• No results found

7.4 Hva skriver borgerjournalistene om?

7.4.2 Lokale eller nasjonale tema

Construída sobre um terreno arenoso e em localização remota, cercada por pântanos e florestas de pinheiros, não havia em Berlim os atrativos naturais esperados de uma cidade que viria a tornar-se uma capital europeia. O poder e o status alcançado pela cidade foi fruto de um grande esforço humano, tanto dos berlinenses quanto dos inúmeros imigrantes que Berlim recebeu ao longo de sua história. Diferente de outras localidades da atual Alemanha, a região de Berlim nunca foi conquistada pelos romanos e seus habitantes foram considerados pelo General Velleius “selvagens incapazes de aprender as leis ou as artesxxx” (Richie. 2013,

posição 1223 de 31086). Já ao final do século XIX a cidade foi vista como a “metrópoles da inteligência”, e atraía um grande número de intelectuais e artistas por conta de suas universidades, museus e teatros.

A Berlim levada aos palcos do cabaré tem as suas raízes no século XIX com seu vertiginoso processo de industrialização, com a unificação da Alemanha e com o decurso da modernização pela qual a cidade passou. Em meio a essas instâncias

59 estão as crescentes ondas migratórias que levaram milhares de pessoas à capital do império, o surgimento do partido social democrata, o nascimento da união dos operários e do movimento das mulheres, bem como os embates das autoridades com as classes menos favorecidas.

Berlim era a capital do reino da Prússia quando no dia 18 de janeiro de 1871 o kaiser Guilherme I proclamou, no palácio de Versalhes, o início do Segundo Reich, unificando assim a Alemanha sob a sua liderança. Berlim tornou-se com isso a capital do recém-criado Kaiserreich alemão. No entanto, conforme aponta David Large (2007, posição 447 de 9432), apesar dos esforços governamentais em apresentar a cidade como um sinônimo de sofisticação urbana, a sede do governo parecia-se menos com uma capital do que Dresden, Frankfurt ou Stuttgart. As mudanças que a cidade teve de sofrer para adaptar-se à sua posição de capital fizeram com que Berlim ficasse quase irreconhecível para seus moradores mais antigos, como é possível ver no romance Von Brandenburg zu Bismarck62 escrito por Ludovica Hesekiel em 1873.

Berlim exercia forte atração sob os imigrantes. Conforme indica Alexandra Richie “por volta de 1900 mais de 60% dos berlinenses eram imigrantes ou filhos de imigrantes e essa porcentagem escalonou entre os anos 1900 e 1914 quando a população da cidade duplicouxxxi” (2013, posição 4614 de 31086). As razões para

tamanho índice migratório são complexas, no entanto, Richie (2013) acredita que o ponto principal está no fato de que as terras a leste de Berlin não conseguiam suportar grandes populações rurais. Assim, muitos moradores de Brandemburgo, da Pomerânia, da Prússia oriental e da Silésia, partiram em direção a cidades industriais, principalmente para Berlim, em busca de melhores condições de vida ainda na segunda metade do século XIX. Uma grande parte dos imigrantes era de judeus vindos de outras províncias alemãs e do leste europeu. Large (2007, posição 9432) afirma que em 1860 o número de judeus em Berlim era de 18.900, mas por volta de 1880 o número praticamente triplicou.

Em 1870 Berlim tinha a maior densidade urbana das cidades europeias e o principal problema para um recém-chegado era encontrar moradia. Habitações disponíveis para locação eram raras. O aumento da demanda por residências transformou Berlim em um grande canteiro de obras, um alvo certeiro para a

62 Segundo David Large (2007, posição 313 de 9432), o romance lamenta a passagem de Berlim de

60 especulação imobiliária. As deficiências na legislação acerca de edificações bem como o interesse das empresas em aumentar seus lucros, promoveram a proliferação de construções cujas condições sanitárias eram bastante inadequadas. Surtos de doenças como tifo, cólera e tuberculose foram frequentes.

