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Inhabilitet for forvaltningsorganer

4.3 Særlig om inhabilitet

4.3.6 Inhabilitet for forvaltningsorganer

Pensávamos, até aqui, que as intervenções poéticas urbanas fossem fatos recentes; manifestações do homem moderno. Qual foi a surpresa ao saber que elas são bem mais antigas! Em nossa primeira leitura sobre o tema, Annelise Depoux, em

Du livre aux murs de la ville70, na obra Poésie et Médias71 (2012, p. 271-288), afirmava que as primeiras manifestações deram-se na Antiguidade, pois pesquisadores encontraram vestígios dessa ação humana em Pompéia sob a forma de grafite; lendo, porém, A cidade escrita: epígrafes e grafites (CALVINO, 2010, p. 106-118), encontramos informações relevantes que reforçam as ideias de Depoux; consequentemente enriquecem nosso trabalho, por isso fazemos um hiato para colocá- las neste espaço.

Diz-nos o autor que as cidades romanas da época do Império surgem em nosso pensamento como

colunatas de templos, arcos do triunfo, termas, circos, teatros monumentos equestres, bustos e hermas de baixo-relevo. Não nos ocorre que, nessa muda cenografia de pedra, falta o elemento que era o mais característico, inclusive visualmente, da cultura latina: a escrita. A cidade romana era antes de tudo uma cidade escrita, recoberta por um estrato de texto que se estendia sobre seus frontões, suas lápides, suas insígnias. “Escritas presentes em toda parte, pintadas, gravadas, incisas, suspensas em tabuletas de madeira ou traçadas sobre enquadramentos brancos [...] ora publicitárias, ora políticas, ora funerárias, ora comemorativas, ora públicas, ora mais que privadas, de anotação ou de insulto ou de jocosa lembrança [...] expostas onipresentemente”. (CALVINO, 2010, p. 106)

Entretanto eram distribuídas pela importância; não se misturavam. Enquanto as mais solenes estavam nas praças, foros, edifícios públicos, necrópoles; as outras eram espalhadas “à entrada de uma loja, um cruzamento, um pedaço de parede livre e à altura do homem” (idem, p. 106); na Idade Média, a escrita desapareceu e Calvino aponta-nos duas razões: o alfabeto deixara de ser um meio de comunicação de acesso – “não havia mais espaços que pudessem acolher escritas ou atraíssem olhares para elas, as ruas eram estreitas e tortuosas, os muros, todos feitos de saliências e cantarias e arcadas”, e o lugar de discurso passou a ser a igreja “o lugar onde se transmitiam e

70 Do livro Aos muros (paredes) da cidade. 71 Poesias e mídias.

custodiavam os significados de qualquer discurso sobre o mundo”; a oralidade prevalecia sobre a escrita.

Percebe-se, aqui, um encontro entre as ideias de Calvino e de Depoux, fazendo a ligação entre escrita e poesia. Segundo o relato da autora, o poeta simbolista Gustave Kahn demonstrou um interesse especial por esses traços, em que se misturam o real e o imaginário, entre prosa e poesia, e os apresenta na obra L’Esthétique de la rue72.

Conforme Depoux, trata-se de uma velha tradição humana, “três tôt donc, de la poésie

‘oridinaire’ ponctue le tissu textuel urbain”73 (idem. p. 275). Transcrevemos aqui:

Muletier si tu brûlais d’amour tu te hâterais davantage pour retrouver ta belle; je t’en prie, presse le pas, allons, tu as bien assez bu. Allons, prend ton fouet et agite-le, mène-nous vite à Pompéi ou m’attendent mês chères amours74. (GUSTAVE KAHN apud DUPONT, p. 275).

Salienta a autora que o advento da imprensa contribuiu para a difusão da escrita no espaço de leitura coletivo na cidade e os muros transformaram-se, progressivamente, em verdadeiros suportes para a escrita. Os escritores do começo do século XX contribuíram para a multiplicação dos espaços textuais na paisagem urbana, pois perceberam na difusão de cartazes publicitários a possibilidade de difundir a poesia, e isso os fascinou. Dentre os poetas, Apollinaire75 e Cendrars76 foram os primeiros a manifestar interesse; Apollinaire no célebre poema Zone, apresenta uma narração descritiva da vida cotidiana na cidade moderna.

