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4. Presentasjon av resultater

4.1 Lærerens arbeidsmåter

sistema - conceito aparentemente similar ao de “propriedades emergentes” – seriam

representadas em parâmetros de ordem, que restringiriam as possibilidades de evolução do

mesmo.309 Disto resulta a idéia de atrator, um estado estável para o qual o sistema evolui,

embora pudesse, à princípio, ter tomado outros rumos:

“Embora o futuro esteja aberto, e há um número de caminhos evolutivos possíveis para um sistema complexo, ... Apenas um conjunto definido de caminhos evolutivos possíveis, atratores-estruturais ... está disponível ... para implementação no sistema. Apenas um espectro discreto de caminhos evolutivos é 'permitido'. A palavra 'permitido' significa aqui 'permitido' pelo próprio sistema, pelas propriedades internas do sistema”.310

Mas como os parâmetros de ordem ajudam, na prática, a descrever os

movimentos microscópicos de certo sistema?

“As características das propriedades internas de um sistema complexo entram como parâmetros na equação diferencial não-linear correspondente. Se as características mudam, o conjunto de “eigenfunctions” da equação mudam também. Para expressar isto numa imagem mental, o campo de caminhos evolutivos possíveis de um sistema complexo para o futuro pode ser reconstruído ... dependendo das propriedades internas do sistema”

Esta parece uma imagem sedutora numa “perspectiva materialista”. Nosso

futuro dependeria, ao menos em parte, do que acontece dentro de nós, o que já é mais

“agradável” do que viver submetido a leis determinísticas do movimento da matéria. Não se

trata, no entanto, para Haken, de uma “defesa” pura e simples do indeterminismo do caos,

mas sim de uma “constatação” que deveria, inclusive, ser superada em alguma medida. Para

isto existiria, afinal, a ciência da sinergética, o estudo das co-evoluções e cooperações num

309 Podemos notar, nesta solução metodológica, certa “redundância conceitual”. Ou seja, precisamos saber as características do sistema como um todo para poder saber como ele evoluirá. Será isto uma explicação e uma inovação conceitual, ou apenas uma inovação tecnológica que nos permite voltar a velhos conceitos?

310 HAKEN, H. KNYAZEVA, H. 2000. Arbitrariness in nature: synergetics and evolutionary laws of prohibition. Journal for General Philosophy of Science

sistema, que nos permitiria prever - um pouco melhor - a evolução de certos fenômenos

complexos. Em outras palavras: se não considerarmos as cooperações, podemos prever

múltiplos futuros possíveis a certos sistemas. As ferramentas da sinergética, entretanto, nos

ajudariam a restringir estas soluções a apenas algumas realmente viáveis (a “longo prazo”,

pois flutuações existiriam a “curto prazo”).

Mas para isto, como vimos, precisamos saber algumas “propriedades internas ”

do sistema – para construir os parâmetros de ordem – ou outras “leis de proibição”. Estas

informações não viriam do modelo microscópico, mas de outras fontes de conhecimento.

Estas fontes podem ser, por exemplo, medidas macroscópicas do sistema – como a resistência

de objetos supercondutores ou, podemos supor, os padrões espaciais de modulação em

amplitude nas populações neurais. Ou seja: primeiro se escolhe uma característica

macroscópica que, por algum motivo, é significativa; e depois se introduz esta medida como

um parâmetro na equação não-linear diferencial “original”. O próprio Haken utiliza a mesma

estrutura conceitual para formular uma teoria de campo para as ondas cerebrais:

“Os parâmetros de ordem são determinados e criados pela cooperação de quantidades microscópicas, mas ao mesmo tempo os parâmetros de ordem governam o comportamento do sistema como um todo. Baseados nesta abordagem modelos fenomenológicos foram construídos no passado para diferentes experimentos com o intuito de encontrar equações de evolução que descrevessem a dinâmica macroscópica observada experimentalmente”.311 Ao que parece, portanto, a idéia de que “os parâmetros de ordem governam os

movimentos microscópicos” é uma descrição da metodologia matemática utilizada. A

equação que descreve os movimentos microscópicos resultaria em muitas soluções possíveis,

talvez incalculáveis. O parâmetros de ordem inseridos na equação “filtram” muitas destas

soluções, permitindo a descrição matemática de um sistema que, por algum motivo, evolui em

direção ao estado atrator (ver a ilustração 18). O motivo desta tendência, no entanto, não

precisa ser conhecido. Basta que se tenha escolhido uma variável macroscópica adequada. Em

outras palavras, parece existir uma espécie de “abismo” entre a descrição microscópica e a

descrição macroscópica do sistema, ao menos durante a auto-organização.

