kriminalitet
2.12 Krenkelse av retten til privat kommunikasjon
Nichiren (Fonte: http://www.bsi.com.br/~hagihara/hbs1.html)
Nichiren (por nascimento, Zennichi-maru ou Zennichi-maro) nasceu em Kominato, província de Awa (atual Chiba-ken), no seio de uma família de humildes
13 Porém, esses grupos cuidam para que o uso que fazem do termo “profecia” não seja confundido com as
acepções que dele existem, porque estaria baseada numa Lei Universal e “Mística”, que Nichiren chamou de Namu-myôhô-rengekyô: “A profecia é um conceito vital no Budismo. (…) A profecia não se baseia na intuição, poderes psíquicos ou na clarividência, mas na rigorosa lei da causalidade que governa a vida por toda a eternidade” (Terceira Civilização no. 127, p. 43).
pescadores, em 16 de fevereiro de 1222.14 Sua vida transcorreu num dos períodos mais caóticos do Japão: a época das Regências Hôjô (1219-1333) do Período Kamakura (1185- 1333). Após um longo predomínio da nobreza da corte de Heian (posteriormente, Quioto), o país passou por sucessivas ondas de violência e desunião, e por grandes calamidades naturais. Em seus escritos, Nichiren dá o testemunho dos diversos males que assolaram o país: pragas, secas, fome, tufões, incêndios, terremotos, golpes políticos, revoltas, etc.
Ele se referia a si próprio como “uma pessoa da classe mais baixa e indigente”, de uma família sendara (em alusão aos párias indianos cendala), cujo destino era o de se tornar o mestre e salvador do Japão e do Budismo. Essa origem plebéia e “maculada” (no sentido tradicional do Budismo, visto que pescadores matam criaturas vivas) é enfatizada pelos nichirenistas, principalmente os da linha da Nichiren Shôshû, em contraste com a origem nobre de Shakyamuni. Com isto, pretendem realçar o fato do Budismo ser uma religião universal, de salvação para todas as pessoas.
Nichiren, aos doze anos de idade, foi morar e estudar no Templo Seicho-ji (também conhecido como Kiyozumi), de sua cidade natal, como acontecia com muitas crianças das classes baixas no Japão do século XIII. Em 1237, ele foi ordenado monge sob o nome religioso Zeshôbô Renchô. Uma vez que o Seicho-ji era da escola Tendai, Nichiren foi iniciado, aí mesmo, nos cânones desta escola, além dos da escola Shingon (Budismo esotérico).
Durante o período de formação monástica, Nichiren se questionava sobre a verdadeira doutrina do Buda, dentre todos os ensinamentos expostos pelas diversas escolas budistas. Foi com esta disposição que ele passou vários anos de sua vida estudando e pesquisando a doutrina budista nos vários centros religiosos de sua época. De 1238 a 1242, ele viveu em Kamakura, sede do governo xogunal de então, onde estudou os ensinamentos Jôdo e Zen. Retornando brevemente a seu templo de origem, Nichiren visitou os dois maiores centros budistas da época: um no monte Hiei (Tendai) e outro no monte Kôya (Shingon).
14 Os dados biográficos de Nichiren foram retirados principalmente de Murata (1971), Saunders (1980) e
Kirimura (1982). A Editora Brasil Seikyo, da BSGI, publicou a biografia de Nichiren em português (Kirimura 1987).
Após longos anos de estudo, reflexão e busca da essência do Budismo, Nichiren retornou ao templo Seicho-ji, com a convicção de que o verdadeiro Budismo estava contido no Sutra de Lótus e que todos as outras ramificações eram falsas e corruptas.
Para seus seguidores, ele fundou, no dia 28 de abril de 1253, um novo tipo de Budismo, ao proferir a frase nunca antes ouvida: Namu-myôhô-renge-kyô (Devoção ao Sutra de Lótus). Para ele, esta frase seria a quintessência da verdade absoluta do Budismo e exprimiria a lei suprema do universo, que garante a felicidade e iluminação a todos que a recitarem e a propagarem com entusiasmo. Por isso, a recitação do Namu-myôhô- renge-kyô se tornou a prática devocional (daimoku) dos seguidores do Budismo Nichiren. Ou seja, o cerne desse novo movimento foi reduzido a um método simples: a recitação do “Sagrado Título” do Sutra de Lótus.
