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Hvordan harmonerer offentlighetsloven med klasseselskapenes egne

4.4 Offentlighetsloven

4.4.4 Hvordan harmonerer offentlighetsloven med klasseselskapenes egne

A palavra invadida denota o resultado da ação de invadir. Como invasão, ato ou efeito de invadir, ação; local ocupado ilegalmente por populares; invasor: aquele que invade; invasivo: que tem o caráter de invasão, em que há invasão; agressivo, hostil. (FERREIRA, 2009, p. 1126) Deixemo-nos, portanto, invadir pela imaginação; façamos de novo a leitura: O poema é área pública invadida pela imaginação. Partimos do princípio de que o poema, ao ser visto e ouvido por outros, que não o próprio autor, toma o caráter de público, todos podem acessá-lo; é livre. Como e em que momento, porém, a imaginação o invade? Pensemos no poeta e seu ofício; lembremos Aristóteles e os conceitos geradores da poética: a poiesis, a mímesis e a catarsis.

De la poiesis(autor) a la catarsis (espectador) se teje todo el entramado de la obra hasta el primer mediador, la mímesis, que lo elabora conforme a reglas; y de aqui hasta el producto final que concluye em el momento de su recepción por parte del espectador (catarsis)96. (ARISTÓTELES, 2007, p. 11)

Percorramos, então, o caminho do poema, da concepção à recepção; recordemos os conceitos e a história da poesia, especificada no Cap. 1. Só um ser especial, possesso e inspirado por Deus pode ser poeta e falar a linguagem dos deuses, e esse ser é o Vate, acreditavam os povos poéticos; como vimos, no cap. XVII de A poética, Aristóteles assegura que

[...] el arte de la poesia es próprio de los seres dotados naturalmente para ella, o bien de quienes están alcanzados por la locura; siendo que los primeros ló alcanzan facilmente por su disposición adecuada y plasticidade; y los segundos, por el éxtasis poético del que están poseídos97. (ARISTOTELES, 2007, p. 13) E é, nesse momento de possessão, de inspiração ou de arrebatamento que ele concebe o poema. Seguindo o dicionário, possessão

96 Da poesia (autor) à catarsis (espectador) se tece todo um entrelaçamento da obra até o primeiro

mediador, a mímesis, que o elabora conforme regras; e daqui até o produto final que o conclui no momento de sua recepção por parte do espectador (catarsis).

97 [...] a arte da poesia é própria dos seres dotados naturalmente para ela, ou bem de quem está

possuído pela loucura; sendo que os primeiros a alcançam por sua disposição adequada e plasticidade; e os segundos, pelo êxtase poético de que estão possuídos.

é estado ou condição em que o corpo e/ou a mente de um indivíduo são supostamente possuídos ou dominados por uma entidade (um ser, força ou divindade) que lhes é externa e não se manifesta habitualmente nas atividades da vida diária. (FERREIRA, 2009, p. 1608)

Os significados das palavras possesso, êxtase, arrebatamento levam-nos a pensar que, no momento da concepção, o poeta é invadido, ou dirigido, se tomarmos também a significação teológica da palavra inspiração: “Moção divina que, segundo crença cristã, teria dirigido os autores dos livros da Bíblia” (FERREIRA, 2009, p. 1112); sendo, pois, na poiesis que ocorre a primeira invasão. Y una vez que esse arrebato há

instilado en el poeta la semente necessária, comença entonces el processo intermedio de la elaboración y transformación de aquella substancia poética en un producto dotado de forma.98 (ARISTÓTELES, 2007, p. 13); o processo da construção do poema, a mímesis, é o resultado de um acordo entre os deuses da arte, Dionísio e Apolo; o

primeiro suscitava a exuberância, a beleza; o segundo primava pela ordem das formas. Temos, também, que o processo de criação é misterioso e enigmático, ya que

proviene de la naturaleza, de la locura o de los dioses99 (ARISTÓTELES, 2007, p. 14),

porque a poesia exige “un desprendimiento gradual, un progresivo despojamiento, una desnudez creciente, hasta acercarnos al núcleo essencial de lo que hay o existe o nos parece que es”100, acredita Juarroz (2000, pp. 11-12). Assim, para criar, o poeta

desapega-se do seu trabalho, de suas prioridades para conceber a forma com que será recebida a poesia.