Ao ler o poema, sentimo-nos como se estivéssemos percorrendo, em sua companhia, as ruas da Paris da época, a Paris com Les affiches qui chantent tout haut/

Voilà la poésie ce matin77. Para o poeta, não é importante o nome da rua, como observamos nos versos: J’ai vu ce matin une jolie rue / dont j’ai oublié le nom78, é o fato

de ela apresentar-se nova pela luminosidade do sol Neuve et propre du soleil, elle etait

72 A Estética da rua (

L’Esthétique de la rue, Paris, 1901)

73 Muito cedo, portanto, a poesia simples pontua o tecido textual urbano.

74 Muleiro se tu queimasses de amor tu te apressarias para encontrar tua bela (amada); eu te peço,

apresse o passo; vamos, tu bebeste muito.Vamos, pega teu chicote e agita-o. Leva-me rápido a Pompeia, onde me esperam amores que me são caros. (Tradução nossa)

75 Apollinaire (1880, Roma-1918), Guillelmus Apollinaris Albertus Kostrowitzky, poeta modernista. 76 Cendrars (1887, Suíça; 1961, França), Frédéric Louis Sauser, novelista e poeta modernista. 77 Os prospectos que cantam bem alto/ eis a poesia esta manhã. (Tradução nossa)

le clairon79; ela era a própria luz do sol; o importante era a poesia presente no dia de

sol, no andar das pessoas pela rua – a vida presente na vida da cidade, ou a vida feito cidade; a poesia na publicidade Les inscriptions des enseignes et des murailles /Les

plaques les avis à la façon des perroquets criaillent80 , pois pour la prose il ya les journaux81.

Cendrars, comungando ideias com Apollinaire, afirmou, em 1927, que “la publicité est la fleur de la vie contemporainne [...] la publicité touche la poèsie”82 (p.

274). Ligado a essa relação publicidade e poesia, embora em épocas distantes, foi lançado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, o projeto Poemas no jornal83, criado pelos jornalistas gaúchos Maurício Renner84 e Fellipe Basso85. O projeto objetiva a valorização da poesia por meio dos classificados de jornais; consiste em publicar pequenos poemas na seção dos classificados, entre eles. O primeiro poema escolhido foi “Comunhão”, em homenagem aos vinte anos da morte do poeta Mário Quintana. Segundo informações dos criadores do projeto, os próximos poemas já estão definidos, escolhidos entre os poemas de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.

79 Nova e clara de sol / ela era o clarim. (Tradução nossa)

80 As inscrições das tabuletas e dos muros / as placas, os avisos, à maneira de araras gritam. (Tradução

nossa)

81 Para a prosa, há os jornais (Tradução nossa) 82

“A publicidade é a flor da vida contemporânea [...] a publicidade toca a poesia”. (Tradução nossa)

83 Matéria publicada em 03 nov. 2014, disponível em:

<http://www.coletiva.net/site/noticia_detalhe.php?idNoticia=55738>, último acesso em: 06 nov. 2014.

84 Editor de notícias sobre Tecnologia da informação no Baguete Diário.

85 Assessor de imprensa, colunista no Baguete Diário e, também, cronista com textos publicados nos

Figura 2 - Poesia nos classificados do Jornal ZH (RS).

Conta Maurício: “Um dia eu passei pela frente de uma loja da Zero Hora e senti uma vontade irresistível de ir lá e publicar esse poema”. O projeto não se limita à publicação no Brasil, mas também em jornais no exterior; os poemas são escolhidos pela relação que têm com o universo dos jornais. Afirma Basso, o outro jornalista: “Colocando os poemas fora do seu contexto original, acredito que conseguimos reforçar ainda mais a beleza deles”. As afirmações de Maurício e de Basso confirmam a colocação de Castro (2012, p. 52):

Cineastas, publicitários, escritores e poetas são os verdadeiros teóricos do imaginário. Eles sabem que imaginar é melhor do que teorizar sobre a imaginação, porque sabem que as ações imaginante e imaginativa vão além do compreensível. Sabem que a “aura” ultrapassa e alimenta a obra”.

