Como produto simbólico, é preciso se ater a alguns traços fundamentais sobre o modo como normalmente se capta e se incorpora a linguagem. Nem sempre se percebe como se dão alguns dos automatismos mentais, quando se trata do modo cotidiano de decodificar discursos alheios. Descobrir esses automatismos nos levará a entender os mecanismos sutis dos sortilégios da linguagem, principalmente quando se trata de analisar como as mentiras se revestem de certos elementos mentais que as tornam imperceptíveis ou negligenciadas pelas pessoas.
Um dos aspectos da linguagem que possibilita um desses automatismos está na própria estrutura da linguagem, que, geneticamente, impõe uma forma inicialmente unívoca de decodificação, aspecto que chamaremos de “afirmatividade da linguagem”18. Significa dizer que a todo discurso que ouvimos atribuímos o valor de verdade. Talvez com a exceção
18Tal fenômeno é largamente mencionado pelos teóricos da Programação Neurolinguística. Uma maneira de usar
tal conhecimento seria, por exemplo, em vez de usar a frase “Não se esqueça de comprar o pão”, usar “Preciso lembrar-me de comprar o pão”, pois o termo “não” é de difícil processamento cerebral, fazendo com que “não esquecer” se torne “esquecer”. No sentido inverso, muitos grupos militares que selecionam seus integrantes bravos, bradam que os fracos desistam, como revelam filmes como Tropa de Elite e Nascido para Matar etc. Tal “performativida de inversa” seria uma forma de eliminar aqueles que não resistem às pressões morais do contexto para que nem mesmo em pensamento fraquejem. Nota-se que os efeitos performativos são bem conhecidos na prática de diversas organizações sociais.
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dificultosa das frases negativas, precisamos considerar o seu conteúdo como verídico para apenas depois, caso tenhamos motivos, negarmos tal status. Por exemplo: “o carro de João é amarelo”. Quem ouve uma frase como essa precisa entender a frase. Ou seja, saber quem é João, o que é um carro, o que é a cor amarela, e que há uma relação socialmente reconhecida de posse entre João e um carro desta cor. Após a concatenação desses elementos, é que se entende o seu conteúdo material. Caso se desconfie que João não tenha um carro amarelo, julgamos que tal frase é falsa – uma mentira – mas tal negação ocorre apenas após todo o nosso aparato cerebral ter sido mobilizado para compreender o conteúdo afirmativo da frase.
Mesmo que ouçamos uma mentira, o conteúdo do que é ouvido é considerado inicialmente no seu valor afirmativo para só depois negarmos a veracidade do que nos foi dito. Mesmo que tenhamos negado a condição de verdade da frase, ela já terá impregnado a mente com suas imagens, tal como quando alguém sofre um abalo emocional e que, mesmo que queria esquecê-lo ou isolá-lo da mente, seus efeitos endócrinos persistirão ainda por algum tempo. Esse automatismo cognitivo nos induz a pensar e concluir que isso é um dado fundante da linguagem; é o meio obrigatório de lidar com a linguagem, e deve ter sido a própria maneira da linguagem ter se tornado um artefato útil aos seres humanos, como forma de substituição acústica de objetos reais. É essa imposição cognitiva – sua condição primordial de evocação afirmativa de algo – que impossibilita pensar o “não-amarelo”, e que sempre nos leva a visualizar o amarelo, mesmo contra a vontade. Da mesma forma, para evitar pensar em um elefante, é preciso não saber o que é um elefante. Talvez essa possa ser a única forma de não construir uma imagem mental que o poder evocativo da linguagem obriga. . Os princípios por meio dos quais os mentirosos obtêm êxito não passaram despercebidos por estudiosos do tema. Numa discussão sobre os automatismos que facilitam a ação dos mentirosos, Robert Feldman, psicólogo social, cunha o termo “viés da verdade” para conceituar um mecanismo psicológico atuante quando nos dirigem declarações sobre fatos, estados e impressões em geral:
O viés da verdade significa que, em vez de julgar objetivamente a honestidade daqueles com os quais interagimos, com base em seus comportamentos e no que eles dizem, nossa crença padrão é a de que eles estão dizendo a verdade. É necessário que nos dêem uma razão muito forte para que pensemos que estão mentindo para nós; de outro modo, a idéia não nos ocorre. (FELDMAN, 2009, p. 35-6).
