kriminalitet
2.15 Dataskadeverk og driftshindring
Diferentemente de outros novos movimentos de leigos budistas como por exemplo, a Reiyûkai (lit., “Sociedade dos Amigos dos Espíritos”), a Sôka Gakkai esteve unida a uma seita tradicional, desde sua criação até 1991. Durante os mais de cinqüenta anos de relacionamento entre a Gakkai e a Nichiren Shôshû houve vantagens e interesses mútuos na relação de parceria.
Por um lado, o clero da Nichiren Shôshû fornecia aos membros da Gakkai rituais e réplicas do objeto sagrado (gohonzon). O sumo prelado tinha o poder para indicar o presidente da Sôka Gakkai e outros cargos administrativos de cúpula. Por outro lado, a Sôka Gakkai gozava de status legitimador através de sua associação a um grupo religioso estabelecido, que se dizia o autêntico sucessor de Nichiren. Com o rápido crescimento da Sôka Gakkai, ela apoiou financeiramente a Nichiren Shôshû e construiu centenas de templos no Japão e no exterior. Isso fez com que a Nichiren Shôshû prosperasse e passasse de um grupo religioso minoritário a uma organização internacional.
Em suma, havia uma relação de interesses mútuos e de interdependência, que incluía uma espécie de divisão de trabalho: a Sôka Gakkai era uma organização leiga de apoio aos templos da Nichiren Shôshû, enquanto que o sumo prelado tinha autoridade doutrinal (e, em parte, administrativa) sobre a Gakkai. Os leigos eram responsáveis por
religiões (comunicação pessoal, maio/2000).
assuntos seculares (campanhas de conversão nacionais e internacionais, atividades culturais e políticas, publicações, etc.), ao passo que o clero cuidava da parte doutrinária e ritual.
Entretanto, a relação da Gakkai com o clero se mostrou delicada, desde o começo, passando por eventuais conflitos públicos. O primeiro grande incidente ocorreu durante o período da II Grande Guerra, em que o governo japonês tentou cooptar todos os grupos sociais e religiosos para a causa imperial. Uma das medidas tomadas pelo governo foi a de estimular o credo xintoísta através da difusão de amuletos do Grande Santuário de Ise. Enquanto Makiguchi e Toda recusaram-se a aceitar o amuleto, o clero, para agradar as autoridades, não somente aceitou o amuleto como erigiu um santuário xintoísta no templo principal Taisekiji. Por essa atitude, Makiguchi e Toda foram presos em 1943, sendo que Makiguchi morreu na prisão no ano seguinte.
Em 1952, alguns anos depois de ser libertado da prisão, Toda visitou o templo Taisekiji acompanhado de quatro mil membros da Divisão de Jovens, incluindo Ikeda, que se tornaria depois o terceiro presidente da Gakkai. Eles levaram à força o monge octagenário Jimon Ogasawara até o túmulo de Makiguchi e o obrigaram, depois de alguns sopapos, a assinar um pedido de perdão por ter favorecido a política do governo de culto à deusa do Sol e de unificação das seitas do Budismo Nichiren.
Toda sentia que o clero, particularmente Ogasawara, era responsável pela repressão à Gakkai durante a guerra e pela morte de Makiguchi na prisão. Para ele, os líderes (leigos) da Gakkai estavam sendo mais fiéis ao espírito de Nichiren do que os próprios monges. O incidente não somente recebeu uma cobertura bastante desfavorável na imprensa, como também levou o sumo prelado da Nichiren Shôshû a repreender Toda publicamente e a ameaçá-lo de perda do posto de representante dos leigos da seita e do direito de visitar o templo principal (Murata 1971: 95-97).
Apesar desse incidente, Toda teve bastante êxito em cultivar uma relação harmoniosa com o clero da Nichiren Shôshû. Na gestão de Ikeda, não obstante a aparente harmonia, houve mais situações de atritos, sobretudo após a posse do atual sumo prelado Nikken Abe.
