A poesia é a religião original da humanidade, a única forma de religião que nos resta (NOVALIS24) Observemos o mundo hoje, a situação em que se encontram a sociedade, as pessoas, e pensemos em Heidegger e na pergunta de Hölderlin25: “[...] Et pourquoi des
23 Profane: início séc. XIII; estranho à religião; 1501 Cohen, sacrilégio; Lat.
Profanus “hors du temple” fanum: temple (Dectionnaire D’étimologie, France, 2001).
poètes en temps de détresse?” O tempo não significa a era, o século, mas o tempo em
que se está no mundo. Existe razão e lugar para a poesia e o poeta nesta era? Segundo Heidegger, com a morte dos deuses, o mundo entrou na escuridão; após a morte de Cristo, passou, então, à escuridão completa. Eis a razão das angústias, da violência e de todos os males do ser humano. Podemos também fazer a mesma pergunta; levando, porém, em consideração os contextos diferentes, a origem das angústias, da violência e das insatisfações seria outra. Naquele tempo de guerra, a opressão tinha outro nome: o extermínio de etnias, raças; era a preparação da Segunda Guerra Mundial. Hoje, é a globalização, o consumo desenfreado, a busca pela felicidade, pela beleza, pelo melhor carro, pelo último lançamento do celular, dos aparelhos eletrônicos, pelas vestes da marca mais cara; tudo para estar de acordo com os padrões da sociedade, status é a palavra.
O homem contemporâneo sente-se, às vezes, perdido. Que caminho tomar? O que buscar? O homem contemporâneo tem muitas religiões à sua disposição, pode escolher; muitas vezes até tem mais de uma, isto nos leva a inferir que não lhe falta religião; falta-lhe, sim, espiritualidade. As novas religiões, os novos tipos de diversão, os novos prazeres são tentativas de preencher o vazio que lhe assalta, mas não sabe de onde vem, por que existe, ou como extingui-lo. A eterna busca do elo perdido, a busca pelo divino, do qual se afastou o homem com o evoluir da humanidade.
Heidegger nos diz:
A noite do mundo estende a sua escuridão. Esta era do mundo caracteriza-se pela ausência de Deus, pela ‘falta de Deus’. A falta de Deus significa que já não existe um Deus que reúne em si, visível e univocamente, as pessoas e as coisas e que, com base nessa reunião, articule a história do mundo e a estância humana nessa história. Não só se foram os deuses e Deus como também se apagaram na história do mundo o fulgor da divindade. O tempo da noite do mundo é o tempo indigente, porque se tornará tão indigente que já nem é capaz de notar que a falta de Deus é uma falta. (2012, p. 309).
Os deuses morreram; somente em algumas civilizações, naquelas mais antigas, continuam vivos e sagrados; reverenciados e revividos nos rituais. Se os deuses morreram, deixaram-nos discípulos: os poetas e as crianças; estas para nos mostrar como devemos ser e viver, conhecer e agir; os poetas para não esquecermos que
ainda é possível viver em paz e harmonia; que o amor ainda é possível e o mundo, melhor. Os deuses morreram, mas nos deixaram os poetas, luzes na escuridão, seres que, ultrapassando a barreira da linguagem, com o seu falar genuíno fazem pensar; e, porque falam, quem os ouve, ao pensar, os sente e sente aquilo que eles pensaram e sentiram ao dizer. Esse é o processo que leva à transformação. Vejamos a reação do carteiro Mário26, quando entendeu o que era metáfora, ao ter o contato com a poesia do poeta. Conta-nos o narrador que ele voltou para a cidade e, contornando o mar,
Mário levou a mão ao coração e quis controlar um palpitar desaforado que lhe havia subido até a língua e que lutava por estalar entre seus dentes. (idem, p. 24) [...] Tudo o que no mar era eloquência, nele foi mudez. Uma afonia tão enérgica que, em comparação, até as pedras lhe pareciam tagarelas. (idem, p. 25)
Dissemos que os poetas são os discípulos dos deuses; Sócrates, que os poetas são os ‘mensageiros dos deuses’ e, ao referir-se a Homero, o fez como “o melhor e o mais divino de todos” (PLATÃO, 2010, p. 222). Ion, intérprete de Homero, dizia que o poeta era diferente de todos os outros, embora tivessem os mesmos assuntos, ou seja, “a guerra, as relações sociais entre seres humanos bons e maus, indivíduos ordinários e profissionais, as relações entretidas pelos deuses entre si e entretidas com os seres humanos, os acontecimentos celestes e do Hades, as gêneses dos deuses e dos heróis” (idem, p. 224). Mas, se todos os poetas falam dos mesmos assuntos, o que difere, então, um do outro? Por que Homero tocava Ion enquanto outros o faziam dormir? Todos os poetas falam da mesma maneira? Sócrates pergunta:
Sócrates: E achas que Homero e os outros poetas, especialmente Hesíodo e Arquíloco, abordam as mesmas matérias, mas não da mesma maneira, ou seja, o primeiro é bom, e os outros são piores?
