1. 5 Eget kunnskapsteoretisk ståsted
2. Hvordan endres denne opplevelsen gjennom demensutviklingen?
3.9 Meg selv som intervjuer. Forutsetninger og forforståelse
Apesar das mudanças introduzidas pelos anatomistas renascentistas, elas não provocaram um impacto imediato decisivo nem nas teorias médicas, nem nas práticas terapêuticas. No que se refere ao conhecimento das doenças, seria preciso aguardar ainda a chegada do século XVIII para que, com Morgagni e Bichat, a clínica e a anatomia constituíssem um mesmo e novo saber sobre a doença, a vida e a morte (Foucault, 1963: 143ss); quanto às práticas terapêuticas, seria necessário esperar ainda mais, até que, ao longo do século XIX, as práticas de higiene e a química de síntese fossem definitivamente incorporadas ao arsenal terapêutico da medicina (Canguilhem, 1975; Chast, 1995: 11); sendo digna de nota, em todo caso, a existência de certa desconexão entre as mudanças no conhecimento médico e as relativas às práticas terapêuticas (Canguilhem, 1975)119.
Do ponto de vista das práticas terapêuticas, a primeira grande ruptura com o galenismo não está relacionada com as práticas de anatomia, mas com a emergência, no mundo europeu, das práticas alquímicas que, como as especiarias, os europeus foram buscar no Oriente, mais especificamente entre os árabes. Como notou Ackerknecht (1962: 393), “the decisive early figure in this process of bringing alchemy, that is chemistry, into medicine, of adding to plant remedies those chemically prepared and often of mineral origin, is, of course, that strange Renaissance genius Paracelsus”120. Distante quer dos estudos de anatomia, quer
do modelo mecanicista de interpretação do mundo, então emergentes, Ackerknecht
119 Como notou Canguilhem (1975: 51), nenhuma teoria médica “que o século XVIII transmitiu ao século XIX” era capaz de explicar a revolução introduzida nessa época nas técnicas terapêuticas pelo advento da vacina, “historicamente a primeira invenção de um tratamento efetivo e real para uma doença”. Historiando os fármacos utilizados na terapêutica psiquiátrica, Chast (169-170), por sua vez, registra que, “si le rôle des neurotransmetteurs a parfois précédé la connaissance de médicaments qui pouvaient pallier leur déficit, dans une majorité d’autres cas, au contraire, les médicaments [...] étaient connus avant que ne soient mis en évidence leur mode d’action et leur équivalent endogène [...]. Ce fut le cas pour les endorphines, substances endogènes mimant les effets de la morphine". Essa disparidade não é, entretanto, prerrogativa exclusiva dos remédios psiquiátricos. Em “A crise atual da medicina” Foucault (1974c: 6) atribuiu um alcance bem mais amplo ao que ele chamou de “a decalagem ou a distorção entre a cientificidade da medicina e a positividade de seus efeitos, ou entre cientificidade e eficácia da medicina”.
120 Paracelsus, também conhecido como Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, nasceu em um cantão suíço provavelmente em 1493 e morreu em Salzburg em 1541.
(Idem, ibidem) assinala que Paracelsus “fought not only Galenic humoral theories, but also Galenic therapeutics”. Paracelsus acreditava que o corpo humano constituía um microcosmo que estaria em relação direta e constante com o macrocosmo constituído pela natureza, sendo, ambos, fundamentalmente, compostos por elementos químicos, como o sal, o enxofre e o mercúrio. Para Paracelsus, as doenças não resultavam do desequilíbrio dos humores ou fluidos corporais, não devendo, portanto, ser tratadas mediante dieta, sangrias e purgas; segundo ele, as doenças constituíam “entidades” (ens)121 que, geralmente,
atacavam o corpo do exterior, devendo ser tratadas mediante o emprego de substâncias químicas. Ele postulava, ainda, que todas as substâncias da natureza podiam exercer influências positivas – e constituir-se, nesse caso, como essentia – ou negativas – e tornar-se, nesse caso, venena –, sendo a diferença entre essentia e venena, basicamente, uma questão de dose, já que, para ele, “dosis sola facit venenum”. Como sintetiza Ackerknecht (Idem, ibidem),
whit Paracelsus the Greek was not only repudiated insofar as the Galenic four humor pathology was concerned, but also insofar as with the Greeks in principle the patient, not the disease, was treated. [...] For the Greeks specific remedies were practically non-existent. Their main instrument was diet. Paracelsus did not prescribe diets; he drove out specific diseases with specific remedies, so called arcana.
Autor de uma obra controversa e multifacetada, Paracelsus antecipou, com seus trabalhos, temas caros quer ao desenvolvimento da biomedicina, como o emprego da química, a busca por remédios específicos e a concentração da atenção posta na doença, em vez de no doente, quer ao desenvolvimento de sistemas médicos alternativos ao da biomedicina, particularmente ao da homeopatia, como o princípio da cura pelo semelhante e a perspectiva de que há correspondências entre o mundo exterior e partes do organismo humano, vistas como macro e microcosmos122. Além disso, Paracelsus reintroduziu o ópio na prática médica
européia ao elaborar o láudano, uma solução hidroalcoólica de ópio que se tornaria um analgésico muito popular (e conheceria inúmeras variações) nos séculos seguintes.
121 Paracelsus distingue cinco ens: astrorum, veneni, naturale, spirituale e deale, as quais corresponderiam, respectivamente, aos astros, aos alimentos e venenos, às diáteses, ao espírito e à Providência Divina.
Contudo, apesar das críticas que anatomistas e alquimistas avançaram contra o galenismo, ele não sucumbiu prontamente, nem como modo de interpretação, nem como forma de tratamento das doenças, embora também não tenha permanecido incólume. Durante os séculos XVI e XVII, o galenismo tornou-se objeto de infindáveis controvérsias, mas, se sua hegemonia foi posta à prova e acabou sendo perdida, nenhuma outra perspectiva alternativa se tornou dominante e se estabilizou enquanto tal durante esses séculos. Para Ackerknecht (1962: 395), “with Galenic routine now breaking down, four hundred years of chaos begin in therapeutics, where opposite points of view dominate alternatively in very short succession or coexist. The many ‘systems’ are a vain attempt at stabilization”.