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Langalezo – exploring theatre as grieving

3.4.3.1 Definição Constitutiva

Poucas facetas capturam as qualidades do consumo moderno, suas excitações e decepções, tão vividamente como a do explorador. (...) O mundo explorado pelos consumidores modernos é certamente um mundo não natural. As descobertas que eles fazem ao longo do caminho são cuidadosamente orquestradas pelos produtores, designers e varejistas para surpreendê-los no momento adequado e no local apropriado. Muitas surpresas são premeditadas, muitas maravilhas encenadas. Aqui reside um dos paradoxos do consumo moderno - a experiência de exploração pode ser verdadeira, mesmo se o objeto for simulado e o sujeito souber que é simulado. (GABRIEL E LANG, 2006, p. 75, tradução do autor).

3.4.3.2 Definição Operacional

Entre os elementos que caracterizarão o indivíduo como consumidor explorador está a utilização de contextos discursivos que façam referência a descobertas, novidades, procuras, barganha e pechincha.

3.4.4 O Consumidor buscando Identidade

3.4.4.1 Definição Constitutiva

Nossa visão do consumidor que busca identidade nos trouxe a um cruzamento. Em uma direção, pode-se ver o consumidor exercendo a

liberdade, fazendo escolhas,

aceitando satisfações e recuos, realizando compromissos e, conseguindo construir um eu ideal que tem o respeito de outros e inspira o amor-próprio. Na

outra direção, podemos ver o consumidor como um viciado, incapaz de viver sem ilusões, mediadas por bens materiais. Commodities representam nada mais que uma dose diária. (GABRIEL E LANG, 2006, p. 94, tradução do autor).

Entre os elementos que caracterizarão o indivíduo como sendo um consumidor buscando identidade está a utilização de contextos discursivos que dizem respeito à construção de uma imagem, seja por vontade do indivíduo (moda), seja por influência externa (cultura).

3.4.5 O Consumidor Hedônico ou Artista

3.4.5.1 Definição Constitutiva

A maioria dos consumidores pretende encontrar prazer nos bens e serviços que

consomem e economistas têm defendido a ideia de que padrões de vida elevados representam maior felicidade. A busca da felicidade e prazer está garantida na Constituição americana, mas pode exigir mais do que apenas dinheiro. São identificados diferentes tipos de prazer, incluindo o prazer que resulta da satisfação das necessidades e prazer que vem com as experiências emocionais elevadas. (GABRIEL E LANG, 2006, p. 96, tradução do autor).

3.4.5.2 Definição Operacional

Entre os elementos que caracterizarão o indivíduo como sendo um consumidor hedônico ou artista está a utilização de contextos discursivos que envolvam prazer, de forma geral, com a compra, com a experiência, com a descoberta, com a negociação, com o valor pago pelo produto, dentre outros.

3.4.6 O Consumidor Vítima

A vitimização é o outro lado da soberania do consumidor. Mesmo quando são livres, os consumidores estão sujeitos a serem enganados e manipulados. Vitimização, seja consciente ou inconsciente, tem desempenhado um papel central nos debates sobre consumo moderno. Mesmo o mais forte defensor da escolha do consumidor reconhece o potencial de consumidores que podem ser explorados. No entanto, há separações entre aqueles que argumentam que é necessária lei para proteger os consumidores contra abusos e aqueles que veem o mercado como sendo capaz de fornecer sua própria correção. (GABRIEL E LANG, 2006, p. 112, tradução do autor).

3.4.6.2 Definição Operacional

Entre os elementos que caracterizarão o indivíduo como sendo um consumidor vítima está a utilização de contextos discursivos referentes ao consumidor como sendo prejudicado, enganado, injustiçado, buscando formas de proteção e buscando seus direitos.

3.4.7 O Consumidor Rebelde

3.4.7.1 Definição Constitutiva

Os consumidores podem se rebelar contra o mundo de bens, seja em parte ou no todo, e podem virar as costas para o consumo convencional. Dependendo das circunstâncias, eles podem inventar suas próprias formas de consumo, cheias de significados, mas de forma revoltante. Eles não são apenas rebeldes em relação às mercadorias, mas também a um conjunto de relações sociais. Rebelar-se contra produtos implica rebelião contra processos sociais. (GABRIEL E LANG, 2006, p. 135, tradução do autor).

3.4.7.2 Definição Operacional

Entre os elementos que caracterizarão o indivíduo como sendo um consumidor rebelde está a utilização de contextos discursivos que envolvam o ato de não consumir determinado produto e que demonstrem sentimentos de insatisfação e revolta.

