• No results found

Delegasjonsavtalen

Em um conceito muito simples, podemos dizer que linguagem é a capacidade do ser humano de se fazer entender, de comunicação e, por comunicação, em princípio, e por origem do termo, entende-se “tornar comum”. Seria essa a capacidade que difere o homem dos outros seres da natureza; só o homem é capaz de, pelo uso da linguagem, comunicar-se; para isso cria e recria códigos e formas quando pela palavra, oral ou escrita, não entende ou não se faz entender. O professor de línguas aprende e acredita que o homem é incapaz de viver sem se comunicar; é uma necessidade; entretanto, nesse ato, nem sempre está presente o falar, visto que até o silêncio é uma forma de comunicar agrado ou desagrado, alegria ou tristeza, raiva, revolta ou, simplesmente o consentimento de algo. Sob essa visão, deduz-se que sempre haverá comunicação.

Na introdução da obra Pragmática da comunicação humana (WATZLAWICK, 2007, p. 13), o autor se refere à comunicação como “uma condição sine qua non da vida humana e da ordem social”. Coloca-se ele, a esse respeito, afirmando que:

[...] desde o início da sua existência, um ser humano está envolvido no complexo processo de aquisição das regras de comunicação, apenas com uma noção mínima daquilo em que consiste esse corpo de regras, esse calculus da comunicação humana.

Lucien Sfez, em A comunicação (1991, p. 73), sob a ótica da Escola de Palo Alto, manifesta-se ao dizer que

20 Nomear um objeto é suprimir três quartos do prazer do poema que é feito da felicidade de adivinhar,

pouco a pouco; o sugerir, eis o sonho. É o perfeito uso do mistério que constitui o símbolo: evocar, pouco a pouco, um objeto para mostrar um estado da alma ou, inversamente, escolher um objeto é liberar um estado da alma, por uma série de decodificações. (Tradução nossa)

Tudo é comunicação. Do sector do conhecimento, a comunicação passa ao nível de continente geral. Toda a actividade, científica ou comum, se situa no interior de um invólucro que se denomina comunicação. A comunicação fornece as regras de apreensão para tudo o que existe no mundo. Porque a ciência, a arte ou as práticas quotidianas não são mais do que sectores contidos no continente da comunicação. A comunicação vai refletir todo o jogo do saber e das actividades. As suas regras são universais. Neste sentido, ela torna-se rainha.

Baitello, entretanto, em Os meios da incomunicação; a outra face,

demasiadamente humana, dos vínculos, refere-se a uma “irmã gêmea” da comunicação, a incomunicação, assegurando que,

Quanto mais se aperfeiçoam os recursos, as técnicas e as possibilidades que o homem tem de se comunicar com o mundo, com os outros homens e consigo mesmo, aumentam, também, em idêntica proporção, as suas incapacidades, suas lacunas, seu boicote, seus entraves ao mesmo processo, ampliando um território tão antigo quanto esquecido, o território da comunicação humana. (BAITELLO, 2005, p. 3)

De acordo com o autor, a comunicação e a incomunicação andam e estão sempre juntas e, quanto menos percebida, mais danos a incomunicação pode causar; pode-se nomeá-la de diversas formas e muitos são os espaços em que ela está “inteiramente à vontade” e “é nos excessos que ela se faz presente”; excesso de informação, de tecnologia, de luz, de zelo, de visibilidade e no excesso de ordem. Para ele, “vivemos (e morremos) nos excessos do tempo e no tempo dos excessos. Os excessos do tempo trazem, por um lado a aceleração, o estresse, a pressa; por outro, a desocupação, o desemprego, o tempo esvaziado” (idem, p. 3).

Para explicar o processo da incomunicação, Baitello refere-se a Vilém Flusser, quem descreveu o processo “de perda crescente das três dimensões do espaço de comunicação humana”.

Da comunicação corporal que ocorre em três dimensões, passamos para a comunicação por imagens, em apenas duas dimensões, depois para a escrita, composta de traços unidimensionais, e finalmente a comunicação digital, com nenhuma dimensão. E agora, a partir da nulodimensão, começa o homem a reconstruir virtualmente as outras dimensões. (Idem, p. 3)

De acordo, ainda, com Baitello, seria uma redução do “espaço externo da comunicação, dos vínculos sociais, dos horizontes e das horizontais da sociabilidade”, o

que corresponderia a uma “redução dos espaços internos, a um estreitamento da comunicação consigo mesmo”. Havendo um rompimento desses vínculos, em seu lugar, ficariam os “fantasmas dos vínculos” e a esses fantasmas é que se dá “o nome de incomunicação”. E como definem, então, os autores a comunicação?