Sob o ponto de vista linguístico, podemos deduzir duas leituras: na primeira, o poeta, ainda possuído, concebe a forma, é invadido; na segunda, ele é o invasor, visto que, como falante, invade o mundo das palavras, o léxico da língua e, apossando-se delas, escolhe e recolhe, retira aquelas que lhe dizem o que ele quer dizer e recolhe-as no poema. Tomemos, para fundamentar nosso pensamento, o poema Conversa sobre

poesia com o fiscal de rendas, de Maiakóvski (2013, p. 116). Nele, o eu lírico explica

por que está em débito e, para justificar, narra o difícil ofício do poeta, da dificuldade de

98 E uma vez que esse arrebatamento há instilado no poeta a semente necessária, começa então o

processo intermediário da elaboração e da transformação daquela substância poética em um produto dotado de forma. (Tradução nossa)

99 Já que provém da natureza, da loucura ou dos deuses.

100 Um desprendimento gradual, um progressivo despojamento, uma desnudez crescente, até nos

buscar palavras que combinem, rimem, porque a rima exige um lugar certo, “A rima é uma letra de termo fixo/ para desconto ao fim da linha/ sem mais prazos”; da escolha dos verbos e suas flexões, assim como dos nomes: “E sai-se à caça da minúcia/ de flexão ou sufixo/ na caixa escassa/ das conjugações e casos”.

O poeta cuida dos detalhes, das palavras certas e exatas. Depois, Sculpte, lime,

cisèle / que ton revê flottant / se scelle / dans le bloc résistent 101, aconselha Gautier 102

(JULAUD, 2010, p. 308). Nessa estrofe, o trabalho do poeta compara-se ao do escultor, um trabalho árduo; o bloco resistente, no início pedra bruta, resulta no poema, “[...]

Vers, marbre, onyx, email103. (idem, estrofe 1, v.4), Dionisio y Apolo; la pasión y la

severa belleza de la forma en sus estatutos más venerados 104 . (ARISTOTELES, 2007, p. 17).

Não podemos, entretanto, esquecer que, para os povos poéticos, assim como para o poeta Rimbaud, o poeta é vidente, vê com a alma, por isso vê além, além como o futuro, mas também além de algo ou de alguma coisa que pode ser presente. Em outras palavras, Milton Nascimento105 e Fernando Brant106 nos falam dessa capacidade

na canção Coração Civil: “[...] Se o poeta é o que sonha o que vai ser real/ bom sonhar coisas boas que o homem faz [...]”.

Não é demais repetir as palavras de Bachelard (2008, pp. 4-5) quando diz: “A alma possui uma luz interior, aquela que uma visão interior conhece e expressa no mundo das cores deslumbrantes, no mundo de luz do sol”. Nesse sentido, portanto, não haveria invasão, mas uma in-visão (in, prefixo; no contexto significa para dentro; visão, substantivo formado do verbo ver; logo in-visão é ver o interior), essa “capacidade de ver interiormente, a capacidade de perceber imagens, mesmo quando a coisa representada não está presente”, diz Wulf em Imagem e fantasia (apud CASTRO, 2012, p. 30).

101 Esculpe, lima, cinzela / que teu sonho flutuante/ sele no bloco resistente.(estrofe 14 do poema Arte, da

obra principal Êmaux et Camées, publicada em 1852)

102 Théophile Gautier (1811-1872),poeta parnasiano. 103 Verso, mármore, ônix, esmalte (brilho) (Tradução nossa)

104 Dionísio e Apolo na severa beleza da forma em seus estatutos mais venerados. (Tradução nossa) 105 Rio de Janeiro (26/10/1942), cantor e compositor da Música Popular Brasileira.

A mímesis, portanto, em se tratando de representação, é a transposición de la

forma del objecto al espacio de lo poético107 e só é possível graças ao processo de individuação, el gesto deliberado del poeta por médio del qual el objecto se transpone de su lugar próprio, cotidiano, habitual, al lugar poético108 (ARISTÓTELES, 2007, p. 19).

Chegamos, então, ao terceiro elemento: a catarsis, em que se veem cumpridos os propósitos do poeta: produzir o poema e, com essa produção, chegar ao espectador e provocar reações que podem ser diversas; a certeza maior consiste em saber que, após o contato com a arte, não há quem permaneça igual e, por ser arte, com a poesia não seria diferente. “A arte é algo que se vê, se dá simplesmente a ver e, por isso mesmo, impõe sua específica presença”; presença “É justamente um outro modo de falar” (DIDI-HUBERMAN, 2010, P. 61). E esse “modo de falar” se apresenta diferente para cada pessoa, quem ouve ou quem lê; em diferentes situações, de alegria ou de tristeza; a cada momento tem-se uma nova leitura e, a partir dela, os sentidos são ativados, sentimentos despertados, pensamentos acordados; o poema alimenta a alma humana, mas é, também, alimentado. Mário Quintana (2007, p. 104), fala-nos sobre o poema pelo poema:

Os poemas são pássaros Que chegam

não se sabe de onde e pousam no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo como de um alçapão.

Eles não têm pouso nem porto

alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti.

