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6 INDIVIDUELLE FORANDRINGSPROSESSER

6.2 KARIN: ”Så lenge jeg kan stelle for kallen …”

Vimos que o uso de bebidas alcoólicas fermentadas tem uma longa história e encontra-se disseminada por praticamente todas as partes do mundo. Schivelbusch (1980: 22) já chamara a atenção para o papel crucial que as bebidas alcoólicas desempenharam antes que as bebidas não alcoólicas (o café, o chá e o chocolate) tivessem sido introduzidas e seu consumo disseminado pela Europa: as bebidas alcoólicas eram, então, consumidas não apenas extraordinariamente (no duplo

145 Schivelbusch (Ibidem: 132) assim explica essa preferência aristocrática pelo rapé, antes de apresentar um manual de instruções de meados do século XVIII onde a oferta de rapé é descrita em incríveis quatorze movimentos:

for the cultivated person of the Rococo period taking snuff became an important social ceremony; the style with which one handled a snuffbox became a means of self- presentation, of self-display, and of judging others. The proper way to take a pinch of snuff, and in particular the way to offer such a pinch, were taken very seriously and taught like dancing and fencing.

Além disso, Schivelbusch (Ibidem: 146) acrescenta:

the eighteenth century’s interest in the nose as the instrument of reason also explains its indifference to one obvious logical consequence of snuff taking that by today’s concepts would seem of far-reaching import. For the hyperstimulation of the mucous membranes through habitual snuff taking made the nose ultimately insensitive to smell, and in extreme cases fully robbed the user of this sense. Olfactory blindness due to snuff taking was one of the major illnesses of eighteenth-century civilized man. The opponents of snuff taking based their argument and their agitation on this fact. For members of courtly society, however, loss of the sense of smell was no catastrophe; on the contrary, it may have come as a relief. In the eighteenth century, people gradually became aware of the bad odors resulting from deficient personal hygiene and began to consider them an unpleasant odor. At first they tried hard to cover one smell with another. The eighteenth century witnessed the first boom in the perfume industry – less an expression of some new positive olfactory sensibility than an effort to escape the odors of the body. It must have come to people of that day as an altogether welcome side effect that together with its stimulating effect, snuff tobacco also managed to numb the sense of smell.

sentido do vocábulo), mas também ordinariamente como alimentos146. O que mudou

no século XVI foi a atitude diante das bebidas alcoólicas, e não o seu consumo, o qual seria tão grande que um aumento, afirma Schivelbusch (Ibidem: 31), seria praticamente impossível. Schivelbusch (Idem, ibidem) afirma, ainda, que essa mudança de atitude estaria basicamente ligada ao movimento da Reforma e à difusão da ética protestante, cujos vínculos com o desenvolvimento do capitalismo Max Weber (1904) dissecou numa obra clássica147. Embora a ética protestante tenha

sido fundamental na mudança de atitude para com as bebidas alcoólicas, “it would take not only Puritan ideology to condemn ‘Demon Alcohol’ [expressão utilizada no século XVI para designar o alcoolismo], but some material basis to make it possible. That came with a more highly developed society and economy, sharper restrains, a higher degree of work discipline – and also a new group of beverages that replace the old ones” (Schivelbusch, 1980: 34), a saber, o café, o chá e o chocolate.

Mas nem a ética protestante, nem o desenvolvimento do capitalismo, nem as novas bebidas não alcoólicas foram capazes de eliminar o interesse pelas bebidas alcoólicas. Ao contrário, uma inovação disseminada a partir dos séculos XV e XVI aponta para outras direções. Trata-se do aparecimento das bebidas alcoólicas obtidas mediante destilação do caldo fermentado de várias frutas, legumes e cereais148. A destilação é uma operação que, conforme registra Braudel (1979: 215),

146 De acordo com Schivelbusch (Ibidem: 22-23),

prior to the introduction of the potato, beer was second only to bread as the main source of nourishment for most central and north Europeans. […] An English family in the latter half of the seventeenth century – the period when coffee drinking was catching on among the upper classes – consumed about three liters of beer per person daily, children included. Although large breweries already existed by then, beer brewing was still a part of housekeeping, like bread baking and slaughtering – one of the housewife’s duties.

The best way to get a sense of how pervasive beer was in the seventeenth century, and often even in the eighteenth, is to remember that breakfast as a rule consisted of beer soup, a now-forgotten dish.