Neste ponto, chegamos a duas questões:

1- como reproduzir a evolução de um sistema caótico? Certamente, recortes e aproximações

terão que ser feitos;

2- reproduzir a forma é reproduzir o conteúdo? Podemos nos referir, no caso da consciência,

ao conhecido argumento do quarto chinês formulado por Searle.312

Não é de se espantar que possamos encontrar mais do que um modelo não-

linear para simular as ondas cerebrais, como os de Freeman e Haken. Segundo nossa pesquisa,

ambos são fundamentados: 1) na sinergética; 2) em osciladores não-lineares; e 3) um tempo

comum que permite a cooperação. Não encontramos, no entanto, estudos comparando estes

dois modelos. Por que? Em busca de uma reposta, vejamos algumas etapas na modelagem das

ondas cerebrais feita por Freeman:

“...O segundo passo é medir as relações de input-output do sistema e emparelhá-las às variáveis de estado do modelo e seu input. Pares input-output são coletados até que não haja mais surpresas. Um modelo é construído com equações diferenciais, e os parâmetros do modelo são avaliados ajustando as curvas de solução das equações às observações experimentais”313

Com este método, nos parece, é possível se obter soluções macroscópicas para

problemas microscópicos e, ainda assim, não se entender ao certo a “tradução” desta

solução matemática para o problema real. Ou seja, podemos simular, em alguma medida, a

evolução de certo sistema caótico, se escolhermos as equações que fazem justamente isto. Tal

modelo pode ajudar a esclarecer a natureza do problema, ou não. Afinal, reproduzir a forma

não significa reproduzir o conteúdo, ao menos quando a forma é uma simplificação da “forma

real”. A questão central, ao que parece, é a escolha de variáveis macroscópicas adequadas.

Além disto, este método parece possibilitar diferentes repostas para o mesmo

problema: diferentes equações diferenciais que simulem, em alguma medida, certo aspecto da

312 SEARLE, J. R. 1980. Minds, brains, and programs. Behavioral and Brain Sciences, 3(3)

313 FREEMAN, W. 2003. The wave packet: an action potential for the 21st century. Journal of Integrative

atividade neural, como as ondas do EEG. Assim, é possível que existam diversos modelos

não-lineares sobre a dinâmica neural que, no entanto, podem não ser comparáveis ou

compreensíveis. Ser incompreensível não é, neste caso, tão complicado, visto que os modelos

matemáticos da física contemporânea não precisam ser intuitivos, mas sim descrever

precisamente os fenômenos a que se referem. No entanto, esta aparente dificuldade em se

comparar modelos não-lineares – que apresentam descrição verbal semelhante – pode se

constituir num obstáculo para a busca de um consenso na neurodinâmica.

As observações anteriores refletem certa dificuldade em se obter modelos não-

lineares consensuais que expliquem o sistema ou descrevam sua evolução de forma precisa.

Quanto mais complexo e caótico for o sistema, podemos supor, maior será esta dificuldade.

Talvez isto também esteja relacionado à forma geral destes modelos, que pressupõe duas

descrições distintas do mesmo objeto: uma microscópica e outra macroscópica.

Vejamos. Para Freeman, as flutuações caóticas “rápidas” e locais revelam as

heterogeneidades, enquanto as “leis globais de restrição” operam de forma a “permitir”

apenas uma ou poucas possibilidades a longo prazo. A consciência, portanto, sendo um

parâmetro de ordem, uma lei de restrição, atuaria “comparando” estes diferentes futuros

possíveis e “escolhendo” apenas aqueles que levariam a uma estabilidade do sistema (ver

ilustração 18). Ou seja, a uma permanência de suas propriedades – afinal, foram justamente

estas propriedades que nos permitiram construir os parâmetros de ordem.314 Como escreve

Haken:

“...algumas estruturas evolutivas que não correspondem às próprias estruturas do sistema serão simplesmente instáveis. Elas irão decair rapidamente.”315 Faz sentido. No entanto, não parece fazer muito sentido dizer que os

parâmetros de ordem “governam” o microscópico: seria mais razoável dizer que o

314 Caso a auto-organização seja “intensa”, as características do atrator poderão ser bastante diferentes do estado original, obrigando os cientistas a encontrarem parâmetros de ordem a posteriori.