3.4.8 O Consumidor Ativista

3.4.8.1 Definição Constitutiva

Consumidor ativo: pessoas e movimentos interessados em promover os direitos, consciência e interesses de todos ou de grupos especiais de consumidores. Consumidores ativistas aparecem na mídia, elaboram relatórios, apelam por apoio e dão, ao governo ou empresas, um período

difícil. A gama de suas demandas é

extensa e vai desde a busca por melhores produtos a novas formas de produzir

e de vender. (GABRIEL E LANG, 2006, p. 153, tradução do autor).

3.4.8.2 Definição Operacional

Entre os elementos que caracterizarão o indivíduo como sendo um consumidor ativista está a utilização de contextos discursivos que façam menção à luta por direitos, interesse coletivo, justiça e busca por oportunidade.

3.4.9 O Consumidor Cidadão

3.4.9.1 Definição Constitutiva

A ideia de ser cidadão implica reciprocidade e controle, bem como um equilíbrio de direitos e deveres que não é nem evidente nem especialmente atraente para nós. Os cidadãos são ativos membros das comunidades, preparados para lutar pela vontade da maioria. Os cidadãos têm de discutir seus pontos de vista e se envolver com os pontos de vista dos outros. Na medida em que eles poossam fazer escolhas, os cidadãos têm um senso de responsabilidade. Escolher como um cidadão leva a uma avaliação muito diferente de alternativas do que escolher como consumidor. Como cidadão, é preciso confrontar as implicações de suas escolhas, seu significado e seu valor moral. (GABRIEL E LANG, 2006, p. 174, tradução do autor).

3.4.9.2 Definição Operacional

Entre os elementos que caracterizarão o indivíduo como sendo um consumidor cidadão está a utilização de contextos discursivos que envolvam consciência, preocupação coletiva, preocupação ambiental, preocupação com o mundo e com seus habitantes e ajuda aos mais necessitados.

4 Análise das Entrevistas

Este capítulo apresenta a análise das entrevistas e a discussão dos resultados obtidos. Ao longo dele, serão apresentadas as diferentes facetas dos consumidores de acordo com a lista de formas de relações de consumo proposta por Gabriel e Lang (2006) e que tenham sido percebidas como as mais importantes para os entrevistados.

Dessa forma, serão analisados os conteúdos presentes nas falas dos entrevistados e destacados os trechos mais relevantes como forma ilustrativa e de suporte para as categorias previamente apresentadas. O objetivo da análise subsequente é compreender as diferentes facetas que existem no consumidor de camelôs e, especialmente, em qual momento ele representa cada uma delas.

Como dito anteriormente, a partir de uma amostra determinada por conveniência, foram entrevistados 9 (nove) indivíduos, sendo seis do sexo feminino e três do sexo masculino com idades entre 22 e 36 anos, residentes no estado do Rio de Janeiro, com terceiro grau completo e que possuem uma frequência razoável de compras em camelôs (desde semanalmente até uma vez a cada dois meses). Cada entrevista durou, em média, uma hora e foram realizadas no período de janeiro a março de 2013.

Através das entrevistas, foram levantadas algumas categorias analíticas recorrentes , como, por exemplo: a confiança, a relação custo-benefício, a consciência sobre os produtos comercializados no camelô, as facilidades desse mercado e as emoções envolvidas nesse tipo de compra.

Dessa forma, com os pontos importantes encontrados nos relatos dos entrevistados e, utilizando as categorias definidas a priori por Gabriel e Lang (2006) , assim como as definidas ao longo da análise, foi possível identificar semelhanças, diferenças e, ocasionalmente, sobreposição de categorias.

Com o objetivo de ilustrar a análise das informações obtidas e fortalecer as categorias definidas, serão apresentadas a seguir partes relevantes de transcrições dos depoimentos colhidos.

Antes de, efetivamente, apresentar as facetas dos consumidores de camelôs, é necessário destacar e expor para o leitor como o camelô é caracterizado pelos entrevistados. Ao serem questionados sobre compra em camelôs todos realizaram a seguinte pergunta: “O que você considera camelô?”. Devido à recorrência desse questionamento, foi possível notar que a noção de camelô possui vários significados. Visando compreender qual a percepção do entrevistado, optou-se por devolver a pergunta.

As principais características recorrentes nas falas dos indivíduos podem ser resumidas da seguinte forma:

Estrutura de trabalho – Alguns entrevistados descreveram o que consideram camelô a partir de explicações sobre como esses profissionais trabalham.

