4. Presentasjon av resultater
4.3 Erfaring med hvilke utfordringer som kan hemme inkludering
Um exemplo conhecido e impressionante de auto-organização é a célula de
Rayleigh-Bénard.338 Trata-se de duas lâminas de vidro, dispostas horizontalmente, com um
líqüido entre elas e uma fonte de calor embaixo. O calor faz com que o líqüido se mova de
baixo para cima, formando correntes convectivas. Evidentemente, há também um movimento
de cima para baixo, pois tais células são sistema abertos em energia mas fechados em matéria.
Como se sabe, os líqüidos podem se mover de forma previsível e estável, mas podem também
formar turbulências – de onde se origina a idéia do caos. Com o aumento do calor embaixo da
célula, os movimentos de convecção se tornam mais rápidos, criando flutuações e
turbulências. Á medida que a temperatura vai aumentando, as turbulências se intensificam.
Em certo momento, podemos imaginar, o sistema estará a ponto de se desestruturar, pois as
turbulências poderão destruir as lâminas de vidro. Talvez isto acontecesse se elas fossem mais
finas ou se o calor fosse adicionado mais rapidamente. Mas na célula de Rayleigh-Bénard isto
não acontece. Ao contrário, os átomos do líqüido “conseguem encontrar” uma forma de
manter o sistema, preservar suas características internas, embora de uma maneira um pouco
diferente – tal qual um parâmetro de ordem.
338 SETTE, AM. 1996. máquinas de Brower e auto-organização. In Auto-organização: estudos
interdisciplinares, Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência – Unicamp, Campinas. Coleção CLE número 18 Pg 81.
Como a “matéria resolveu”, neste caso, o problema da turbulência? A partir do
ponto crítico, o que se observa nas lâminas de vidro é um padrão semelhante aos favos de mel
de uma colméia (ver ilustração 20). Ou seja, colunas
convectivas hexagonais. Não é preciso um critério
muito preciso de “ordem” para se considerar que
houve, neste caso, a criação interna de ordem, às
custas de uma fonte de energia externa. Que
explicação podemos dar para este fenômeno?
Como a matéria é capaz de realizar tal
façanha? Esta pergunta, como vimos, não é
considerada relevante para Freeman, pois a
causalidade circular nos forneceria uma forma de
contorná-la na prática. Para o objetivo deste trabalho,
no entanto, a natureza da auto-organização precisa ser
minimamente investigada, pois este conceito parece
ser a estrutura básica a partir da qual o autor descreve
processos importantes, como a intencionalidade e a consciência.
Vejamos uma resposta. Existiam muitas probabilidades de evolução do
sistema, e todas ocorreram em alguma medida, rápida e localmente. Aquelas que eram mais
estáveis foram “naturalmente” se espalhando, simplesmente por serem mais estáveis. Ou
talvez, inversamente, como diz Haken, “...algumas estruturas evolutivas que não
correspondem às próprias estruturas do sistema serão simplesmente instáveis”. E o que é
instável, por definição, dura pouco. Aparentemente, foi dada uma resposta consistente ao
problema. Qual é o pressuposto desta resposta? Novamente, há uma tendência, uma lei de
restrição: a matéria tende à estabilidade. Será isto uma evidência de causa final na natureza? Ilustração 20: padrões macroscópicos observados na convecção de Rayleigh- Bénard. Abaixo, um detalhe do que vemos
acima. (imagens disponíveis no portal de Vasily P. Yaremchuk,
Afinal, se a intencionalidade e a consciência são processos auto-organizados, e ambos se
relacionam à finalidade, ou intenção, seria de se esperar que houvesse alguma espécie de
“causa final” relacionada aos processos auto-organizados.
Numa formulação antropomórfica: qual seria a “finalidade das moléculas” ao
formarem hexágonos? De que maneira isto promoveria a estabilidade? A resposta,
curiosamente, é parecida com a que obtemos ao fazer, para um biólogo, a pergunta: por que as
abelhas fazem favos hexagonais? Ele provavelmente responderá: para otimizar o uso do
material de construção. Se fossem quadrados, triângulos, ou qualquer outra forma, as abelhas
teriam que usar mais material nas paredes dos favos. No caso das correntes convectivas, a
forma hexagonal minimiza o atrito entre as moléculas que sobem e as que descem, permitindo
o movimento mais rápido e diminuindo as turbulências. Trata-se, portanto, de um argumento
geométrico bastante convincente – a pavimentação hexagonal tem a menor relação entre
perímetro do polígono e área pavimentada. Nossa questão, entretanto, poderia ir mais além:
mas como as abelhas sabem disto, se nunca estudaram geometria?
