É necessário que o trabalho se encerre, mas com ele não terminam as interrogações, tampouco se encontram aqui todas as respostas, se é que estas existem. O estudo das linguagens estéticas, tema que permeou todo este trabalho, é assunto extenso e complexo, que não se esgota e está em constante transformação. Para que se tenha acesso a estes conteúdos, pode-se partir de alguns procedimentos aqui apresentados, mas é precisso ressaltar que há diversas outras possibilidades a explorar quando o assunto é relações entre linguagens.
De um modo geral, as questões que aparecem neste trabalho surgiram de uma interrogação inicial: de que forma se relacionam as linguagens visual e sonora? Conforme se viu ao longo dos capítulos, há muitas maneiras de identificar estas relações, em diferentes fenômenos estéticos, e mesmo fenômenos da vida em geral. Duas outras questões, porém, desdobravam-se desta primeira, e consistiam nas seguintes interrogações – de que forma se pode criar uma imagem a partir de um som, ou um som a partir de uma imagem?
O interesse, inicialmente pessoal, torna-se mais denso quando se percebe que as relações entre linguagens são processos recorrentes no cotidiano, processos que demandam dos sujeitos um conhecimento de leitura e apreensão das linguagens estéticas. Lembra-se de Oliveira (1998) e Almeida (1994), que exploram o tema da alfabetização e a consequente necessidade de alfabetizar de outras maneiras que não somente a verbal, mas também para as linguagens estéticas, como a visual e a sonora, cuja presença se dá de maneira cada vez mais forte na contemporaneidade. Para que os indivíduos não fiquem à margem nos processos cotidianos de comunicação, faz-se necessário estudos deste tipo, que visam oferecer ao menos subsídios iniciais para o desenvolvimento de um olhar e uma percepção crítica.
Esta necessidade foi um dos ponto de partida para a construção dos capítulos e objetivos do trabalho. Em primeiro lugar, para tentar compreender de que forma se comportam os mecanismos das linguagens estéticas, deve-se observar os requisitos que caracterizam as linguagens de modo geral, de acordo com escritos de Teixeira Coelho e Hjelmslev. Partiu-se então para o segundo objetivo do trabalho – estabelecer alguns dos elementos compositivos e procecimentos relacionais de cada linguagem, conforme vocabulário adotado por Oliveira (1998). Com estes dados em
mãos, foi possível observar alguns entrecruzamentos entre as linguagens (quando consideradas como sistemas), coincidências de linguagem num modo mais geral e abrangente. Não se pretendeu aqui estabelecer uma relação direta com a linguagem verbal, mas pensar nessas linguagens com a utilização de termos como “vocabulário” e “gramática” pode ser um ponto de partida para a compreensão, e também um caminho para destrinchar os mecanismos de linguaguem. Cabe ressaltar ainda que, em estudos comparados, não apenas essas coincidências de linguagem são buscadas mas, da mesma forma, as diferenças entre elas. Deve-se recordar que este trabalho, desenvolvido na linha de pesquisa de Ensino das Artes Visuais, pretende servir principalmente ao professor de arte ou de design, que por vezes carece de recursos ou métodos para penetrar na densidade das linguagens estéticas e da linguagem audiovisual, que se tornou por fim o foco principal de discussão do trabalho.
Observando as intersemioses entre linguagens, percebe-se uma série de fenômenos que coincidem em ambas as linguagens, visual e sonora, entre eles, o ritmo e a textura. Ao encontro dessa observação há a reflexão desenvolvida por Chion (2011), sobre a possibilidade de certos fenômenos encontrarem-se numa intersecção de sentidos. Afinal, só se percebe textura no tato? Só se sente o ritmo no corpo? Não é preciso ir muito longe para notar que certos fenômenos ultrapassam limites, surgindo em diferentes esferas da vida, da percepção e das linguagens.
Entretanto, seguiu-se em frente, com o olhar voltado então para os textos estéticos, e não mais somente para os sistemas. Aqui apresentam-se outra série de correspondências relevantes em forma de intertextualidades. Percebe-se, por exemplo, a capacidade que tem um texto visual em sugerir fenômenos sonoros, e da mesma forma, textos sonoros que sugerem imagens ou sensações visuais. Pode-se retomar Ostrower (2004), quando esta analisa uma obra de Vermeer que remete a uma atmosfera de placidez e silêncio. Por outro lado, o surgimento da notação musical pode ser visto como um dos esforços em registrar e representar de modo visual os sons e outras construções musicais, como melodias, acordes e mesmo texturas sonoras. Há ainda a contribuição de Schafer (1991) quando este trata da paisagem sonora, tudo aquilo que soa no universo ao redor. Aliás, daí também se depreende uma diferença crucial entre a percepção destas duas linguagens: os
ouvidos, ao contrário dos olhos, não podem ser fechados, o que faz com que a audição seja um constante processo de seleção de sons.
