5. Diskusjon
5.2 Gjensidighet i relasjoner og fullverdig deltakelse?
Resta-nos, assim, uma última questão sobre a auto-organização. Em que
medida ela pode nos permitir um entendimento do fenômeno e, além disto, um conhecimento
objetivo do mesmo? Afinal, se Walter Freeman estiver certo, e a auto-organização for a chave
para o entendimento das funções cerebrais, precisamos saber em que medida este conceito nos
351 Hipótese formulada a partir das idéias de Debrun. DEBRUN, M. 1996. A dinâmica de Auto-organização Primária.
352 O que nos lembra, em certa medida, o “quarto andar da torre de gerar e testar” - metáfora utilizada por Dennet para explicar os diversos níveis de organização da inteligência. DENNETT, D. C., 1997. Tipos de
mentes: rumo a uma compreensão da consciência. Rio de Janeiro: Rocco.
ajuda a entender o objeto a que se refere. Para responder a esta indagação, precisamos nos
remeter a uma outra propriedade da auto-organização: seu “grau” ou “intensidade”.
Debrun considera que a auto-organização pode estar presente em diferentes
graus, e propõe uma classificação neste sentido. Abaixo, sintetizamos esta classificação,
articulando-a com a diferença entre auto-organização primária e secundária. O autor define
um “grau zero” para a “pré auto-organização”, enquanto a auto-organização primária seria de
terceiro grau.
Pré auto-organização:
O g rau “zero” seria caracterizado pela existência de condicionantes a priori
que restringem a evolução do sistema de tal maneira que tanto a “forma final” quanto o
processo sejam previsíveis. Seu comportamento, embora gerado internamente, ainda é rígido
e previsível. Como exemplo, temos a “automação mecânica” (o termostato citado por
Freeman), fundamentada em cadeias causais que produzem comportamentos “complicados,
mas não mais complexos – no sentido de 'tipo lógico' – de um relógio comum”.354 A
automação mecânica poderia produzir máquinas capazes de auto-funcionamento, não de auto-
organização, pois pode ser descrita partindo-se de uma externalidade absoluta entre as partes,
da hetero-organização.
Auto-organização (secundária?):355
A partir do primeiro grau, a auto-organização toma forma mais coerente com a
definição dada. Neste nível, os sistemas seriam capazes de criar diferentes comportamentos
para cumprir seus objetivos. Não conseguiriam, no entanto, redefinir seus objetivos.
A auto-organização de segundo grau seria caracterizada não só pela
possibilidade de se redefinir meios, mas também de se redefinir fins. O sistema parte de sua
354 DEBRUN, M. 1996. A dinâmica de Auto-organização Primária. pg. 30
355 Nos parece que estes graus correspondem à auto-organização secundária quando tratamos de organismos. Para sistemas não-vivos , no entanto, talvez a identificação destes graus com a auto-organização secundária não seja adequada, visto que ela se refere à aprendizagem de um organismo já dado.
identidade própria para alterar metas, funções e maneiras de atingi-las. O homem pode
apresentar auto-organização neste nível.
Auto-organização primária:
O terceiro grau distingue-se dos anteriores pela possibilidade de uma
redefinição do próprio ser. Tal processo de integração de elementos realmente distintos em
uma forma não obedece a uma lei de construção, diferentemente do que ocorre nos graus
inferiores. Este grau corresponde à “auto-organização propriamente dita quando um sistema
consegue “ser a própria gênese de seu ser”.356
O que esta classificação pode nos acrescentar? Segundo podemos entender,
Debrun considera que um grau maior de auto-organização corresponde a uma maior
imprevisibilidade do processo. Ou seja, quanto mais algo se auto-organiza, menos poderemos
saber de seu futuro. Assim, se o cérebro for realmente fundamentado em processos deste tipo,
será difícil prevermos seu comportamento. Talvez seja por isto, inclusive, que Freeman não
considera possível a existência de representações (invariantes, devemos acrescentar) no
cérebro.
Ao que parece, a auto-organização dificulta o estudo científico, dado que este
visa, em última instância, uma previsibilidade, um entendimento a priori – e não uma
explicação a posteriori. Os processos de auto-organização primária, de terceiro grau, seriam
especialmente problemáticos para as investigações científicas.
Além disto, a fase de “endogenização”,357 onde as relações internas particulares
do sistema começam a se tornar determinantes em seu comportamento, leva a uma
diferenciação entre o “dentro” e o “fora”. Isto faz com que, em certa medida, o sistema só
possa ser entendido a partir de si mesmo. Este aspecto pode ter diferentes conseqüências
dependendo do contexto e do “grau” da auto-organização. No caso do cérebro, um sistema
356 DEBRUN, M. 1996. A dinâmica de Auto-organização Primária. pg. 30
357 Termo também utilizado por Debrun, correspondente à terceira fase da auto-organização (veja as fases no topo da figura 18).
auto-organizador em alguma medida, esta característica pode dificultar a “tendência natural”
ao reducionismo encontrada nas ciências. Neste sentido, o caminho natural da neurociência
seria, talvez, o “emergentismo moderado” (considerando que uma emergência “radical” esteja
demasiado próxima ao dualismo).358 Na prática científica, entretanto, este caráter imprevisível
do cérebro auto-organizador pode levar, também, à “redução local”359, uma espécie de
“reducionismo moderado”. Afinal, para entender um processo auto-organizado, parece
necessário considerarmos suas características peculiares, ao invés de buscar apenas moldá-lo,
recortá-lo, segundo alguns padrões gerais encontrados na natureza e na experiência passada.
Esta idéia está presente nas duas perspectivas mencionadas acima.
Assim, considerando o grau de auto-organização como proporcional à nossa
dificuldade em descrever, prever ou entender o processo a partir de referenciais genéricos e
externos ao sistema, resta-nos ainda uma questão: em que medida o cérebro é auto-
organizado? Segundo as definições de Debrun e a descrição dinâmica de Freeman, o cérebro
apresentaria auto-organização secundária, redefinindo os meios do organismo360 cumprir as
finalidades necessárias para a manutenção da vida. Talvez também possa, em alguma medida,
redefinir seus próprios fins. Assim, embora a auto-organização primária seja incompatível
com a previsibilidade, o grau de auto-organização presente no cérebro permite aos
neurocientistas encontrar padrões gerais de funcionamento no órgão. Os padrões mais
invariantes sugerem a ausência de auto-organização (ou o referido “grau zero”), enquanto
padrões mais variáveis, como os mapas de modulação em amplitude de Freeman, indicam
processos auto-organizadores em alguma medida. Entretanto, padrões variáveis podem ser
tratados estatisticamente e assumirem uma forma invariante, uma média. Com isto, uma das
358 FEINBERG, TE, 2001. Why the mind is not a radically emergent feature feature of the brain. Joural of
consciousness studies 8(9-10)
359 Termo descrito por Kim (já comentado no capítulo “correlações e variâncias”) como alternativa ao materialismo não-reducionista. KIM, J. 1993. Supervenience and mind. Cambridge University Press, New York.
360 Talvez seja mais razoável dizer “o organismo redefine seus meios, através de processos onde o cérebro é indispensável”.
críticas de Freeman à atividade neurocientífica atual torna-se mais clara. Se tratarmos os
processos auto-organizados da mesma forma com que tratamos os outros, poderemos estar
perdendo informações importantes presentes nas sutilezas e desvios considerados como
“ruído estatístico”. Neste sentido, as ferramentas matemáticas da dinâmica não-linear podem
ser de grande valia, nos permitindo identificar e descrever processos auto-organizados no
cérebro.