Décio Pignatari, em A Comunicação Poética (2005, p. 9), diz que a poesia é “um corpo estranho nas artes da palavra”; segundo ele, “[...] a menos consumida de todas as artes, embora pareça ser a mais praticada (muitas vezes, às escondidas)”. Entretanto não é o que observamos na atualidade; ao contrário, tornou-se mais presente; tomou outros lugares que não o seu convencional, invadindo espaços aos quais não era bem-vinda, e, às vezes, proibida, como exemplifica o projeto dos jornalistas gaúchos. Em Imaginário, literatura e mídia, Gustavo Castro nos diz:

A poesia não é somente o modo mais alto da linguagem cotidiana. É antes um discurso de todos os dias, semelhante às mídias [...] Enquanto a mídia nos transporta cotidianamente para a trivialidade, a arte e a poesia têm a finalidade de nos arrancar da trivialidade absorvente de nossa existência, e nos colocar emocionados, deslumbrados no Ser. (CASTRO, 2012, p. 53)

Calvino nos fala da sedimentação da palavra ou da palavra sedimentada. Dupont (2010, p. 67) explica, com base em Merleau-Ponty, que

Há sedimentação, quando uma intenção significativa nova ‘se incorpora à cultura’ mobilizando e transformando os “significados disponíveis” e funda, assim, uma tradição capaz de ser indefinidamente retomada e transformada: “a sedimentação é o único modo de ser da idealidade”.

A palavra deslocada, quem sabe sedimentada, também se faz presente em Brasília; em vários casos já faz parte da cidade; como exemplo, tomamos algumas das inscrições na quadra 505, da Asa Norte, em que resistem os mais diversos tipos: a palavra na parede do prédio: “Agora escute-se”:

Figura 3 – Inscrição em parede de prédio (505 Norte, Brasília-DF).

Na passagem subterrânea que liga um lado ao outro, ou um prédio ao outro – uma escadaria com sete degraus em que se inscreve o mesmo número de vezes, porém em cores diferentes: “A vida é uma só”86.

Acima, já na calçada de concreto: “Tuas ruínas precoces”:

Figura 4 - Inscrição na calçada (505 Norte, Brasília-DF).

Seguindo, ainda, Dupont (2010, p. 67), temos que: “A sedimentação só se torna fundadora de historicidade no momento em que se precisa o vínculo entre a liberdade e esse tecido de ‘significados operantes’ que é o meio do simbolismo”. É o que tentamos fazer ao ler o poema, também anônimo, inscrito na parede da passagem subterrânea87:

Uma parede qualquer Tempo para parar Linha que separa Tijolos que separam Aglomerados de pessoas Uma abaixo

Outra acima

Espaço entre mentes Alinha cabeças fechadas

A outra ideia nos remete o poema, quando pensamos nos edifícios, nos blocos de apartamentos: “aglomerados de pessoas/ uma abaixo/outra acima”; os andares e as paredes são “espaços entre mentes” que servem de separação entre apartamentos, entre os blocos residenciais; ao mesmo tempo, servem como obstáculos à comunicação entre os moradores. São pessoas fechadas em si mesmas; isoladas, vivem juntas, mas não convivem. E, por fim, relacionamos à poesia, à forma tradicional do poema: os versos, as linhas do texto poético: “uma abaixo/outra acima” / “Alinha

cabeças fechadas”; a poesia aproxima, abre mentes, faz ver de outra forma; torna igual o diferente, orientando para a comunhão.

Ao andar em Brasília, caminhando ou de carro durante o dia ou à noite, com um olhar mais atento, a cidade parece-nos uma grande obra narrativa, escrita por muitos autores, à espera do olhar, à espera da leitura. Talvez tenha sido a ideia que levou Eloiza Gurgel a dizer: “A urbe não é apenas cenário, mas também personagem de muitas narrativas. Nesse contexto, a imagem técnica é uma possibilidade de compreender a realidade urbana no limiar do universo sonhado” (PIRES, 2014, p. 157).

Em O Aprendizado da cidade: limiares e poéticas do urbano, ela coloca que “A cidade enquanto texto a ser decifrado é um jogo aberto à complexidade [...] se constrói através de um processo relacional nas narrativas das suas imagens, cartazes, outdoors, monumentos, textos que murmuram outros textos, que são lidos em relação a outros, engendrando uma realidade sempre móvel, re-inventada pelas atividades caminhantes dos citadinos”.Há, todavia, que ter cuidado, pois a cidade pode se tornar somente

‘cidade escrita’, um lugar saturado de imagens articuladas em sinais alfabéticos, que vive e se comunica por meio de sedimentos de palavras expostas aos olhares. A palavra nos muros é uma palavra imposta pela vontade de alguém, situe-se ele no alto ou embaixo, imposta ao olhar de todos os outros que não podem deixar de vê-la ou receptá-la. A cidade é sempre transmissão de mensagens, é sempre discurso, mas uma coisa é você poder interpretá-lo, traduzi-lo em pensamentos e em palavras, e outra é se essas palavras lhe são impostas sem possibilidade de escape. Seja ela epígrafe de celebração da autoridade ou insulto dessacralizante, sempre se trata de palavras que tombam em sua cabeça, sem que você tenha escolhido: isso é agressão, é arbítrio, é violência. (CALVINO, 2010, p. 110)