Além disso, Feldman argumenta que há um cansaço mental inerente ao exercício de contestação e análise ininterruptas do que ouvimos. Normalmente quando acionamos o nosso
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dispositivo de desconfiança sobre o que ouvimos é porque precisamos decidir se vale a pena questionar frontalmente nosso interlocutor – se há razões fortes para isso, pois tal reação pode nos deixar mentalmente exaustos, impedindo mesmo a fluência da interação. Além disso, ao se evitar questionar sistematicamente o interlocutor, poupamos energia psíquica. Mas tal viés de verdade proporciona uma oportunidade para que o mentiroso aumente suas chances de receber a aquiescência de seu interlocutor.
O viés da verdade existe e produz seus efeitos porque a linguagem funciona
colaborativamente. É preciso que os homens concordem e sincronizem suas noções, para que
haja uma confluência das vontades; e é exatamente por esta característica fundamental, qual seja, a necessidade da cooperação entres os homens que ocorrem alguns fenômenos sociais, cuja noção mais ampla é dada pelo que se entende a partir da noção de “mentira”. Quando uma das partes julga que as informações que acabara de receber são falsas, rompe-se propositadamente com o “pacto tácito” desse princípio colaborativo com o mentiroso. Apesar de ter sofrido a tentativa de logro, continua-se atribuindo o status de verdade ou verossimilhança ao que é ouvido, pois não se questiona ou não se percebe adequadamente a condição de dependência fundamental que o ser humano tem em relação à linguagem, tendo que se submeter à afirmatividade da linguagem (seu aspecto evocativo que impregna a mente) e ao viés da linguagem (a confiança que se deposita no que se ouve).
Os desacordos entre as pessoas – que poderiam ocorrer por displicência ou desconhecimento do funcionamento de um contexto social – ocorrem aqui deliberadamente, para prejuízo de uma das partes. Essa ruptura se dá devido ao mecanismo natural de como a linguagem é percebida pelas pessoas: como sentenças naturalmente representacionais de fatos e intenções19. De certa maneira, devido aos mecanismos mentais mencionados, há uma concepção humana intuitiva de que a linguagem é a própria realidade, que haveria uma consonância perfeita entre o que é ouvido/lido e um estado de coisa factual. Em certa medida, seria natural ser crédulo e conceber que a linguagem captada espelha o mundo dos fatos e das intenções sinceras.
Se a condição para que se entenda algum enunciado é reproduzi-lo mentalmente, ocupando e focalizando a atenção do ouvinte, atribuindo-se valor de verdade ao que se ouve, há um claro canal mental por onde as mentiras são recepcionadas inicialmente como
19 É como se, de certa maneira, as pessoas fossem espontaneamente como o primeiro, o Wittgenstein do
Tractatus Logico-Philosophicus, que defendia uma visão representacional da linguagem, que ela servisse como
afiguração de fatos do mundo, por isso que ela faria sentido para as pessoas. Tal visão posteriormente foi abandonada em favor de uma visão pragmática.
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verdades. Isso quer dizer que apesar da abrangência das mentiras e insinceridades, boa parte delas não são recepcionadas e julgadas como tais – como fraude – seja por uma questão de praticidade, credulidade ou outro fator sociocognitivo.
Assim, há uma soma da afirmatividade da linguagem com o viés da verdade, estabelecendo estruturalmente o modo de apresentação da linguagem, aliado ao mecanismo psicológico que nos economiza o esforço de duvidar de tudo que nos contam. Esses atalhos mentais servem para que as relações sociais se tornem algo fluido, permitindo que uma conversa possa prosseguir sem interrupções a todo o momento, que questionariam os detalhes que compõem a história que se ouve. Porém, tal como nos contos de fada, como todo atalho, é possível que essa economia energética possa acarretar algum problema imprevisto, pois algum lobo que se valha dessas economias mentais pode tirar proveito dos incautos, devorando-os.
