O educador Paulo Freire é marco importante na mudança que acontece no final do século XX. Sua valorização de homem do povo e sua dedicação à educação assinalam uma época de profunda reflexão. Sua concepção pedagógica inspirada na filosofia “do Personalismo Cristão e na Fenomenologia Existencial” (SAVIANI, 2005, p. 36), caracterizada pela classificação de Saviani como contra-hegemônica e conhecida como Pedagogia Libertadora.
Tendo o homem e a mulher, termos bem destacados em sua concepção de educação, como agente fundamental de transformação do meio social em que vivem, sua teoria é designada de Humanística, pois para este educador
O homem está no mundo e com o mundo. Se apenas estivesse no mundo não haveria transcendência nem se objetivaria a si mesmo. Mas como pode objetivar-se, pode também distinguir entre um eu e um não-eu. Isto o torna um ser capaz de relacionar-se; de sair de si; de projetar-se nos outros; de transcender. Pode distinguir órbitas existenciais distintas de si mesmo. Estas relações não se dão apenas com os outros, mas se dão no mundo e pelo mundo (FREIRE, 1979, p. 30).
Referenciado como o educador da esperança, Paulo Freire é mais do que atual em um cenário contemporâneo de exclusão, aniquilação, desigualdade e por que não dizer conformismo perante o caos social. A falta de compromisso político, o egoísmo, a desesperança caracteriza o caos social, dentre outras questões. Em sua aspiração por uma vida mais justa para todos, tornou-o um guerreiro incansável.
O maior desafio que Freire lançou a si mesmo – e a quem compartilha do mesmo sonho e da mesma utopia é a humanização do mundo por meio da ação cultural Libertadora. Esse desafio, sem sombra de duvida, continua hoje mais atual do que a vinte ou trinta anos e requer de nos, seres humanos, sujeitos da história, um compromisso ético e político claramente definido em favor da transformação da realidade. O mundo real que nos cerca é intrinsecamente dialético porque, ao mesmo tempo, é constituído por nós, que somos sujeitos da práxis social (ZITKOSKI, 2006, p. 16).
Por acreditar na mudança, mesmo que o cenário político e o capitalismo brutal reflitam o contrário, Freire acreditava na capacidade humana e via a construção da sociedade como uma forma de estar e por isso, possível de ser reconstruída. Reclamava a necessidade de estarem alerta.
A capacidade de penumbrar a realidade, de nos miopizar, de nos ensurdecer que tem a ideologia faz, por exemplo, a muitos de nos, aceitar docilmente o discurso cinicamente fatalista neo-liberal que proclama ser o desemprego no mundo uma desgraça de fim de século. Ou que os sonhos morreram e o valido hoje é o pragmatismo (ZITKOSKI, 2006, p. 17).
Considera a educação como forma de resistência e de análise no mundo de imagens e verdades construídas, e alerta para o papel fundamental na construção da consciência deste compromisso com a mudança.
Esta transitividade da consciência permeabiliza o homem. Leva-o a vencer o seu incompromisso com a existência, característico da consciência intransitiva e o compromete quase totalmente. Por isso mesmo que, existir, é um conceito dinâmico. Implica numa dialogação eterna do homem com o homem. Do homem com o mundo. Do homem com o seu Criador. É essa dialogação do homem sobre o mundo e com o mundo mesmo, sobre os desafios e problemas, que o faz histórico (FREIRE, 2003, p. 68).
O conceito de dialogia é bastante representativo no pensamento de Freire, que sugere um encontro das diferenças para um objetivo comum de igualdade social, uma respeitando a outra, se reconhecendo e se fortalecendo neste encontro, resultando em ação e reflexão.
O eu antidialógico, dominador, transforma o tu dominado, conquistado, num mero ‘isto’. O eu dialógico, pelo contrário, sabe que é exatamente o tu que o constitui. Sabe também que, constituído por um tu – um não-eu –, esse tu que o constitui se constitui, por sua vez, como eu, ao ter no seu eu um tu. Desta forma, o eu e o tu passam a ser, na dialética destas relações constitutivas, dois tu que se fazem dois eu. Não há, portanto, na teria dialógica da ação, um sujeito que domina pela conquista e um objeto dominado. Em lugar disto, há sujeitos que se encontram para a pronúncia do mundo, para a sua transformação (FREIRE, 1987a, p. 165-166).
Freire revela também a importância dos sentidos e da experiência como elementos de aprendizagem significativa, em um olhar global sobre os, seres humanos racionais, mas não somente razão. Zitkoski (2006, p. 25) refere-se às idéias de Freire, quando escreve:
A consciência do mundo, que implica a consciência de mim no mundo, com ele e com outros, que implica também a nossa capacidade de perceber o mundo, de compreendê-lo, não se reduz a uma experiência racionalista. E como uma totalidade – razão, sentimento, emoções, desejos – que meu corpo consciente do mundo e de mim capta o mundo a que se intenciona (ZITKOSKI, 2006, p. 25).
A massificação cultural e a alienação são combatidas por Freire, que vê a desumanidade fortalecida através destes conceitos, e a escola como reprodutora e responsável pela aceitação da existência da desigualdade,
entendida como ”natural”. Ele vai denominar de educação ingênua essa prática, inútil e alienante que deve ser combatida por todos.
