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3 Teoretisk rammeverk

6.3. Dimensjonen TILGANG i analysen

6.3.2. Elevenes forståelse av tekstuell sammenheng

Na turma das crianças de Infantil II, as observações que realizamos do momento de chegada apontaram que a professora Rute recebia algumas crianças com “bom dia”, mas geralmente ficava apenas nesse cumprimento. Quando as crianças chegavam chorando por não quererem se separar de algum membro da família, a professora não intervia de nenhuma forma. Ela olhava para a cena e continuava um ritual que acontecia sempre na chegada das crianças, tirar as roupas delas, deixando-as de calcinha e cueca, tinham crianças que traziam blusas extras e a professora e a AE colocavam nelas, porém a maioria delas passava o dia apenas de calcinha e cueca. Às vezes, as crianças se recusavam a tirar a roupa, o que não era respeitado pela professora.

Felipe recusa tirar o seu short, como é realizado cotidianamente assim que as crianças chegam na sala de atividades. A professora se irrita com a recusa do menino

e diz pra ele: “Todo dia é esse show! Felipe tem que tirar o calçãozinho! Tem que tirar Felipe, todo mundo já tirou!” Carol também não quer tirar a roupa, se esquiva

várias vezes da professora, mas ela consegue convencê-la. (Diário de campo, data: 10/11/2015).

Como corrobora Barbosa (2006), as rotinas na educação de crianças de 0 a 3 anos tendem a repetição, o que ocorre em relação ao tempo da chegada das crianças dessa turma. Pois o acolhimento com um sorriso, uma pergunta, um bom dia por parte da professora não acontece. O que prevalece são rituais sem significado para as crianças, que desrespeitam a sua individualidade, seus interesses e escolhas.

As crianças quase sempre eram recebidas com filmes infantis e assim permaneciam até o momento do lanche. Nesses momentos de exibição de vídeos não era possível as crianças interagirem, conversarem, até mesmo se olharem e sorrirem, pois a professora sempre que percebia essas formas de interação verbais ou gestuais entre as crianças

dizia: “prestem atenção no filme!”.

Nos períodos de transição entre as atividades, não observamos nenhuma vez a explicação da atividade que aconteceria posteriormente, a professora chamava as crianças

para realizar os momentos da rotina, muitas vezes apenas dizendo “vamos!” O que se via na transição entre as atividades eram momentos de ociosidade, espera e assim de conflitos físicos entre as crianças. Não se pensavam em materiais e interações que pudessem ocorrer nessas horas. A professora Rute exigia das crianças que permanecessem sentadas e em silêncio para

“esperar o lanche”, “esperar o almoço”, “esperar o banho”, “esperar os pais chegarem”.

A atividade do repouso se iniciava quase sempre com músicas de ninar colocadas pela professora. Algumas vezes, as crianças ao ouvirem as músicas e verem os colchões estendidos no chão pela assistente, enquanto almoçavam, já diziam “é hora de dormir né tia?”

A professora respondia: “isso mesmo, hora de dormir!”.

Esses sinais (músicas) realizados pela professora, como já abordado, são vistos de forma positiva por Castro (2015) que traz essas estratégias como marcadores da rotina, que ajudam a criança a prever o que vai acontecer, dando-lhes segurança e também autonomia. Antecipações a partir desses sinais também ajudavam as crianças dessa turma a através da linguagem oral, exporem o que estavam pensando, suas hipóteses.

Assim como na turma de Infantil I, não era possibilitado às crianças realizarem outra atividade no momento do repouso, todos tinham que dormir no tempo previsto pelos adultos, se elas acordassem antes das 14h, tinham que permanecer deitadas e em silêncio até que todos despertassem, mesmo quando a maioria já estava acordada e apenas um ou dois dormiam tinham que cumprir o ritual do sono. Não era permitido à criança escolher se desejavam dormir ou não. A fotografia abaixo mostra que a maioria das crianças já havia acordado, mas tinham que permanecer deitadas e em silêncio.