Em 1977, Ikeda publicou um livro (“A História do Budismo”), que acabou sendo recolhido em função dos protestos do prelado. Nele, Ikeda cita Nichiren e outros
falecidos sumos prelados para defender teses consideradas ofensivas e que passavam por cima da autoridade do clero, na opinião dos representantes da Nichiren Shôshû. Por exemplo, Ikeda afirmava que a Sôka Gakkai mantém atividades tanto de monges quanto de leigos, seus centros comunitários e de treinamento seriam “os templos dos dias de hoje” e seus membros, os “verdadeiros shukke ou monges da atualidade”. Criticando o espírito conservador e convencional das religiões estabelecidas, Ikeda sugere que a combinação do “novo tipo de organização” implementado pela Gakkai com a tradição da Nichiren Shôshû geraria uma religião verdadeiramente progressista e universal.
Para o clero, esta e outras publicações da Gakkai (como o romance “A Revolução Humana”) estavam-se tornando “o Gosho (Escrituras) da atualidade” de um novo e independente “Budismo Sôka” (Sôka-Buppô). Os monges criticavam a tentativa de se igualarem os templos às sedes da Gakkai, e a “deificação” de Ikeda por algumas lideranças da organização.13
Outro aspecto da discórdia nos anos 70 diz respeito ao kaidan (Salão Nacional de Culto). O objetivo último de Nichiren seria a conversão maciça dos japoneses seguida pela construção do kaidan, no sopé do Monte Fuji. Esta tarefa, no entanto, acabou sendo delegada a seus seguidores. Ao construir o Shôhondô, em 1972, no templo principal Taisekiji, a Sôka Gakkai procurou identificá-lo com o kaidan vislumbrado por Nichiren. Os elementos mais radicais e fundamentalistas da Nichiren Shôshû (como a organização leiga Myôshinkô, que foi posteriormente excomungada pela Nichiren Shôshû, em 1974) criticaram ostensivamente aquela alegação.
Em meio à desconfiança e ao ciúme do clero da Nichiren Shôshû frente ao sucesso da Gakkai e ao poder de Ikeda, e devido à dissensão interna de sua própria organização, Ikeda renunciou ao cargo de presidente da Sôka Gakkai no dia 24 de abril de 1979. Sintomaticamente, e refletindo o clima anterior à renúncia, a revista Terceira Civilização de março/79 publicou diversos artigos enfatizando a harmonia entre leigos e clero, tanto no Japão quanto no Brasil:
13
O culto a fundadores e líderes religiosos no Japão é algo bastante recorrente. Portanto, não é de se admirar que houvesse membros da Gakkai que deificassem Toda ou Ikeda. Algumas lideranças da Gakkai (como, por exemplo, o ex-vice-presidente Genjirô Fukushima) chegaram a propor a teoria segundo a qual
… como adeptos da Nitiren Shoshu, os membros da NSB [Nitiren Shoshu do Brasil] devem freqüentar o Templo Kaisenzan Itijoji [em São Paulo] mantendo distinto respeito ao senhor reverendo (“Confirmados os pontos básicos da eterna unidade clero-adeptos”, Terceira Civilização no. 127, p. 10).
De fato, nestes últimos anos, ocorreram vários pontos que se divergiram [sic] entre o Clero e a Gakkai, criando-se inclusive muitas polêmicas. (…) Felizmente, a Gakkai reconheceu esses pontos e, para o aprimoramento daqui para frente, refletiu sinceramente e tomou a decisão de corrigir clara e devidamente os pontos em questão (Nittatsu Shonin, “Preleção do Sumo-Prelado Nittatsu Shonin”, idem, p. 11).
A Soka Gakkai estabeleceu-se juridicamente em 1952. Naquela ocasião, o Clero recomendou a obediência aos seguintes três regulamentos básicos: 1) Todos os convertidos devem ser agregados como adeptos dos respectivos templos; 2) Seguir a doutrina ortodoxa da Nitiren Shoshu; e 3) Proteger os Três Tesouros: o Buda, a Lei e o Bonzo.
(…) Entretanto, analisando agora a correnteza destes últimos anos, por perseguir demasiadamente a autonomia e posicionamento social da Soka Gakkai, criou-se internamente uma tendência de enfraquecimento com relação à premissa e ao princípio de que a Soka Gakkai é uma entidade de leigos da Nitiren Shoshu, o mesmo acontecendo com a consciência em relação à doutrina ortodoxa (diretor geral da Sôka Gakkai, Hiroshi Hojo, “Novo avanço em direção à harmonia Clero-adeptos: corrigir os excessos e respeitar os três regulamentos básicos”, idem, p. 15).
