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2. Teori

2.1 Inkludering

Como vimos anteriormente, os receptores sensoriais transformam reações

químicas (geradas pelos odores) em potenciais de ação que seguem paralelamente, pelo nervo

cones de fase”. Esses cones ocupam toda a

superfície do bulbo, permitindo a transmissão

da informação mesoscópica significativa – os

padrões MA, as “encarnações dos significados

inconscientes”.221

Esta transmissão, como podemos

observar, é feita pelo trato olfatório lateral, que

leva impulsos dos neurônios de projeção do

bulbo até o córtex pré-piriforme (e também ao

núcleo olfatório, ausente nesta figura).

O trato lateral não apresenta axônios paralelos como o nervo olfatório primário.

Ao contrário, ele é considerado, por Freeman, uma via de divergência e convergência de

sinais, pois: 1)cada neurônio do bulbo manda axônios para diversos neurônios espalhados

pelo córtex pré-piriforme; 2)da mesma forma, cada neurônio do córtex recebe impulsos de

diversos neurônios do bulbo.

Para Freeman, esta arquitetura promove a intensificação da informação

mesoscópica:

“Essa suavização atenua a atividade microscópica sensorialmente-guiada vinda do bulbo mas aumenta o padrão MA mesoscópico auto-organizado, que carrega o significado.”222

Não está claro, no entanto, a forma pela qual os padrões de modulação em

amplitude seriam intensificados por estas vias. Vejamos como isto se daria.

Os padrões MA, como vimos, aparecem na forma de “mapas de relevo”, que

descrevem a intensidade de oscilações gama em cada região do tecido nervoso. Ao observar

as vias de divergência e convergência, no entanto, parece pouco provável que elas transmitam

221 Segundo nosso entendimento do pensamento de Freeman. 222 FREEMAN, 2000, pg. 84

Ilustração 12: vias de transmissão (axônios) no sistema olfativo de mamíferos.

com precisão – e tampouco amplifiquem – as informações espaciais do bulbo. Ou seja: se um

neurônio, em certo lugar do bulbo, manda axônios para diversos neurônios espalhados pelo

córtex, como “o córtex poderia obter informações” sobre a localização original do impulso?

Imaginemos uma geometria

simétrica de divergência e convergência,

onde um neurônio do córtex recebe impulsos

de 5 neurônios do bulbo, como representado

na ilustração 13. Cada neurônio em B enviará

potenciais de ação correlacionados às

oscilações de sua região. Estas oscilações são

diferentes mas, como vimos, apresentam ao

menos uma semelhança: a forma aperiódica

comum na faixa gama, chamada por Freeman

de onda portadora. Se considerarmos que os impulsos dos 5 neurônios se “somam”223 na

membrana do neurônio C, podemos imaginar uma amplificação da “onda portadora”. Isto

ainda poderia, talvez, ser intensificado pelas conexões entre os diversos neurônios em C.

Consideremos, por fim, dois elementos: 1)os diferentes tamanhos de axônios

(A1 a A5) e; 2)a superfície irregular da membrana do axônio C (onde ocorreria a soma das

ondas resultantes dos potenciais de ação recebidos). Se considerarmos estes dois aspectos,

parece necessário que haja certa “suavização” temporal, ignorando pequenas diferenças de

fase para a “detecção” da oscilação comum. Freeman menciona, em artigos posteriores ao

livro, a necessidade e importância desta suavização.224

223 De forma análoga à soma de ondas, que amplifica as sincronias de fase - embora os potenciais de ação possam ser considerados “eventos discretos” na neurociência: “O cérebro opera com diferentes códigos,

sendo um deles formado pelos potenciais de ação. Já vimos que o PA ocorre como conseqüência das propriedades físico-químicas do neurônio, tendo por isso sempre as mesmas características elétricas. A isso se deu o nome de lei do tudo-ou-nada” LENT, R., 2002. Cem Bilhões de Neurônios. Atheneu, Rio de

Janeiro. pg. 89.

224 “temporal smoothing”FREEMAN, W. 2003. The wave packet: an action potential for the 21st century.

Journal of Integrative Neuroscience 2(1):3-30 pg. 19

Ilustração 13: Caso os neurônios 1 e 4 sejam ativados ao mesmo tempo, seria possível ao neurônio cortical

distinguir a fonte de cada impulso, dado que A1 é diferente de A4. Isto requereria alta precisão temporal

Segundo as reflexões acima, portanto, as vias de divergência e convergência

poderiam amplificar ao menos uma propriedade mesoscópica: a “onda portadora”. No

entanto, para Freeman, o aspecto significativo do “pacote de onda” estaria na modulação

espacial da amplitude desta onda portadora. Como os padrões MA poderiam ser amplificados

por estas vias?

Observando novamente o arranjo simples da ilustração 13, nos parece que parte

da informação espacial se perde de B para C. Isto porque o neurônio C não poderia distinguir

ao certo a fonte (localização espacial original) dos impulsos que recebe.

