“Muitos acordarão um dia com a transformação já feita sem que tenham atentado para o processo construtivo. Olharão tudo com ar de espanto.” (Lauro de Oliveira Lima, 1998, p.62) É possível fazer educação no século XXI sem a utilização das mais recentes tecnologias?
Claro que sim. Também seria possível escrever este texto à mão ou utilizar tecnologias de ontem como uma máquina de escrever (manual, elétrica ou eletrónica) ou mesmo algum PC das primeiras gerações.
O facto de utilizarmos os meios mais recentes não implica, necessariamente, em melhor qualidade. Mas responde às expectativas das outras partes envolvidas ou de quem está do outro lado. E isso reduz frustrações…
Educar com novas tecnologias é um desafio que até agora não foi enfrentado com profundidade. Temos feito apenas adaptações, experiências, pequenas mudanças. Na maioria das vezes nos limitamos a “asfaltar o caminho da roça” (to pave the cow path).
O presencial se virtualiza e a distância se presencializa. Os encontros em um mesmo espaço físico se combinam com os encontros virtuais, a distância, através da Internet. E a aprendizagem mediada pela tecnologia cada vez aproxima mais as pessoas, pelas conexões on-line, em tempo real, que permite que professores e alunos falem entre si e possam formar pequenas comunidades de aprendizagem.
A Internet abre um horizonte inimaginável de opções para implementação de cursos à distância e de flexibilização dos presenciais. Pelo desenvolvimento da rede é possível disponibilizar, pesquisar e organizar conteúdos e utilizar ferramentas de colaboração como mensagens instantâneas, redes sociais e outras médias que favorecem a construção de comunidades virtuais de aprendizagem.
Temos poucos profissionais capacitados para preparar e gerir cursos flexíveis semi- presenciais e a distância. É uma área de grande futuro, mas ainda estamos aprendendo fazendo, experimentando, pesquisando.
Educar em ambientes virtuais exige mais dedicação do professor, mais apoio de uma equipe técnico-pedagógica, mais tempo de preparação e de acompanhamento. Para os alunos há um ganho de personalização da aprendizagem, de adaptação ao seu ritmo de vida, principalmente na fase adulta.
Com o aumento do acesso dos alunos à Internet, poderemos flexibilizar bem mais o curriculum, combinando momentos de encontro numa sala de aula com outros de aprendizagem individual e grupal. Aprender a ensinar e a aprender, integrando ambientes
presenciais e virtuais, é um dos grandes desafios que estamos enfrentando atualmente na educação no mundo inteiro.
É importante neste processo dinâmico de aprender pesquisando, utilizar todos os recursos, todas as técnicas possíveis por cada professor, por cada instituição, por cada classe: integrar as dinâmicas tradicionais com as inovadoras, a escrita com o audiovisual, o texto sequencial com o hipertexto, o encontro presencial com o virtual.
O que muda no papel do professor?
Muda a relação de espaço, tempo e comunicação com os alunos. O espaço de trocas se estende da sala de aula para o virtual.
O tempo de enviar ou receber informações se amplia para qualquer dia da semana. O processo de comunicação se dá na sala de aula, na internet, no correio eletrónico, nas mensagens instantâneas, no SMS, no chat, na rede social. É um papel que combina alguns poucos momentos do professor convencional com um papel muito mais destacado de gerente de pesquisa, de estimulador de busca, de coordenador dos resultados. É um papel de animação e coordenação muito mais flexível e constante, que exige muita atenção, sensibilidade, intuição e domínio tecnológico.
Todas as tecnologias necessárias para se aceder a um mesmo conjunto de conteúdos em diferentes suportes estão disponíveis de forma aberta, ou seja, sem custos diretos de aquisição associados.
Ambientes gratuitos como o Moodle e o Sakai começam a dominar o e-learning das universidades portuguesas. E isso facilita o intercâmbio de conteúdos (SCORM - Sharable
Content Object Reference Model).
Os vários tipos conexões possíveis, realizados por telemóveis ou através de ambientes virtuais como o SecondLife, garantem uma diversidade de opções. Mas, apesar dos diversos plug-ins (building blocks), muitos ambientes não foram feitos para as necessidades atuais (das novas gerações): mensagens instantâneas e redes sociais. Surge uma nova geração de ambientes como o Schoology (baseado na filosofia das redes sociais) para atender estas necessidades...
Contudo o “problema” principal persiste: a resistência dos professores...
As pessoas que não querem que as coisas mudem são as que por algum motivo sentem que têm uma desvantagem na mudança.