Percebia-se, dos dois lados, um descompasso entre a origem, os propósitos e as atividades das duas instituições. Por conta disso, não era de surpreender que os conflitos persistissem e, eventualmente, conduzissem a um cisma.
De fato, os atritos continuaram, apesar da aparente harmonia, até que a Nichiren Shôshû trouxe a público uma fita contendo o discurso de Daisaku Ikeda, do dia 16 de novembro de 1990, no qual ele teria insultado o clero e, particularmente, questionado a integridade e os dogmas do sumo prelado Nikken. No dia 27 de dezembro de 1990,
“Ikeda é o verdadeiro Buda” ou “o Mestre da eternidade” (Metraux 1980: 58; Wilson & Dobbelaere 1994: 236). Sobre este e outros pontos de discórdia doutrinária, veja Terceira Civilização no. 127, pp. 19-24.
seguindo-se a uma série de ameaças e disputas públicas, o Conselho da Nichiren Shôshû (shûkai) destituiu Ikeda e outros líderes da Sôka Gakkai de seus postos de liderança das organizações de leigos da Nichiren Shôshû (sôkôto) e de representantes leigos veteranos junto ao Conselho (daikôto).
A crise prosseguiu ao longo de todo o ano seguinte até chegar ao ponto do prelado enviar uma ordem de dissolução da Sôka Gakkai, no dia 8 de novembro de 1991. No final do mesmo mês, o sumo-prelado Nikken excomungou a Sôka Gakkai e conclamou seus membros a se desligarem da organização e a se manterem fiéis aos templos da seita. As acusações mútuas principais envolvem acusações de ordem financeira, de abuso de autoridade, de desvio doutrinário e de integridade moral dos líderes de ambas as partes.
Entre as várias acusações da Nichiren Shôshû contra a Sôka Gakkai podemos citar: ataque e subversão da autoridade eclesiástica ao declarar a igualdade entre os leigos e o clero; evasão de impostos e práticas financeiras questionáveis; busca de Ikeda em ocupar o posto de autoridade administrativa e doutrinária para os membros da Gakkai, mostrando assim sua feição ditatorial e ávida pelo poder; alteração do ensinamento ortodoxo de Nichiren, por parte de Ikeda, com vistas a criar “sua própria religião Soka” (às vezes, usa-se o termo pejorativo “seita Ikeda” ou “Ikedismo”). Ao criar o partido político Kômeitô, a Gakkai teria comprometido os ensinamentos de Nichiren e se envolvido em inúmeros escândalos; etc. Em suas publicações e páginas da internet, abundam críticas e denúncias, apelando para a heresia da Gakkai e a legitimidade da tradição perpetuada através do sumo prelado:
A Soka Gakkai, uma associação de adeptos, não pode ser a base para o Budismo de Nitiren Daishonin. Isto está de acordo com as próprias palavras do presidente Ikeda da SGI. No passado, ele deu diversas orientações que explanaram corretamente as bases verdadeiras da fé.
Em outras épocas, suas idéias estiveram tão diferentes dos verdadeiros ensinos do Budismo de Nitiren Daishonin, que deu a impressão que a sua ambição era a de fundar a sua própria religião “Soka”. Contudo, o único obstáculo que sempre esteve em seu caminho foi o Gohonzon.
A Soka Gakkai alega possuir o “Budismo de Nitiren Daishonin,” mas o Gohonzon, práticas da Fé e ensinos da Soka Gakkai são todos imitações da Nitiren Shoshu (Mandala… s.d.).
Se alguém copia dinheiro ilegalmente, é uma falsificação. Mesmo que a cópia se pareça com o dinheiro não possui o valor daquele. O “Honzon” da Soka Gakkai é uma imitação feita sem as qualificações necessárias para dotá-lo da vida iluminada do Buda Original, Nitiren Daishonin. Mesmo que se pareça com o Gohonzon, é uma falsificação. Não possui o poder para fazer surgir em qualquer pessoa a sua natureza de Buda. Não passa de uma cópia feita com uma máquina copiadora (ibidem).