315 HAKEN, H. KNYAZEVA, H. 2000. Arbitrariness in nature: synergetics and evolutionary laws of prohibition. Journal for General Philosophy of Science

microscópico governa a si mesmo através de suas interações. Por que, então, esta ênfase na

interferência do global sobre o microscópico?

Ao que parece, a única resposta disponível é a (atual?) incapacidade de

descrever a neurodinâmica microscopicamente. Precisamos “adicionar” um referencial

macroscópico na equação. Esta natureza “mista” da descrição microscópica, de certo modo,

nos remete ao dualismo de propriedades. A busca dinamicista e emergentista, no entanto, é no

sentido inverso, como também destaca Haken:

“A sinergética revela leis fundamentando os fenômenos emergentes A ciência tenta conectar diferentes níveis micro – e macro – da realidade assim como diferentes momentos temporais no eixo do tempo”316

Esta conexão, no entanto, segundo pudemos entender, é feita no apenas plano

metodológico, não resultando necessariamente em um melhor entendimento do fenômeno. No

caso da supercondutividade, os modelos não-lineares parecem ter sido úteis para a posterior

elaboração de uma teoria que explicasse o fenômeno em termos de física quântica. Será isto

possível também em relação ao cérebro? Poderemos explicar seus movimentos internos sem

nos remeter a referenciais macroscópicos? Afinal, a própria descrição fenomenológica dos

estados internos através de “conceitos mentalistas” pode ser considerada, segundo podemos

entender, uma descrição macroscópica capaz de gerar parâmetros de ordem úteis nos modelos

dinamicistas.

A partir das considerações anteriores, portanto, podemos dizer que o modelo

neurodinâmico de Freeman se fundamenta em duas descrições do mesmo objeto que ocorrem

“paralelamente” (ver figura 18). Uma descrição microscópica e outra macroscópica. O autor,

no entanto, considera que: “consciência e atividade neural não são processos paralelos”.317

Por que Freeman não consideraria os processos cerebrais e mentais como

paralelos, se um é uma propriedade global do outro? A vida não ocorre paralelamente aos

316 HAKEN, H. KNYAZEVA, H. 2000. Idem

317 FREEMAN, W. 1999. Consciousness, Intentionality and Causality. In Journal of Consciousness Studies 6 (11-12)

processos corporais?

Vejamos uma possível resposta. Podemos notar (observando novamente a

ilustração 18) que durante a auto-organização há um momento inicial mais caótico e instável,

onde as flutuações locais e “forças microscópicas” dominam. Durante o processo, no entanto,

o sistema como um todo vai “acumulando experiência”, de forma que algumas estruturas

tendam a dominar as outras, “escravizá-las”. Esta seria a ação global da consciência enquanto

“parâmetro de ordem”: um operador dinâmico que nos permitiria transformar o conjunto de

dados microscópicos do estado A para o conjunto do estado B. Uma tendência do sistema ao

equilíbrio, que só se revelaria nas etapas finais do processo. A causalidade circular, neste

sentido, nos permitiria descrever estranhas tendências do comportamento microscópico de

sistemas auto-organizadores. Como coloca Freeman:

“A inferência causal linear é apropriada e essencial para planejar e interpretar ações humanas e relações pessoais, mas pode ser enganosa quando é aplicada a relações microscópico-microscópico nos cérebros.”318

Assim, segundo pudemos entender, a recusa de Freeman ao paralelismo está

vinculada às dificuldades em se descrever os processos auto-organizados em termos

microscópicos. Embora o “sistema como um todo evoluindo” exista paralelamente ao

“sistema enquanto partes interagindo”, existe uma alternância quando tentamos explicar (ou

descrever) o que está acontecendo. Em um primeiro momento, a explicação microscópica é

suficiente. Com o tempo, no entanto, os sistemas auto-organizados passam a seguir

“estranhas”319 tendências globais. Eventos microscópicos importantes estão acontecendo neste

momento, mas eles não nos ajudam a prever o resultado final do processo. Assim, optamos

por incluir um “parâmetro global” na equação que descreve os movimentos microscópicos.

Assim, nossa narrativa sobre, no caso, o cérebro, alternaria entre descrições

microscópicas e macroscópicas “paralelas”, de acordo com as possibilidades e limites de cada

318 FREEMAN, W. 1999. Consciousness, Intentionality and Causality. In Journal of Consciousness Studies 6 (11-12)

uma para explicar (ou descrever) os processos neurais.