A situação não era muito diferente no centro-sul da Europa, à parte o fato de que a bebida fermentada aí privilegiada era o vinho, e não a cerveja. É sabido que, desde a Antiguidade, o vinho tem um lugar de destaque nas mesas nobres e populares dos países mediterrâneos.

147 Recorde-se que, além da rejeição da autoridade do papa, da missa, da confissão e do culto aos santos, os reformadores protestantes visavam, registra Weber (1904: 20), “uma regulamentação de toda a conduta, que, penetrando em todos os setores da vida pública e privada, era infinitamente mais importuna e levada a sério” que a promovida pelo catolicismo romano.

148 Entre as bebidas destiladas mais conhecidas contam-se a cachaça, feita a partir do caldo da cana- de-açúcar, o rum, feito a partir do melaço da cana-de-açúcar, o uísque, feito com cevada, centeio e/ou milho, o gim, feito com cevada, trigo e/ou aveia aromatizados com zimbro, a bagaceira, feita com

“implica um aparelho, o alambique (al, o artigo árabe, e o grego ambicus, vaso de gargalo comprido [...]) de que os gregos, primeiro, e os romanos, depois, só tiveram um vislumbre”149. Ainda que o Ocidente já conhecesse alambiques antes do século

XII, como afirma Braudel (Idem, ibidem), a introdução desse aparelho no mundo ocidental parece estar indissociavelmente ligada aos contatos com o mundo árabe150

decorrentes das Cruzadas, tendo inicialmente se difundido entre boticários e alquimistas (Braudel, 1979: 215; Escohotado, 1994: 50). Durante muito tempo, a destilação esteve restrita à produção de fármacos, tendo o emprego não-médico de

o bagaço da uva, o conhaque e o armanhaque, feitos a partir de vinhos de uva, a vodka, feita com batata, centeio e/ou milho, a tequila, feita a partir do cactos mescal, o calvados, feito a partir da maçã, o araq, feito com seiva de palmito ou tâmaras perfumadas com anis, além de uma infinidade de licores feitos a partir de misturas de frutas e/ou ervas aromáticas. Praticamente todas essas bebidas surgiram entre os séculos XVI e XVIII em certos sítios específicos, aos quais foram e continuam sendo associados (o conhaque francês, a cachaça brasileira, o rum cubano, o uísque escocês, o gim inglês, o araq árabe, o calvados dos países nórdicos, a tequila mexicana, a vodka polonesa ou russa, etc.), embora seu consumo tenha, geralmente, franqueado fronteiras e ganhado o mundo.

149 A principal diferença entre as bebidas destiladas e as fermentadas refere-se à concentração de álcool etílico, muito superior nas primeiras do que nas segundas, o que torna possível que a embriaguez seja mais profunda e mais rapidamente produzida. Essa concentração superior é produzida mediante aquecimento da bebida fermentada que, assim vaporizada, é, então, condensada mediante resfriamento. Em alguns casos, a destilação é dupla, ou seja, a bebida resultante da primeira destilação é novamente destilada. Costuma-se chamar de aqua vitae (água da vida) ou aqua

ardens (aguardente) à bebida derivada da primeira destilação e, de spirits, à bebida bi-destilada. No

que toca a temas caros a esta tese, essas designações são expressivas, pois, além de fazerem referência a, por assim dizer, uma “vida inflamada”, num certo sentido, a uma vida “intensa” (que, aliás, é associada à “saúde”, na medida em que é “saúde” que se proclama ou invoca nos rituais de consumo de bebidas alcoólicas), elas também evocam simultaneamente o material e o imaterial, o corpóreo e o incorpóreo. Desse ponto de vista, os spirits não são, se não, a condensação de matérias voláteis, e essas são, como os franceses as chamam, spiritueuses: corpos incorpóreos que embriagam – isto é, “extasiam”, “transportam”, “enlevam” (tais são os sentidos que os dicionários atribuem ao vocábulo embriaguez) ou, como diz a gíria popular, deixam “altas” as pessoas que as ingerem –, substâncias imateriais que borram qualquer distinção essencialista entre corpos e espíritos. 150 Conforme Braudel (1979: 220-221), é difícil saber quando e onde se começou a destilar:

é quase certo que a Pérsia sassânida conheceu o alambique. Al Kindi, no século IXo, não só fala da destilação dos perfumes como também descreve os aparelhos utilizados para o efeito. Fala da cânfora, que sabemos ser obtida a partir da destilação da madeira da canforeira. Ora, a cânfora é produzida na China há muito tempo. Nada impede, pois, que a aguardente fosse conhecida na China já no século IXo. [... Apesar disso,] talvez seja de reter a origem persa, tanto mais quanto uma das palavras chinesas que designam a aguardente é decalcada do árabe araq.

bebidas destiladas aparecido no século XV151 e se vulgarizado no século XVIII. Mais

uma vez, com poucas exceções, trata-se de produtos que eram considerados de luxo no século XVI e que, logo, tornaram-se de uso corrente.

Segundo Schivelbusch (1980: 148), o que o sucesso das novas bebidas não alcoólicas (café, chá e chocolate) indica, portanto, não é o fim do interesse pelas bebidas alcoólicas, mas uma mudança considerável “in drinking mores”. Schivelbusch (Idem, ibidem) prossegue:

as we have seen, these hot beverages deprived alcohol of the status it had once enjoyed as the universal drink. Yet the sobriety they established was limited to specific sectors of the population, primarily the middle class. From the seventeenth century on, the bourgeoisie found unrestrained drinking increasingly offensive. Alcohol was not banned, of course, but it was domesticated. The middle-class citizen drank moderately, and he drank in a private circle (at home, in his club, or out amid a table of “regulars”). In Victorian England stopping in at a pub became almost as scandalous as visiting a brothel.

Nas classes mais baixas, no entanto, as coisas não se passavam da mesma maneira. Durante os séculos XVII e XVIII, o interesse das classes populares por bebidas como o café, o chá e o chocolate, ainda que estivesse em ascensão, não havia alcançado a força que teria nos séculos seguintes. Conforme Schivelbusch (1980: 149), as classes mais baixas “remained bound to medieval custom in their drinking habits. Alcohol had an incomparably larger place in the lives of the proletariat than it did among the bourgeoisie. For the former, drink and drunkenness carried no social stigma; on the contrary, they were almost a symbol of class identity”.

Isso não quer dizer que, mesmo nas classes mais baixas, a introdução dos “distilled spirits” não tenha alterado os modos tradicionais de embriaguez baseados no vinho e na cerveja. A questão, nota Schivelbusch (1980: 153; g.a.), é que

distillation raised the alcohol content far beyond the natural limits. To be precise, distilled spirits contained ten times the alcohol of traditional beer – which could not help but have far-reaching consequences. Whereas beer and wine are drunk slowly in long sips, and the inebriation process is gradual, liquor is tossed off, and intoxication is more or less instantaneous. Liquor thus represents a process of acceleration of intoxication, intrinsically related to other processes of acceleration in the modern age.

151 Segundo Braudel (1979: 216), “a aguardente só lentamente foi escapando das mãos dos médicos e boticários. Só em 1514 Luís XII concedeu à corporação dos vinagreiros o privilégio de a destilar. Estava secularizando o remédio. Em 1537, Francisco I dividiu o privilégio por vinagreiros e refresqueiros, donde as contendas que provam que o negócio valia a pena”.

Schivelbusch (1980: 152) ressalta, ainda, que não é uma completa coincidência que uma nova forma de bebida, os “distilled spirits”, tenha-se tornado importante aproximadamente na mesma época em que as bebidas não alcoólicas se disseminam. Segundo ele (Idem, ibidem), essas bebidas destiladas seriam, farmacologica e socialmente, o inverso das bebidas não alcoólicas: enquanto as primeiras dariam margem a novas formas de embriaguez, as segundas criariam novas formas de sobriedade, sendo a polaridade entre os efeitos dessas bebidas refletida na polaridade entre as classes sociais que as adotaram mais entusiasticamente, a saber, respectivamente o proletariado e a burguesia.