Como diria o filósofo Chaïm Perelman: “só se cunha moeda falsa porque há moeda verdadeira circulando”20. Ou seja, para que a mentira possa ser bem-sucedida, é preciso que na maior parte do tempo o viés de verdade não contrarie os seus interlocutores. Se a exceção virasse regra, e a regra, exceção, perder-se-ia a confiança que naturalmente se deposita na linguagem, e as pessoas teriam relacionamentos bem diferentes, tanto com a linguagem em si mesma (ela seria tomada mais como fonte contínua de desconfiança), quanto com os outros (as pessoas seriam tomadas a priori como mentirosas); e quando um viés de verdade se desfaz, ocorrem aquelas situações nas quais “o mentiroso não é acreditado mesmo quando fala a verdade”. Talvez fosse mais adequado dizer, em um nível mais fundamental, que “se cunha moeda falsa porque as pessoas acreditam que há moeda verdadeira circulando”; e as crenças na moeda verdadeira podem ser justificadas ou não. Assim, será possível entender de que forma a experiência social está composta de formas variadas de mentiras.
Como ser social, os humanos são reciprocamente dependentes, e suas relações pessoais são construídas a partir das expectativas comportamentais que cada pessoa alimenta na mente dos outros. Em razão disso, as pessoas são naturalmente impelidas a ter certas expectativas sobre o outro, tendo também a necessidade de estabelecer uma reputação social positiva que possa assim garantir a sobrevivência e acesso aos espaços e bens socialmente produzidos e distribuídos, principalmente em universos sociais modernos, nos quais o dinheiro tenha um poder limitado. Nesse sentido, é crucial que se possua as características e habilidades que façam o indivíduo ser aceito pelo grupo. A inteligência social, já discutida, é
20 (PERELMAN, 1996)
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por definição saber se relacionar com as pessoas de maneira pacífica e mesmo podendo estabelecer laços pessoais mais fortes que o simples cumprimento cordial.
Após nascido no interior de um grupo, o ser humano precisa aumentar suas chances de permanecer nele. Por isso, é provável que ele tenha desenvolvido filogeneticamente a capacidade de aprender e captar informações sobre o seu próximo, fazendo-o estabelecer uma conexão para além do nível puramente físico, que seria a capacidade de simular ou pressupor seus estados mentais, algo já discutido no tópico sobre a teoria da mente. Por meio disso, a sociedade humana possui um vínculo íntimo mais forte que outros seres vivos, pois a partir do momento em que alguém alcança os conteúdos subjetivos de seu próximo, que inicialmente apenas o seu possuidor teria acesso, a sociedade humana adquire um tipo de conexão capaz de ser usada como referencial para a coordenação de ações conjuntas ou concomitantes.
No entanto, a individualidade humana – as inclinações próprias que cada indivíduo possui que não são as mesmas nem em tipo e intensidade – faz com que as diferenças e desacordos que seriam naturais causem problemas que podem dificultar a convivência. Seria inviável a formação e permanência de agrupamentos humanos caso as ações fossem exclusivamente motivadas para a satisfação de desejos e inclinações de seus atores. Os processos de socialização promovidos pelos pais e outras instâncias sociais, sendo conscientes ou não, produzem uma coesão social que é a resultante de um mínimo de institucionalização da apreensão de que certos comportamentos de viés coletivistas devem ser realizados para que a sociedade não resulte em um mundo composto por pessoas fechadas em seus espaços subjetivos, que seria o fim da sociedade. Ao nível sociocognitivo, é preciso haver meios de estabilizar o espaço social que é composto por diferenças de subjetividades e pelo conflito entre os preceitos coletivos ou publicamente instituídos e as necessidades dos indivíduos, que muitas vezes podem entrar em choque com o que é publicamente prescrito.