Ion: E o que digo é verdadeiro. (p. 225) [...]
Ion: Mas então como explicar, Sócrates, o que ocorre a mim? Quando alguém se ocupa de algum outro poeta, isso não atrai minha atenção, e me mostro incapaz de contribuir com qualquer coisa que valha a pena, limitando-me a cochilar. Entretanto, basta que alguém mencione Homero e eis que desperto, com o espírito atento, e a ele acudindo muitas ideias.
Sócrates: Ora, não é difícil atinar o porquê disso, meu amigo. Está claro para todos que és incapaz de discorrer sobre Homero com base numa arte e numa ciência. De fato, se tua habilidade fosse oriunda de uma arte, terias também habilidade para discorrer a respeito de todos os outros poetas, sem excetuar um único deles. Bem, existe uma arte da poesia em geral, não é mesmo? (p. 226)
[...]
Ion: Vejo-me impossibilitado de me opor a ti nessa questão, Sócrates, mas tenho consciência de que discorro melhor do que qualquer pessoa sobre Homero; tenho muitíssimo a dizer a todos que reconhecem meu talento no discursar, enquanto no que toca a outros [poetas], minha capacidade é nula. Resta examinares o que isso significa. (p. 228)
Sócrates explica-lhe o significado, dizendo que o dom de discorrer bem sobre Homero não é uma arte, mas um poder divino que o move. Em seguida, diz-lhe que “a musa 27(poesia) produz ela própria inspirados, e, por meio desses inspirados, é formada
uma corrente de outros entusiastas” (idem, p. 229). Conforme as palavras do filósofo, o poeta é algo leve, alado, sagrado por um deus, não estando em condições de criar antes de ser inspirado por um deus, pôr-se fora de si e não contar mais com seu juízo.
[...] não é em virtude de uma arte que criam a obra de poetas dizendo tantas belas coisas sobre os temas que exploram, mas devido a um poder divino, cada um deles individualmente só é capaz de compor admiravelmente naquele gênero em que é impulsionado pela musa [...] (idem, pp. 229-230).
Para Heidegger, les poètes sont ceux des mortels qui, chantant gravement le
dieu du vin, ressentent la trace des dieux enfuis, restent sur cette trace, et tracent ainsi aux mortels, leurs frères, le chemin du revirement28 (2012, pp. 326-327). E qual é o traço desses deuses? Heidegger nos responde: “Le sacré, voilà la trace des dieux
enfuis”29, pois que “l’élément de l’éther, ce en quoi la divinité elle même deploi sa présence, est le sacré”30 e isso constitui sua divindade.
A partir das colocações de Sócrates e Heidegger, podemos inferir o que diferencia o verdadeiro poeta do outro, o mercador. Não basta ter domínio da palavra; não basta dominar a arte de fazer versos; para ser poeta, há de ser inspirado; estar em
27 Destaque nosso.
28 Os poetas são aqueles mortais que cantam fortemente o deus do vinho, seguem o traço deixado pelos
deuses desaparecidos, permanecem nesse traço, e indicam, assim, aos mortais, seus amigos, o caminho da mudança. (Tradução nossa)
29 O sagrado, eis o traço dos deuses desaparecidos. (Tradução nossa)
estado poético, fora de si, em estado de êxtase; deixar-se guiar pela musa, pelo divino e cantar, com sua forma única, inimitável. Contrário ao poeta, o outro emprega a palavra, usa a arte da palavra para promoção pessoal; a palavra tem utilidade prática ou, quem sabe, usa-a como meio de subsistência, pois espera da poesia um resultado.