O terceiro objetivo do trabalho foi desenvolvido no capítulo que trata do audiovisual. Enquanto que em momentos anteriores havia uma distinção entre os sistemas e textos que eram relacionados, no audiovisual percebe-se um encadeamento simultâneo entre linguagem visual e linguagem sonora, que origina o que se percebe como uma linguagem específica com suas particularidades que não é nem somente som ou somente imagem, ou uma mera junção dos dois. Isto porque, apesar de manterem suas características estruturais, quando juntos, som e imagem influenciam-se mutuamente e geram diferentes efeitos de sentido e expressividade.
Aqui empreendeu-se uma busca de referências não só no cinema, mas também em teorias da televisão, do vídeo e do sound design. Afinal, em se tratando de relações entre linguagem visual e sonora, pode-se perceber que ambas estão envolvidas nessas diferentes manifestações sincréticas, independente dos processos técnicos envolvidos em cada produção. Sabe-se, porém, que essas diferenças não são passíveis de serem ignoradas e tampouco deixam de influenciar o resultado final ou a percepção de uma peça sincrética. Isso se torna perceptível ao pensar nos diferentes efeitos que uma propaganda como CAT terá, se veiculada no cinema, mídia para onde foi projetada, ou para a televisão. Diferenças em aspectos como a escala e a construção do ambiente sonoro influenciarão a percepção da peça por parte do espectador e também por parte daquele que a produz, que poderá pensar em diferentes modos de utilizar os sons e objetos em cena, buscando explorar as particularidades que o suporte final proporciona.
Lembra-se aqui da interrogação inicial, que desencadeou o processo de dissertação: de que forma se relacionam as linguagens visual e sonora? No audiovisual essa relação ocorre a todo tempo, ainda que haja pausa na imagem ou silêncio no som. Da mesma forma que com as outras linguagens abordadas, uma série de elementos pertinentes ao tema foi descrita de modo a elucidar e apoiar a análise final.
Uma linguagem afetará a outra em diferentes dimensões. Chion (2011) traz conceitos relevantes como o valor acrescentado, cuja influência do som ou da voz acaba por guiar o percurso e a percepção do olhar. Aumont (1993) trata da questão
da representação do tempo, elemento imprescindível do audiovisual, e sugerido de variadas formas no decorrer do texto. Pode-se retomar uma observação do início deste trabalho, onde Eco (2005) observa a importância de se conhecer os mecanismos de persuasão presentes nas variadas manifestações do cotidiano, pois, conhecer os processos de construção das linguagens permite justamente que se perceba como são construídos os efeitos de sentido que são captados nos textos estéticos. Os conceitos abordados oferecem subsídios para que seja possível se aventurar na complexidade de uma peça audiovisual, tão presente no cotidiano dos seres humanos através de diferentes mídias como a televisão, o cinema e a internet. Todavia, de modo algum os conceitos trabalhados aqui esgotam as referências e tampouco fornecem um manual para a análise das relações entre som e imagem no audiovisual. Além do que, no decorrer deste trabalho, muitos novos processos de relação entre linguagens podem ter surgido.
Como último objetivo, procedeu-se a uma análise. Foi escolhido um audiovisual cuja peça sonora foi produzida pelo sound designer Marcelo Baldin. A peça, um audiovisual de trinta segundos de duração, foi uma campanha dos calçados CAT Earthmovers, uma linha de produtos da Caterpillar, produzida em 2009. Para destrinchar a peça, partiu-se dos conceitos iniciais e de métodos de análise propostos por Pillar (2011) e Chion (2011). O propósito foi estabelecer, a partir da identificação de elementos constitutivos e procedimentos relacionais de cada linguagem, relações entre seus planos de expressão e planos de conteúdo, procurando desvendar de que forma imagens ou sons sugerem sentidos e constróem uma espécie de narrativa.
O enlace que se percebe entre as linguagens é destacado por Baldin (2013) que reforça o peso que cada linguagem tem num projeto deste tipo. Segundo ele som e imagem devem caminhar juntos e estar unidos no desenvolvimento do projeto, desde o início da concepção. Isso porque, segundo ele, o som é frequentemente deixado em segundo plano e colocado como um dos últimos processos a ser realizado no audiovisual. Talvez porque, conforme Chion (2011), o foco parece estar no “ver” uma peça audiovisual, ao invés de “audiover”. O termo
audiovisão, cunhado por Chion, define bem qual deveria ser a atitude perceptiva a
ser considerada quando da análise deste tipo de texto. Torna-se necessário privilegiar outros sentidos além da visão para que se possa perceber esses textos de
forma mais global e completa. Antes dessa pesquisa, acreditava-se na influência do som, entretanto sua influência sobre a imagem é maior do que se esperava, surpreendendo a expectativa inicial.
No contexto da dissertação surgiu ainda uma questão que não é esclarecida neste trabalho e que permanece como uma interrogação a ser explorada em futuros estudos: seria o som, no audiovisual, uma tradução sonora do que acontece visualmente? Ao falar de tradução, deve-se referenciar os textos de Calabrese (2006), que oferecem um denso material acerca das possibilidades da tradução intersemiótica, ou seja, entre diferentes linguagens estéticas. Sob diversos aspectos, como época ou estilo, Calabrese tratará das traduções de uma linguagem a outra, assunto de conexão muito próxima com as manifestações estéticas sincréticas.