“(camelô) é o cara que está montando a tendinha dele no chão (...) o cara que está vendendo na rua. Na maioria das vezes esse cara ganha mil reais por mês fazendo isso, ganha dois mil reais por mês no máximo (...) o que eu vejo no camelô é que geralmente ele é um dono que trabalha ali sozinho, ele e a esposa, ele e o filho, não chega a ser uma empresa constituída”. (homem, 33 anos, morador de Botafogo).

Local de trabalho – Para esses entrevistados, a melhor forma de caracterizar o camelô é destacando o local onde eles trabalham.

“Para mim, os camelôs são aqueles que ficam na Uruguaiana, mas também são os que vendem fruta na rua e os que vendem coisas nas feirinhas como, por exemplo, a Feirinha de Ipanema”. (mulher, 30 anos, moradora da Barra).

Ilegalidade – Neste item, os entrevistados optaram por descrever os camelôs a partir dos percalços enfrentados por eles durante o dia-a-dia de trabalho.

“É aquele pessoal que vê a polícia chegando, enrola tudo e sai correndo, aí a polícia passa e 30 metros atrás deles já estão remontando tudo no mesmo lugar”. (homem, 30 anos, morador de Botafogo).

Produto comercializado – Segundo esses entrevistados, o que melhor descreverá o camelô são as mercadorias comercializadas por eles.

“Camelô, na minha cabeça, está muito associado a cacarecos, tipo antena de televisão, que eu nunca vou usar na minha vida. Coisas de cortar legumes. O pessoal fazendo demonstração. Que é um saco isso”. (homem, 24 anos, morador de Botafogo).

Caráter – Nesta forma de classificação, os profissionais são identificados a partir de posicionamentos negativos em relação ao caráter deles.

“É uma pessoa pobre, com certeza, (...) uma pessoa pobre que quer te enganar e quer ganhar mais de você (...,) eu acho que essa é a imagem do camelô pra mim”. (mulher, 22 anos, moradora de Copacabana).

Uma vez que a proposta do trabalho é analisar as facetas dos consumidores desse mercado, não se viu a necessidade de estabelecer um padrão para esses profissionais considerando que, segundo a legislação do município do Rio de Janeiro:

“comerciante ambulante ou camelô é a pessoa física que exerce essa

atividade profissional por sua conta e risco, com ou sem emprego de tabuleiro ou outro apetrecho permitido nesta Lei, apregoando suas mercadorias. Não se considera comerciante ambulante, para os fins desta Lei, aquele que exerce sua atividade em condições que caracterizem a existência

de vínculo empregatício com fornecedor de mercadoria comercializada” (Rio

de Janeiro, Lei n°1.876).

Dessa forma, os entrevistados foram aconselhados a considerar como camelôs, os indivíduos que comercializam produtos em vias públicas do Estado.

4.1 O Consumidor Escolhedor

Neste tópico poderemos observar em quais situações os consumidores de camelôs podem ser reconhecidos como escolhedores. Segundo Gabriel e Lang (2006), o

capitalismo de consumo significa mais escolha para todos. Os autores também destacaram que quanto mais escolha houver, melhor para os consumidores.

Nas entrevistas, observamos que para os consumidores a escolha de comprar em camelôs está vinculada à variedade de produtos disponíveis.

“(eu compro em camelôs) porque lá me oferece mais opção, bem mais opção e essa coisa do barganhar (...) você pode até achar que o camelô não tem, mas tem muita opção sim. Não é tudo igual não. Eles têm diferenças.” (mulher, 31 anos, moradora da Ilha do Governador).

Ainda que o fragmento acima apresente uma noção da racionalidade que está envolvida nos consumidores, o fragmento a seguir mostra claramente como essa racionalidade é trabalhada antes e depois da compra.

“A compra de camelô é mais racional em comparação com a compra de shopping, com a compra de loja convencional (...) você tem uma preocupação maior com a qualidade, você vai ter uma atenção maior, um cuidado maior, escolher, vai querer testar geralmente na compra de camelô, você vai comprar um celular vai querer ver todos os modelos, você não vai comprar ele fechado numa caixa lacrada, você vai pedir pra abrir, pedir pra ligar, ver se vai funcionar, então eu acho que é uma compra muito mais desse ponto que você negocia o preço, você olha o produto, a confiança é menor, você vai sem essa impulsão, querendo ganhar mais.” (homem, 30 anos, morador de Botafogo).

