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3. Metode

3.2 Kvalitativ undersøkelse

Em primeiro lugar, o que seria uma descarga corolária? Este termo foi criado

em 1950 por Roger Sperry,253 para explicar certos comportamentos de peixes. Refere-se a

qualquer mecanismo neural que permita a um ser vivo “ignorar” estímulos sensoriais

gerados ou alterados por ele mesmo. Imagine, por exemplo, um grilo macho emitindo sons

para atrair a fêmea. O som produzido pelos seus movimentos é captado pelo seu órgão

auditivo (no caso, um par de membranas nas patas). Assim, para que o grilo possa254 perceber

o som produzido por outros machos, terá que ignorar o alto ruído gerado por ele próprio. As

descargas corolárias seriam, assim, um sinal enviado das áreas motoras para as áreas

252 FREEMAN, 2000, pg. 36.

253 No experimento, os olhos de um peixe foram cirurgicamente “girados” em 180o

, resultando em um movimento circular do qual o peixe não saia. Para explicar este fenômeno, o cientista imaginou a existência de descargas corolárias. SPERRY, RW. 1950. Neural basis of the spontaneous optokinetic response. Journal

of Comparative Physiology 43(6): 482-9.

254 Ao pensar evolutivamente, costumamos imaginar uma certa “finalidade” para o processo evolutivo e, portanto, para as estruturas biológicas resultantes deste processo - ou seja, praticamente tudo o que vemos na biologia. Isto não quer dizer que os fenômenos biológicos tenham realmente “finalidades”, ou que os processos evolutivos sempre sigam as finalidades imaginadas. Além disto, dizer que a evolução criou o que vemos hoje em dia não dizer que tenhamos compreendido completamente os mecanismos evolutivos. Ao contrário, é uma espécie de pressuposto para os estudos biológicos. Uma forma de pensar que nos ajuda a compreender, prever e influenciar os fenômenos vitais.

sensoriais a cada vez que uma “ordem de movimento” (ou comando motor) fosse dada.255 Este

sinal “informaria” as áreas sensoriais sobre o tipo de movimento a ser realizado, facilitando a

distinção entre os estímulos gerados internamente e aqueles provenientes do mundo

exterior.256 As descargas corolárias são também chamadas de cópias eferentes, e embora se

constituam num conceito comum na neurociência, é difícil identificar com precisão as vias

envolvidas neste processo.

Recentemente, foi identificado um único interneurônio multi-segmentado que

seria responsável pelas descargas corolárias relativas ao “cantar” dos grilos. Em outro estudo,

realizado em macacos, foi identificada uma possível via neural para as descargas corolárias

relacionadas à percepção visual.257

Neste estudo, Wurtz e Sommer

identificaram uma via envolvendo o “campo visual

frontal” (FEF), o tálamo médio-dorsal (MD) e o colículo

superior (SC), representados na ilustração 14.

Observamos novamente a relação entre tálamo e córtex

que, segundo vimos, parece ser também a responsável

pela produção “global” de ondas cerebrais. Em estudo

mais recente, os autores confirmaram o envolvimento desta via no comportamento de

macacos, e ainda apontam algumas questões relacionadas ao problema da percepção dos

estímulos auto-gerados.

“Até que ponto o córtex cerebral realmente utiliza estes sinais, particularmente no reino da percepção sensorial, permanece desconhecido, necessitando de estudos adicionais. Além disto, muitas outras vias ascendentes do tronco cerebral ao córtex permanecem a ser exploradas no comportamento de macacos, e algumas delas, também, podem portar sinais de descargas

255 POULET, JFA & HEDWIG, B. 2003. A Corollary Discharge Mechanism Modulates Central Auditory Processing in Singing Crickets. Journal of neurophysiology.

256 POULET JFA & HEDWIG, B. 2006 The Cellular Basis of a Corollary Discharge. Science 311(5760): 518 - 522

257 WURTZ, R & SOMMER. 2002. A Pathway in Primate Brain for Internal Monitoring of Movements.

Science, vol. 296.

