Segundo Guasque (2005), a realidade virtual discorre sobre uma tecnologia computacional, que proporciona ao usuário a ilusão de tridimensionalidade em um ambiente gerado por computador. A realidade virtual é imersiva, pois considera o ponto de vista da primeira pessoa, daquele que experiencia o ambiente. Por essa razão, Guasque (2005) prefere o termo “ambiente virtual” ou “ambiente imersivo”, em vez de “realidade virtual”. A natureza da navegação propicia inserir o observador com todo seu corpo sensório no espaço do trabalho, onde o campo visual passa, de duas a três dimensões, para múltiplos pontos de vista.
A telepresença, por sua vez, necessita de um suporte tecnológico que possibilite, em tempo real, a comunicação dialógica nos níveis proprioceptivos, podendo incluir o linguístico. Através de dispositivos de telecomunicações bidirecionais, percebe-se uma situação geográfica e temporal remota e recíproca entre observador e observado.
Vale ressaltar que “a diferença básica entre realidade virtual e telepresença é que, na realidade virtual, o indivíduo se sente imerso num mundo gerado artificialmente, e na telepresença, sabe-se em um espaço real, gerado pelo ambiente físico”. (GUASQUE, 2005, p.26).
Alguns fatores são comuns ao ambiente virtual e à telepresença, apesar de o observador se sentir, no primeiro caso, em um espaço modelado artificialmente e, no segundo, num espaço gerado pelo mundo real. Em ambos os casos, a experiência pode ser vivenciada coletivamente com a inserção do tempo real e da propriocepção. Há também a necessidade da reatividade como resposta, ou seja, as ações são entendidas como intencionais.
Na realidade virtual, o espaço é simulado por computadores na telepresença, mediada pela telecomunicação, possibilitando ações a distância. “A tecnologia na realidade virtual torna real o objeto não existente apenas na mente dos participantes; já na telepresença ela torna o objeto remoto acessível aos participantes, que podem tocá-lo.” (GUASQUE, 2005, p. 59).
Para Grau (2007), propõe-se uma estética da distância na apreensão da telepresença como arte visual, unindo a robótica, as telecomunicações e a realidade virtual. Eduardo Kac21 define o termo “telepresença” mais pelo gesto a distância do que pela presença mediada pela telecomunicação. Yara Quasque,22por sua vez, chama a atenção sobre a internet como lugar de hospedagem e apresentação de eventos que podem ocorrer em tempo real.
21 www.ekac.org/kac2.html
22http://webartes.dominiotemporario.com/performancecorpopolitica/textes%20pdf/yara%20perforum%20desterr
3.1.3.1 INS(H)NAK(R)ES: web instalação (manipulação em ambiente remoto)
Em INS(H)NAK(R)ES, uma web instalação, o visitante pode manipular uma “cobra- robô” através da rede em um ambiente com cobras verdadeiras no serpentário do Museu de Ciências Naturais da Universidade de Caxias do Sul. Esse site foi desenvolvido em 2000, pelo grupo Artecno da Universidade de Caxias do Sul (UCS), liderado pela pesquisadora e artista Diana Domingues.
Uma câmera instalada na cabeça do robô permite ao interator observar o espaço através do deslocamento do corpo da própria máquina, tornando-se sua extensão e vice-versa. O interator experimenta a sensação de estender seu corpo até outro lugar de forma remota. O corpo físico, atrelado por intenções, emoções e ações, é disseminado em forma de dados pela rede que possibilita visualizar e vivenciar situações por diferentes e múltiplos ângulos, até mesmo em ambientes que, fisicamente, oferecem algum perigo, como, por exemplo, na experiência de viver como uma cobra em INS(H)NAK(R)ES.
Figura 7 - INS(H)NAK(R)ES, 2000
Fontes: http://artecno.ucs.br/snake/foto3.htm
Segundo Domingues23, devemos pensar como pode ser a vida e não nos limitarmos a pensá-la como ela é, principalmente se levarmos em conta as condições apresentadas pelas tecnologias contemporâneas, em que é possível suscitar interações complexas entre o orgânico e o inorgânico, o real e o virtual, o natural e o artificial. A rede é um ambiente
propício para a exploração de novos caminhos, para o entendimento do ser a partir de novas realidades.