Nas sociedades massificadas os indivíduos ‘pensam’ e agem de acordo com as prescrições que recebem diariamente dos chamados meios de comunicação. Nestas sociedades, em que tudo ou quase tudo é pré-fabricado e o comportamento é quase automatizado, os indivíduos ‘se perdem’ porque não têm de ‘arriscar-se’. Não têm de pensar em torno das coisas mais insignificantes; há sempre um manual que diz o que deve ser feito na situação ‘A’ ou na situação ‘B’. Raramente se faz necessário parar na esquina de uma rua para pensar em que direção seguir. Há sempre uma flecha que desproblematiza a situação (FREIRE 1982, p. 83).
Ao tratar da cultura, o educador denuncia a invasão cultural da classe dominante, que impõe seus valores e seus conceitos de beleza de forma convincente a uma população sem postura crítica. Convencer a maioria de aceitar padrões estéticos estabelecidos por um pequeno grupo, favorece o controle e a dominação de uma minoria sobre a maioria. Ao manipular a cultura alheia, essa forma de ver afasta eticamente uma educação comprometida com a emancipação, pois neste sentido, o diferente deve ser adaptado ao gosto da classe dominante.
Nos dias de hoje, as estratégias elaboradas para alienar as classes populares não contam apenas com mecanismos de esfera política e econômica. Com o poder tecnológico dos meios de comunicação de massa cada vez mais aperfeiçoados e potentes, reproduz-se um circulo vicioso de alienação que perpassa todos os âmbitos a cultura humana, afetando, tanto o cotidiano quanto as relações econômicas, sociais e políticas das pessoas (ZITKOSKI, 2006, p. 31).
Vivemos um tempo onde a indústria do consumo e do entretenimento atuam de forma ativa na vida cotidiana de adultos e crianças. Os produtos e os programas anunciados na TV e na internet estão disponíveis para todos, para serem desejados, porém nem sempre alcançados. Manter esse desejo de “ter”, é também uma forma de alienar e controlar. Nova forma de dominação social e política, arquitetada por meio da força da imagem, no projeto de globalização econômica ancorada no livre mercado e no consumismo como poder
Navegando ainda na questão da cultura, Freire (1992) alerta para o tão discutido multiculturalismo que ele chama de unidade na diversidade.
A multiculturalidade não se constitui na justaposição de culturas, muito menos no poder exacerbado de uma sobre as outras, mas na liberdade conquistada, no direito assegurado de mover-se cada cultura no respeito uma da outra, correndo risco livremente de ser diferente, sem medo de ser diferente, de ser cada uma ‘para si’, somente como se faz possível crescerem juntas e não na experiência da tensão permanente, provocada pelo todo poderosismo de uma sobre as demais, proibidas de ser (FREIRE 1992, p. 156).
Para a teoria pós-moderna, o autor reconhece as intensas mudanças ocorridas em ritmo acelerado nos últimos tempos, mas critica a teoria que prega o fim da ideologia, das classes sociais, da utopia, da condição humana e seus entrelaçamentos. Ressalta a importância da autonomia como ato de liberdade de tomar decisões com responsabilidade consigo e com o outro. Paulo Freire (1999) pensa em autonomia como um processo que se vai construindo na experiência de várias, de inúmeras decisões, que vão sendo tomadas, de maneira coletiva e de cooperação. Ela amadurece no confronto com a liberdade dos outros. A autonomia nesse sentido é um conceito relacional: somos sempre autônomos de alguém ou de alguma coisa. Sua ação se exerce sempre em um contexto de interdependência em um sistema de relações. Pode-se pensar autonomia então como um processo de comunhão com o outro, através do diálogo que cria comunidades de seres livres e participantes. Nesse processo em construção tem-se o direito de decidir e, é decidindo que se aprende a fazer opções. O processo de autonomia segundo Freire deve estar centrado em experiências estimuladoras de decisões e responsabilidades, vale dizer em experiências, respeitando a liberdade e a cultura do outro. Essa autonomia também deve orientar as práticas pedagógicas. “Para Freire a educação nunca poderá ser neutra politicamente. Todo e qualquer projeto pedagógico, ou proposta de educação, e todo e qualquer ato educativo, é fundamentalmente uma ação política” (ZITKOSKI, 2006, p. 51).
Mesmo apresentando essa consciência do mundo e do papel de cada um para todos, seus críticos designam sua orientação pedagógica como utópica, termo que Freire esclarece.
Utópica, não porque se nutra de sonhos impossíveis, porque se filie a uma perspectiva idealista, porque implicite um perfil abstrato de ser humano, porque pretenda negar a existência das classes sociais ou, reconhecendo-a, tente ser um chamado às classes dominantes para que, admitindo-se em erro, aceitem engajar-se na construção de um mundo de fraternidade. Utópica porque não ‘domesticando’ o tempo, recusa um futuro pré-fabricado que se instalaria automaticamente, independente da ação consciente dos seres humanos. Utópica e esperançosa porque, pretendendo estar a serviço da libertação das classes oprimidas, se faz e se refaz na prática social, no concreto, e implica na dialetização da denúncia e do anúncio, que têm na práxis revolucionária permanente, o seu momento máximo (FREIRE, 1982, p. 58- 59).
Paulo Freire mostra que se pode despertar de condição de coadjuvantes para a de atores, escritores, diretores de nossa vida. Identifica-nos como seres inacabados, e por isso em constante mudança. No confronto da verdade com a ilusão, da guerra com o sentido, da existência com a aparência, da dor com o prazer vidas se consomem, na vã esperança de se superarem sem ser, sem se verem como são.