Nesse poema estão presentes os três princípios da arte, visto que fala da inspiração, do momento da concepção, a poiesis: “Os poemas são pássaros / que chegam não sei de onde; da mímesis, quando o poema toma forma: “e pousam no livro que lês”; é, entretanto, maior quando se refere à catarsis: “Eles não têm pouso / nem

107 É a transposição da forma do objeto ao espaço do poético.

108 O gesto deliberado do poeta por meio do qual o objeto se transpõe do seu lugar próprio, cotidiano,

porto / alimentam-se um instante em cada par de mãos / e partem”; os poemas correm o mundo, não ancoram; têm uma origem, mas não se detêm em um único lugar, o livro os carrega, o livro passa de mão em mão. “E olhas, então, essas tuas mãos vazias / no maravilhado espanto de saberes / que o alimento deles já estava em ti”; mãos vazias porque o poema foi lido, o livro jaz em outras mãos, é o momento mágico da poesia, a reação que causa, o “espanto” de se sentir tocado, “alimentado” pelos versos, pela forma única de dizer da linguagem do poeta. Afirma Juarroz (2000, pp. 48-49): El poeta,

al crear su poesia, lucha por toda la dignidad y la grandeza que están entreveradas com la pequeñez Del hombre. Y no solo lucha: también trinfa, al mantener encendida la luz que muchos quieren apagar y sin la cual no es possible vivir.109

Quantos são tocados, quantos são alimentados pela poesia! Na catarsis, ocorrem múltiplas invasões: do poeta quando invade a realidade, o mundo, a imaginação os pensamentos e os sentimentos dos leitores; do leitor que se deixa invadir pela poesia, pelas palavras do poeta e delas sente os efeitos; do leitor que usa a imaginação para invadir o poema e o poeta, o ser humano que busca sentido, busca o verdadeiro significado da vida, da história da humanidade. A poesia faz parte da história dos povos; se a perdemos, perdemos, também, o fio que entremeia e liga a história da humanidade. Juarroz, em Poesía y realidad, sublinha que sempre pensou a poesia

como la manifestación más eminente de esa história oculta de los hombres y el inefable empalme com la realidad que allí se revela, más allá del simple y entumecido tiempo lineal, más allá de las fórmulas y los sistemas que codificam el conocimiento, la plegaria, la mirada, el gesto, el lugar, el amor, el bosque y hasta el fuego.110 (JUARROZ, 2000, p. 11)

Christof Wulf 111, em palestra112 na UnB, promovida pelo PPGCom113 em parceria com o Curso de Pós-Graduação em Comunicação da UCB, referindo-se à relação

109 O poeta, ao criar sua poesia, luta por toda a dignidade e grandeza misturadas com a pequenez do

homem. E não só luta: também triunfa, ao manter acesa a luz que muitos querem apagar e sem a qual não é possível viver.

110 Como a manifestação mais eminente dessa história oculta dos homens e inefável conexão com a

realidade que ali se revela, muito mais do simples e intumescido tempo linear, muito mais do que as fórmulas e os sistemas que codificam o conhecimento, a prece, a olhada, o gesto, o lugar, o amor, o bosque e até o fogo. (Tradução nossa)

111 Dr. em Filosofia; professor de Antropologia e Filosofia da Educação na Universidade Livre de Berlim. 112 Palestra proferida em 12/09/2014.

Mímesis e Imaginação, salientou que a aprendizagem não é só cognitiva, é, também, cultural, e é ela que “ nos torna humanos e tem base no mimético”. A mímesis, segundo ele, não é imitação mecânica; mas imitação produtiva; é um processo ativo, pois cria semelhança com o outro, por meio da aprendizagem de emoções e aprendizagem da linguagem. A base de todo processo mimético é a relação com o outro e exige emoção, linguagem e a presença corporal, física. “A imagem do outro se torna parte da nossa imaginação e isso cria o social; deixar o outro em nós é processo mimético e importantíssimo na formação do social”, completou o filósofo alemão.

“Tudo o que se produz como linguagem tem lugar na troca social para ser comunicado”, diz Kristeva (2014, p. 17), enquanto Flusser (2010, pp. 13-14) declara: “Quem escreve ultrapassa o ponto final em direção ao outro, ao leitor” e “Quem escreve estende a mão ao outro para provocar uma revolução”. O dizer de quem escreve não se encerra com o ponto final, entre o início e o fim há muito a ser lido, há muito a ser pensado, imaginado; vai muito além da estrutura linguística e, quando isso acontece, acontece o encontro com o leitor, a união de pensamentos ou, se podemos dizer, um encontro de almas; eis, então, a revolução; toda revolução provoca uma transformação. Essa transformação, neste caso, dá-se pela linguagem; não uma linguagem qualquer, mas aquela da palavra que fala, que diz de outro modo, e quem fala, dizendo de outro modo, é a linguagem poética.