“Namu-myôhô-rengekyô”
Nessa ocasião, ele adotou também o nome de Nichiren (literalmente, “sol-lótus”): nichi, numa referência tanto ao sol que emanaria os raios da verdadeira fé quanto ao próprio Japão (Nihon/Nippon,lit. “a origem do sol”); e ren, significando “lótus” (o Sutra Lótus)15.
15
De acordo com relatos populares, os pais de Nichiren teriam se tornado seus primeiros discípulos. Após a conversão, sua mãe teria tomado o nome Myônichi e seu pai, Myôren. Assim, Nichiren teria tomado o último ideograma do nome religioso de seus pais para compor seu novo nome (Matsunaga & Matsunaga 1976: 143)..
Depois, enunciou as quatro máximas (shiko kakugen) para denunciar os erros que percebia nas principais escolas budistas de sua época: a Jôdoshû seria o próprio inferno, cujo fundador Hônen era inimigo dos demais budas, por cultuar apenas o Buda Amida; o Zen era uma expressão de poderes diabólicos, que estaria levando o país à ruína; a Shingon era a causa da ruína nacional; e a Ritsu era fonte de alta traição. Ele estava convencido de que as demais seitas budistas eram incompletas e, em alguns casos, heréticas, por isso deveriam ser unificadas no supremo ensinamento do Sutra de Lótus.
Ao acusar as principais escolas budistas, Nichiren atraiu a inimizade não somente dos monges, mas também de poderosos governantes e administradores, devotos das seitas acusadas. Na primeira entre as várias perseguições que sofreu, Nichiren foi obrigado a deixar sua cidade natal para viver na região de Kamakura. Ele construiu uma choupana em Matsubagayatsu, próximo a Kamakura, e se pôs a pregar nas ruas, com o mesmo ardor de sempre.16
Nesse ínterim, o país foi assolado por diversas calamidades como pragas, terremotos, fome, seca, epidemias, tufões, etc. Nichiren percebeu esse período de tumulto e catástrofe como uma confirmação de que se vivia a era de mappô (literalmente, “últimos dias da Lei”), uma era de declínio do ensinamento budista, em particular, da verdade contida no Sutra de Lótus.
Em 1260, ele escreveu o “Tratado sobre a Pacificação do País através do Estabelecimento do Verdadeiro Budismo” (Risshô Ankoku-ron), através do qual ele procura explicar o motivo das calamidades sofridas pelo povo japonês naquela época: a nação teria, em seu entender, falhado em venerar o verdadeiro Budismo, por isso as divindades protetoras teriam abandonado o país, deixando o mal se espalhar. Esses desastres se perpetuariam se a causa do mal não fosse eliminada.
Nichiren advertia que faltavam ao Japão apenas dois dos “sete desastres”, mencionados em determinados sutras: guerra civil e invasão estrangeira.17 Essa previsão
16 Entretanto, a Nichiren Shôshû e a Sôka Gakkai afirmam que Nichiren teria angariado seus adeptos
através de pregações em pequenos grupos de discussão. Como veremos adiante, este é o protótipo das reuniões mensais da Gakkai (zadankai), onde são convidados os membros em potencial.
17 A menção a sete desastres (shichinan) é feita em diversos sutras. “No Sutra Ninno, são relacionados
como: (1) mudanças extraordinárias do Sol e da Lua; (2) mudanças extraordinárias das estrelas e planetas; (3) incêndios; (4) enchentes intempestivas; (5) tempestades; (6) seca; e (7) guerra, incluindo os ataques inimigos externos e a rebelião interna. O Sutra Yakushi define os setes desastres como: (1) peste; (2) invasão estrangeira; (3) luta interna; (4) mudanças extraordinárias no céu; (5) eclipses solares e lunares; (6)
lhe deu reputação de profeta, uma vez que a ela foram identificados dois eventos históricos subseqüentes: a revolta de Tokisuke Hôjô, em fevereiro de 1272; e as duas tentativas mongóis de invadir o arquipélago japonês (uma em 1274 e outra em 1281).
