kriminalitet
2.14 Databedrageri
Dificuldades do objeto/ Formato híbrido e mutante de NMR)
4.4 - Modelo mítico, Ikeda, itai-dôshin: forças
coesivas
(Modelo sócio-cultural e modelo mítico- religoso/ Atualização do modelo com Ikeda/ O legado controvertido de Ikeda)
Capítulo 4
O
O
DDEESSEENNVVOOLLVVIIMMEENNTTOO
DDAASSÔÔKKAAGGAAKKKKAAII
4.1 – A origem japonesa
*** Fundação ***O fundador da Sôka Gakkai, Tsunesaburô Makiguchi, nasceu em 1871, no seio de uma família de classe baixa, em Niigata, província noroeste do Japão. Nessa época, o país deixava para trás mais de dois séculos de uma política feudal de auto-isolamento internacional e absorvia avidamente a cultura ocidental em todos os seus aspectos. Eram os primeiros anos do governo Meiji (1868-1912) marco histórico da modernização japonesa, um período de profundas transformações, instabilidade generalizada e intenso debate sobre os rumos que o país deveria tomar.
No interior do país, onde habitava a grande maioria camponesa, imperava a fome e a desestruturação familiar; nas principais cidades, a grande massa proveniente dos campos não encontrava emprego nas poucas e incipientes indústrias, o que levava muitos a optarem pelo recurso da emigração. Nesse período inicial, os tradicionalistas impuseram suas idéias sobre as forças progressistas, fazendo ressuscitar o antigo modelo de união entre o Estado e a religião (saisei itchi), do período Nara (710-794), como forma de controlar o processo modernizante, nos seus vários desdobramentos práticos. O novo sistema educacional, por exemplo, fora desenhado para formar súditos (mais que cidadãos) fiéis e submissos, como base para a industrialização e modernização do país.
Em 1893, Makiguchi conseguiu, depois de amargar várias dificuldades pessoais abandono pelos pais ainda criança, tentativa de suicídio e infanticídio da mãe ao se
atirar no mar com ele ao colo, adoção por tios1, impossibilidade de seguir a formação educacional regular, para mencionar algumas, concluir o curso de normalista e ser aceito para o cargo de professor-inspetor de uma escola primária. No ano seguinte, casou- se com Kuma. Dos oito filhos gerados deste casamento, quatro faleceram entre 1924 e 1932.
Interessado em geografia e pedagogia, Makiguchi escreveu uma tese sobre geografia e a trouxe consigo para Tóquio, para onde se mudou em 1901, seguindo a sua renúncia forçada ao cargo que mantinha na escola normal de Sapporo. Enquanto os geógrafos japoneses da época se ocupavam basicamente do aspecto físico da disciplina, Makiguchi publicou seu primeiro livro (Jinsei Chirigaku ou “Geografia da Vida Humana”) em 1903, manifestando um particular interesse pela relação do homem com a natureza e advogando o estudo da geografia através de atividades práticas, como as viagens para aprendizado. Seu livro teve boa receptividade, atestada pelas oito tiragens até o ano de 1911. Apesar disso, sua vontade de seguir a carreira de geógrafo, impulsionada pelo sucesso de sua primeira publicação, foi frustrada pelo caráter restritivo do meio acadêmico. Nos anos seguintes, Makiguchi viveu de serviços editoriais.
Makiguchi foi marginalizado pela comunidade acadêmica japonesa de sua época, por não possuir formação universitária. Embora tenha-se desapontado com a elite intelectual de seu país, Makiguchi era bem relacionado tanto no meio acadêmico quanto no político, e participava das polêmicas de seu tempo. Suas preocupações com o ensino japonês se inserem no debate maior sobre a construção da identidade nacional e os destinos de seu país no processo de industrialização.2 Por um tempo, Makiguchi participou do Kyôdokai (“Grupo de Estudo das Comunidades Locais”), fundado por Inazô Nitobe (1862-1933) e cujo objetivo era a investigação da história econômica e social dos vilarejos agrícolas. Neste contexto de contato com renomados intelectuais e políticos, o folclorista Kunio Yanagita escreveu, anos mais tarde, a introdução da
1
O nome de nascimento de Tsunesaburô Makiguchi era Chohichi Watanabe. Quando ele era ainda muito jovem, o pai abandonou sua família. Assim, aos três anos de idade, ele foi adotado por um tio, Zendayu Makiguchi.