Foto 6 – Repouso (crianças querendo levantar)

Os tempos destinados à alimentação das crianças dessa turma eram, frequentemente, tensos tanto para as crianças como para a professora. Rute dizia “façam a

filinha pra ir pro lanche!”, as crianças faziam, ficavam se empurrando na porta, às vezes,

algumas até se machucavam, as adultas viam e não realizavam nenhuma intervenção, a professora abria a porta e as crianças saiam todas correndo para o refeitório, como podemos perceber no trecho abaixo:

Antes do lanche da tarde não é dito para as crianças que é a hora do lanche, ao se levantarem a professora pediu que sentassem encostadas na parede da sala. Dois minutos depois do primeiro comando pediu que levantassem e fizessem um

“trenzinho” e logo depois diz: “Vamos!” No refeitório, as crianças sentaram nas

mesas, algumas ainda quase que dormindo, outras já acordadas há quase uma hora estão mais agitadas. A professora e a AE entregaram três bolachas e um copo com suco para cada criança. Israel começou a cantar a música “boi, boi, boi, boi da cara

preta...” a assistente disse: “não é hora de cantar Israel!”. (Diário de campo, data:

07/10/2015).

Por que não cantar no momento do lanche? Será que no dia a dia dos adultos só se é possível realizar uma ação de cada vez, comer ou cantar, tomar banho ou cantar, comer ou conversar? As práticas cotidianas das profissionais dessa turma revelam um distanciamento das práticas que acontecem na vida cotidiana das crianças, desconsiderando seus interesses, saberes e experiências.

As crianças recebiam a mesma quantidade de bolachas e também de suco, nunca era perguntado a elas se desejavam mais ou menos, e, quando algumas solicitavam mais suco ou outra bolacha, sempre recebiam um “não”. Esse olhar preconceito e de subalternidade dos adultos para as crianças, de que deveriam aceitar apenas o que lhes era ofertado, sem questionar ou solicitar condições melhores de cuidados, eram vistos em outros momentos da rotina.

Geralmente não era dito qual o sabor do suco para as crianças, sendo que em uma

das vezes que Rute foi dar um aviso às crianças “cuidado pra não derramar o suco de acerola na mesa!”, um dos meninos, Armando, olhou para a professora e sorrindo disse: “Acelola!”

encantado com a palavra. Ficou nítida a alegria da criança em ter descoberto uma nova palavra e que o suco que estava bebendo era da fruta acerola, por mais que ainda não conseguisse fazer todas essas relações, apresentou essa reação de alegria ao vocalizar a palavra nova.

Também Hevesi (2011), ao estudar a relação verbal entre adulto-criança que vivem em espaços coletivos, como é o caso da Educação Infantil na instituição creche, constatou que na maioria das vezes, no locus de sua pesquisa, as educadoras davam respostas impessoais as crianças, apresentando um vocabulário pobre e também restringindo suas falas a ordens e proibições como podemos notar na relação estabelecida entre a professora Rute e as crianças pelas quais era responsável.

A oportunidade que a docente tinha nos momentos de alimentação das crianças de ampliar o vocabulário delas, de fazer questionamentos e de deixá-las se expressarem cantando e conversando com os colegas não foi aproveitada, como no exemplo do encantamento de Armando pela palavra acerola. Ao contrário, esses momentos como na pesquisa da autora citada acima, resumiam-se a comer de forma aligeirada e proibição de qualquer outra ação, até cantar, como se na vida em sociedade fizéssemos apenas uma ação de cada vez. Tais práticas ocorrem justamente em uma fase crucial em que as crianças pequenas começam a falar, prejudicando de maneira sem precedentes o desenvolvimento da linguagem oral, das interações e da autoestima dessas crianças.

Na fotografia abaixo as crianças comem melão com as mãos, antes não foram orientadas a lavá-las, hábito de higiene também não ensinado pelas docentes em nenhuma das sessões observadas, revelando que para as professoras, tal ação, de lavar as mãos, não é considerada uma atividade constituinte do currículo da educação infantil.