Em seu tratado, Nichiren recomendava a noção tradicional de que o Budismo deveria ser aceito tanto como instrumental político quanto como meio de salvação para as pessoas. De fato, muitos sutras budistas eram conhecidos na época como chingo kokkakyô (sutras protetores da nação), que prometiam proteção por parte de várias divindades à nação que reverenciasse tais sutras (cf. Metraux 1986: 32).
Ao submeter seu Tratado ao regente Tokiyori Hôjô, admoestando-lhe para mudar a orientação religiosa de seu governo, Nichiren, no entanto, não encontrou a receptividade esperada. Ao contrário, por várias vezes, foi vítima de perseguições e ataques físicos. Em 1261, ele foi preso e exilado na Península de Izu por dois anos. De 1271 a 1274, ele ficou novamente exilado na desolada ilha de Sado.
Durante o exílio na península de Izu (1261-63), ele recebeu inspiração confirmadora de sua missão como mestre daquela época difícil e decadente; no exílio na ilha de Sado (1271-74), ele se convenceu de que era uma manifestação do Bodhisattva Jôgyô (Vishishtachârita) ou Bodhisattva da Ação Soberba, líder dos “bodhisattvas da terra” que aparecem no capítulo quinze do Sutra de Lótus e que deveria reaparecer no mundo para garantir a salvação das pessoas na era de mappô.
Todos esses acontecimentos serviam para alimentar em Nichiren um senso de missão e de martírio, e a convicção de seus seguidores. Aos samurais que vieram aprisioná-lo para cumprir a sentença de prisão, em 12 de setembro de 1271, ele apenas contestou: “Eu sou a viga-mestra do Japão. Sou o pilar do Japão. Perder-me significaria derrubar o suporte do país”.
Os biógrafos de Nichiren reproduzem o relato lendário segundo o qual o governo de Kamakura tentou cumprir uma sentença de morte contra ele nesta mesma ocasião, porém ele teria escapado miraculosamente: no momento em que o soldado ia abaixar a espada para decepar sua cabeça, uma bola de luz teria ofuscado a vista do soldado, que
tempestades e tufões intempestivos; e (7) seca intempestiva. O capítulo Kannon (25o.) do Sutra de Lótus também enumera sete desastres dos quais a pessoa pode se salvar por meio do poder do Bodhisattva Kannon: (1) incêndio; (2) enchentes; (3) demônios rakshasa (rasetsu, em japonês); (4) ataque de espadas e
deixou cair sua espada por terra, em pânico. Esse evento teria despertado Nichiren para sua verdadeira missão e, como ensina a Sôka Gakkai, ele “deixou seu aspecto provisório como líder dos Bodhisattvas da Terra o Bodhisattva Jogyo, como se posicionava até então e assumiu sua verdadeira identidade como Buda Original” (Terceira Civilização no. 361, p. 5).
Em seu livro Kaimokushô (Tratado sobre a Abertura dos Olhos), de 1272, Nichiren confirmou seu senso de missão, fazendo três votos: ele seria “o pilar do Japão, os olhos da nação e o grande recipiente do país”, significando que ele seria o portador da verdade religiosa que revitalizaria o Japão.
As dificuldades e provações que ele encontrava também eram explicadas de acordo com esta percepção. Elas ocorreriam pelos seguintes motivos: 1) sua culpa ou responsabilidade pessoal numa encarnação passada; 2) o abandono do país pelas divindades protetoras; 3) as limitações e imperfeições inatas do mundo, que permitem coisas absurdas como sofrimentos a uma pessoa da importância de Nichiren; 4) e as dificuldades e provações próprias por que passa o bodhisattva que escolhe divulgar a verdade suprema numa época decadente (Murata 1971: 37).
