1. Innledning
1.5 Begrepsavklaring
Como vimos nos capítulos anteriores, Walter Freeman considera o cérebro uma
“fundição de significados privados”. Alguns mecanismos e características comuns aos
cérebros permitiriam tal propriedade. Dentre estes, o autor considera fundamentais ao menos
três: a causalidade circular entre cérebro e mente, a dinâmica caótica e auto-organização
cerebral, e a intencionalidade como processo. Além disto, segundo ele, os conceitos e
instrumentos da dinâmica não-linear podem nos ajudar a compreender a natureza do
funcionamento do cérebro e, portanto, da mente.
Como tais idéias se articulam? O autor identifica 10 elementos básicos de seu
modelo:
“... dez blocos de construção que nos permitem entender como as populações neurais mantém a dinâmica caótica da intencionalidade, porque a dinâmica fornece as bases biológicas para a flexibilidade, criatividade, e significado do comportamento humano.”212
Quais seriam estes blocos?
1- “A transição de estado de uma população excitatória ... para um ponto atrator diferente
de zero com atividade constante (steady-state)213 pelo feedback positivo”;
2- “a emergência de oscilação pelo feedback negativo entre populações neurais
excitatórias e inibitórias”;
3- “a transição de estado de um ponto atrator para um ciclo atrator limitado que regula as
211 ELIASMITH, C. (1996). The third contender: A critical examination of the dynamicist theory of cognition.
Journal of Philosophical Psychology. Vol. 9 No. 4 pp. 441-463.
212 FREEMAN, 2000. pgs. 35 e 36
213 Este termo pode ser entendido segundo seu uso na bioquímica, onde refere-se, por exemplo, ao estado de equilíbrio iônico que as células mantém em relação ao meio. Este estado é constante, porém não equivale ao equilíbrio iônico. Esta manutenção de um estado constante “fora do equilíbrio químico-físico”, uma das características dos organismos, é feita às custas de energia, e requer mecanismos específicos de auto- regulação.
oscilações constantes (steady-state) de uma população cortical mista”;
4- “a formação de caos como atividade de fundo ... por feedbacks entre três214 ou mais
populações mistas”;
5- “a distribuída onda de atividade dendrítica caótica que apresenta (carrie) um padrão
espacial de modulação em amplitude feito pelas alturas locais da onda”;
6- “o aumento no ganho de feedback não-linear215 que é guiado pelo input numa
população mista, que resulta na construção do padrão de modulação em amplitude
como o primeiro passo na percepção”;
7- “a incorporação do significado nos padrões de modulação em amplitude ... que são
moldados pelas interações sinápticas modificadas pelo aprendizado”;216
8- “atenuação da atividade microscópica guiada-sensorialmente e a intensificação dos
padrões mesoscópicos de modulação em amplitude pelas vias corticais divergente-
convergentes sendo a base do solipsismo”;
9- “a divergência de descargas corolárias na pré-aferência seguida de convergência
multi-sensorial no córtex entorhinal como a base para a formação da gestalt”;
10- “a formação de uma seqüência de padrões globais de modulação em amplitude de
atividade caótica que integra e direciona o estado intencional de um hemisfério
inteiro”.
Os 6 primeiros pontos sugerem uma interessante imagem do cérebro enquanto
sistema dinâmico e auto-organizador, dotado de canais de comunicação internos.217 Seu estado
de repouso já é, de cara, fora do equilíbrio físico-químico, sendo ainda bastante sensível a
214 Um número que nos remete ao chamado “problema dos três corpos”, que se refere à dificuldade de se integrar mais do que duas equações de trajetória apontada por Poincaré. BARROW-GREEN, J. 1997.
Poincaré and the Three Body Problem. American Mathematical Society.
215 Do original “nonlinear feedback gain”, que refere-se à capacidade do tecido neural de responder rapida e intensamente a um estímulo, mesmo quando este é fraco. Tal propriedade seria possibilitada por feedback positivo.
216 Sendo o termo “aprendizado” referente a diferentes métodos de condicionamento.
217 Sendo esta última característica inferida do ponto 5, onde o termo “modulação” nos remete à metáfora da transmissão de rádio.
variações externas – ambas as propriedades possibilitadas pelo feedback positivo. Além disto,
sua atividade é caótica, apresentando variados graus de indeterminação. Sua estrutura geral se
fundamentaria nas populações neurais mistas, com neurônios excitatórios e inibitórios
produzindo flutuações locais em diferentes freqüências. Estas flutuações locais, quando
fortemente relacionadas, produziriam uma forma global, através do processo de auto-
organização. Estes 6 primeiros elementos parecem ser fundamentados em simulações
computacionais (como o modelo “conexionista/dinamicista”) e em testes experimentais com
mamíferos condicionados, em especial gatos e coelhos.
Os outros quatro “blocos” são mais complexos e serão analisados com cuidado
nos próximos capítulos. Muitos pormenores são considerados, pois a interpretação e
entendimento mais aprofundado das idéias de Freeman requerem idéias provenientes de
diversas áreas de conhecimento, muitas das quais novas e desconhecidas pelo grande público.
Poderíamos nos concentrar apenas na questão da consciência, mas isto levaria a um
entendimento limitado da proposta de Freeman, visto que ela é fundamentada em seu modelo
neurodinâmico. Para facilitar a leitura mais rápida, destacamos as informações principais ao
longo do texto.
Por fim, uma última reflexão. Algumas formulações do autor que se referem
normalmente a relações entre “agente e objeto”, ou “causa e conseqüência”, são utilizadas de
uma forma particular. Nos pontos 3 e 5, o autor escreve, respectivamente: “ciclo atrator
limitado que regula as oscilações” e “(padrão MA) feito pelas alturas locais da onda”. Em
ambas as proposições, o sujeito e o objeto são a mesma entidade. O ciclo atrator é uma outra
forma de descrever a oscilação, enquanto o padrão MA consiste justamente na distribuição
espacial das alturas locais da onda. Talvez seja apenas uma questão de estilo literário.
Podemos considerar, no entanto, que estas formulações talvez reflitam uma possível “opção
fenomenologia de Franz Brentano. Isto explicaria porque, como diz o autor, nem o eu nem o
cérebro estão “no controle” - afinal, a causalidade entre topo e base é bidirecional.
Mas no ponto 3, esta questão pode ser mais problemática. Afinal, o referido
ciclo existe incorporado na dinâmica cerebral ou é uma representação humana de certo
aspecto desta atividade?
Quem regula quem? Quem causa quem? Este tipo de questão pode gerar
bastante confusão; em especial quando tratamos de uma causalidade “bidirecional”.