Foto 07 – Crianças no lanche da tarde

Fonte: Arquivo de pesquisa (2015).

Nas situações diárias em que ocorriam as atividades de higiene (banho, escovação de dentes, vestir fraldas e roupas) na rotina dessa turma, mais uma vez não verificamos qualidade nas interações entre a professora e as crianças, que possibilitassem o

desenvolvimento da fala destas. Esses momentos eram extremamente conturbados e estressantes para as crianças e os adultos, a professora se dirigia as crianças, quase sempre, através de ordens ou ameaças, como podemos perceber no trecho a seguir:

No banho, assim que chegam ao chuveiro do lado externo, que fica na entrada do

pátio de areia, a professora fala: “Luan você vai ser o último a se ensaboar!” Deixa

Luan em pé perto dela assistindo os colegas tomarem banho, mesmo assim, o menino consegue bater nos colegas que passam perto dele. Não só ele, mas muitas crianças se batem umas as outras. Não dialogam, gritam com o colega, mordem, batem e o banho torna-se um caos, os adultos apenas separam as crianças, mas não falam nada, continuam as ações mecanizadas: passam o xampu, o sabonete, esfregam as crianças, tiram o sabão e as secam com as toalhas. A professora pede para que as crianças fiquem encostadas na parede esperando todos terminarem. Em vários momentos ela repete que quem não se comportar não irá assistir o “filminho”. (Diário de campo, data: 14/10/2015).

O início dessas atividades que envolviam a higiene das crianças não era avisado a elas e geralmente aconteciam coletivamente, até os momentos de ir ao banheiro, como podemos observar nesse recorte: Hoje como em outros dias, após o lanche, a professora colocou todas as crianças em pé próximas a parede do banheiro e disse que deveriam ir fazer

“xixi” na mesma hora (Diário de campo, data: 14/10/2015).

Essa cena expressa uma visão robotizada das crianças, uma perspectiva oposta ao que preconizam as DCNEI (BRASIL, 2009), que é a de criança como sujeito de direitos. Nesse caso ela não tem direito a realizar suas necessidades fisiológicas no momento em deseja, mas sim em uma hora determinada pelos adultos, o que nos faz refletir sobre as rotinas

que acontecem “por amor e por força” nas instituições que atendem Educação Infantil.

(BARBOSA, 2006).

Em apenas uma de nossas observações, presenciamos Rute realizando um diálogo calmo e reflexivo com um menino, ao explicar o que seria a ação correta para ele, sem julgá- lo ou ameaçá-lo, o que, frequentemente, fazia nas suas falas com as outras crianças, fez ainda uma pergunta a ele e deixa que responda da sua maneira, foi uma das maiores conversas e umas das poucas intervenções que presenciei da professora com uma criança da turma.

Na hora do banho Felipe joga a fralda dele no chão e vai em direção para o chuveiro. A professora ao passar pelo local vê a fralda e chama o menino: “Felipe venha cá!

Essa fralda é sua?” Ele diz: “hunrum!” A professora complementa: “Pois pegue a fralda e vá colocar dentro do cesto do lixo do banheiro!” O menino ficou parado,

Rute diz: “Vamos lá! Você esqueceu?” Pega na mão do menino que segura a fralda e vai até o banheiro com ele. No retorno do banheiro, ela diz: “Agora você aprendeu

onde é, sempre tem que colocar lá, tá bom!” O menino balança a cabeça, afirmando que havia entendido. (Diário de campo, data: 26/10/2015).

Nos momentos de escovação de dentes das crianças ocorriam diversos conflitos físicos e não havia intervenções da professora e nem da assistente, que permaneciam apenas ajudando as crianças a terminarem a escovação sem dar atenção ao que estava acontecendo entre as outras crianças ao seu redor. Nessa atividade, algumas crianças saiam correndo pela creche, se escondiam no refeitório ou no pátio sem que a professora soubesse do que estava acontecendo. Algumas vezes, as outras profissionais da creche viam alguma criança dessa turma, depois de vários minutos e a levava até a professora, que ainda não tinha percebido a falta da criança na sala.