No Brasil, a Nichiren Shôshû manteve os monges no Templo Itijoji (São Paulo), que ficaram responsáveis por organizar o movimento dos dantô (fiéis ou “paroquianos”). Assim, a seita permaneceu ativa através da organização de leigos Associação Religiosa Hokkekô do Brasil, que promove campanhas de “shakubuku e reshakubuku”, ou seja, conversão de novos membros e “re-conversão” dos antigos fiéis que se desligaram do movimento ou que mantiveram lealdade à Sôka Gakkai.
Por sua vez, a Sôka Gakkai montou o “Comitê Renascença” ou “Movimento da Renascença Soka”, para “neutralizar as ações maléficas da Seita Nikken14” ou dos dantô (Conselho… 1998: “Movimento da Renascença Soka”). No Brasil, esse Comitê tem como objetivo: “contestar os argumentos dos dantôs; prestar informações sobre a seita Nikken; e proteger os membros da BSGI das influências negativas” (ibidem). Ele é composto por representantes das quatro divisões e, no caso da Coordenadoria das Regiões Estaduais, é dirigido pelas lideranças da Divisão das Senhoras (como me disse um membro, porque “a DS tem uma dinâmica interna mais forte”).
Todos os líderes da Gakkai procuram rebater as críticas e desqualificar abertamente o 67o. sumo prelado Nikken Abe como uma pessoa degenerada, pervertida,
decadente, herética, ingrata, que se aproveitou dos membros da Gakkai e depois os “descartou sumariamente”. Freqüentemente, os membros da SGI (de qualquer parte do globo) soltam declarações e publicações sobre os “abusos” do clero da Nichiren Shôshû, com denúncias sobre: festas orgiásticas, amantes e prostitutas, envolvimento com
cinematografia pornográfica, associação a clubes privados e caríssimos de golfe, discriminação dos monges por linhagens familiares, exploração financeira dos leigos (sobretudo através de rituais fúnebres e memoriais), etc.
Nós construímos aproximadamente 356 templos locais e os oferecemos à Nitiren Shoshu. Doamos também uma imensa quantidade de terrenos.
Além disso, realizamos infindáveis oferecimentos. No entanto, em contraste total a Nitiren Daishonin, Nikken simplesmente tomou tudo o que podia e então nos descartou sumariamente. E se ousamos protestar, aos gritos diz que estamos caluniando a Lei! A seita Nikken está tão afastada do Caminho que se tornou uma seita herética de caluniadores da Lei (Ikeda 1994b: 8).
Fora a Soka Gakkai, onde na presente era temos visto o surgimento real de Bodhisattvas da Terra tão numerosos quanto as areias de sessenta mil rios Ganges? (…)
Devemos refutar totalmente e derrotar esses clérigos impostores que estão planejando uma peregrinação geral de “sessenta mil adeptos”, abusando da denominação “jiyu” [como em jiyu no bosatsu ou “Bodhisattvas da Terra”] (ibidem: 77).
O próprio Nikken é o “Buda-demônio que surgiu após o falecimento do Buda”. Ele é uma grande maldade. Não devemos de forma alguma expor a nossa defesa ao perigo ou afrouxá-la (ibidem: 79).
Ikeda e a SGI usam freqüentemente o termo “Renascença Soka” quase como sinônimo de “reforma”. Desde o começo da peleja com a Nichiren Shôshû, os líderes da SGI fizeram aproximações entre este conflito e a Reforma Protestante européia, do século XVI. Vários acadêmicos também procuraram interpretar essa ruptura no Budismo Nichiren, comparando-a com a Reforma Protestante (Nakano, Ikado e Tamaru 1992; Metraux 1992; Wilson & Dobbelaere 1994; Seager 1999)15. O cerne dos argumentos é a autoridade religiosa: a autoridade religiosa provém da fé e vivência individual dos ensinamentos, ou deve depender somente de um clero tradicional, de suas funções rituais e interpretações das escrituras?
14
Num contexto de guerra de palavras, assim como a Nichiren Shôshû acusa Ikeda de estar criando uma “religião Soka” ou uma “seita Ikeda”, a Sôka Gakkai também acusa o 67o. sumo prelado Nikken Abe de estar criando sua “seita Nikken”.
15
A abordagem do Budismo a partir de um referencial comparativo protestante não é algo incomum, como informa Martin Baumann (1994:52).