Vários projetos foram e estão a ser chumbados por falta de adesão dos docentes. Trata-se de uma questão nacional, observada também em diversos outros países europeus.
Qualquer ação neste sentido que não contar com a prévia sensibilização, participação e concordância das partes envolvidas estará sujeita ao baixo nível de adoção verificado em todas as universidades.
As oficinas de motivação e/ou “capacitação” realizadas não tem conseguido atingir os seus objetivos Muitos professores ainda mostram algumas resistências quanto à sua autossuficiência informática. Alguns são do tempo em que havia alguém para digitar e formatar os seus textos, alimentar bancos de dados, montar planilhas eletrónicas ou até mesmo processar dados estatísticos de suas investigações.
O mundo também mudou para os professores. Mas essa resistência mostra seus resultados não benéficos na medida em que são estas mesmas pessoas “tradicionais” que selecionarão os novos professores, ou seja, o status-quo tende a se manter na medida em que normalmente buscam e formam “pares” e não “ímpares”: “Um doutor em Ciências da Educação deve ainda ser capaz de se comunicar com os seus pares”…
http://www.utl.pt/pagina.php?area=456&curso=2008052366
Provavelmente mudanças mais efetivas só serão verificadas em Portugal através de mecanismos de pressão. Algumas pessoas só mudam quando se sentem inseguras e/ou diante do medo, seja da morte ou mesmo de ficar sem emprego…
Na medida em que muitas universidades europeias se engajaram em busca da modernidade e os alunos tem uma ampla oferta de mobilidade (Bolonha) isso poderá alterar as opções de locais onde realizar a sua formação, até mesmo porque estes clientes “bem” ou “mal” atendidos partilharão seus comentários na internet produzindo, dependendo do caso, ou um gratuito marketing positivo ou um destruidor marketing negativo.
Novos processos de seleção de professores deverão surgir, alterando o paradigma atual e exigindo novas habilidades. Ao mesmo tempo uma maior rotatividade poderá ser promovida alterando o padrão atual facilitador da permanência de professores reformados que insistem em permanecer ativos sem se adaptar às novas exigências.
A permanecer as coisas como estão, sem nenhuma ingerência, tudo se mostra mais improvável, ainda que não impossível.
É preciso que se reflita sobre o facto de que o uso da tecnologia é de responsabilidade dos indivíduos, e estes, só serão capazes de utilizá-la para trazer benefícios à sociedade se forem educados para tal.
Em tempos onde todas as universidades podem parecer ser (na internet) o que bem entenderem, onde as ofertas de cursos através do e-learning se multiplicam de forma exponencial e onde o ”Erasmus” pasteurizou e uniformizou os conteúdos, tornando iguais os cursos diferentes, como se destacar no caos?
Qual a perfeita ligação para não entrarmos na banalidade de ofertas semelhantes? A resposta vem da própria pergunta e decorre do estudo da Administração, mais especificamente do Marketing e vale não apenas para instituições de ensino superior como para qualquer empreendimento que queira sobressair e/ou iniciar um novo ciclo de vida: inovar, encontrar um conceito certo, estabelecer um diferencial de mercado.
Em tempos de partilha de conteúdos como uma das vitrinas de maior exposição (não praticada por nenhuma instituição nacional), onde os cursos oferecidos desta forma nomeadamente não oferecem diplomas ou certificações, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) não apenas foi a primeira instituição brasileira a ser membro do OCWC (Open Course Ware
Consortium), como inovou, disponibilizando alguns cursos gratuitos on-line com certificação.
Um caminho que vem do Marketing: dar “amostras grátis” para conquistar clientes...
http://www5.fgv.br/fgvonline/CursosGratuitosFormulario.aspx?id_curso=OCWETEAD_00_01/2009_1
Por fim, estamos diante de todas as possibilidades (caos criativo) e se não pudermos inovar com nossas “próprias pernas”, podemos ao menos observar as boas práticas (de outras universidades e de outros professores), adaptá-las e adotá-las.
Dessa forma, poderemos enfim observar o poder do efeito demonstração e vencer as forças da inércia, dos preconceitos e do imobilismo. O efeito demonstração não é uma panaceia (solução para todos os problemas) mas pode colaborar e contribuir para que aqueles (professores) que estejam comprometidos, interessados e dispostos em mudar vejam experiencias bem-sucedidas como modelo e inspiração para sua própria transformação.
Contudo para aqueles que se mantiverem à margem do processo, a experiencia não terá efeito algum e ainda será alvo de críticas ou questionamentos.
Não se pode virar partidário de uma ideia sem ter noção da mesma, assim como é impossível criticar sem conhecer.
Entrar “desarmado” no processo é fundamental.