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Discuto o tema da “construção da nacionalidade” em outro texto (Pereira 1999b), focalizando a trajetória intelectual e a obra de Kunio Yanagita (1875-1962), que é considerado o pai dos estudos folclóricos no Japão. Makiguchi trabalhou com Yanagita durante as férias de 1909 e 1910, fazendo pesquisas sobre comunidades rurais, dentro da proposta de Yanagita de criar uma etnografia nativa que permitisse o
primeira edição do livro Sôka Kyôikugaku Taikei (“O Sistema Pedagógico para a Criação de Valores”), de Makiguchi.
Em 1913, ele retornou para as atividades de ensino. Nas duas décadas seguintes, trabalhou como professor ou diretor de escolas primárias em Tóquio. Ao longo desses anos, Makiguchi devotou-se ao estudo da teoria educacional e, com base em sua experiência pessoal, fez os apontamentos básicos para a sua própria teoria: a sôka kyôikugaku (teoria educacional da criação de valores). Sua teoria se opunha ao sistema público de ensino, extremamente centralizado e cuja base era o idealismo filosófico europeu. A abordagem de Makiguchi, ao contrário, era pragmática e racionalista, refletindo sua insatisfação com o modelo educacional do Japão, que ele descrevia como sendo “aleatório, sem planejamento, fragmentado e sem propósito”.
As críticas de Makiguchi, de fato, renderam-lhe inúmeras inimizades em vários círculos do poder e resultaram em transferências seguidas de uma escola a outra. Em 1928, ele foi indicado para o posto de diretor de uma escola que estava prevista para fechar em um ano. Tal indicação significou, na prática, um “aviso prévio” de demissão, com um ano de antecedência. Um pouco antes da consumação dessa transferência, Makiguchi converteu-se à Nichiren Shôshû. Sua conversão aconteceu num momento de grande dificuldade para ele, com a perda sucessiva de quatro filhos e com as barreiras em implementar sua idéia de reforma da sociedade através do ensino. Impedido de atuar no sistema formal de ensino, encontrou na religião uma fonte de consolo e “uma esfera na qual continuava a perseguir seu programa de reformas” (Bullough, Jr. 1994: 17).
Em 1930, por fim, Makiguchi conseguiu publicar o primeiro volume de sua obra principal, Sôka Kyôikugaku Taikei (“O Sistema Pedagógico para a Criação de Valores”). Embora previsse o lançamento de doze volumes, publicou apenas quatro3. Seu livro reflete suas preocupações com a situação do ensino japonês e procura dar uma resposta à crise educacional vigente. Contagiado pela crença na função libertadora da ciência e pelos dogmas positivistas, Makiguchi pregava a necessidade de uma ciência da educação
estabelecimento de fundamentos morais e um unificador espiritual para o povo japonês no processo de modernização (Murata 1971: 73).
3
O dia de lançamento do primeiro volume dessa obra, 30 de novembro de 1930, é celebrado na Gakkai como sua própria data de fundação. Entretanto, reconhecendo a importância especial do segundo volume em que Makiguchi expõe com mais clareza sua teoria da educação, a Sôka Gakkai o reeditou em 1953,
que usasse princípios universalmente aplicáveis, fosse eficiente na aplicação das teorias e racional no uso de recursos.
Entre os vários temas que abordou, o mais importante e central dizia respeito aos objetivos da educação: para ele, a educação não poderia ser apenas formal e teórica, mas antes, teria que estar intimamente ligada com as necessidades das pessoas e com a vida cotidiana. Em última instância, o objetivo do ensino é a felicidade do estudante, e não a pura memorização dos fatos ou a bateria infindável de exames. Felicidade, no entanto, não é concebida como a satisfação ilimitada e egocêntrica da vontade individual. Ela envolve um dever e responsabilidade para com a sociedade e o bem público. Felicidade e proveito pessoais deveriam ser dosados pelo senso de responsabilidade social, para criar comunidades harmoniosas e prósperas. Acreditando na boa índole do ser humano, Makiguchi reconhecia que, sendo a criatividade inata às pessoas, o desenvolvimento desta criatividade (isto é, a criação de valores) seria utilizada por cada indivíduo para melhorar sua vida e beneficiar sua comunidade.
Makiguchi seguia, ainda, a idéia de certos pedagogos que o precederam, de que o objetivo da educação não é a mera transferência de conhecimentos, mas a orientação e o estímulo ao estudante no processo de aprendizagem. Daí sua preocupação com o treinamento e a seleção de profissionais aptos a levarem adiante esta tarefa.