Além disso, pelo preço médio dos produtos ser considerado baixo, as pessoas acabam adquirindo uma quantidade maior de bens por um preço menor do que conseguiriam em uma loja.

“Eu costumo ir mais pra olhar, ver as coisas que tem, um monte de bugiganga e acabo comprando um monte de coisa que não preciso porque é barato. Geralmente quando eu vou é pra ver um monte de “besteirada” e acabo comprando alguma coisa, você vai com cinquenta reais e volta com o bolso cheio.” (homem, 33 anos, morador de Botafogo).

Nessa mesma linha, alguns consumidores apresentam a faceta do escolhedor a partir de uma sensibilidade maior ao preço. Dessa forma, esses indivíduos acreditam que o preço é um fator determinante para a compra em camelôs.

Eu compro em camelô por que é tudo muito barato. Às vezes eu ainda negocio. Nos óculos lá de São Paulo eu negociei. “Compro dois quanto sai cada um?!” (mulher, 30 anos, moradora da Barra da Tijuca).

Outra característica recorrente nas entrevistas e que levam as pessoas a consumirem nos camelôs, diz respeito à compra a partir do recebimento de uma informação visual. Ou seja, as compras frequentemente acontecem pelo fato de se estar passando na rua e ver alguma coisa interessante sendo vendida nas barracas. A partir dessa visualização, surge a necessidade e a vontade de comprar.

“Tudo que eu compro em camelô normalmente é, eu estou passando e penso “estou precisando disso”, “estou querendo isso”. Compra em camelô é muito de você olhar, você ver.” (mulher, 28 anos, moradora do Jardim Botânico).

“Quando eu passo pelo camelô, se eu lembro que estou precisando de algo, eu compro, mas eu não vou lá só comprar, isso é muito difícil de acontecer.” (mulher, 36 anos, moradora da Ilha do Governador).

Nessa mesma linha, a facilidade/comodidade também influencia os indivíduos na hora de consumir em camelôs. Muitos entrevistados esclareceram que dificilmente se deslocam para comprar em camelôs, mas que compram, especialmente, se for o comércio mais perto. Para Burton e Babin (1989), um modelo de escolha coloca os consumidores como solucionadores de problemas. Segundo os autores, como eles irão escolher o produto, dependerá de como enquadram o problema e as consequências de comprar um produto ao invés de outro.

“Eu gosto de comprar em camelôs, mas não me desloco, vou tipo nas feiras de Copacabana, feira hippie de Ipanema na Praça General Osório, essas eu gosto, mas não vou pegar um ônibus pra ir num camelô.” (mulher, 22 anos, moradora de Copacabana).

“Eu compro normalmente por Copacabana (perto do trabalho). Não saio para procurar algum camelô (...) compro pela facilidade, está no meu caminho, é mais prático.” (mulher, 30 anos, moradora da Barra).

Ao longo das entrevistas, também foi possível observar a importância dada ao artesanato e à compra de produtos diferenciados. Apesar de alguns indivíduos destacarem que não se importam com a exclusividade de determinados produtos, eles preferem comprar bens que possuam uma característica, necessariamente, exclusiva por se tratarem de trabalhos manuais.

“Para mim produto exclusivo é só mega milionário que compra, não ligo pra isso. (...) Se precisar ir à Uruguaiana, eu vou, mas eu prefiro comprar no que é genuinamente camelô, o que é genuinamente arte dele, no caso do artesanato ou uma bugiganga, mesmo porque eu sei que não vou encontrar em nenhum lugar.” (mulher, 23 anos, moradora de Copacabana).

É importante destacar que além da característica de exclusividade do produto, advinda de trabalho manual, de acordo com a entrevistada anterior, o camelô não é apenas alguém que vende bugigangas. Para a entrevistada, o camelô genuíno é percebido como o que podemos chamar de artesão, ou seja, um artista que fabrica seus produtos através de um processo manual que exige certo grau de talento.

Tendo em vista os trechos das entrevistas dessa faceta, o consumidor escolhedor além de se preocupar com a variedade de produtos disponíveis em um mesmo local, também utiliza a racionalidade para suas compras. Ou seja, deixa claro que a proximidade ao ponto de venda influencia a tomada de decisão e mostra que é sensível ao preço dos produtos e à importância da exclusividade no caso do camelô-artesão. Na próxima faceta o consumidor será confrontado aos sentimentos envolvidos nessa compra.

