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Uma vez que a escritura sagrada dos nichirenistas é o Sutra de Lótus (Saddharma Pundarika-sutra, em sânscrito; e Hokkekyô, em japonês), torna-se importante mapear sua difusão e influência na história religiosa do Japão.

Segundo a etimologia apresentada por Murata (1971: 24), o prefixo sat (sad) é o particípio presente do verbo “existir”, mas também é usado no sentido de “presente”, “existência”, “verdadeiro”, “maravilhoso”, “correto” ou “superior”; dharma significa “lei” ou “ensinamento”. Duas traduções do termo Saddharma chegaram ao Japão, através do idioma chinês: myôhô (miao fa, em chinês), escrito com dois ideogramas significando “maravilhosa” e “lei”; e shôhô (sheng fa, em chinês), “lei correta”. Como pundarika quer dizer “lótus branco”, saddharma pundarika pode ser traduzida como “a lei correta que é como o lótus branco”.

O lótus é um importante símbolo budista da pureza e da verdadeira natureza dos seres, que permanecem incólumes à “lama” (impureza) do mundo, ao ciclo sucessivo de renascimentos (samsâra), à ignorância. No Budismo Nichiren há uma ênfase particular no lótus, a começar pelo nome de Nichiren, que se escreve com dois ideogramas significando sol (nichi) e lótus (ren). Uma das principais publicações da Sôka Gakkai é a revista Daibyakurenge (Desabrochar do Grande Lótus Branco).

O Sutra de Lótus é um dos mais importantes e influentes entre os sutras ou escrituras sagradas do Budismo Mahayana. Ele foi também o primeiro sutra a ser traduzido em língua ocidental, pelo francês Emile Louis Burnouf5 (1821-44), e publicado postumamente em 1852. Não se sabe exatamente onde, quando e por quem este sutra foi escrito originalmente. Estima-se que tenha sido reescrito por várias pessoas, entre os anos 40 e 220 d.C.; por isso nem sempre tem um estilo consistente. Provavelmente, seu esboço original tenha sido escrito num dialeto da Índia ou da Ásia Central e traduzido depois para o sânscrito, com o propósito de conferir-lhe maior respeitabilidade (Watson 1993:ix; Murata 1971: 24-25). Há seis traduções chinesas desse Sutra, das quais apenas três são hoje disponíveis. Entre todas as traduções chinesas que chegaram ao Japão, Nichiren

5 Enquanto Murata (1971: 25) menciona o nome “Emile Louis Burnouf”, Saunders (1980: 41) diz tratar-se

elegeu a tradução livre do monge sino-indiano Kumarajiva (ou Kumaraju, em japonês; 350-409).6

O Sutra de Lótus tem 27 capítulos (28, na versão chinesa, que foi acrescida por um capítulo descoberto por Fa-hsien) e contém algumas das mais famosas parábolas da literatura budista.

Nesse sutra, o Buda Shakyamuni faz pregações diante de uma multidão inumerável de seres, no Pico do Abutre (ou da Águia, segundo a tradução de Kumarajiva). Ele glorifica as proezas e os poderes sobrenaturais do Buda, por meio de alegorias míticas, parábolas e versos. Há referências a incontáveis miríades de bodhisattvas, milhares de mundos, um passado infinito, eventos que se passam em um mundo cósmico de dimensões vastíssimas, refletindo por vezes a visão indiana tradicional da estrutura do universo7. O sutra ainda enfatiza a importância da fé no caminho da liberação, que, como resultado dessa fé, pode contar com a ajuda dos Budas e bodhisattvas (essa revelação é o fundamento para o culto Mahayana dessas entidades). O Buda é apresentado como um ser imortal, idealizado, uma manifestação do absoluto, da essência do universo. Todo ser pode se tornar um buda, ou seja, pode despertar para sua natureza verdadeira, eterna e imutável, na medida em que participa desta natureza transcendental do Buda (busshô).

Uma das características desse sutra é a ênfase dada a sua supremacia sobre os demais sutras, por ser a essência do ensinamento do Buda histórico. Além disso, ele assegura àqueles que a ele se apegarem, infinitos benefícios espirituais e materiais, até mesmo a obtenção do estado de buda. Por outro lado, há uma dupla advertência: os fiéis

6 Entre as várias traduções inglesas que existem atualmente, a de Burton Watson (1993) contou com o

patrocínio da Sôka Gakkai. A BSGI está atualmente fazendo a tradução portuguesa do Sutra de Lótus a partir da versão inglesa de Watson.