Por fim, a escola deveria estabelecer uma parceria com família e comunidade, para ser funcional e eficiente (Makiguti 1994). Suas diretrizes eram assim resumidas: “Começar da experiência real! Concentrar os esforços em objetivos de valor! Fazer da economia de recursos um princípio de trabalho!” (apud Bethel 1994: 27). No prefácio de seu livro, Makiguchi expõe as condições essenciais que uma “educação criadora de valores” deveria atender:
1) Modernização, organização e simplificação da educação, visando a uma maior economia e eficiência. (…)
2) O abandono de métodos de ensino irracionais, sem conhecimento do resultado a ser obtido, em favor de uma educação inteligente, planejada, sistemática e aculturada, que facilite a instituição e administração da educação, acompanhada da aprendizagem
com um novo nome (Kachiron ou “Teoria do Valor”) e complementado por escritos de Jôsei Toda, discípulo e sucessor de Makiguchi.
coordenada, harmonizada com a ação, como um modelo de desenvolvimento das capacidades de criação do valor.
3) Melhor tratamento e seleção dos profissionais da educação, a fim de recrutar educadores com as qualidades necessárias à execução dessas mudanças. Por isto, propus a instituição de um sistema de avaliação para diretores de escolas primárias, bem como reformas educacionais básicas na escola normal.
4) A libertação do sistema educacional e dos métodos de ensino da influência de pedagogos desvinculados da realidade, de modo a tornar a educação produtiva e criativa, isto é, em consonância com atividades de trabalho da vida real. Neste sentido, busquei um equilíbrio especial de treinamento mental e físico, sob a orientação de profissionais da sociedade em geral, em um sistema escolar de meio período.
5) A administração das escolas como sociedades participativas em miniatura, em conformidade com as perspectivas sociológicas da sociedade maior e como fonte de educação moral (Makiguti 1994: 11-12).
A teoria pragmática da educação ou do valor desenvolvida por Makiguchi centra-
se na tríade beleza (bi), proveito (ri) e bondade (zen). “Beleza” aqui significa o prazer advindo dos sentidos; “proveito” deriva da relação entre uma pessoa e um objeto que contribui para a preservação e desenvolvimento de sua vida; e “bondade” é a conduta pessoal visando ao desenvolvimento da sociedade. A antítese desta tríade é shû (desprazer ou feiúra), gai (dano ou prejuízo) e aku (maldade). “Se algo é bom ou mal depende da sociedade específica; e o que é proveito ou prejuízo depende do indivíduo. Portanto, argumenta Makiguchi, uma ação de um indivíduo que traga proveito para ele, pode muito bem ser um mal para a sociedade da qual ele é membro” (Murata 1971: 78).
Para este pedagogo, falando de modo sucinto, a verdade é absoluta e objetiva, e precisa ser descoberta; por outro lado, os valores são subjetivos e relativos, necessitando ser criados, desenvolvidos por meio de um estudo aprofundado. As idéias filosófico- educacionais de Makiguchi, no entanto, tomaram um novo teor quando ele se tornou adepto fervoroso da Nichiren Shôshû. Ele passou, então, a identificar a verdade absoluta com Nichiren e o Sutra de Lótus; e os valores a serem criados, com os frutos de uma vida feliz baseada nessa fé absoluta (Earhart 1982: 177).
É interessante notar que Makiguchi, além de bom observador e auto-didata com espírito científico, era um ávido leitor de obras japonesas e estrangeiras. Por isso, sua teoria educacional “criadora de valores” tem pelo menos três fontes de inspiração. A primeira é a geografia, que o levou a publicar seu primeiro livro em 1903. A segunda influência é a escola pedagógica pragmática, particularmente a obra do americano John Dewey (1859-1952). A terceira foram a sociologia e a antropologia. Seu interesse por estas áreas aprofundou-se nos anos subseqüentes à publicação de sua “Geografia da Vida Humana”. A participação nas atividades promovidas pelo folclorista Kunio Yanagita e por Inazô Nitobe, com certeza o levou a conhecer várias obras das ciências sociais. A coleta de material nesta área resultou em seu segundo livro, Kyôdoka Kenkyû (“Estudo de Comunidades Locais”), publicado em 1912. Diz-se que os trabalhos de Lester Ward (1841-1913), autor de Applied Sociology (1906) e Glimpses of the Cosmos (1913), proporcionaram-lhe particular inspiração no conceito de valor e sua criação (cf. Bethel 1973: 50-51). Sendo essas as influências básicas na constituição das idéias pedagógicas de Makiguchi, em seus últimos escritos, no entanto, o Budismo Nichiren passou a ser relacionado com a criação de valores.