3.1.3.2 Telegarden: web instalação (jardim remoto)
Telegarden (1996-2004) era uma instalação que fornecia aos usuários da web a
possibilidade de visualizar e interagir em um jardim remoto com plantas vivas. Os elementos que compunham a instalação foram instalados na Ars Electronica Center, em Linz, na Áustria. Os usuários podiam cuidar das plantas pela internet através de um braço robotizado, semelhante aos utilizados nas fábricas de automóveis.
Figura 8 - Telegarden, 1996-2004
Fonte: http://goldberg.berkeley.edu/garden/Ars/ 2.1.3.3 Perforum Desterro: teleperformances
O Perforum foi um projeto desenvolvido na rede, integrando as artes visuais, as artes cênicas e a música, mediante a atuação em tempo real de dois grupos: o grupo Perforum São
Paulo e o grupo Perforum Desterro, coordenados pelos pesquisadores e artistas Arthur Matuk
e Yara Quasque, respectivamente. As teleperformances do Perforum foram resultantes das performances remotas de telepresença, desenvolvidas entre 1999 e 2001, que ocorriam por intermédio de scripts colaborativos. A colaboração era negociada nas listas de discussão com os assinantes e os participantes ativos.
A internet foi o lugar de hospedagem e de apresentação dos eventos do Perforum em tempo real, e as ações on-line se opunham à ideia de espetáculo. As teleperformances não seguiam ações pré-elaboradas; o resultado surgia das relações estabelecidas em ato através de percursos negociáveis dos conteúdos elaborados ao vivo. As teleperformances discutiam conteúdos da rede e as possíveis aplicações das tecnologias disponibilizadas para o desenvolvimento e compartilhamento de ideias, projetos e conhecimentos.
As teleperformances do Perforum Desterro recusavam-se a desempenhar apenas a tarefa embutida no sistema; procuravam, portanto, transcender tais imposições, buscando novas significações na construção de uma forma sensível, em consonância com os instrumentos tecnológicos de representação e do conhecimento atrelados a eles. Pelas suas ações, despertavam reflexões acerca da integração do indivíduo à máquina social através de fluxos de desejo. Esses se configuraram enquanto experienciações em diferentes estados de presença, incluindo as performances via vídeo streaming24 das salas multiusuários e dos
sistemas de videoconferência. (QUASQUE, 2008). Também suscitaram, com suas teleperformances, concepções do corpo como muito importantes no capitalismo globalizado, inserido na máquina social da cultura por meio do desejo e que, em rede, num estado imaterial, desperta novas relações e experiências. As ações passam a ser estruturadas em fluxos e, nas múltiplas transações globais contemporâneas, que se tornam mais aceleradas no âmbito do ciberespaço.
(...) a população deveria ser incitada a criar novos modos de comunicação e espaços, e não somente ser convidada a ocupá-lo produtivamente, pois a colonização, agora refletida no capitalismo global, disseminou modelos de pensamento embutidos nos aparatos, sejam eles simples ou complexos tecnologicamente, como também estruturas de hierarquização e formas de armazenamento de conhecimento. (GUASQUE, 2008, p.500).
Nas performances digitais em questão, havia sempre um questionamento quanto à não representação, ou seja, preferia-se a apresentação à representação na interação on-line. Assim, atitudes inesperadas eram promovidas, como as de Laurette Pasternack, citadas por Quasque (2008), que, numa das performances, cega a câmera com um espelho, objeto-símbolo ofertado aos nativos pelos europeus nos descobrimento do Brasil, relacionando-se tal fato à “fantasia do colonizado tecnologicamente”. (QUASQUE, 2008, p.494).
24 Tecnologia que permite o envio de conteúdo multimídia através da rede de computadores, sobretudo da