7 A cosmologia budista descreve o mundo em que vivemos como sendo composto por quatro continentes

alinhados ao redor do Monte Sumeru. Nós, seres humanos, viveríamos no continente ao sul, chamado Jambudvipa ou o “continente das árvores jambu”. Haveria ainda incontáveis mundos, em todas as direções, que, como o nosso mundo presente, estão submetidos a um ciclo infindável de formação, manutenção, declínio e desintegração. Nosso mundo presente possuiría seis categorias ou reinos de existência de seres vivos comuns, dispostos na seguinte hierarquia ascendente: habitantes do inferno; espíritos famintos; bestas ou seres de natureza animal; asuras ou demônios; seres humanos; seres celestiais ou deuses. Além desses seis mundos ou níveis inferiores, o Budismo Mahayana adiciona quatro “estados sagrados”: shravakas ou ouvintes de vozes; pratyekabuddhas ou seres que atingiram a iluminação por esforço próprio, mas que não se preocupam em ajudar os outros no caminho da iluminação; bodhisattvas, seres avançados que, ainda na condição de humanos, buscaram a iluminação espiritual não somente para si, mas também para os outros;

serão perseguidos ao tentarem propagá-lo; e aqueles que não o propagarem ou que perseguirem os fiéis estarão sujeitos à punição divina. Esta característica conduz a outra: a grande capacidade de arregimentação deste sutra, que tem despertado seguidores extremamente fervorosos, alguns beirando o fanatismo.8

Na história de quase 1500 anos do Budismo no Japão, o Sutra de Lótus sempre teve um apelo marcante, um lugar central de honra e amplo reconhecimento. Narrativas tradicionais nos informam que, poucas décadas após a introdução do Budismo neste país, o Príncipe Shôtoku (574-622) teria estudado e escrito comentários sobre alguns sutras, entre os quais o de Lótus. Embora haja controvérsia se Shôtoku teria realmente feito comentário sobre o Sutra de Lótus, o interessante é essa associação do sutra com uma figura de grande destaque na história do Budismo japonês, tido por muitos como o “patrono” ou mesmo o “fundador” do Budismo no país. Shôtoku era sobrinho e regente da imperadora Suiko e, nessa posição, lançou mão do Budismo (para os assuntos religiosos) e do Confucionismo (para os assuntos seculares) ao redigir a Constituição dos Dezessete Artigos (Jûshichijô no kempô). Sua principal missão histórica seria a de criar um estado unificado no contexto de uma sociedade essencialmente tribal ou clânica, dividida por forte regionalismo.

Séculos depois, o Sutra de Lótus entrou novamente em evidência quando o monge Saichô (767-822) introduziu no Japão, em 807, a escola budista Tendai (correspondente japonês para Tien-t’ai, seita chinesa fundada pelo terceiro patriarca, Tient’ai ou Chih-I, 538-597). Como a escritura sagrada principal desta escola é o Sutra de Lótus, ela também é conhecida por Hokke-shû ou Seita do Lótus.9 Em 804, Saichô (cujo nome póstumo é Dengyô Daishi) foi enviado à China, onde estudou os ensinamentos Tendai, Shingon e Zen por um ano. De volta ao Japão, estabeleceu-se no Monte Hiei, próximo à capital

por fim, Buddhas, estado a que todos os seres vivos deveriam almejar (Watson 1993: xiii-xiv; veja também Sadakata 1997).

8 Sabe-se que, na China antiga, alguns devotos lançaram fogo em seus corpos como prova de fé, ao fazerem

uma leitura literal de trechos do Sutra do Lótus (Murata 1971: 28).

9 Dois outros sutras também foram adotados na seita Tien-t’ai: Nirvana-sutra e Parinirvana-sutra.

Entretanto, é preciso dizer que a versão japonesa Tendai colocava ênfase no ecletismo, aceitando todas as escrituras como uma espécie de revelação progressiva da Verdade e tentando encaixar as doutrinas de todas as escolas precedentes dentro de seu ensinamento (por exemplo, diferindo da matriz chinesa, a Tendai incorporou a meditação zen e práticas do Budismo tântrico). Esse ecletismo da Tendai nipônica resultou no fato de que as escolas que surgiram posteriormente no Japão estão, de uma forma ou de outra, ligadas a ela: Amidismo, Zen e Nichirenismo (Saunders 1980: 138-39; Tamaru 1987: 56).