Embora a publicação do livro Sôka Kyôikugaku Taikei, em 1930, seja celebrada como marco de fundação da “Sociedade Educacional para a Criação de Valores” ou Sôka Kyôiku Gakkai, esta foi formalizada somente em 1937, com a participação de aproximadamente 60 pessoas em sua “assembléia” inaugural4. O segundo encontro só veio a acontecer três anos mais tarde, em 1940, quando a Sociedade já contava com um contingente de 300 a 400 membros.
Seu formato inicial era o de um grupo informal de estudo voltado principalmente para professores de escola primária, visando reformar o sistema de ensino japonês, com a proposta de transformar a “criação de valores” no objetivo principal da educação. Em suas reuniões, que passaram a ser mais regulares no começo dos anos 40, os membros relatavam suas experiências pessoais e programas de pesquisa no campo pedagógico.
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Kisala (1999: 76) afirma que o grupo de Makiguchi iniciou seus encontros em 1936, sob o nome de “Grupo de Estudo da Verdadeira Lei para a Revolução Educacional e Religiosa” (Kyôiku Shûkyô Kakumei Shôhô Kenkyûkai). No ano seguinte, Makiguchi escreveu um folheto entitulado “Experimentos práticos do método de educação para a criação de valores através da ciência e da religião superior” (Sôka Kyôikuhô no Kagaku-teki Chôshûkyô-teki Jikken Shômei), indicando uma crescente ênfase na religião como instrumento de reforma social.
Na década de 30, a Sociedade publicou a revista Kankyô (“Meio-ambiente”), voltada para professores, seguindo a proposta reformista de Makiguchi. Em 1941, lançou o jornal Kachi Sôzô (“Criação de Valores”), que misturava artigos sobre a “pedagogia criadora de valores” com testemunhos de pessoas que diziam ter recebido benefícios ou graças, por sua adesão à Nichiren Shôshû ou à Sôka Kyôiku Gakkai, ou ainda por seguirem as orientações do presidente Makiguchi. Já em sua primeira edição, encontram- se testemunhos de vinte sete mães que declaravam ter tido um parto sem dor como resultado de se terem afiliado à Sôka Kyôiku Gakkai (Bethel 1973: 97).
Esse jornal evidencia, portanto, uma mudança na orientação da Sociedade: de um interesse prioritário em educação, passa a combinar este interesse com o propósito evangelizador da Nichiren Shôshû. Essa mudança foi motivo suficiente para o afastamento de muitos membros da Sociedade.
Com o avanço da guerra, o governo japonês implementou um plano de unificação da sociedade, que incluía a fusão de sub-seitas religiosas em organizações maiores e a imposição generalizada de práticas xintoístas, independemente da fé religiosa de cada indivíduo. A Lei das Organizações Religiosas, de 1940, é a expressão legal desse plano, pois dava ao governo plenos poderes sobre as religiões. Em 1942, a Gakkai sentiu o peso da lei ao ter seu jornal Kachi Sôzô proibido de circular. Embora o grupo continuasse o trabalho proselitista, suas reuniões ficaram cada vez mais difíceis de realização, na medida em que houve a intensificação dos bombardeios e dos alertas para que os habitantes das cidades apagassem as luzes de suas casas e fugissem para os abrigos anti- aéreos. Apesar disso, de 600 a 700 membros participaram da assembléia geral da Sociedade, realizada em Tóquio, em 1943. No verão deste mesmo ano, o grupo chegou a seu auge no pré-guerra, contando com aproximadamente 5.000 membros, espalhados de norte a sul do país.
Em seis de julho de 1943, Makiguchi, Jôsei Toda e toda a liderança da Gakkai foram aprisionados por se oporem à unificação da Nichiren Shôshû com as demais ramificações do Budismo Nichiren e se recusarem a participar de práticas xintoístas. Enquanto parte do clero do templo Taisekiji (sede da Nichiren Shôshû) fez concessões à pressão governamental para aceitar determinadas práticas xintoístas, Makiguchi e Toda se mantiveram fiéis ao ensino exclusivo de Nichiren. Vários líderes aprisionados
renunciaram à fé sob tortura e intenso interrogatório. Por dois anos, até o fim da guerra, as atividades da Sociedade foram totalmente suspensas. Makiguchi faleceu no dia 18 de novembro de 1944, na prisão de Sugamo (Tóquio). Contribuiu para sua morte, não somente a idade (73 anos) e a má-nutrição, como também a notícia de que seu único filho (varão) remanescente havia sido morto na guerra.
*** Reorganização no pós-guerra ***
A pessoa responsável pela reorganização da Sociedade, depois de ter sido quase que inviabilizada pela repressão governamental, foi Jin’ichi (Jôsei) Toda. Sua importância é tão grande para a existência da Gakkai de hoje, que ele é, por vezes, chamado de “co-fundador” ou “o segundo fundador”.