Imaginemos, por exemplo que o neurônio C possa trabalhar com intervalos de

tempo pequenos. Isto permitiria a ele relacionar o tempo de atraso entre as ondas (as

diferenças de fase de uma onda comum aos 5 neurônios em B) com a distância entre os

neurônios que as geraram. Afinal, A1 (o axônio do neurônio 1) deverá ser tanto maior do que

A3 quanto mais distante o neurônio 1 for do neurônio 3. Com isto, o neurônio C “teria meios

de distinguir” entre impulsos das regiões 1 e 3. No entanto, alguma informação espacial se

perderia, pois o neurônio C não poderia diferenciar os impulsos vindos dos neurônios 1 e 5,

dado que A1 e A5 têm o mesmo comprimento – e portanto, têm o mesmo atraso de onda em

relação ao neurônio 3.225 No diagrama, portanto, quase metade da “informação espacial” se

perderia (C poderia distinguir 3 dos 5 neurônios B). No tecido cortical, por sua vez, podemos

entender que haveria, além disto, a “redução de uma dimensão”, visto que a distribuição de

amplitudes na superfície do bulbo (2D) seria representada nas relações temporais (1D) entre

os potenciais de ação recebidos pelo córtex.226

225 Claro que, considerando a existência de outros neurônios no córtex, é possível imaginar uma forma de recuperar toda a informação espacial, embora ela não pareça nada simples. Afinal, embora os neurônios 1 e 5 mandem sinais iguais simultâneos para o neurônio do córtex destacado, isto não deverá ser verdade para a maior parte dos outros neurônios corticais. Ou seja, a informação poderia, a princípio ser recuperada. Como isto ocorreria é outra questão.

226 Parece razoável considerar esta “redução de informação” não como uma simples perda, mas como uma “síntese” (ou representação), caso haja alguma regularidade na transformação do espacial (2D) no linear (1D). Estas reflexões talvez se relacionem ao pensamento recente de Freeman, mas foram aqui tecidas apenas com o intuito de garantir uma análise mais completa das informações apresentadas pelo autor.

Assim, embora tenhamos imaginado um possível mecanismo de “recuperação

da informação espacial”, ele não parece muito provável: seja pela “simetria orgânica” do

cérebro,227 seja pela perda de informações espaciais, ou ainda, segundo podemos entender,

pela necessidade de “alta precisão” temporal (para detectar diferenças de fase) pressupondo

“baixa precisão” temporal (para detectar a onda comum com fases diferentes).228

Continua, portanto, a questão: as vias de convergência e divergência do trato

olfatório lateral, aparentemente adequadas à transmissão da “onda portadora”, seriam também

adequadas para a transmissão do padrão espacial de modulação em amplitude? Como o

aspecto espacial seria transmitido? Talvez se possa elaborar hipóteses com base no caráter

“orgânico” e assimétrico da arquitetura cerebral, onde não seria provável dois axônios terem

exatamente o mesmo tamanho. Isto permitiria a recuperação das informações espaciais do

bulbo “moduladas” na freqüência dos potenciais de ação recebidos por cada neurônio do

córtex. Possibilidades, existem muitas. A maioria delas, cabe aqui observar, parece pressupor

uma notável capacidade de “ação inteligente” dos elementos básicos do sistema: no caso, os

neurônios.

As reflexões tecidas a partir da ilustração 13 foram feitas com base no livro

“How Brains make up their minds”, onde o autor buscava, como vimos, vias de transmissão

que amplificassem os padrões espaciais de modulação em amplitude (MA). Não bastava

transmitir a onda portadora, pois ela não apresentava qualquer correlação com o estímulo

condicionado. Segundo nossa análise, estas vias poderiam amplificar a onda portadora, mas

provavelmente enfraqueceriam os padrões MA, pois eles descrevem justamente a distribuição

de amplitudes no espaço. Seria como descrever um mapa em código morse. Não é uma tarefa

impossível, mas difícil de ser feita, principalmente em tempo real.

227 O que, inclusive, enfraquece a validade de algumas reflexões feitas a partir da ilustração 13.

228 Este vínculo não implica necessariamente, como talvez se possa interpretar, em paradoxo lógico ou redução ao absurdo. Ele pode também evidenciar a complexidade das estruturas e processos cognitivos, pois as duas “resoluções temporais simultâneas e opostas” poderiam ser explicadas pela existência de, ao menos, dois mecanismos diferentes, devidamente integrados.

Talvez se possa ainda formular outras hipóteses alternativas que não

pressuponham uma homogeneidade na divergência e convergência de sinais. Assim,

neurônios próximos no bulbo tenderiam a enviar impulsos para determinadas regiões do

córtex. Isto preservaria, podemos entender, parte da “informação espacial” do bulbo, embora

diminuísse o caráter divergente-convergente das vias de transmissão. Afinal, isto aproximaria

a arquitetura do trato lateral com a do nervo olfatório, que apresenta fibras paralelas. Tal

reflexão, entretanto, não foi encontrada nos escritos de Freeman.

Em suma, embora os padrões MA sejam “mapas” - dependem das relações

espaciais entre as diferentes amplitudes - o autor escreve em 1999:

“O efeito desta integração espacial é aumentar os padrões MA, porque eles têm a mesma forma de onda em todo lugar... A integração feita pelo trato define o padrão MA mesoscópico dado ao resto do prosencéfalo como o sinal do bulbo, e ela rejeita a atividade microscópica guiada pelo estímulo como ruído”229