Heian (Quioto), onde fundou um complexo de monastérios que se tornou um centro nacional de aprendizado e cultura (para se ter idéia de sua importância, em 1571, era composto de aproximadamente três mil edificações). Seus discípulos passavam por um austero treinamento de doze anos de reclusão no Monte Hiei; entre outras coisas, esses monges faziam o voto de estudo ininterrupto do Sutra de Lótus, escrito por Saichô.

Não obstante os precedentes de destaque, talvez se possa dizer que o maior devoto desse sutra tenha sido o monge Nichiren (1222-1282) 10, pela radicalidade e exclusivismo com que o defendeu, propagou e popularizou. Para ele, o Sutra de Lótus ensinamento final e supremo de Shakyamuni é a chave de tudo, por revelar o único caminho possível de salvação nos “Últimos Dias da Lei”.

Como o Budismo Hinayana estava centrado na vida monástica, Nichiren identificava-se com a corrente Mahayana (como o faz a parcela majoritária dos japoneses). Entretanto, ele distinguia o Budismo Mahayana “Provisório” segundo ele, ensino que prega a inevitabilidade do sofrimento, a possibilidade da iluminação búdica apenas na próxima existência e/ou a identificação do Nirvana com um mundo ideal, fora da Terra do que ele considerava o “Verdadeiro” ou do Sutra de Lótus, que ensina “que as pessoas não mais necessitavam extinguir os seus desejos ou renascer em uma outra existência e que podiam alcançar o estado de Buda na existência presente com a sua fé no Sutra de Lótus” (Ikeda et alii 1998: 127).

A tradição Nichiren ainda distingue, dentro do Sutra de Lótus, o “ensino teórico” ou shakumon (shaku, “sombra”; mon, “portal”) que “ensina que todas as pessoas podem atingir a iluminação” e o “ensino essencial/verdadeiro” ou honmon (hon, “corpo substancial”; mon, “portal”) que “ensina que todas as pessoas são originalmente budas e que, através da prática budista, podem evidenciar esse estado” (Terceira Civilização no. 315, p. 27).

10 Pode-se encontrar alguns paralelos e pontos de confluência entre Saichô e Nichiren. Em primeiro lugar,

Saichô introduziu formalmente no Japão a escola budista Tendai, na qual Nichiren recebeu treinamento. Em segundo lugar, o pendor nacionalista de ambos é patente. Saichô escreveu o tratado “A Defesa do País” (Shugo Kokka-shô) e seus monastérios eram tidos como “Centros para a Proteção do País”. Um dos principais tratados de Nichiren é o Risshô Ankoku-ron (“A Pacificação do País por meio da Propagação do Verdadeiro Budismo”). Ele também vislumbrava a “união ideal do rei com o Budismo” (ôbutsu myôgô).

Os ensinos anteriores ao Sutra de Lótus são, desta forma, chamados provisórios. Eles são comparados a um andaime que é retirado depois que uma construção é concluída. Do mesmo modo, os ensinos provisórios devem ser descartados após ser esclarecido o Sutra de Lótus. (…)

Quais são as características notáveis do Sutra de Lótus, comparadas com as dos sutras anteriores? São a igualdade de toda a humanidade e a eternidade da vida, entre outras. O Sutra de Lótus atribui igualmente a vida do Buda para toda a humanidade. Na realidade, os discípulos de Sakyamuni, ouvindo o Sutra de Lótus, alcançaram o estado de Buda, a mesma felicidade atingida por seu mestre (ibidem, idem).

Nichiren é o fundador da “Escola Nichiren” do Budismo japonês e um dos líderes da onda reformista do Budismo do Período Kamakura (1185-1333). Para a Sôka Gakkai e a Nichiren Shôshû, ele é mais do que um profeta, mestre, fundador ou bodhisattva: é o verdadeiro e eterno Buda. Voltarei a discorrer sobre ele no tópico 3.4.