Não seria agressivo, porém, segundo Calvino,

nos casos em que a escrita é espirituosa, ou nos quando ela suscita uma reflexão iluminadora ou uma sugestão poética ou representa algo de original como forma gráfica, porque captar seu valor, seja ele reflexivo ou humorístico ou poético ou estético visual, implica uma operação não passiva, uma interpretação ou decifração, enfim uma colaboração do receptor que se apropria dela por meio de algum trabalho mental, mesmo que instantâneo. (2010, p. 277) Se o poeta é um vidente, pensemos em João Cabral. Em 1954, posicionando-se em relação à função moderna da poesia, afirmou que, nos anos subsequentes, haveria uma inadiável necessidade de a poesia se fazer comunicável, exigência das

possibilidades oferecidas pelos novos meios de comunicação, principalmente aquelas relativas ao leitor contemporâneo; dever-se-ia levar em conta o leitor e sua necessidade; cabendo, portanto, aos poetas aproveitar os meios de comunicação disponíveis em seu tempo. A visão do poeta concretizou-se; as palavras do também poeta Affonso Romano de Sant’anna nos dão essa certeza, pois dizem que,

No raiar do século XXI, irrompe esse fato vertiginoso – a internet. E, de, repente, a poesia conhece um tipo de circulação surpreendente. Em seus blogs, em seus sites e suas intervenções, os poetas estão demonstrando não só se apoderar das novas tecnologias, mas recuperando um terreno perdido. A poesia, boa ou má, está voltando ao cotidiano, demonstrando que é gênero primordial, a fresta por onde respira a mente humana. (CYNTRÃO, 2009, p. 19) Como diz o poeta, “a poesia é isto, é logos e verbo. Poesia é espanto reverberado” (CYNTRÃO, 2009, p. 20); entretanto, com toda essa presença, nessa efervescência, ainda existem lugares inexplorados, outros abandonados ou ignorados onde também está a poesia, embora poucos a vejam. Ela “é logos e verbo”, verbo é palavra, é linguagem, e a linguagem precisa da voz mesmo que silenciosa, à espera de um olhar, de uma leitura. Amneres Santiago, ao personificar o texto, concede-lhe sentimentos humanos e nos faz refletir sobre esse aspecto, isto é, sobre

A urdidura de um texto ao ser escrito, a solidão de um texto que ninguém leu a amargura de um texto ao revelar o abismo, o oco do lado de dentro, o breu onde habita a dor sem esperança e o grito contido no corpo de um texto inescrito, perdido na face lisa de um papel onde guardo o amor em versos magníficos e faço dele mito, escritura, Deus. (SANTIAGO, apud CYNTRÃO, 2011, p. 42)

A poesia não tem lugar fixo, como vimos, ela está em todos os lugares; onde existir o ser humano lá se insere de uma ou outra forma. Ocupa espaços públicos e privados, invade-os, porque, como afirma Kon (2008, p. 20), “[...] o público é o lugar lá de fora, o lugar do perigo e do abandono. O privado é o lugar da vida, mas de uma vida desvinculada da violência-lá-de-fora”. A poesia se impõe, exige presença; transcende o poeta e a própria linguagem, para tornar-se palavra-pensamento-sabedoria. Ensina-nos Dravet que

Pensar poeticamente é deixar a poesia conduzir o pensamento, ou seja, efetuar uma inversão no movimento de construção lógica do raciocínio, permitindo que a indefinição, a ambiguidade ou o paradoxo permaneçam por mais tempo e abram os campos da cognição por meio do sensível. [...] A noção poética permite o aguardar da criação (no sentido da palavra) dentro da atividade de pensar. (CASTRO; DRAVET, 2014, pp. 74-75)

Diz-nos, ainda, a autora que “a poesia é contemplação do mundo, sensibilidade, imagem, som, ela contempla mundos por ela criados e, sendo assim, vai além da contemplação e se torna experiência, vida, sofrimento, gozo, relato” (CASTRO; DRAVET, 2014, p. 78).

4 A POESIA E O ESPAÇO URBANO DE BRASÍLIA

A cidade ideal é aquela sobre a qual paira um pulvísculo da escrita que não se sedimenta nem se calcifica.(CALVINO, 2010, p. 112).