Edgar Morin, na obra Os sete saberes necessários à educação do futuro, fala- nos que a verdadeira comunicação acontece quando se compreende o outro; o verbo

compreender, segundo o autor, origina-se do latim e significa

colocar junto todos os elementos de explicação, mas a comunicação humana vai além disso, porque, na realidade, ela comporta uma parte de empatia e de identificação. O que faz com que se compreenda alguém que chora, por exemplo, não é analisar as lágrimas no microscópio, mas saber o significado da dor, da emoção. Por isso é preciso compreender a compaixão que significa sofrer junto. É isto que permite a verdadeira comunicação humana21.

Marcondes Filho, na obra Até que ponto nos comunicamos?, afirma que comunicação

é um processo, um acontecimento, um encontro feliz, o momento mágico entre duas intencionalidades, que se produz no “atrito dos corpos” (se tomarmos palavras, músicas, ideias também como corpos); ela vem da criação de um ambiente comum em que os dois lados participam e extraem da sua participação algo novo, inesperado, que não estava em nenhum deles, e que altera o estatuto anterior de ambos, apesar de as diferenças individuais se manterem. Ela não funde duas pessoas numa só, pois é impossível que o outro me veja a partir do meu interior, mas é o fato de ambos participarem de um mesmo e único mundo no qual entram e que neles também entra. (2004, p. 15) A partir das ideias desses autores, podemos inferir que a comunicação é e exige, na verdade, um processo de interação humana e não necessariamente é intencional, “na maquiagem que pretendemos de nós, de nossas coisas, de nossos produtos, de nossas ações; tudo isso fornece sinais de nós, que são decodificados livre e aleatoriamente pelos que são por eles sensibilizados” (idem, p. 16).

A comunicação como interação exige reciprocidade; é uma relação entre dois ou entre um e os demais, pois “aquele com quem nos comunicamos, com quem conversamos, com quem estabelecemos um diálogo, é nosso alter” (MARCONDES

21 Disponível em: <http://thbeth.pbworks.com/f/morin.pdf>. Publicado no Boletim da SEMTEC-MEC,

FILHO, 2010, p. 42). Portanto, a comunicação exige que enxerguemos o outro, é uma

questão de alteridade. Diz-nos o autor:

Eu me comunico quando acolho o outro, quando me esvazio de mim, de minha autossuficiência, quando deixo meu solipsismo e me amplio, me alargo, me supero pelo outro. Com o outro pode acontecer a mesma coisa, e aí eu passo a ser o outro dele e ele o meu. (MARCONDES FILHO, 2010, p. 43)

Explica, ainda, que é difícil essa “abertura mútua”; porque rara a “interpenetração das almas”, na maioria das vezes, é unilateral, entretanto “na ocorrência da bilateralidade temos o encantamento ou o fascínio em sua plenitude, como apreciação do outro como mistério e sendo valorizado a si mesmo como mistério do outro” (p. 43).

Existem muitos conceitos de linguagem, portanto defini-la é um trabalho árduo, difícil e, talvez, desnecessário quando pensamos na mesma linha de raciocínio da linguista Julia Kristeva (2007), para quem a pergunta sobre o que se define como linguagem deve ser substituída por aquela que nos leva a refletir sobre como ela “pôde ser pensada”. Diz-nos a autora que,

Se vista do exterior, a linguagem reveste-se de um caráter material diversificado cujos aspectos e relações temos de conhecer: a linguagem é uma cadeia de sons articulados, mas também uma rede de marcas escritas (uma escrita), ou um jogo de gestos (a gestualidade). Ao mesmo tempo, esta materialidade enunciada, escrita ou gesticulada produz e exprime (isto é, comunica) aquilo a que chamamos um pensamento. Quer dizer que a linguagem é simultaneamente o único modo de ser do pensamento, a sua realidade e a sua realização. Se a linguagem é a matéria do pensamento, é também o próprio elemento da comunicação social. Não há sociedade sem linguagem, tal como não há sociedade sem comunicação. Tudo o que se produz como linguagem tem lugar na troca social para ser comunicado. (KRISTEVA, 2007, pp. 16-17) Em outra dimensão, temos que “a linguagem é a expressão humana de movimentos interiores da alma e da visão de mundo que os acompanha”, é o que nos diz Heidegger, enquanto afirma que só se pode falar da linguagem partindo dela mesma. Uma das tantas perguntas que ele faz, ao longo do capítulo A linguagem, é: “Como vigora a linguagem como linguagem”? A resposta intriga: “A linguagem fala”. (2011, p. 9). O que significa falar? Falar é nomear, e nomear