Por fim, percebe-se o quão fértil é este campo de pesquisa. Entre muitos caminhos que se pode seguir, este trabalho pretendeu esclarecer alguns pontos relacionados aos vários níveis de complexidade que as imagens sincréticas oferecem. Abordadas como intersemioses, intertextualidades ou configuradas como audiovisual, é certo que existem ainda diversos outros níveis de relações cujos mecanismos ainda estão por serem explorados e analisados.
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APÊNDICE A – ENTREVISTA COM MARCELO BALDIN
O quê primeiro lhe vem à cabeça quando o assunto é uma relação entre imagens e sons?
O meu intuito é sempre criar harmonia entre a imagem e som, para que o produto final seja interpretado como completo, e não uma coisa sobrepondo a outra. A sincronia e emoção que as imagens necessitam, precisam ser muito bem interpretadas para poder passar essa sensação de unidade.
Alguns artistas (como os pintores Wassily Kandinsky e Paul Klee, e estudiosos como Jorge Antunes e Michel Chion) desenvolveram teorias sobre possíveis relações entre som e imagem, notas musicais e cores, música e pintura, enfim, possíveis relações entre linguagem visual e linguagem sonora. Você já teve contato com alguma dessas teorias, ou com outras semelhantes? Ao criar uma peça de sound design você faz uso de alguma delas?
Sim, conheço, mais precisamente Kandinsky (junto com Schoenberg), embora, sendo franco, preciso estudar mais seus escritos, assim como os demais. Quando estou fazendo peças comerciais, raramente tenho tempo para refletir sobre a teoria que vou aplicar, pois não há tempo hábil para tal. Se tenho tempo para isso, geralmente uso um pouco mais de base teórica em trabalhos pessoais e experimentais, embora essa base já esteja inconscientemente atuando enquanto eu trabalho.
De que forma costuma funcionar o seu processo de criação: você parte inicialmente de um briefing por escrito/oral, ou parte primeiramente de um vídeo para o qual deverá criar a peça de sound design? Existe a possibilidade de realizar o processo inverso, ou seja, partir de uma peça sonora para então criar a peça visual?
Geralmente o processo vai pela primeira opção: criação do video, e então a criação do áudio, pois, em trabalhos comerciais, principalmente no Brasil, o áudio é deixado de lado e como última etapa. Raramente pensam nisso desde o começo. Algumas vezes há a possibilidade de criar uma trilha antes do vídeo. Essas trilhas são mais tradicionais e lineares. Quando o vídeo já está pronto, a trilha tem que ser desconstruida para poder funcionar melhor,
possibilitando trabalhos um pouco diferenciados, que no meu caso, tenho como desafio e como uma oportunidade de criar algo mais complexo.
Como são tomadas as decisões sonoras no seu trabalho: costuma eleger um estilo musical, uma referência do cinema, uma emoção que deve ser transmitida ou algum outro elemento que deverá nortear o trabalho como um todo?
Em 90% dos trabalhos eu peço referências e todas as palavras-chave que possam ajudar na criação do projeto, para não ter inúmeras refações. Os outros 10% os clientes me deixam livre para poder interpretar, pois esses 10% são os clientes que chegam até mim para que eu possa fazer algo baseado em projetos que já executei, com um certo estilo peculiar do meu trabalho.
Em termos técnicos, de que modo costuma conceber os sons para suas peças: são sons sintetizados digitalmente ou são produzidos e gravados por você? Há algum registro escrito das suas peças, como em partituras, ou algum outro sistema de registro?
O tempo para a produção não dá espaço para criação de partituras e, sendo sincero, tirando música erudita, a maioria absoluta de músicas produzidas não tem registro em partituras, e sim gravações, que já contam como registro para direitos autorais.
No processo de criação, eu uso os dois meios, gravados e sintetizados. Em 95% dos projetos eu uso som sintetizados, pela praticidade. Em contrapartida, existem certos tipos de projeto que não há outra forma de reproduzir o som sem a gravação, de forma analógica. Embora os softwares estejam realmente excelentes hoje em dia, instrumentos gravados ainda são melhores do que os sintetizados. Se o orçamento do projeto permitir, eu sempre vou optar por captação à banco de sons, mas isso nem sempre é possível.
De que modo você percebe a relação das peças sonoras que cria com as imagens correspondentes? Em outras palavras: a peça de sound design pode funcionar como
um complemento do que se vê, uma trilha sonora, uma tradução de uma imagem em um som, ou nada disso?
Como falei anteriormente, eu tenho como objetivo fazer o sound design mesclar com as imagens para ser algo único. Se eu pensar em apenas fazer uma trilha, o projeto perde força e provavelmente passará desapercebido - simplesmente som sob imagens. Obviamente isso não depende só de mim.
A propaganda CAT footwear foi desenvolvida para ser veiculada em quais mídias (televisão, internet, outras) e em qual ano? O que mais você poderia acrescentar sobre ela, alguma peculiaridade, alguma coisa inesperada na criação ou alguma repercussão...?
CAT Earthmovers foi um projeto comissionado pela Fold7 da Inglaterra, em