O exílio em Sado foi o clímax de sua vida e foi onde ele concebeu a pedra de toque de seu trabalho: a representação gráfica (gohonzon) do “Ser Supremo”, isto é, Buda como entidade metafísica e iluminada. Como as mandalas indo-tibetanas, a representação gráfica de Nichiren tinha o propósito de ser uma miniatura do cosmo, incluindo todos os seres, que, dispostos à volta do Lótus da Verdade, em adoração, seriam iluminados pela sabedoria e misericórdia do Buda (Anesaki 1930:199-200). “A representação, no entanto, não era nem uma pintura desses seres nem um mero diagrama simbólico, mas um arranjo em títulos, de todas as classes de existência, de acordo com seus respectivos níveis de elevação espiritual, à volta da Budeidade primordial, que era representada pelo Sagrado Título” (ibidem: 200).
batões; (5) ataque de yaksha (yasha) e outros demônios; (6) prisão; e (7) ataque de bandidos” (Terceira Civilização no. 361, p. 32).
Quadro 7: As cinco principais escrituras de Nichiren Data Escritura Conteúdo
16-julho- 1260 Risshô Ankoku-ron, “A Pacificação do País através da Propagação do Verdadeiro Budismo”
Tratado de admoestação enviado ao regente aposentado Tokiyori Hôjô, atribuindo as causas dos desastres que assolavam o Japão à calúnia ao Sutra de Lótus e à crença em falsos ensinamentos. Sustenta que somente a prática do “Verdadeiro Budismo” asseguraria a paz e a felicidade geral.
Fevereiro- 1272
Kaimoku-shô, “Abertura dos Olhos”
Escrito durante o exílio na ilha de Sado, a obra prega que a Lei suprema está oculta nas profundezas do capítulo Juryô (16o.) do Sutra de Lótus. Afirma ainda que o Buda é a pessoa iluminada por esta Lei, possuindo as três virtudes de soberano, mestre e pai em relação a todas as pessoas dos Últimos Dias. 25-abril- 1273 Kanjin-no Honzon- shô, “O Verdadeiro Objeto de Adoração”
Também escrito em Sado, define o objeto de adoração em termos de Lei, porque estabelece a base teórica para o gohonzon como o objeto de adoração para atingir o estado de Buda nos Últimos Dias e ensina o princípio de juji soku kanjin (abraçar o gohonzon é a própria iluminação).
10-junho- 1275
Senji-shô, “A Seleção do Tempo”
Escrito em Minobu, explica que há um ensino correto para cada período histórico e que, nos Últimos Dias, o ensinamento apropriado para se divulgar é o Namu-myôhô- rengekyô. 21-julho- 1276 Hô-on-shô, “Retribuição aos Débitos de Gratidão”
Também escrito em Minobu, enfatiza a importância de se retribuir aos débitos de gratidão, especialmente ao mestre, e conclui que o modo de retribuir totalmente a essas obrigações é abraçar e propagar as Três Grandes Leis Secretas.
Fontes: Hurst 1992: 90; e Terceira Civilização no. 373, Encarte, pp. 5-7
Ao retornar do exílio da ilha de Sado, Nichiren recolheu-se nas matas do Monte Minobu, atual província de Yamanashi. No final de 1278, ele começou a sentir no corpo a precariedade da vida em Minobu e passou a sofrer de diarréias crônicas. Debilitado pela doença e pela idade, ele decidiu tratar-se nas águas termais da província de Ibaraki (antiga Hitachi), em setembro de 1282. Entretanto, a viagem teve que ser interrompida no meio do caminho, em Ikegami (cerca de Tóquio), devido à fraqueza imposta pela enfermidade. No dia 13 de outubro, ele faleceu, cercado por seus discípulos. Suas cinzas foram postas no templo de Minobu, conforme era seu desejo.
Nichiren acreditava que o Japão era o país onde a verdadeira fé seria retomada e de onde ela se espalharia pelo mundo. Para Masaharu Anesaki (1930: 204), Nichiren combina o espírito vigoroso do leste japonês (lugar de origem dos samurais) com o profundo idealismo do Budismo; assim como os militares de Kamakura desenvolveram uma cultura própria em oposição ao ritualismo e sentimentalismo da corte, Nichiren
também se revoltava e combatia o Budismo aristocrático e formal da região de Nara e Quioto.