Com base no que já foi discutido nesse texto, há formas de estabilizar as disposições antissociais do indivíduo (vide o hobby de julgar compulsivamente as pessoas), ao mesmo tempo em que mantém a paz social: é válido afirmar que o autoengano e as mentiras, nas suas diversas modalidades, seriam práticas complementares que promovem a sociabilidade, produzindo assim as forças coletivas que tornam a convivência possível, ao mesmo tempo também que oferecem condições para a emergência da individualidade humana, mesmo considerando o debate sobre sociedades de teor mais coletivista ou individualista. É certo que sempre haverá alguma expressão pessoal, uma vez que a sociedade humana não é uma colmeia de abelhas, em que não inexiste expressão individual. As mentiras pró-sociais
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possibilitam que as sociabilidades mais elementares – como os cumprimentos do dia a dia – não dependam exclusivamente da disposição de puramente pessoal, sendo uma forma de criar um espaço social minimamente dotado de deferência e reconhecimento do próximo; as mentiras egoístas podem ser a manifestação comportamental da defesa dos interesses pessoais frente ao social.
117 3 SOBRE O HABITUS
Após discussão sobre os tipos básicos de mentiras, precisamos entender os desafios e aspectos da ação humana, o que implica em investigar como as mentiras se tornam algo tão comum que se esquece do que se está praticando, ao ponto de se condenar discursivamente tais práticas, mas as praticando continuamente. No meio dessa contradição está a chave para uma compreensão mais ampla e pormenorizada da relação entre sociedade e mentira. Isso nos leva à forma como as pessoas organizam internamente – inconscientemente – suas ações e percepções sobre si e sobre o mundo exterior.
Quando se pratica ações diversas que estão satisfatoriamente adequadas ao contexto, e quando tais ações são repetidas várias vezes, dá-se início a um processo de estabilização de tais ações no interior de um contexto: com o tempo, essas ações exigem cada vez mais controle explícito do agente; as ações começam a se tornar “naturais”.
Para dar continuidade à discussão sobre as mentiras e casos afins, é necessário adentrar num tópico famoso para a sociologia contemporânea, que é o conceito de habitus. Sua importância se deve à maneira como propõe uma solução para o impasse entre as teorias racionalistas da ação (que desconsideram o contexto cultural e partem da ideia de que os indivíduos procuram maximizar seu interesse) e as teorias estruturalistas (que não põem em análise as possibilidades dadas aos indivíduos apesar das constrições culturais, ocasionando transformações sociais). Ou seja, nem há uma racionalização da ação nem um determinismo estrito da cultura. O que há são formas de concatenação entre o indivíduo e o seu meio social, por meio de esquemas de ação que são incorporados de maneira diferenciada – cada indivíduo, a depender de sua posição social, de nascimento e outras variáveis terá um potencial de ação que se converte em sua “segunda natureza”; uma forma de adquirir um “instinto” de agir da maneira como alguém empiricamente age. Entendendo o debate em torno do conceito de habitus será possível entender as dinâmicas e efeitos sociocognitivos das mentiras.
O princípio da “praticidade”, no sentido de “algo fácil de usar”, é algo tão onipresente que podemos dizer que se torna o princípio estabilizador das ações, das relações humanas e dos grupos sociais (como exemplo do natural apego ao uso constante ao que é mais fácil de usar, e considerando os hábitos cotidianos mais diversos sempre se busca incessantemente por rotas mais simplificadas para se realizar as tarefas que se precisa fazer). Vê-se os exemplos das pessoas que relutam em mudar de atitude, mesmo quando os problemas se mostram
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insustentáveis e as consequências nefastas, inevitáveis. Devemos considerar que este estado de teimosia não é simplesmente uma falha de caráter, como normalmente se supõe21, mas também a manifestação da força psíquica das rotinas corporificadas, tornadas “corpo”, gerando uma força centrípeta para as velhas práticas, mesmo que ultrapassadas e atualmente nocivas. Ou seja, para que haja efetivamente o incremento de novas formas de fazer, de ver, de sentir etc., os humanos buscam meios de capturar tais sutilezas, que muitas vezes se torna uma tarefa difícil, pois para que se construam novas percepções e disposições comportamentais é preciso um processo, muitas vezes, doloroso de abandono dos velhos padrões mentais – que são físicos – para a construção de novos.
