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5 PORTRETTER AV ENKELTMENNESKER MED ALZHEIMERS SYKDOM
5.2 KARIN: ”I forhold til mange andre er jeg slett ikke så verst”
Mas nem tudo era fome, privação e morte entre os mais pobres durante a Idade Média e o Renascimento, nem íncubos e súcubos, bruxas e vampiros, demônios e lobisomens eram os únicos personagens da cultura popular medieval e renascentista. Enfim, nem tudo era pesadelo (ou paraíso longínquo): o reconhecimento da brevitas vitae não resultava apenas em desalento e medo (ou promessa de remissão em tempos ou lugares distantes). Como registrou Camporesi (1980: 136),
perennially living an “unsettled and uncertain life” (Tasso), prey to diseases and on intimate terms with death, the generations of the past, notwithstanding everything, were used to cohabiting with illness and frequenting the antechambers of nothingness, realizing that any hope of longevity was scarcely justified. Nevertheless, fear of the night did not prevent them from enjoying total intensity the pleasures of a life known to be brief and, in any case, troubled and bitter. Being used to the idea of death not being far away and the familiarity with its symbols had made people immune to fear of physical destruction, if not indifferent to the status of their souls post mortem. On feast days, which were numerous and frequent, people ate and danced in front of the churches, in churchyards and inside cemeteries, next to the tombs.
Em sua tese sobre A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento – o contexto de François Rabelais, Bakhtin (1965), por sua vez, mostrou que a cultura popular, nesse período, (também) tinha um caráter eminentemente cômico, marcado
pela profusão de festas públicas, de ritos e cultos burlescos, de bufões e de bobos, de gigantes, de anões, de monstros e de palhaços de estilos e categorias as mais diversas, que ganhavam as ruas sobretudo por ocasião do Carnaval. Como Bakhtin (1965: 6) destacou, nesse contexto “o carnaval não era uma forma artística de espetáculo teatral, mas uma forma concreta (embora provisória) da própria vida”. Baseado no que Bakhtin (Ibidem: 17) nomeia de “realismo grotesco”, o Carnaval era uma festa ambivalente, simultaneamente marcada pelos signos da destruição e da regeneração, uma festa onde predominava a “lógica das coisas ‘ao avesso’”, particularmente sob a forma do rebaixamento de tudo o que era considerado “elevado, espiritual, ideal e abstrato” no plano da “vida material e corporal”.
Conforme Bakhtin, enquanto a propriedade característica do corpo, nos cânones clássicos reatualizados pelo Renascimento, é ser representado sob a forma de “um corpo perfeitamente pronto, acabado, rigorosamente delimitado, fechado, mostrado do exterior, sem mistura, individual e expressivo” (Bakhtin, 1965: 279), “no realismo grotesco (isto é, no sistema de imagens da cultura cômica popular), o princípio material e corporal aparece sob a forma universal, festiva e utópica. O cósmico, o social e o corporal estão ligados indissoluvelmente numa totalidade viva e indivisível” (Ibidem: 17). Segundo Bakhtin, além da inversão e do rebaixamento, a ambivalência e a incompletude são as marcas características da concepção grotesca do corpo: “o corpo grotesco não está separado do resto do mundo, não está isolado, acabado, nem perfeito, mas ultrapassa-se a si mesmo, franqueia seus próprios limites” (Ibidem: 23). O corpo grotesco (ou a percepção grotesca do corpo) é aberto e incompleto, “não está nitidamente delimitado do mundo: está misturado ao mundo, confundido com os animais e as coisas” (Ibidem: 24). Corpo agonizante e nascente, cuja individualidade está, portanto, e ainda que paradoxalmente, na fusão, o corpo grotesco transfigura-se no ambivalência do riso carnavalesco – riso que é alegre e burlesco ao mesmo tempo, que “amortalha e ressuscita simultaneamente” (Ibidem: 10) – e da máscara carnavalesca – máscara que “traduz a alegria das alternâncias e das reencarnações, a alegre relatividade, a alegre negação da identidade e do sentido único, a negação da coincidência estúpida consigo mesmo” (Ibidem: 35).
Imortalizada nas obras literárias de François Rabelais (c. 1494 – 1553) – particularmente em Horríveis e espantosos feitos e proezas do mui afamado Pantagruel e em Vida inestimável do grande Gargantua, pai de Pantagruel – e nas obras pictóricas de Hieronymus Bosch – especialmente nos painéis esquerdo e
central do tríptico Jardim das Delícias – e de Pieter Bruegel – notadamente em A Batalha entre Carnaval e Quaresma e em O País da Cocanha –, a concepção grotesca do corpo é marcadamente excessiva, inseparável dos temas da abundância de comidas e de bebidas. Mas, sob o modo da abundância de comidas e de bebidas, o excesso não é apenas tema de representação, se não também acontecimento materialmente experimentado como tal. Sabe-se que a maioria dos pobres da época, na maior parte do seu cotidiano, vivia em condições de extrema privação, mas sabe-se também que, quando a oportunidade permitia (e, embora episódico, isso não era assim tão raro), comia-se e bebia-se copiosamente. Como notou Schivelbusch (1980: 22), “medieval people drank copious amounts of wine and beer, especially on holidays – and holidays were quite numerous then”126. Mais
adiante, Schivelbusch (Ibidem: 25) acrescenta: “competitive drinking to the point where participants lose consciousness [...] was a normal occurrence in the life of the preindustrial world”. Em suma, como o riso e as máscaras carnavalescas, a embriaguez era um meio privilegiado para o rebaixamento, a mistura, a ultrapassagem das fronteiras, enfim, para a abertura (simbólica e material) do corpo ao mundo. Como o riso, a embriaguez “amortalha e ressuscita simultaneamente”; como as máscaras, a embriaguez “traduz [...] a alegre negação da identidade e do sentido único, a negação da coincidência estúpida consigo mesmo”.
Em suma, se a vida dos pobres era breve, a brevitas vitae era marcada, sob os modos da privação e/ou da abundância, pelos excessos e envolvia o emprego de uma gama considerável de substâncias (ou de praticamente nenhuma substância, isto é, a fome) indutoras de estados alterados de consciência e corporalidade suficientemente potentes para fazer o mundo aparecer virado de ponta-cabeça.
126 Schivelbusch (1980: 22) notou ainda que, “on workdays, beer and wine were a regular part of the meals”. Contudo, para ele (Ibidem: 23),
it was the ritual function of alcohol, above and beyond its nutritional function, that explains what we now regard as the excessive consumption of alcohol in preindustrial societies. Drinking rites are of course still very much with us today. Drinking to someone’s health, clinking glasses, the obligation to return another’s toast, drinking as a pledge of friendship, drinking contests, etc. – these are rites and obligations one cannot evade. To earlier societies they were even more obligatory.