Nascido em 1900, na província de Ishikawa, Toda era o décimo-primeiro filho de uma família pobre de pescadores. Em 1904, sua família mudou-se para Hokkaidô, que era então a última “fronteira” do arquipélago japonês e o destino de muitas famílias que buscavam sobreviver num período de muitas transformações e dificuldades sócio- econômicas. Desde a mais tenra idade, Toda demonstrava forte inclinação para os estudos. Entretanto, ao concluir a escola primária, ele teve que abandonar a escola para ajudar no sustento da família. Em 1915, conseguiu seu primeiro emprego numa loja atacadista de Sapporo e, mesmo sob circunstâncias desfavoráveis aos estudos, continuava a estudar nas horas vagas. Dois anos depois, passou num exame que o capacitou para trabalhar como professor primário assistente. Na primeira escola em que trabalhou, Escola Primária Mayachi (Hokkaidô), Toda ficou menos de dois anos e, sem dar explicações, abandonou o emprego e se mudou para Tóquio, em março de 1920.
Os primeiros meses em Tóquio foram desanimadores e frustantes, como o de todo migrante, sobrevivendo inicialmente de trabalhos temporários. Nesta época, mudou o nome para Jôgai (literalmente, “fora do castelo”), significando uma pessoa sem um mestre, como um ronin (figura marcante no imaginário japonês, do samurai sem um lorde a quem prestar lealdade). Em agosto do mesmo ano, porém, Toda foi apresentado a Makiguchi, então diretor da Escola Primária Nishimachi. Makiguchi contratou o jovem, com quem manteve uma relação de mestre-discípulo por toda a vida. Esse vínculo foi
vital tanto para a criação da Sôka Gakkai quanto para sua reorganização no pós-guerra. No prefácio da edição original de seu Sôka Kyôikugaku Taikei, Makiguchi expressou a profundidade dos laços que o unia a Toda:
…muitos de meus colegas foram extremamente gentis e apoiaram meus esforços, consolando-me e encorajando-me, auxiliando na revisão do material e, de modo geral, ajudando a levar o projeto até onde chegou. Dentre eles, destaca-se o amigo íntimo de muitos anos, Jossei Toda. Toda assegurou um pouco dos fundos e esmerou-se em me convencer da importância de levar o projeto a cabo. Agora praticamente invertemos nossos papéis, pois sou eu quem freqüentemente o está estimulando. Toda tem sido uma luz singular na luta pelo desenvolvimento de uma pedagogia criadora de valores (Makiguti 1994: 13).
Toda ensinou na escola dirigida por Makiguchi somente até 1922, embora tenha mantido sempre uma estreita relação com seu mentor. Recém-casado, ele tentou a sorte em ocupações mais lucrativas: primeiramente trabalhou como vendedor de seguros de vida, depois abriu uma escola de reforço para estudantes primários, onde aplicava a pedagogia de Makiguchi. Posteriormente, fez fortuna publicando livros preparatórios para exames de admissão no ginásio. Em 1943, ano de seu aprisionamento, Toda controlava dezessete empresas e parecia estar mais interessado em seus negócios que em religião.
A morte de sua filha ainda bebê (1923) e da esposa (1925), por tuberculose, parece ter-lhe motivado a buscar uma fonte de orientação de vida nas religiões, incluindo o Cristianismo, e o fez seguir a decisão de Makiguchi, quando este se converteu ao Budismo de Nichiren (1928).
Sendo uma pessoa particularmente interessada no estudo da ciência e da matemática, Jôsei Toda achava difícil acreditar em algo que não fosse logicamente convincente. Por fim, ele disse ter encontrado um ensino “lógico” no Sutra de Lótus e nos escritos de Nichiren. É sabido, porém, que sua fé em Nichiren somente tomou um sentido profundo após ter passado por uma experiência mística na prisão (1944). Lá, ele iniciou a prática de recitar o daimoku (ou seja, a frase Nam-myôhô-renge-kyô), chegando a mais de dez mil por dia. Quando chegou à faixa dos dois milhões, ele teve uma “sensação
profundamente estranha”. Com o corpo tremendo de uma alegria extática e mística, Toda diz ter percebido “o verdadeiro sentido da vida”. Esta experiência religiosa, juntamente com o choque e a mágoa pela morte de Makiguchi, levaram Toda a fazer o juramento de dedicar sua vida à difusão do Budismo Nichiren.
Dos 21 líderes presos, somente Makiguchi, Toda e Shuhei Yajima não