Até o final da década de 1870 ainda não havia sido construído um sistema de esgoto que conseguisse dar vazão à alta demanda da cidade e o cheiro de Berlim era desagradável. August Bebel, líder socialista, descreveu o que os berlinenses enfrentavam diariamente antes da instalação do novo sistema de esgoto:

O esgoto das casas escorria pela sarjeta acompanhando o meio fio e exalava um cheiro medonho. Não havia banheiros públicos nas ruas e praças. Visitantes, especialmente mulheres, geralmente ficavam desesperadas quando a natureza chamava. Nos prédios públicos os sanitários eram construções inacreditavelmente primitivas. Uma noite eu fui com a minha esposa ao Royal Theater. Eu fiquei revoltado, quando, entre atos, visitei o ambiente designado para o alívio das necessidades masculinas. No cômodo ficava uma tina e ao lado vários penicos, os quais cada usuário tinha que esvaziar após o uso na tina. Era tudo muito acolhedor e democrático. Como metrópoles, Berlim não emergiu de um estado de barbárie até a década de 1870xxxii. (Bebel

apud Large. 2007, posição 460 de 9432)

Berlim era uma capital em forma de canteiro de obras. Desprovida de um passado glorioso como Londres ou de grandes monumentos como Paris, a sede do governo alemão não possuía o glamour de outras capitais europeias. Estrangeiros vindos de grandes cidades da Europa Ocidental desgostavam do cheiro, da fisionomia de Berlim e também dos próprios berlinenses. Os hábitos e as características físicas dos habitantes de Berlim pareciam aos visitantes da Europa ocidental como desesperadamente provincianas, quando não absolutamente nojentas. David Large cita que

“A paixão dos berlinenses pela formalidade” apontou Lafogue, tem raiz “no fato deles terem sido amplamente chamados de bárbaros e de rústicos”. Eles queriam desesperadamente ser educados como os ingleses e os franceses, “mas ao tentarem tanto, acabavam metendo os pés pelas mãos”. [...] Ao mesmo tempo, berlinenses podiam ser absurdamente rudes. Em lojas os homens retiravam seus chapéus, mas mantinham seus charutos em suas bocas; em restaurantes eles jogavam comida em suas bocas com suas facas e fumavam enquanto comiam, espalhando cinzas para todos os lados. Eles se saciavam até mesmo em teatros e concertos e depois arrotavam e soltavam gases alegremente. Isso certificava que o ar dentro dos espaços públicos

61

fosse tão fétido quanto fora delexxxiii. (Large. 2007, posição 481 de 9432)

O Berliner Luft (o ar de Berlim) era, neste caso, causa para repulsa. Além do mau cheiro, havia a miséria. Os altos preços dos aluguéis fizeram com que muitos berlinenses passassem a levar uma vida de nômades urbanos, partindo de uma moradia para outra sempre que o aluguel subia, até que eventualmente já não tivessem mais condições de arcar com moradia alguma. Em 1872 a maioria dos abrigos públicos de Berlim não tinham mais vagas para receber os sem teto que vagavam pela cidade. Logo, famílias operárias inteiras passaram a habitar praças, pontes, estações de trem e vagões de trens vazios.

Alexandra Richie afirma que “a polícia tinha pouca simpatia por famílias destituídas e era quase sempre bastante brutal ao desmanchar assentamentosxxxiv

(2013, posição 4792 de 31086). Embates entre trabalhadores e a força policial eram constantes e as batalhas passaram a fazer parte da cultura local, o que contribuiu para a unificação dos pobres contra a polícia berlinense e marcou o começo da cisão entre a ‘classe baixa’ e as autoridades da cidade. A pobreza e a superpopulação contribuíram para o aumento nas taxas de mendicância, da prática de pequenos crimes e da prostituição. Não demorou muito para que Berlim adquirisse a reputação de fonte de perversão e de criminalidade. A expansão da prostituição teve como consequência a multiplicação de gravidezes indesejadas e o nascimento de crianças ilegítimas. Houve ainda uma epidemia de abortos que não estavam somente ligados à prostituição, mas como bem aponta Richie, às trabalhadoras em geral.

Mulheres de diversas idades, classes sociais e profissões realizavam abortos, no entanto, as mais propensas a serem pegas eram as operárias, costureiras, prostitutas e empregadas, a quem não havia nenhum tipo de proteção, mesmo nos casos em que as mulheres haviam sido engravidadas por seus patrõesxxxv. (Richie, 2013, posição 4855 de 31086)

Berlim enquanto capital da Alemanha unificada recebia uma enxurrada de investimentos dos mais variados tipos, o que abriu espaço para que as mulheres adentrassem o mercado de trabalho. De acordo com David Large (2007, posição 397 de 9432) “praticamente uma semana não passava sem que uma fábrica, uma empresa ou um banco fosse abertoxxxvi” em Berlim. Jill Smith (2014, posição 162 de

62 por conta da sua força industrial e das inovações tecnológicas de empresas como Borsig, Siemens, AEG e AGFA. Convém ressaltar, entretanto, que o espaço reservado para as mulheres nestas empresas era sempre subalterno.