[...] não é atribuir palavras; nomear é evocar para a palavra. Nomear evoca. Nomear aproxima o que se evoca. A evocação convoca. Desse modo, traz para uma proximidade a vigência do que antes não havia sido convocado. (idem, p. 15) Convocando, a evocação já provocou o que se evoca. Provou em que sentido? No sentido da distância onde o evocado se recolhe como ausência. Provocar é evocar uma proximidade. Mas evocar é retirar o que se evoca da distância que o resguarda quando é evocado. Evocar é sempre provocar e invocar, provocar a vigência e invocar a ausência. [...] A evocação convida as coisas de maneira que estas possam, como coisas, concernir aos homens. Fazendo-se coisa, as coisas são gesto de mundo. (HEIDEGGER, 2011, p. 17) Sob o ponto de vista da linguística, entendemos que a fala é o uso individual de uma língua pelo falante; todo homem fala uma língua, logo todo homem fala. Podemos entender, também, a fala como uma atividade natural do homem, resultado da ação do órgão do corpo humano responsável por emitir sons, a capacidade vocálica além de vê- la como “expressão do homem, uma representação do real e do irreal”. Não é, entretanto, a essa fala que se refere Heidegger; mas àquela da fala que diz, ou seja, ao “dito”, à essência da linguagem e “Em sua essência, a linguagem não é expressão e nem atividade do homem. A linguagem fala. O que buscamos no poema é o falar da linguagem. O que procuramos se encontra, portanto, na poética do que se diz”, é o dizer genuíno e “o que se diz genuinamente é o poema” (idem, p. 12). Heidegger diz, ainda, que é conhecimento comum o fato de que

O poema tece imagens poéticas mesmo quando parece descrever alguma coisa. Poetizando, o poeta imagina algo que poderia existir realmente. Ao poetizar, o poema representa numa imagem o que imaginou. O que se diz no poema é o que o poeta expressa a partir de si mesmo. O que assim se expressa fala ao exprimir o seu conteúdo. A linguagem do poema é uma múltipla enunciação. (idem, p. 14)

Além de ver a linguagem como expressão, é necessário pensar que a linguagem fala. Portanto, também é necessário pensar em que medida fala o homem e o que é falar. Heidegger diz que fala nomeia, evoca para a palavra e, evocando, aproxima o que se evoca; provoca. “Evocar é sempre provocar e invocar a vigência e invocar a ausência; evocar é retirar o que se evoca da distância que o resguarda quando é evocado”. Em outras palavras, a fala faz presente o que estava ausente; o que não havia sido pensado, imaginado. Conforme o autor,

Evocar, no sentido originário de deixar vir a intimidade mundo e coisa é propriamente chamar. Esse chamado é a essência do falar. No dito do poema, vigora o falar. É o falar da linguagem. A linguagem fala deixando vir o chamado coisa-mundo e mundo-coisa do entre da diferença.[...] O chamado da linguagem recomenda e entrega o que nela é chamado para o chamado da diferença. A diferença deixa o fazer-se coisas das coisas repousar no fazer-se mundo do mundo. [...] No duplo aquietar da diferença, acontece propriamente: a quietude. (HEIDEGGER, 2011, p. 22)

A expressão tornar presente o que estava ausente, remete-nos à narrativa bíblica da criação dos céus e da terra e de tudo o que neles existe, isto é, ao mito cosmogônico; segundo a qual: “No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas” (ALMEIDA, 1995, p. 1). Estava presente a ausência, nada existia; no momento em que Ele evocou, convocou as coisas, chamou-as para que se fizessem presentes. “Deus disse: Haja luz, e houve luz; e Deus chamou à luz dia e às trevas chamou noite. E disse Deus: Produza a terra verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra; e assim foi” (p. 2).