Podemos considerar esta descrição dual um dualismo de propriedades?

Freeman rejeita tanto o dualismo (de substâncias, supomos) quanto o paralelismo. A crítica a

ambos se fundamenta na necessidade de concebermos relações causais recíprocas entre o

cérebro e a mente. Acima identificamos certo paralelismo no modelo de Freeman. Mas em

que medida seu “monismo dinâmico” parece com o dualismo?

Existe uma diferença de propriedades entre a descrição microscópica e a

macroscópica?

Segundo pudemos entender, a descrição microscópica se fundamenta na

dinâmica clássica, “newtoniana”, fundamentada no que Freeman chama de causalidade linear.

É um modelo que proporciona entendimento a partir da noção de causa eficiente: os corpos,

forças e a inércia nos permitem entender o movimento no espaço e no tempo. São

originalmente equações de trajetória que, hoje em dia, podem ser traduzidas em equações de

probabilidade – a fim de incluir os sistemas de comportamento mais complexo e os

fenômenos quânticos (“ultra-microscópicos”).320

A descrição microscópica, ao que parece, refere-se ao que chamamos

comumente de matéria: um conjunto de corpos de movendo no espaço sujeitos a leis

determinadas, embora em alguns casos imprevisíveis para a matemática humana. Os corpos

reagem de forma instantânea e estereotipada quando submetidos a forças, nos dando a

impressão (antropomórfica) de que eles agem sem consciência, sem dúvida. É difícil entender,

a partir desta descrição, a origem da forma, da ordem, da própria consciência.

O nível macroscópico, por outro lado, seria diferente. Ele revelaria tendências

do sistema, sem que uma explicação precisasse ser dada. Afinal, estas tendências são

detectadas por medições precisas de variáveis macroscópicas. O próprio fato de existir uma

descrição macroscópica já seria uma evidência de que este sistema possui alguma “sinergia

interna”,321 dependente de suas características peculiares. Assim, a descrição macroscópica

parece apresentar um “fator interno”, próprio dela mesma, ou seja, privado em alguma

medida. A descrição macroscópica, além disto, não refere-se a nenhum local específico do

sistema. Está em todos eles, de forma mais ou menos intensa - assim como a amplitude da

onda portadora na superfície do bulbo. Ou seja, quase que por natureza, a descrição

macroscópica não pode ser decomposta ou localizada; é, como se diz, holística. Além disto,

neste nível poderíamos obter respostas não encontradas no outro. Afinal, a organização, ou

“ordem”, ou forma, é considerada uma propriedade macroscópica. É neste nível que

detectamos o atrator e, só então, a posteriori, podemos formular parâmetros de ordem que

serão “inseridos” no outro nível de descrição (ilustração 18). Em sistemas previsíveis, estes

parâmetros de ordem poderão ser invariantes. Na neurodinâmica, até o momento, segundo

nossa pesquisa, não foram detectados parâmetros de ordem precisos para descrever a

diferença entre sono e vigília.

A partir das considerações anteriores, parece-nos que o nível macroscópico

apresenta propriedades semelhantes àquelas comumente relacionadas aos “aspectos mentais”

da realidade. Da mesma forma, o nível microscópico estaria intimamente relacionado à

matéria. Isto estaria de acordo tanto com a causalidade circular quanto com o dualismo.

Como, então, diferenciá-los?

Para Freeman, a diferença estaria na existência (ou não) de causas recíprocas,

ou seja, na recusa tanto do determinismo quanto da “autonomia” do pensamento, do livre

arbítrio. As escolhas conscientes, para o autor, são os estágios finais na tomada de decisão -

onde as decisões já tomadas são postas em dúvida, testadas de acordo com a experiência

passada. Como estas decisões teriam sido formadas sem a consciência? Pela a

intencionalidade, podemos supor. A própria intencionalidade já permitiria esta capacidade de

“previsão do futuro com base no passado”. Segundo nossa análise, no entanto, tal capacidade

seria permitida, em última instância, pela auto-organização. Ou seja, pela ação do todo (o

macroscópico, o “mental”) sobre as partes (o microscópico, o “material”) descrita acima: uma

tendência que não precisa ser explicada, apenas constatada.

