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3 Teoretisk rammeverk

3.3. Kritisk diskursanalyse som teoretisk rammeverk på analysetrinn 1

3.3.2. Konstruksjon av virkelighet (ideasjonell metafunksjon)

167 Na entrevista individual da segunda etapa, Daiany nos informou, a respeito do seu processo de apropriação da linguagem escrita, que não sabia ler, mas ponderou:

Daiany: mais ou menos... só se for soletrando... P: só se for soletrando?...

Daiany: mas letra grande e não letra pequena, eu não enxergo.. P: você não enxerga ou você não entende?

Daiany: eu não enxergo... P: é:: Daiany?

Daiany: letra bem pequenininha eu não enxergo não... um dia a tia fez letra bem pequenininha na lousa, eu nem enxerguei... eu tinha que ir lá... lá pra perto pra mim ver a letra.... o pai vai comprar um óculos pra mim... por que eu ficava usando só o óculos dele por isso que eu fiquei assim...45

Questionada sobre o método de aprendizagem da leitura e da escrita, ela o definiu:

“soletrando”; e narrou o drama de ser alfabetizada pela vizinha: P: o que é ler?

Daiany: ler é uma coisa que a gente aprende... es-tu-da muito aí a gente aprende estuda muito aí depois a gente cresce já sabe ler aí aprende escrever...

P: como foi que você aprendeu... a ler?

Daiany: so-le-tran-do com a vizinha da minha casa perto que mora de mim ela sempre me dava cascudo na minha cabeça aí ela me ensinava soletrando eu aprendi.... ela me ensinou o nome vaca va-ca vaca, casa ca-sa casa...

P: e por quê que ela dava cascudo na sua cabeça?

Daiany: por que eu não sabia ler aí ela me dava cascudo... eu ficava chorando... (...) (ENTREVISTA Individual em 23 /11 /2009).

Na quarta etapa, realizamos, novamente, a entrevista com Daiany, e ela acentuou que sabia ler, e relatando como se deu esse aprendizado:

P: e pra que mais que serve?

Daiany: pra você ler um livro... sempre tá de boa pra ler uma coisa...você sabe ler... P: hum rum...e o quê que você lê? geralmente assim...quais são as coisas que você lê?

Daiany: leio livro ( )... jornais...leio revistas...eu leio várias coisas... eu leio as coisas das missas...

P: e onde é que você consegue esses materiais pra ler? Daiany: eu compro...

A criança informou também o tipo de uso da Literatura Infantil pela escola: P: (...) e qual é assim o material que a professora passa pra ler em casa? S3: “um livro... ela passou um dia o (Azulão)... aí era uma ficha de leitura aí a gente respondia ela todinha...”

Sobre livros no ambiente doméstico, disse que dispõe de títulos, tais como:

“Moranguinho... Chapeuzinho Vermelho... é::...lobo mau... Os Três Porquinhos... O

Lobisomem... As Ovelhas... e As Ovelhas de Deus...”

45Falamos com a professora da criança a esse respeito e ela nos informou que a família estava providenciando o

168 A criança mencionou o quanto ficava feliz com o reconhecimento público por

parte da professora ao fato de ela já saber ler: “tem vários livros quando você lê você

aprende... a tia pergunta uma coisa aí você já sabe e lê... isso é muito legal pra mim...”

Adiantou também que há empréstimo de livros na biblioteca e como esse ato é

realizado: “você pega lá na biblioteca... a professora assina o nome do livro... aí você lê em

casa... aí mais tar... aí quando fo... vo-cê chega aqui... como amanhã ela pega o livro e leva aí

você pode ir pegando o livro... mas só que não pode rasgar...”

Informou que sabia escrever e que aprendeu com a vizinha (a mesma que ensinou a ler). Sobre as funções sociais da escrita, disse: “Daiany: serve pra anotar umas coisas... anotar uma coisa... fazer conta... que ( ) aí você assina... assinar as coisas da agenda com

letras...” Revelou-nos também o prazer de escrever “Daiany: gosto de escrever histórias...

invento histórias eu... mas eu gosto das minhas histórias... quando eu vou fazer uma cartinha pro meu pai eu faço sempre uma história... porque escrever é muito legal...” (ENTREVISTA Individual em 20 /09 /2011).

Assim, de acordo com a própria criança, desde a terceira etapa ela já sabia ler e escrever, mas somente na quarta etapa fala de sua alegria de ter essas habilidades e ser reconhecidas como leitora pela professora diante dos colegas.

Após as entrevistas, realizamos o teste de avaliação de nível de escrita de Ferreiro e Teberosky. Na segunda etapa, a criança não se dispôs realizar o teste, alegando que não sabia escrever. Na terceira etapa, Daiany realizou o teste, que ora analisamos:

Figura 21 - Etapa 3 - Evolução da escrita – 23/11/2009

Fonte: Produzida pela autora

Teste:

Flor/jardim/tulipa/margarida O jardim é colorido

169 Daiany expressou escrita pré-silábica. Demonstra-se muito interessada em suas descobertas, inclusive aceita escrever o texto das histórias lidas e recontadas.

Na tabela seguinte, mostramos a sua primeira produção textual escrita. Seu texto compõe-se de uma mistura de letras com garatujas. A criança parece desejar preencher todas as linhas disponíveis; e assim o faz. A leitura, entretanto, é muito rica em detalhes, naturalmente descolada do texto porque a criança lia ignorando sua escrita. Muitas vezes olhando para o teto ou para algum objeto presente na sala. Outro Caso que exprimiu essa mesma conduta durante a leitura/oral do texto que produziu foi Leonardo S5I2. Perguntados

onde ambos estavam lendo, eles responderam: “está aqui na minha mente”, apontando para a

própria cabeça. A escrita para essas crianças é um brinquedo, não tem ainda a função de registro para auxiliar a memória (VIGOTSKI, 1998b). Assim, não podemos vislumbrar aspectos narrativos nessa produção textual escrita.