As expressões de Heidegger fazer-se mundo no mundo e tornar presente o que

estava ausente levam-nos a considerar Jung (1991, p. 18), quando afirma que, para o

homem, existem dois céus: um céu exterior e um céu interior e “porque a mão que separou a luz da escuridão e a mão que fez o céu e a terra também agiu assim embaixo, no microcosmo, retirando da parte de cima e colocando dentro da pele do homem tudo o que o céu contém”; tornando presente nesse espaço terreno tudo o que já estava em outro, o corpus sydereum, a fonte da iluminação pelo lúmen naturae.

Dupon (2010, pp. 32-33), ao conceituar fala, cita Merleau-Ponty para quem existem dois tipos de fala: a fala falante e a fala falada; chama de “fala falante ou conquistadora uma fala que, ultrapassando o universo dos significados sedimentados e animada por uma intenção significativa em ‘estado nascente’, tenta pôr em palavras certo silêncio que a precede e a envolve. Por contraste, ‘a linguagem decaída ou fala falada’ é a consequência da invenção do sentido no mundo cultural dos significados comuns disponíveis.” Não só Heidegger tampouco Merleau-Ponty nos dizem que a linguagem fala; Paul Zumthor, em Introdução à poesia oral, também. Segundo ele, a palavra poética

é uma voz que fala – não esta língua, que é apenas epifania: energia sem figura, ressonância intermediária, lugar fugaz onde a palavra instável se ancora na estabilidade do corpo. Em torno do poema que se faz, turbilhona uma nebulosa mal extraída do caos. Súbito, um ritmo surge revestido de trapos do verbo, vertiginoso, vertical, jato de luz: tudo aí se revela e se forma. Tudo: simultaneamente o que fala e, aquilo de que se fala e a quem se fala. (ZUMTHOR, 2010, p. 177)

“Tudo: simultaneamente o que fala e, aquilo de que se fala e a quem se fala”. Tudo e tudo mesmo: o que fala, o emissor; de que se fala, a mensagem; a quem se fala, o receptor; eis os principais elementos do processo da comunicação.

Em O Acontecimento apropriativo, Heidegger refere-se a um dizer pensante e

sua petição, um dizer diferente do dizer científico; ele não comunica conhecimento, não

explica algo, mas chama o homem, fazendo-o pensar; uma petição que

[...] não é uma arrogância do pensador, mas o envio destinamental da dignidade do que há para ser pensado”. [...] O dizer pensante requisita a autotransformação da escuta e do redizer e da ligação com a palavra. O dizer pensante é a despedida do elemento natal, que costuma manter-se ‘familiar’ por meio do caráter corrente daquilo que é apenas assumido, altamente trocado, mostrando-se como novo. (2013, pp. 278-279)

Faz-se necessário discorrer, mesmo que brevemente, sobre as funções da linguagem na comunicação, sob o ponto de vista da Linguística; para tanto, a base são os elementos em que ela se fundamenta, ou seja, os fatores que sustentam o modelo da comunicação.

De acordo com Roman Jakobson, são eles: emissor, receptor, canal, código, referente e mensagem; nem sempre, porém, foi dessa forma; antes formavam o modelo somente três elementos: o destinador, o destinatário e o contexto; as mensagens de caráter expressivo centravam-se no destinador (emissor); de caráter apelativo, no destinatário (receptor) e as de caráter comunicativo, no contexto (referente). É o modelo que hoje vigora; ampliado por Jakobson, de três elementos passou para seis. A partir dessa divisão, as possibilidades de leitura, interpretação e os sentidos que se podem inferir e observar, em uma mensagem, localizam-se, principalmente, na direção intencional do fator da comunicação, isto é, no objetivo do emissor ao elaborar a mensagem. A partir de então, dá-se a ênfase em um desses elementos; isto determina o objetivo da mensagem, bem como a função da linguagem; portanto a:

 referencial objetiva informar a realidade, por isso as palavras são empregadas no sentido real;

 emotiva ou expressiva fala sobre próprio emissor; por meio dela, informa pensamentos, opiniões e sentimentos;

 conativa ou apelativa, cujo objetivo é convencer, persuadir, centra-se no receptor;

 fática centra-se no canal, no meio, para estabelecer a comunicação;  poética; na mensagem. O emissor não se preocupa somente em passar a

mensagem, mas como vai elaborá-la; preocupa-se com a adequação entre a forma e o conteúdo;

 metalinguística centra-se no código a ser usado e de conhecimento dos dois, emissor e receptor; em resumo, a metalinguística fala do código pelo próprio código.