Consideramos relevante citar, aqui, as palavras de Paracelso31 (apud JUNG, 1991, p. 26), ao se referir a uma das artes humanas, a Medicina, porque podem, muito bem, ser adequadas a todas as artes e, principalmente, neste caso, quando falamos da linguagem do poeta e a linguagem do comerciante. Ele disse: “Onde não existir amor não haverá arte”, pois “o exercício desta arte está no coração: sendo teu coração falso, também será falso o médico dentro de ti”. Eis, portanto, a razão pela qual Ion encantava-se com a poesia de Homero, falava divinamente sobre o poeta, enquanto sobre outros não conseguia fazê-lo.
Heidegger nos fala dos deuses desaparecidos. Eis uma pergunta que, seguidamente, nos pede uma reflexão, senão uma resposta: Seria possível que os deuses retornassem? Segundo Heidegger, sim, porém “os deuses que outrora resistiram, apenas ‘regressam’ no tempo certo, nomeadamente quando se tiver dado, com os homens, uma viragem no lugar certo do modo certo”. Acreditamos, porém, que nunca se foram; apenas se afastaram, porque o homem os deixou de lado; porque não encontram lugar neste mundo em que predomina a consciência racional.
O homem é racional, pensa e vive ciência e seus benefícios; é escravo da ciência e suas tecnologias; esquece, porém que “a ciência sem consciência é a ruína da alma” (RABELAIS, 1494-1553). É preciso outra consciência, a consciência ética; é preciso unir conhecimento e consciência; dar significação ao conhecimento. Nietzsche, na obra Vontade e poder, disse que “[...] só se torna mais distinto aquilo que antes se tornou mais significativo. Significativo é aquilo que se aproxima de nós na sua essência” (apud HEIDEGGER, 2012, p. 216).
Comte-Sponville, (apud NAGEL, 2004, contracapa) diz: “Nós somos prisioneiros do futuro e de nossos sonhos: de tanto esperar amanhãs que cantem, perdemos o único caminho real, que é o de hoje. No entanto, é preciso viver e lutar: partir para o
31 (1493-1541). Paracelso, pseudônimo de Phillipus Theophrastus Bombastus Von Hohenhem, médico,
assalto ao céu, mesmo que esse céu não exista. Precisamos inventar uma sabedoria para o nosso tempo”.
Essa sabedoria é aquela dos povos poéticos, chamados primitivos, sobre os quais Morin (2008, pp. 168-170) afirma que se moviam em dois “pensamentos, complementares”, sem os confundir; um pensamento racional e outro mitológico, vistos por alguns antropólogos como “infantis”. São dois modos relacionados, “imbricados” de tal forma que um não anula o outro; “modos de conhecimento e de ação; um simbólico/mitológico/mágico, o outro empírico/técnico/racional”. Esses dois modos de ação, ligados ao pensamento, formavam o pensamento das sociedades “arcaicas”, o pensamento duplo ou “unidual”. Diz-nos, o filósofo, que o pensamento
constitui o modo superior das atividades organizadoras do espírito que, na, por e através da linguagem, constitui a sua concepção do real e do mundo [...] O espírito humano mora na linguagem, vive da linguagem e alimenta-se de representações. (idem, p. 171)
E mais: o “mito é inseparável da linguagem e, como o Logos, Mitos significa discurso [...] nascem juntos, da linguagem”; portanto a ruptura entre os dois é nociva à humanidade, pois “toda renúncia ao conhecimento (logos) empírico/técnico/racional conduziria os humanos à morte; toda renúncia às suas crenças fundamentais (Mitos) desintegraria a sociedade de que fazem parte” (MORIN, 2008, p. 171).
Contrários ao pensamento de Comte-Sponville, acreditamos que não seja preciso inventar uma sabedoria; mas retomar, tornar real a possibilidade de viver, harmonicamente, os dois estados de ação humana, o real e o mitológico; religar pensamento e conhecimento, o Mitos e o Logos; deixar que (re)habitem em nós as duas linguagens, a prosaica e a poética. E a poesia, segundo Dravet (2014, p. 107), é o “instrumento da religação com o todo, o poético é o operador cognitivo da totalidade”, pois que “o poético reúne o que está fragmentado, interconecta o que se encontra desconexo, religa o que se encontra desligado”.
Nessa religação, consistiria, sim, a sabedoria do homem contemporâneo, pois “a linguagem é a morada do ser e em sua casa habita o homem” e “os pensadores e os poetas são os guardiães dessa casa” 32 (JUARROZ, 2000, p. 15).