Ilustração 14: via neural ascendente provavelmente relacionada às descargas

corolárias de macacos durante saltos sucessivos.

corolárias”258

Como se pode perceber, as descargas corolárias foram imaginadas há meio

século, mas apenas recentemente algumas vias neurais começam a ser identificadas. Os

estudos neurocientíficos aqui analisados se fundamentam em experimentos comportamentais,

onde foram encontradas as primeiras evidências das descargas corolárias. Seja por este ou por

outro motivo, todos os estudos acima referem-se a características aparentemente hereditárias,

dado que são padrões estereotipados para cada espécie - além de serem diretamente

adaptativos, podendo, portanto, ter sido selecionados naturalmente ao longo da evolução.

Existiriam descargas corolárias aprendidas durante a vida?

Tomemos como exemplo duas pessoas num carro pelas curvas da estrada de

santos. O motorista, segundo a experiência comum nos diz, sente menos os efeitos das curvas

do que o outro. Isto seria uma “descarga corolária” aprendida durante a vida? Talvez seja

apenas um “aprendizado” funcionalmente semelhante a uma descarga corolária. Faria alguma

diferença, ou trata-se apenas um jogo de palavras? Vejamos um outro exemplo: um jogados

de basquete dribla três adversários, movendo-se de forma extremamente complexa, e pula já

direcionando-se à cesta, que terá que focalizar para fazer dois pontos. A diferença entre este

exemplo e o do carro (ou do grilo), é que a relação entre “conjunto de movimentos” e “ajuste

perceptivo” torna-se, agora, algo não estereotipado. Não deve, supomos, haver uma “regra

simples e pronta” para relacionar movimento e sensação, como parece ser o caso dos

exemplos anteriores. Como o jogador poderia saber a localização da cesta depois de tantos

giros? Certamente não com uma única descarga corolária, mas com uma seqüência delas. Mas

neste caso, segundo nosso entendimento, deverá haver uma forma de “armazenar” o resultado

de cada descarga para que, ao final do drible, o jogador pudesse saber a localização

aproximada da cesta. Dizendo de outra maneira, o atleta deve ter uma forma de “imaginar” a

258 Traduzido de WURTZ, R & SOMMER, M. 2004 Identifying corollary discharges for movement in the primate brain. Progress in Brain Research, Vol. 144 Capt. 3.

cesta, de deixá-la como referencial mesmo quando não a vê. Ou seja, ele “precisaria” de algo

como uma “representação interna do espaço circundante”. Talvez o córtex entorhinal esteja

relacionado a isto, como veremos logo a frente, no capítulo “A convergência multi-sensorial

no sistema límbico”

Outro momento em que a idéia de “representação” parece estar presente é no

próprio conceito de “comando motor”, que dificilmente seria concebido como um

“significado” - talvez como resultado da “interação” entre diferentes significados. Ou ainda,

podemos supor, na transmissão deste “comando motor” a outras regiões do cérebro. Assim as

representações parecem importantes para o entendimento do ciclo intencional descrito por

Freeman, embora o autor exclua a possibilidade delas existirem no cérebro.

Por outro lado, as inferências aqui formuladas neste sentido se fundamentam

nos paradigmas atuais da neurociência, muitos dos quais Freeman critica. Mas de que maneira

um “significado privado” ajudaria o jogador de basquete a acertar a cesta? Talvez uma

alternativa seja imaginar mecanismos “mistos”, que trabalhem tanto com “significados

internos” quanto “representações”. Como escreveu Espinosa:

“A idéia que constitui o ser formal da alma humana não é simples, mas composta de um grande número de idéias ... a idéia de qualquer modo, pelo qual o corpo humano é afetado pelos corpos exteriores, deve envolver a natureza do corpo humano e, ao mesmo tempo, a natureza do corpo exterior”259