Noen metode-relaterte refleksjoner
5 PORTRETTER AV ENKELTMENNESKER MED ALZHEIMERS SYKDOM
5.3 DAGNY: ”Det er best du spør han Per Ove …”
Essa complexa situação de imitação do superior e inovação pelo superior, destacada por R. J. Ribeiro (1983: 14), já havia sido registrada, inclusive a propósito desse contexto, por Elias (1939a: 110), em quem, aliás, Ribeiro baseia vários de seus argumentos. Gostaria de destacar, não obstante – e sem desmerecer a envergadura do trabalho de Elias e a precisão do trabalho de Ribeiro –, que quase meio século antes de Elias e praticamente um século antes de Ribeiro, Gabriel Tarde já havia dedicado todo um livro (aliás, o trabalho mais conhecido de um autor há um bom tempo menosprezado) ao tema da imitação (Tarde, 1890), categoria que serviu de base, juntamente com as de hesitação e de invenção, de repetição e de diferença, para que esboçasse os contornos de toda uma microssociologia (Vargas, 2000: 224-246). Nesse trabalho, Tarde (1890: 240) afirma que as invenções ou inovações podem surgir em qualquer parte, mas, no caso de as inovações terem, ao menos hipoteticamente, os mesmos valores intrínsecos, prevalece o princípio segundo o qual a corrente imitativa segue do superior ao inferior (“il faut une cime sociale en haut relief, sorte de château d’eau social d’où la cascade continue de l’imitation doit descendre”); sendo toda imitação, nesse caso, inicialmente unilateral e, somente depois, recíproca (Ibidem: 232-264). Como, para Tarde (Ibidem: 11), a imitação é a forma especificamente social dos processos de repetição e como, também para Tarde, a repetição não se confunde com a replicação do mesmo, mas é, antes de mais nada, um instrumento de diferenciação, o modo pelo qual “a diferença vai diferindo” (Tarde, 1893: 351), em suma, “o diferenciador da diferença” (Vargas, 2000: 244), segue, como corolário dos princípios da “queda d’água” (quando esse se aplica) e da repetição da diferença, que o modelo imitado seja, por força da imitação que o vulgariza, continuamente revisto, reposto, refeito sob a forma de uma diferente inovação a ser imitada. Cabe acrescentar que Tarde (1890: 265-276) distingue ainda os processos de imitação-costume dos processos de imitação- moda, caracterizando-se os primeiros pela predominância de modelos tomados das tradições autóctones e os segundos pela predominância de modelos atuais, porém provindos do exterior. Quanto ao que nos interessa mais de perto, cabe notar que o apetite pelas especiarias (procedentes do exterior – o Oriente –, introduzidos pelos superiores – os nobres –, paulatinamente reproduzidos pelos inferiores – burgueses em particular e, depois, plebeus em geral –, reinventados pelos superiores – mas não mais as mesmas especiarias, nem as mesmas vestimentas, as mesmas pronúncias, os mesmos comportamentos) se coaduna quer com os princípios da “queda d’água” e da repetição da diferença, quer com os processos de imitação-moda, tal como esses princípios e processos foram enunciados por Tarde.
“ALIMENTOS-DROGA” E SPIRITS DO CAPITALISMO
DA “LOUCURA DAS ESPECIARIAS” AOS “ALIMENTOS-DROGA”
Viu-se que o apetite pelas especiarias está fortemente ligado ao contato dos europeus com povos outros, particularmente, ao menos no início, com povos do Oriente. Viu-se também que a chegada ao e a conquista do “Novo Mundo” estão intimamente relacionadas ao interesse pelas especiarias. Viu-se, enfim, que a emergência da categoria “droga” é, em grande medida, tributária do afã pelas especiarias. Conforme Schivelbusch (1980: 12-13),
spices played a sort of catalytic role in the transition from the Middle Ages to modern times. They straddled the two periods, part of both, not quite belonging to either, yet decisively influencing both. In their cultural significance spices were wholly medieval; this is evident from the fact that they quickly lost that significance in the modern era. At the same time, they existed like foreign bodies in the medieval world, forerunners of the loosened boundaries of modern times. The medieval spice trade had already done away with narrow local borders. Like the money economy, the spice trade had entered the pores of the still-existing old order, already busily contributing to that society’s dissolution. The hunger for spices, itself a specific medieval taste, was operating similarly. In its own way, still embedded in the religious conceptions of medieval Christianity, this taste crossed the old boundaries. A peculiarly medieval longing for faraway places – the longing we have seen for the Paradise they thought could be tasted in the spices.