No penúltimo dia de observação nessa turma, após a escovação de dentes da tarde, Luan que geralmente apresentava um comportamento agitado, vinha apresentando estar mais tranquilo e entregou para Rute o depósito com as escovas de dente, que a assistente tinha pedido pra ele levar até a professora. O menino vinha eufórico por ser responsável por tal

missão e disse: “toma tia!”, Rute que estava de costas olhou para o menino e pegou o depósito

sem dizer uma só palavra.

Sendo as práticas cotidianas responsáveis pelo desenvolvimento das crianças que estão na creche, o que podemos dizer da ação da professora Rute nessa cena? Que perdeu uma excelente oportunidade de dizer: obrigada Luan, você nos ajuda muito trazendo as escovas, ou mesmo um simples sorriso e um obrigada. Perdeu-se muito mais, perdeu-se: mostrar que Luan estava fazendo uma gentileza, que ele estava colaborando para a organização do espaço coletivo, que a professora agradece as crianças, que a professora valorizou a atitude dele, que a professora reconhece a participação das crianças, que a professora comunica-se com as crianças de forma respeitosa. Perdeu-se!

A brincadeira livre das crianças acontecia especialmente no tempo de parque, em que as crianças dessa turma, interagiam com as crianças do Infantil I e do Infantil III. Nesse espaço evidenciamos que ocorreram poucos conflitos físicos entre as crianças do Infantil II, ao compararmos com os conflitos que aconteciam quando estavam na sala de atividades ou em outras atividades com ação direta da professora. Não conseguimos apreender conversas com as crianças que colaborassem de alguma forma com a fala delas, as interações que aconteciam entre professora e crianças se davam mais em chamar a atenção delas por estarem

em algum lugar “perigoso” do parque ou por baterem em algum colega, por exemplo,

“Vanessa, mulher para de bater nos teus colegas!” ou “Armando saia dai!” A professora ficava

quase sempre olhando as crianças de longe, conversando com as outras profissionais que se encontravam no pátio.

O tempo de saída nessa turma, assim como nas demais atividades já apresentadas, também acontecia de forma caótica para as crianças e adultos. Não eram desenvolvidas atividades para vivenciar nesse momento da rotina que se iniciava, aproximadamente uma hora antes da chegada dos pais. Nessa última hora da rotina o objetivo principal parecia ser o de esperar as famílias das crianças. Não havia despedida das crianças, mas a professora sempre cantava uma música com esse tema. Em seguida, dois trechos do diário de campo que ilustram tais considerações.

Rute desliga a TV e pergunta: “Quem quer ir pra casa?” As crianças respondem em

coro: “Eu!”. Ela avisa: “Pois senta que vamos esperar dar a hora!”. Ainda faltam

trinta minutos para os pais chegarem. (Diário de campo, data: 14/10/2015).

A professora entrega as mochilas das crianças, ainda são 16h:20min. Depois pede que elas se sentem para esperar os pais. Diz para as crianças várias vezes: “pra ir pra casa, precisa ficar quietinho”, “senta!”. As crianças ficam nas mesas sem fazer nada, levantam e se dirigem até o muro da sala, ansiosas olham para fora para verem se os pais estão chegando. (Diário de campo, data: 07/10/2015).

Através de todas as situações observadas e refletidas, percebemos que a professora Rute possibilitou em poucos momentos da rotina da turma de Infantil II interações que ampliassem e ou desenvolvessem a linguagem oral das crianças e outras aprendizagens que são cruciais nessa faixa etária. Além disso, constatamos uma postura da professora, permissiva e negligente com as crianças durante os diversos momentos da rotina. Isso ocorria por uma falta de organização dos adultos das atividades que deveriam acontecer, o que se transformou muitas vezes em uma rotina sem rotina, caótica, negligenciada, em que as crianças foram as principais prejudicadas em seu desenvolvimento integral.