E assim são muitas as iniciativas, de pessoas de fronte altiva que caminham em nossa direção. Acreditam na transformação do ser humano e também da sociedade. Aqui dizemos com toda a honestidade; se os burgueses brasileiros quiserem mesmo saber de onde vem este dinheiro, jamais entenderão, porque nada entendem de solidariedade.
Mas não é a ajuda material a contribuição principal. São as denúncias e a divulgação. Os governantes que viajam em missão, lá se defrontam com a imagem dos Sem Terra. Uma bandeira, um boné ou uma faixa os espera, cobrando providências; isso inibe as mentiras e as imprudências e alguns deles se revoltam como as feras.
E o mais interessante, é que estes amigos e amigas militantes, querem participar da formação, seja nos cursos, no intercâmbio ou na produção, até mesmo nas lutas cotidianas. Como explicar esta energia, este vigor da alma urbana, que desafia a própria consciência? É a mística que se torna resistência e a coerência que revela a essência humana.
É importante que a base de nosso movimento, saiba que alguém distante zela por cada acampamento. Sofre com as perdas dos assassinatos e festeja quando são vitoriosos os nossos atos.
Mas há uma questão mais importante. Não importa que estejam próximos ou distantes; se nos conhecemos ou nunca nos tocamos. Importa é dizer que a vós juramos, jamais trair a vossa confiança. Diremos às nossas crianças, que, se um dia estiverem realmente emancipadas, que a terra foi deveras libertada, com a ajuda desta grande aliança.
E podemos dizer mais uma vez, que nas noites das frias madrugadas, dormindo sobre a terra ou na beira das estradas, em nossos sonhos estão vocês.
Que a utopia suspensa nas mãos do horizonte, nos faça seguir sempre mais confiantes. E, dizemos com sinceridade, sentindo esta solidariedade, é um prazer continuar a ser, a cada dia, melhores militantes.
Cartas de Amor Nº 143
AO FOGO
O fogo nas ruas da França não é um ato de vingança. É uma reação daqueles que, vindos das colônias, esperavam ser incluídos na nação. Por isso transformaram em chamas a cidade, símbolo da civilização e das desigualdades.
Já desde a antiguidade, quando o fogo era uma propriedade, daqueles que detinham o poder, brigava-se para ter o direito a usufruí-lo. Mas, sem poder vendê-lo em quilos, nunca foi rentável como mercadoria. Tornou-se então em simbologia da cólera e do amor; anima com seu esplendor e assusta com sua valentia.
Ele é auxílio e ameaça. A ponte que liga o céu e a terra ao produzir fumaça, quando usado nos vários rituais. É a Fé quando está nos castiçais e um risco quando embrenha-se nas florestas. Amigo nas fogueiras e nas festas. Raivoso quando está nos canaviais.
Na França após a imolação, no ritual parecido ao dos cristãos, que, condenados eram jogados nas fogueiras, os jovens provocaram a fumaceira, atacando o luxo e a opulência. A revolta ainda não virou consciência, mas aos poucos nascerá das labaredas, um movimento fino como a seda, que exigirá do mundo mais decência.
O fogo tornou-se ideologia. Mostrou, em apenas poucos dias, a diferença entre as classes sociais. Quando muitos não acreditavam mais, que no mundo houvesse reação, ninguém mais faria oposição e o império era o único lado. E, embora ficamos assustados, pasmos e estáticos, vimos que o fogo por séculos armazenado, é um dos bens ainda conservado com direito ao uso democrático.
Análises e críticas, vimos uma infinidade, quando o bloco socialista perdeu sua integridade, como se houvesse falhado o marxismo. Não, errado está o capitalismo, do qual o proletariado é o seu coveiro. Faltou um complemento derradeiro, que Marx talvez tenha esquecido; o império, antes de ser enterrado e esquecido, tinha que ser incinerado primeiro.
As chamas nas ruas da França, portanto, não é vingança; é um protesto contra a civilização, que preza pelo luxo e a ostentação, enquanto deixa o planeta desastrado. Mostra a diferença entre os dois lados e com isso a República fica nua. De nada vale a proteção do Estado, se o patrimônio já está tão concentrado, que é deixado dormindo pelas ruas.
O fogo nas ruas da França é um recado, uma lembrança, que a riqueza e a opulência são as promotoras da violência. É contra a intransigência que os pobres se obrigam a lutar. A única maneira de evitar, os conflitos e as guerras fratricidas, é através da distribuição, do poder, da riqueza e da educação, assim a imigração, torna-se visitas consentidas.
Nas ruas da França o fogo também é uma esperança, uma luz indicativa. Mostra que as pessoas estão ativas e que podem reagir concretamente. O capital caduco e decadente, nada tem a oferecer à humanidade, foi a ignorância da civilidade que provocou as chamas e fez o aço incandescente.
Nada tendo a oferecer por derradeiro, os carros representaram os cordeiros, no holocausto ao poder oferecido. A latarias e os ferros retorcidos são esqueletos do grande sacrifício. Não esqueçamos que pode ser o início de uma grande onda de fogo, que pretende reiniciar o jogo, fundamentado na organização e nos princípios.
Principalmente o princípio da memória, onde o conflito como motor da história, se apresenta sempre de mil maneiras. Desta vez começou pelas fogueiras, atacando o luxo concentrado e, este fogo só será apagado, quando queimar as diferenças e as fronteiras.
Cartas de Amor Nº 144