Ainda segundo Schivelbusch (Ibidem: 13), a posição medianeira das especiarias entre a Idade Média e os tempos modernos fica ainda mais evidente se considerarmos que a demanda ocidental por esses produtos exóticos se deu de modo expressivo entre os séculos XI e XVII – isto é, da época das Cruzadas ao período das Companhias Inglesa e Holandesa da Índias Orientais. Schivelbusch (Ibidem: 13-14) acrescenta:
they were part of it and stamped it from the first stirrings of interest in lands beyond Europe to the conclusion of the conquest of the colonial world in the seventeenth century. Once there was nothing more worth mentioning to be discovered and conquered, and knowledge of the earth became common, spices apparently lost their tremendous attraction. […] In the seventeenth century, spices lost their supremacy in world trade. The market was saturated, if not glutted. Highly seasoned dishes no longer appealed to the European palate. With the French leading the way, European cuisine had evolved to become very much like the one we know today, more moderate in its use of spices.
Para Schivelbusch (Ibidem: 14), um dos fatores responsáveis pela queda da importância das especiarias no tráfico internacional foi “this long-term transformation in taste”, sendo outro fator constituído pela emergência, na Europa do início do século XVII, de um novo grupo de “luxury foods”: o café, o chá, o chocolate e o açúcar. Além desses, Braudel (1979: 198) chama a atenção para outros fatores que contribuíram para o declínio do apetite pelas especiarias, a saber, a introdução de bebidas alcoólicas destiladas e “a multiplicação de novos legumes que diversificam pouco a pouco as mesas do Ocidente”, além do arrefecimento, em termos comparativos, do consumo europeu de carne.
De fato, o contato com o Oriente no encalço das Cruzadas e a conquista do “Novo Mundo”, além de dar vazão para a “loucura das especiarias”, também resultou na introdução, no mundo europeu, de muitas substâncias e algumas técnicas de preparo até então praticamente, se não completamente, desconhecidas pelos europeus. Além de uma variedade de especiarias, convém destacar uma considerável gama de produtos agrícolas nativos do “Novo Mundo” paulatinamente incorporados à dieta européia – como a batata, o tomate, o milho e o feijão – e à medicina ocidental – como a quinina, o curare, o guáiaco, a coca e a ipecacuanha –, sem falar da técnica de destilação em alambiques que os europeus emprestaram dos árabes e que foi fundamental para a produção de medicamentos e de bebidas com elevado teor alcoólico. Não obstante, como destacou Flandrin (1996c: 549),
la conquête des océans par les Européens, fait historique majeur du début des temps modernes, et l’integration qui en est résultée des autres continents à leur réseau commercial n’ont fait sentir tous leurs effets sur l’alimentation [e, acrescentaria, sobre a medicina] occidentale qu’aux XIX et XX siècles. C’est alors seulement que la tomate, la pomme de terre, le maïs et autres espèces alimentaires américaines ont joué un rôle de première importance, dans l’agriculture et le régime alimentaire des Occidentaux [podendo o mesmo ser dito a propósito da quinina, do curare e da coca]. Mais si l’adoption des nouvelles espèces vivrières [e medicinais] a demandé trois siècles [...], d’autres produits alimentaires exotiques sont entrés beaucoup plus rapidement dans les régimes européens: le piment dans certains pays et le dindon un peu partout; le café, le thé et le chocolat, boissons nouvelles qui constituent alors une part essentielle du grand commerce mondial; et le sucre, connu depuis longtemps, mais dont la production, de plus en plus contrôlée par les Européens, s’accroît alors dans des proportions considérables.
Por conta disso, não parece demasiado afirmar que o declínio da “loucura das especiarias” parece coincidir, em linhas gerais, com o advento daquilo que Mintz (1985: 180 e 186) chamou de “drug foods” ou “alimentos-droga”.