A noção de habitus pretende indicar a forma como o mesmo ser humano pode ser, fazer e pensar de formas diferentes devido ao seu meio social circundante. Trata-se de uma maneira de apreender conceitualmente os esquemas de ação que são característicos de pessoas, grupos e sociedades. Há comportamentos que se tornam rotinizados e que acabam sendo parte do seu ser social. Numa situação na qual um dado indivíduo se sinta relativamente adaptado às exigências de seu meio, as suas ações parecem se desenrolar sem maiores dificuldades – no sentido de não cometer tropeções ou atos desconcertados. Isso diz respeito também às práticas linguísticas das mais diversas.
Tratar das insinceridades sociais como uma ação habitual exige que algumas considerações teóricas sejam feitas, a fim de clarificar algumas confusões sobre o uso do conceito de habitus. Confusões estas que, infelizmente, são suscitadas pelo próprio Pierre Bourdieu, pois a incorporação de seu conceito por parte de estudiosos de Ciências Sociais gera a impressão de que sua aplicação seria semelhante a um dispositivo eletrônico plug-and-
play, sem maiores necessidades de verificar seu cabimento no contexto do estudo ou na
mobilização para explicar algum fenômeno social.
Acompanhando tal orientação, também se pretende aqui indicar algumas maneiras de conceber o conceito de habitus, dando ênfase ao seu aspecto mais elementar, que é a questão do inconsciente cognitivo (a forma como os aprendizados sociais e os comportamentos repetidos e costumeiros acabam se constituindo como “corpo”, como segunda natureza), para entendermos em qual patamar está a discussão sobre o habitus no interior do discurso científico mais amplo. Isto é: apesar de tal conceito ser proposto e mobilizado por vários
21 Na verdade, a depender do meio social, às condutas dos indivíduos podem ser imputados valores morais de níveis variados. Ações atípicas sempre serão motivo de juízos sociais, pois ao atentarem contra os costumes correntes de um grupo ou sociedade, e sendo efetivamente realizados passam a servir como legitimação explícita de uma conduta, sendo passível de influenciar e implicar as condutas alheias possibilitando a perda de estabilidade social (real ou imaginária).
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autores da sociologia, há divergências sobre sua aplicação empírica e mesmo a sua problematização teórica. Muitas vezes não está claro quando o conceito está sendo usado de maneira apropriada de delimitar conceitualmente um fenômeno sociocognitivo que tenha como fundamento o aprendizado de esquemas mentais que o capacitam a se comportar de determinada forma (hêxis corporal), a ter certas habilidades cognitivas (escrever, discursar, dirigir veículos), e até mesmo certas ações que irrompem nos indivíduos sem que ele tenha mais o controle consciente sobre elas, como ocorre nos casos de compulsão alimentar ou uso de drogas. Em razão da grande relevância que o tema desperta para diversas áreas que abrange as ciências cognitivas, é preciso trazer à discussão algumas contribuições e descobertas realizadas por cientistas, oriundos de várias áreas de pesquisas que tratam da estruturação dos processos cognitivos.
Retomando a discussão inicial sobre a relação entre linguagem e sociedade é correto afirmar que nossa relação com a realidade fora de nós (e até mesmo dentro de nós) é mediada pela linguagem. Estamos constantemente produzindo juízos sobre o mundo e sobre nós mesmos. Isso se dá devido à nossa necessidade de compreender o contexto social e físico onde estamos inseridos e assim poder agir adequadamente sobre ele. Tal mediação linguística também diz respeito até mesmo à nossa subjetividade, pois é através da linguagem que podemos compreender nitidamente os sentimentos que nos afetam diante de terminada situação, pessoa ou lugar. Assim, numa situação extrema, um indivíduo que não conseguisse fazer distinções – que possuem um aspecto perceptual e emocional – dos seres e objetos que o cercam teria poucas chances de sobreviver num ambiente hostil.
Não há, nas condições normais, como alguém se furtar a construir automaticamente alguma valoração sobre o mundo ao seu redor. Mesmo aquele que pretenda nivelar todas as pessoas a um mesmo nível valorativo (por exemplo, ser generoso com todos indistintamente), não só cometeria uma espécie de injustiça com as pessoas mais próximas que possuem laços pessoais bem mais importantes, como também correria o risco de, ao nivelar tudo, prejudicar