Às vezes, encontramos confusão entre as funções emotiva e poética. Há quem pense a emotiva como a que causa emoção, ideia que provém do próprio nome ‘emotiva’; por isso, necessário é que fiquem claras as ideias de uma e de outra. Tomemos a primeira estrofe de um soneto, sem denominação, de Pessoa:

Dormi, sonhei. No informe labirinto, Que há entre o mundo e o nada me perdi. Em bosques de mim mesmo me embebi,

Misto do que vejo e sinto. [...]22 (PESSOA, 2006, p. 147)

Nessa estrofe, evidenciam-se as marcas linguísticas do emissor: verbos flexionados na primeira pessoa do discurso – dormi, sonhei, embebi, vejo, sinto, bem como os pronomes a ela relacionados: implícito está o pronome pessoal do caso reto “eu”; explícitos os pronomes pessoais oblíquos “me” e “mim”. Embora a preocupação com a forma de passar a mensagem (função poética), o eu lírico fala do seu sonho e diz como nele se sentiu; portanto, função emotiva. Fica, também, evidente que a

22 PESSOA, Obras completas de Fernando Pessoa: Novas poesias inéditas. 6. ed. Lisboa: Editorial Nova

linguagem assume diferentes funções de acordo com a intenção do emissor; um texto pode apresentar mais de uma, por vezes elas se misturam; havendo, sim, uma predominante.

Em relação ao emprego das palavras, ensinam-nos os linguistas que existem duas linguagens: uma objetiva (denotativa); outra, subjetiva, figurada, como geralmente chamada; porque, no arranjo das palavras, formam-se figuras tais como a metáfora, a mais conhecida, porém o emissor é um só. Essas duas linguagens não dividem o ser humano em dois; ao contrário, dele fazem parte e o habitam harmoniosamente; logo, uma dualidade (linguagens) forma um todo (homem).

Empregando palavras de Hölderlin, Morin (2011, p. 36), diz que “o homem habita a terra poeticamente”; entretanto sua posição é a de que o homem a habita de duas formas ao mesmo tempo, a prosaica e a poética; porque, sem a prosa, não haveria poesia, e o contrário também é verdadeiro.

A poesia, conforme Morin, é um dos dois estados que fazem parte da vida do homem; o primeiro é o prosaico; o segundo, o estado poético, que não só é produzido pelo poema, evidentemente que por ele; mas também pela dança, pelo canto, pelo culto e pelas cerimônias; são duas linguagens correspondentes a dois estados humanos: o prosaico e o poético. O primeiro, ligado à linguagem denotativa, é racional, “tende a precisar, denotar, definir; apoia-se sobre a lógica e ensaia objetivar o que ela mesma expressa”; o segundo, à conotativa, é simbólico; utiliza-se “mais a conotação, a analogia, a metáfora, ou seja, esse halo de significações que circunda cada palavra, cada enunciado e que anseia traduzir a verdade da subjetividade”, isto é, por meio dela, o ser humano manifesta-se, subjetivamente, sobre o mundo; é o estado da percepção, do sentir, da forma única e individual de ver a realidade. É este último estado o poético. Não se determina, porém, em que momento se passa de um estado ao outro; podem se encontrar justapostos ou misturados; separados, opostos, porque fazem parte da constituição humana, portanto, presentes simultaneamente, e o homem emprega as duas linguagens naturalmente, sem mesmo perceber. Morin explica que

O tecido da vida é constituído de Poesia-Prosa, se não houvesse prosa, não haveria poesia, do mesmo modo que a poesia só poderia evidenciar-se em relação ao prosaísmo. Em nossas vidas, convivemos com essa dupla existência, essa dupla polaridade. (2011, p. 36)

E, se assim não fosse, viveríamos em dois extremos, o da realidade pura ou da irrealidade – no “silêncio inautêntico”, ou no “silêncio autêntico”. Como realização do potencial, que é, a língua forma um todo e se expande em duas direções, perpassando regiões até chegar ao calar-se – amorfo ou o superconcentrado da indiscursibilidade (MORIN, 2011, p. 133). Como explica Flusser:

Trata-se de dois silêncios diferentes, embora ambos signifiquem nada. É, de um lado, o silêncio do ainda não articulado, o calar-se do animal e do cretino, e, do outro lado, o silêncio do já não mais articulável, o calar-se de um S. Tomás, de um Wittgenstein, do Buda. Se encararmos a língua como um processo de