Segundo Gabriel e Lang (2006), o mundo de objetos que consumimos funciona como um sistema por meio do qual nos comunicamos com os outros, assim como com nós mesmos. A ideia é que toda cultura é um texto, utilizando códigos diferentes, mas sujeita a regras semelhantes de sintaxe e gramática. Nesse ponto, ao longo das entrevistas, o camelô foi destacado como um comércio democrático, acessível a uma grande parcela da população.

“É muito difícil você ter uma imagem das pessoas que compram em camelô, porque são pessoas de todos os tipos. De todas as classes sociais. (...) Acho que, eventualmente, todo mundo compra alguma coisa no camelô. Por mil motivos. Às vezes, o camelô está na esquina da casa dela. (...) Não conheço ninguém que nunca tenha comprado no camelô.” (homem, 24 anos, morador de Botafogo).

O consumo de camelôs também foi identificado como algo que faz parte da cultura brasileira e, por conta disso, é natural pensar que todos comprem nesse comércio. Nessa mesma linha de raciocínio, é compreensível a dificuldade em encontrar pessoas que dizem nunca ter consumido ou que afirmem não consumir em camelôs.

“Eu acho que é um pouco cultural, não é tanto de classe social. Acho que a nossa cultura aceita. Eu fico observando muitas pessoas, quando eu vou. Quem é que tá lá? Então, você vê gringo, você vê gente que tá com um sacolão. Você vê muita dona de casa. Mas, você vê muita gente bem arrumada, que tá trabalhando ali no Centro. Você vê muito estudante. Nunca senti ninguém olhar esquisito pra mim, porque eu estava comprando lá. E é normal. É comum.” (mulher, 31 anos, moradora da Ilha do Governador).

É interessante destacar, conforme observado ao longo das entrevistas, que em certas situações as pessoas podem até gostar de ostentar, mas em outras preferem passar uma imagem de simplicidade, de alguém envolvido emocionalmente com a compra e com o vendedor.

“Eu acho que sou uma consumista pega pelo afeto, pela afetividade do produto e da pessoa. Independente do preço, você quer comprar, você é pego pelo afeto, porque ou você tem afeto pelo negócio, você gostou do produto ou pela questão

individual da forma de atendimento dele, eu acho que o mais importante é isso. O que mais me faz comprar é ele não vender o produto, mas ele vender o trabalho, não estou aqui querendo vender o meu produto, estou aqui querendo apresentar o meu trabalho. (mulher, 23 anos moradora de Copacabana).

Os entrevistados apresentaram diversas emoções atreladas ao consumo em camelôs. Elas divergiram consideravelmente e foi possível encontrar desde sentimentos de pena/preocupação até o de orgulho de consumir nesse local como forma de ajudar esses indivíduos.

“Eu tenho orgulho de comprar no camelô. Porque eu gosto de ajudar esse povo, as pessoas e também porque eu sou militante e sempre procuro as pessoas mais pobres pra ajudar.” (mulher, 22 anos moradora de Copacabana).

“Aí vem o lado social e humano (de comprar em camelô). É pensar que se a pessoa tá lá pagando imposto é porque ela pode estar fazendo isso. E o que não tá não pode. Aí é o lado humano.” (mulher, 36 anos, moradora da Ilha do Governador).

Alguns entrevistados ressaltaram a importância em comunicar aos outros sobre um determinado produto que tenha sido uma boa aquisição. Ao longo das entrevistas as pessoas comentaram que em alguns momentos sentiam prazer em avisar aos amigos quando tinham feito uma boa compra.

“Se eu achar um camelô que venda uma coisa boa, não tem porque não divulgar. Já comprei um helicopterozinho de controle remoto uma vez que eu passei pra dois amigos meus onde era e falei pra comprar lá que era mais barato.” (homem, 33 anos morador de Botafogo).

Dessa forma, é possível notar que frequentemente as pessoas se sentem bem por ter adquirido um produto por um preço justo e gostam de ser reconhecidas por isso.

“Se me perguntarem onde comprei, eu falo abertamente. Não me incomodaria nem um pouco. Pelo contrário, me incomodaria pagar dez vezes mais por um produto que vale dez vezes menos.” (homem, 24 anos morador de Botafogo).

Por outro lado, a necessidade que algumas pessoas possuem de manter uma imagem que condiz com o que gostariam de refletir, pode fazer com que não se sintam confortáveis em divulgar a compra de determinado bem em camelô.

“Talvez se eu estivesse usando uma camisa da Lacoste comprada