Nichiren foi perseguido e aprisionado várias vezes devido a sua devoção exclusiva ao Sutra de Lótus e a seu espírito inflamado e fundamentalista. Suas características pessoais e ensinamento inspiraram pessoas de todas as camadas sociais ao longo dos séculos. Embora se enfatize, com freqüência, o radicalismo e fundamentalismo de Nichiren, há autores que consideram seu movimento como uma tentativa de reforma da seita Tendai e/ou com muitos paralelos com outros movimentos reformistas do Budismo da período Kamakura (Kitagawa 1966; Ingram 1977; Saunders 1982). Kitagawa afirma que, por um lado, Nichiren almejava restaurar e reformar a escola budista Tendai, mas, por outro lado, seu movimento mantinha similaridades flagrantes com diversas escolas budistas, na medida em que
… partilhava com a escola Shingon o uso da mandala e a crença em sokushin jôbutsu (tornar-se buda com o corpo que se tem nesta existência terrestre). Ele partilhava com os devotos da Terra Pura a doutrina da possibilidade de redenção do homem de natureza maligna e a superioridade da fé sobre o conhecimento. Embora denunciasse o Nembutsu (recitação do nome de Amida), ele virtualmente o substituiu pela recitação do título do Sutra de Lótus na forma de Namu Myô-hô Renge-kyô (Adoração seja feita ao Sutra do Lótus da Verdade Perfeita). Seu estabelecimento do kaidan (plataforma de ordenação), sem dúvida, foi influenciado pelo exemplo de Dengyô Daishi, mas também pela tradição da escola Ritsu (Vinaya). Ele ainda concordava com líderes de outras novas escolas budistas com relação à possibilidade de redenção para as mulheres (Kitagawa 1966: 120- 121).
Após o falecimento de Nichiren, os discípulos escolhidos por ele para dar continuidade à tarefa de difusão da fé nos ensinos do Sutra de Lótus (“Seis Monges Anciãos” ou Roku Rôsô) não conseguiram manter a unidade e coesão, dando origem a cismas e a uma tensão oscilante entre o exclusivismo e a acomodação. Depois do primeiro ano de rituais fúnebres para Nichiren, um de seus discípulos, Nikkô Shônin (1246-1333), assumiu o posto de abade do templo Kuonji, em Minobu. Entretanto, ao entrar em conflito com o administrador local, deixou este templo e instalou-se no sopé
do Monte Fuji, onde fundou, em 1290, o templo Taisekiji (lit., “Templo da Grande Rocha”), que veio a se tornar a sede da Nichiren Shôshû.
A escola budista de Nikkô ficou conhecida como Fuji Monryû ou Nikkô Monryû18, posteriormente subdvidida em diversas seitas rivais. No final do século XVI, as subseitas da escola Nikkô Monryû buscaram unificar-se, com exceção daquela sediada no Templo Taisekiji (Fuji-ha ou Honmonshû).
Em 1900, o Taisekiji se separou da Honmonshû e assumiu o nome Nichirenshû Fuji-ha (“Seita Fuji da Religião Nichiren”). Posteriormente, em 1912, foi renomeada como Nichiren Shôshû (“Seita Ortodoxa do Budismo Nichiren”), para reforçar sua independência e alegada autenticidade.19 O legado doutrinário de Nikkô assim como as formulações do sumo prelado Nikkan (1665-1725) é uma das principais fontes para a posterior elaboração doutrinária da Nichiren Shôshû e de sua ex-associação de leigos Sôka Gakkai.
Depois de ter apresentado um breve relato biográfico de Nichiren, farei algumas considerações importantes sobre sua identidade.