Neste momento, o biólogo poderia responder de duas maneiras: 1) porque as
abelhas são inteligentes; ou 2) porque a seleção natural eliminou as abelhas que construíam
casas mais onerosas. Ambas as respostas são adequadas a seres vivos. Mas e quanto às
moléculas da célula de Rayleigh-Bénard? Serão elas inteligentes? Prigogine interpreta este
fenômeno da seguinte maneira:
“... o não-equilíbrio cria muitas correlações “de longo prazo”. Quero assinalar que a matéria em situação de equilíbrio é cega, cada molécula só vê as moléculas mais próximas que a rodeiam. O não-equilíbrio, pelo contrário, leva a matéria a “ver”; eis que surge então uma nova coerência”339
Ou seja, já que a matéria tende ao equilíbrio (tendência que Prigogine associa à
irreversibilidade, à seta do tempo), o que aconteceria se ela fosse, por algum motivo,
deslocada do equilíbrio? “Buscaria estabilizar-se”, seja desfazendo o sistema instável, seja
reorganizando-o numa nova forma.
Para descrever matematicamente uma tendência, basta colocar um parâmetro
na equação - um operador que transformará esta função, reduzindo suas soluções possíveis.
Neste ponto, Prigogine, Haken e Freeman parecem concordar. Mas para compreender a
natureza desta tendência, a coisa fica bem mais complicada. Afinal, como a física moderna
tem nos ensinado, a descrição matemática precisa não leva necessariamente a um
“entendimento preciso”. Freeman utiliza a causalidade circular como uma “solução
pragmática” para a questão, contornando-a. Haken e Prigogine, por outro lado, investigam a
auto-organização mais a fundo, e buscam padrões gerais que possam ser formulados, como
diz o último, em “leis do caos” - de natureza, evidentemente, probabilística.
Haken considera que a auto-organização é possibilitada pela cooperação entre
as partes do sistema, permitida por uma temporalidade comum a elas e “governada” por um
parâmetro de ordem. Esta descrição, segundo nossa análise, é uma metáfora da metodologia
matemática utilizada pelo autor (e por Freeman). Ela não proporciona um entendimento da
questão, mas se refere a uma descrição precisa do fenômeno. Prigogine, por outro lado, busca
relacionar os fenômenos auto-organizados com a própria natureza da matéria. Em sua
descrição, no entanto, não podemos deixar de notar um “panpsiquismo” implícito – visão
rejeitada por Freeman – relacionado à idéia de “finalidade” que permeia a tendência ao
equilíbrio, e às capacidades “perceptivas” da matéria ampliadas pelo não-equilíbrio, ou seja,
pela instabilidade. É como se a matéria estivesse “inconsciente” no equilíbrio,340 e fosse
“acordada” pelas instabilidades ao seu redor.
Assim, ao tentar tornar inteligível a existência de processos auto-organizados,
Prigogine acabou chegando (na metáfora citada acima) a uma relação conceitual inversa a de
Freeman: não seria a auto-organização que criaria a consciência, mas sim o contrário. A
capacidade de “ver mais longe” que a matéria adquiriria fora do equilíbrio é, afinal, uma
descrição semelhante ao que Freeman considera a consciência: uma parada no tempo que
permite as ações de longo prazo. Sem esta capacidade, seria difícil entender como as
moléculas “descobriram”, coletivamente, a forma hexagonal que diminui as instabilidades
causadas pela fonte de calor.
Abusando da metáfora, talvez a matéria fique “mais consciente” fora do
equilíbrio, e isto possibilite a auto-organização. Os seres vivos, afinal, são justamente
sistemas fora do equilíbrio que se auto-organizam. Neste sentido, é como se a consciência
fosse uma tentativa da matéria de “reencontrar o equilíbrio perdido” pela ação do caos. Esta
parece ser a descrição de Freeman, embora ele geralmente se restrinja à matéria cerebral de
vertebrados.
Mas deixemos as metáforas de lado - ao menos algumas delas - e sigamos
rumo ao interior do conceito de auto-organização, em busca de outros vestígios de
“consciência”.