Figura 22 - Etapa 3 - Produção Escrita - A Bela e a Fera - 28/10/2009

Fonte: Produzida pela autora

Daiany: Era uma vez a Bela... o pai dela ia viajar... aí o pai dela viajou um belo ( )... ela tinha que pedir muitas coisas... a Bela pediu só uma rosa e as irmãs dela pediu muitas coisas caras... aí... todas tavam machucada a::: Fera aí::: né a Bela ficou... disse assim... eu te amo NÃO morra... eu te amo não morra... aí pegou e beijou o a Fera e depois se virou um príncipe... depois se casaram e ficaram felizes para sempre...

170 Na produção de texto da mesma história, na quarta etapa, a criança escreve alfabeticamente, produz textos e convencionais, observando o gênero narrativo, conforme podemos constatar na tabela a seguir:

Figura 23 - Etapa 4 - A Bela e a Fera - 20/10/2010

Fonte: Produzida pela autora Transcrição

Era uma vez um menina que sichamava Bela. Ela tenha uma irmã mais bonita do que a outra um dia seu pai teve que o seu Pia teve que viajar i um as filhas pediu para uma coíza um pediu tesido outra pe dui jóia para uE a Bela pediu um rosa Seu pai Rezolveu seus proBrema i ele viu um castelo E comeu dormiu E pegou um rosa pro sua filha . Bela E a Bela Foi Vizita Seu pai

E a Fera foi a tacada e a bela Viu Fera a i ela rochori E dia bela

171 Fera não mora eu ciamor

E os

dois sicasaro E vivero Felze prara sen per. Etapa 4 (20/10/2010)

Esse texto traz muitos aspectos importantes. Daiany conserva a noção de gênero que caracteriza, inclusive, os contos de fadas, a senha inicial e final: “Era uma vez... E vivero Felze prara sen per.” Desse modo, a narradora-escritora contempla a Orientação, situando o tempo duas vezes: era uma vez e um dia... Mobília o mundo narrativo, apresentando as irmãs da princesa, caracterizando-as como “uma mais bonita do que a outra” e traz a causa inicial da intriga, “a Bela pediu um rosa”, além de informar que o pai da princesa teve que viajar para resolver problemas.

A escritora apresenta muitos elementos constitutivos da Complicação, inclusive, do ápice do conflito, mas não apresenta a personagem responsável pela tensão máxima. A Fera não aparece quando o pai da princesa colhe a rosa de seu jardim.

A criança segue escrevendo seu texto com a declaração de amor da princesa ao monstro, porém, não registra sua transformação, que coincide com a Resolução. Desse modo, na Situação Final vemos a princesa casada com a Fera, e o registro que “vivero Felze prara sen per”.

Desse modo, mesmo apresentando a noção de gênero, ao suprimir a complicação seu texto, não conservou a estrutura narrativa, de acordo com Adam (1992).

Evidenciamos, contudo, sua evolução na aprendizagem da escrita e destacarmos o fato significativo de que ela está escrevendo alfabeticamente e que, ao final da etapa avaliada, apresentou, ainda que de modo incompleto, três dos aspectos narrativos em sua produção escrita. Vejamos a classificação na tabela a seguir:

172

Gráfico 4 - Evolução da estrutura narrativa escrita - CASO 5 - S3E2 - DAIANY

Fonte: Produzido pela autora

De acordo com os informantes da pesquisa, na primeira etapa, Daiany não dispunha de livros nem de acesso à Literatura Infantil e à “contação” de histórias em casa, mas na escola havia “contação” e leitura de histórias, ainda que não fosse diárias e sistematicamente.

No EF o trabalho com o texto literário é sistemático, em função de programas de acesso à leitura e programas de alfabetização (PAIC) e as crianças têm acesso aos livros na escola e em casa pelo empréstimo que realizam na biblioteca.

Salientamos que o ingresso de Daiany no EF, com o acesso sistemático aos livros, trabalho com a leitura e a escrita, a fez avançar significativamente na oralidade e na escrita. Na quarta etapa, ela apresentou uma narrativa completa com encadeamento causal e, na escrita, produziu um texto convencional, conservando a noção de gênero. A estrutura da narrativa não foi conservada pela supressão da complicação e da resolução.

A ausência desses aspectos na escrita e não na oralidade pode ser decorrente do fato de a escrita requerer mais esforço cognitivo, além de empenho braçal, ou seja, planejar mentalmente o texto e manter o fio condutor da história, enquanto realiza a atividade gráfica. Coordenar pensamento e ação gráfica é uma tarefa que exige muito mais esforço do que apenas a atividade de liberar o fluxo verbal. O ritmo da escrita é mais lento do que o fluxo do pensamento verbal. Daiany ainda está se apropriando do sistema ortográfico. Então, lidar com a dificuldade de saber com quais letras escrever e ainda escrever uma narrativa longa e complexa pode a ter levado ainda a uma tentativa de resumo, por entender que a história era muito longa, e, como havia acabado de recontá-la oralmente, com todos os detalhes, pode não ter considerado importante escrever igualmente completa.

173 Desse modo, à medida que Daiany avançou na oralidade pelo acesso à leitura e à contação de histórias, também avançou na aprendizagem da escrita, sobretudo, no que concerne à compreensão do sistema da escrita alfabética, pois ela ainda está se apropriando do sistema ortográfico e das convenções sociais da escrita, que não fazem parte do sistema alfabético, como pontuação, uso de maiúsculas e minúsculas, dentre outras (FERREIRO, 2003).