Assim como o Budismo Nichiren não é monolítico, também há uma grande variação na interpretação do ensino e da identidade do fundador. Algumas seitas tratam- no por “Nichiren Shônin”, sendo que o termo shônin (shô, “sagrado”; nin, “pessoa”) é um título honorífico concedido a eminentes monges de certas seitas budistas e possui o significado aproximado de “sábio” ou da terminologia cristã “santo”. Na página da internet da seita Honmon Butsuryû-shû, por exemplo, Nichiren é chamado de “mestre” e considerado uma reencarnação do bodhisattva Jôgyô o líder dos bodhisattvas que aparecem na era de mappô, conforme profetizado no capítulo quinze do Sutra de Lótus (http://www.bsi.com.br/~hagihara/hbs1.html). A Nichiren Shôshû e a SGI, no entanto, tratam-no por “Nichiren Daishônin” (dai, “grande”), para indicar sua precedência sobre as demais personagens do universo budista, ao considerá-lo o “Buda Original”.
18 “Monryu significa literalmente ‘portão-correnteza’, sendo ‘portão’ a expressão tradicional budista para o
ensinamento de Buda, e ‘correnteza’, significando uma escola de pensamento ou, como foi usada em épocas posteriores, de qualquer arte ou ofício tradicional” (Murata 1971: 43).
19 Até o final dos anos 80, antes do cisma com a Sôka Gakkai, a Nichiren Shôshû declarava ter mais de
dezessete milhões de membros, envolvendo diversas organizações de leigos. Atualmente, esta seita tem 304.140 membros (Bunkachô 2000: 74-75).
Como notou Kiyoaki Murata (1971: 62), Nichiren às vezes usava termos vagos e ambíguos, o que abre distintas possibilidades de interpretação e pode explicar parcialmente as disputas doutrinárias ocorridas entre seus discípulos. Embora ele nunca tenha dito expressamente que fosse o bodhisattva Jôgyô (Jôgyô Bosatsu), a visão mais aceita por seus seguidores é a de que ele seja sua reencarnação. Tal alegação está fundamentada em passagens do Gosho, tais como: “Tendo nascido nesta era de mappô, corrupta e depravada, fui atacado por inimigos poderosos enquanto recitava ‘Nam-myoho Renge-kyo.’ Como posso não ser um emissário de Buda?” Ou ainda: “Uma pessoa que recita o Sutra de Lótus e o ensina a outras pessoas é um mensageiro do Buda. Embora eu, Nichiren, tenha uma origem humilde, vim a este mundo com as credenciais do Buda”. Aos 51 anos, Nichiren escreveu que era “o único arauto dos bodhisattvas que emergiram da terra”, numa alusão a uma passagem do capítulo quinze do Sutra de Lótus (apud Murata 1971: 62).20
Por outro lado, certas passagens levaram à defesa de que Nichiren não era nem Jôgyô nem um emissário do Buda, como o fez Yoshiro Tamura, que considerava Nichiren como um “emissário dos bodhisattvas, para a difusão do ensino do Sutra de Lótus”, com base na seguinte passagem: “A mente de Nichiren não é, de maneira alguma, a de um emissário do Buda, porque eu sou um homem comum. Mas, porque eu fui exilado duas vezes pelos três tipos de inimigos poderosos,21 eu aparento ser um emissário do Buda. Embora minha mente esteja profundamente perturbada com os três venenos,22 e seja um homem comum, eu pareço um emissário do Buda porque recito ‘Nam-myoho Renge-kyo’” (ibidem: 63).
A Sôka Gakkai alinha-se com aqueles que acreditam ser Nichiren uma manifestação do Buda Eterno (por sua vez, distinto do Buda Eterno Kuonjitsujo no Shaka
20 A atitude de Nichiren parece confirmar a descrição que Peter Worsley faz dos líderes carismáticos. Eles
dependem, primeiramente, da fé dos adeptos, ou seja, eles precisam ser aceitos pelos adeptos. Depois, para a persistência desta fé, os líderes devem apresentar “provas e sinais” na forma de “ações bem-sucedidas”, de “tarefas perigosas” e até mesmo de fracasso (isto é, do martírio) (Worsley 1968: xii).
21 Nichiren está aqui se referindo aos “três inimigos poderosos” (sanrui no gôteki) como os três tipos de
pessoas descritas no capítulo 3 do Sutra de Lótus que perseguirão os propagadores desse Sutra nos Últimos