Assim, a relação de causalidade que Freeman estabelece entre o micro e o

macro parece ser tão “misteriosa” quanto a relação entre alma e corpo no dualismo de

substâncias cartesiano. As tendências, atratores, causas finais ou formais concebidas em certa

consciência, em certa mente, interfeririam “misteriosamente” na matéria, fazendo-a agir

segundo sua vontade, escravizando-a.

Que diferença haveria, então, entre o dualismo de substâncias e o “monismo

dinâmico”? Evidentemente, em primeiro lugar, o número de substâncias existentes na

natureza. Mas esta solução não parece muito esclarecedora, em virtude da multiplicidade de

interpretações da palavra “substância”.322 Talvez a questão central seja a origem das

flutuações, ou seja, a causa das mais sutis heterogeneidades. Para Descartes, a glândula Pineal

seria – de alguma forma não explicável - sensível à vontade da alma. Ou seja, a consciência

poderia produzir (e perceber) pequeninas alterações nos movimentos da glândula, que seriam

amplificados por mecanismos cerebrais. Existiriam mecanismos para a consciência controlar

alguns comportamentos (como mexer o braço), mas outros (abrir e fechar a pupila) não seriam

voluntários.

Para Freeman, diferentemente, as flutuações mais sutis são geradas pelo caos,

pela interação heterogênea entre os corpos. No caso da ação da consciência sobre o corpo,

podemos supor que as flutuações mais significativas seriam as do sistema límbico,

responsável por gerar hipóteses e preparar os córtices sensoriais. A intensidade destas

flutuações seria, segundo o autor, proporcional ao “grau de emoção”, ou seja, dentro dos

322 Podemos imaginar, como Leibnz, que existem múltiplas substâncias, cada qual correspondendo a um ser, a um “sistema como um todo” na linguagem deste trabalho. Podemos também imaginar uma substância única, porém com infinitos modos (ou propriedades), dos quais nós perceberíamos apenas dois – como no dualismo de propriedades de Espinosa.

paradigmas da neurociência moderna, a certos estados corporais criados de forma mais ou

menos estereotipada em cada espécie.

Assim, ao que parece, o “monismo dinâmico” de Freeman afasta-se dos

princípios cartesianos e caminha em direção ao dualismo de propriedades espinosano. No

entanto, a recusa da tese do paralelismo, que oferece uma explicação inteligível para as

correlações entre o mental e o material, dificulta o entendimento das relações entre todo e

partes. Caso a auto-organização não nos forneça uma explicação adequada, o “monismo

dinâmico” de Freeman poderá ter herdado ao menos uma característica do dualismo

cartesiano: o caráter “misterioso” da relação entre consciência e matéria; ou entre o todo e as

partes.

Talvez seja este o caso, visto que o autor considera a questão da natureza da

consciência como de menor relevância:

“O que é consciência (consciousness)? Ela é conhecida pela experiência das atividades do próprio corpo e observação dos corpos de outros. A este respeito, se ela surge da alma (Eccles, 1994), ou de propriedades pan-psíquicas da

matéria (Whitehead, 1938; Penrose, 1994; Chalmers, 1996), ou como uma

função das operações cerebrais (Searle, 1992; Dennett, 1991; Crick, 1994) não é relevante. As questões pertinentes são – porém ela surge e é experienciada – como e em que sentido ela causa as funções dos cérebros e corpos, e como as funções cerebrais e corporais a causam. Como as ações causam a percepção; como as percepções causam a consciência (awareness); e como os estados de consciência causam as ações? A análise da causalidade é um passo necessário em direção à compreensão da consciência (consciousness)”.323

Esta compreensão, entretanto, ainda não foi alcançada no presente trabalho.

*

Em suma, podemos concluir que o monismo dinâmico de Freeman define-se

como emergentista e pragmático, mas apresenta características tanto do dualismo de

propriedades (diferenças qualitativas entre todo e partes são semelhantes às diferenças

“tradicionais” entre mental e material) quanto do dualismo de substâncias (o “mistério” na

relação entre o todo e as partes, que poderia ter sido “resolvido” com o dualismo de

323 FREEMAN, W. 1999. Consciousness, Intentionality and Causality. In Journal of Consciousness Studies 6 (11-12) pg. 143.

propriedades). Tais características são articuladas, segundo podemos entender, na perspectiva

do materialismo não-reducionista, onde o todo e as partes apresentam propriedades diferentes

do mesmo sistema dinâmico, e se relacionam mutuamente de forma causal. Freeman recusa as