É por conta disso que Schivelbusch (1980: 152) afirma que a combinação entre a maximização dos efeitos, a aceleração do consumo e da produção dos efeitos e o baixo custo tornaram as bebidas destiladas (particularmente o gim, o rum e a cachaça) “a true child of the Industrial Revolution”152. Segundo ele (Idem, ibidem), a

epidemia do gim, que assolou a Inglaterra no início do século XVIII, é um acontecimento histórico que “offered clear indications of the interconnection between the Industrial Revolution and the need for a cheap and powerful intoxicant”153. É que

tal epidemia é inseparável, nota Schivelbusch (1980: 156) do que “was euphemistically termed ‘rural exodus‘, the ‘flight from the countryside’, and in reality meant the expulsion of whole village populations from their indigenous soil through the so-called enclosures (another euphemism for expropriation by large landowners)”. Desenraizadas, as massas de camponeses expropriados de suas bases fundiárias se deparam, nas cidades, com exigências que, além de duras, são bastante diferentes daquelas que pautavam seu cotidiano no campo. Nesse contexto, segundo Schivelbusch (1980: 159), “gin held out the promise to working-class people to help them forget their unbearable situation at least momentarily. It provided alcoholic stupefaction, not social intoxication. So began solitary drinking, a form of drinking

152 Schivelbusch (1980: 153) comenta, ainda, que

the analogy [entre as bebidas destiladas e a Revolução Industrial] can be further extended. The industrialization of drinking at first had as devastating an effect on the traditional lifestyle as industrialization had on the craft of weaving. In fact, liquor and the mechanical loom worked hand in hand, as it were, in eighteenth-century England, to destroy traditional ways of life and labor.

153 A disseminação, nos séculos anteriores, do consumo de rum e de cachaça entre os desenraizados escravos dos engenhos de açúcar [que, como os argumentos levantados por Mintz (1985: 46-55) sugerem, podem ser considerados uma espécie de indústria avant la lettre] também aponta para essa direção.

limited to industrialized Europe and America. In every other age and civilization drinking had been collective”. Apesar disso, o consumo coletivo de bebidas não decaiu, mesmo nos países em curso de industrialização, mesmo nas classes trabalhadoras. Como notou Schivelbusch (Ibidem: 166),

a look at the history of the European workers’ movement shows that from the outset the public houses were of crucial practical importance. The first workers’ associations in England, the so-called Friendly Societies and the Trade Union, met in pubs. Members drank while they debated and debated while they drank. During strikes the workers’ pub became a meeting place and communication center, as is true even today. In the nineteenth century the tavern was a important a place for the working class as the seventeenth – and eighteenth-century coffeehouse had been for the middle-class.

A expansão social do consumo de “drug drinks” (Mintz, 1985: 137), como o café, o chá e o chocolate, bem como a emergência do movimento social por/da “temperança” na Inglaterra e nos Estados Unidos por volta dessa mesma época em que cresce o consumo popular de “distilled spirits” (Schivelbusch, 1980: 152), indicam, claramente, certas tensões existentes que foram constitutivas do processo de industrialização. Como notou Mintz (1985: 137),

tea, coffee, and chocolate never displaced alcoholic drinks – they only vied with them. The rivalry was lengthy, and of course it has never ended. In British social history, the issue of temperance figured critically in that rivalry. Temperance itself was espoused for moral reasons: the protection of the family, virtues like thrift, reliability, honesty, and piety. But temperance was also a national economic issue: an effective, factory-based industrial capitalism could not be consolidated by an absentee-ridden, drunken labor force. Hence the issue of alcoholic versus nonalcoholic beverages was neither a moral nor an economic-political question alone; certainly it was not simply a matter of “taste” or of “good manners”.

A introdução do café (ou do chá) adoçado no “work break” dos trabalhadores em fins do século XVIII e sua institucionalização no final do século XIX (Mintz, 1985: 141 e 147) revelam o quanto essa tensão entre bebidas sóbrias e bebidas inebriantes, entre esses diferentes “drug drinks”, estava longe do fim. Como registrou Mintz (Ibidem: 138), o café, o chá e o chocolate tinham muitos rivais, sendo as bebidas alcoólicas destiladas um dos principais (ou tudo às avessas, embora nem tudo fosse oposição pura e simples, seja porque o café e o chocolate, em particular, não tardaram a entrar na composição de certos licores, seja porque os mesmos trabalhadores que tomam seu “cafezinho” no “work break” não dispensam sua bebida alcoólica na “happy hour”, enquanto o tabaco corre por fora, sendo um acompanhante para muitos indispensável quer das bebidas alcoólicas, quer das não

alcoólicas). De todo modo, rivalidades à parte, uma substância em particular transcende-as todas: como notou Mintz (Idem, ibidem), na produção ou no consumo de praticamente todas essas bebidas, o açúcar estava presente.