• No results found

Kap. 762 Primærhelsetjeneste

In document (2020–2021) (sider 43-46)

2. Forslag under det enkelte departement

2.7 Helse- og omsorgsdepartementet

2.7.8 Kap. 762 Primærhelsetjeneste

O segundo modo de representar a sexualidade diz respeito àquilo a que se chamou, no seguimento de Bozon (2001, 2004, 2005 [2002]; Bozon e Le Van, 2008), uma sexualidade individualizada, devido à centralidade que a sexualidade adquire para o indivíduo. Aqui fez-se ainda a distinção entre uma sexualidade hedonista (Barbagli et al., 2010; DeLamater, 1981; Luhmann et al., 1994; Pais, 1998) e a sexualidade como fonte de identidade pessoal (Foucault, 1994; Jackson e Scott, 2004, 2010; Richardson, 2000; Weeks, 1985, 1987, 1995, 2006 [1986], 2007).

Como o nome indica, a sexualidade hedonística está associada ao prazer e ao desejo, que o indivíduo procura ter e/ou satisfazer para si, através da sexualidade. A associação entre prazer e sexualidade é visível, por exemplo, no discurso do Francisco (26 anos, licenciatura, formador e perito): “Sexualidade é sinónimo de prazer, não me venham cá com tangas. A sexualidade é o ópio dos deuses e ponto final parágrafo. Toda a gente gosta, não há ninguém que não goste”. As ideias de sedução, de atração, de satisfação e de vontade sexual estão claramente presentes neste modo de pensar a sexualidade, que é partilhado, especialmente, por homens e por jovens menos religiosos/as, embora esteja também presente no discurso de algumas jovens mulheres, mais qualificadas, e entre alguns/algumas jovens mais religiosos/as. Contudo, o discurso feminino do prazer surge mais ligado a determinadas práticas sexuais (individualizadas e/ ou relacionais), e não tanto às representações, mais generalizadas, que as jovens têm da sexualidade

“Eu com o [ex-namorado] por acaso fui experimentando várias coisas, mas com um tempo, muito tempo. […] e é verdade que gostava de fazer sexo com ele, é verdade que gostava e era uma das coisas que me dava prazer.” (Sónia, 26 anos, estudante do ensino superior)

Mas, como se referiu anteriormente, a sexualidade é considerada, nos dias de hoje, como um aspeto central para a construção da identidade pessoal dos indivíduos200 (Foucault, 1994; Giddens, 1996; Jackson e Scott, 1997, 2004, 2010; Richardson, 2000; Weeks, 1985, 1987, 1995, 2006 [1986],

200 Weeks (1995) define as identidades contemporâneas como híbridas, feitas de vários fragmentos da história e da experiência pessoal e social. Na medida em que são heterogéneas, estas estabelecem muitas identificações possíveis ao longo das fronteiras de muitas diferenças potenciais. As identidades são, ainda, pessoalmente interligadas em narrativas que dão coerência, às vidas individuais, apoiam e promovem a agência social, e expressam determinados valores. No entanto, em face das suas complexidades, as identidades são perturbadoras. As pessoas procuram-nas, assumem-nas e afirmam-nas, sendo que estas providenciam um pilar para o Eu e para as pertenças sociais, no entanto, estas são muitas vezes postas em questão, refeitas e reinventadas, e/ou procuram-se outras novas.

164

2007). É neste contexto que a sexualidade aparece também para os/as jovens como ligada a questões simbólicas e identitárias. A sexualidade como uma fonte de identidade pessoal, remete, deste modo, para as perceções que se têm da importância da sexualidade para o/a próprio/a. A sexualidade pode, então, ser pensada como sendo uma fonte de conhecimento profundo do Eu; isto é, como fornecendo esse conhecimento profundo, íntimo do indivíduo, daquilo que este consegue ou não fazer e/ou do maior conhecimento do seu corpo. Simultaneamente, a sexualidade pode ser sentida como fonte de realização pessoal, na medida em que é entendida como produtora e/ou fonte de bem-estar pessoal e/ou de maior autoestima201. O modo como a Raquel representa a sexualidade é exemplificativo do modo como esta ganha importância como fonte de conhecimento e de realização pessoal.

“Eu sempre me considerei uma pessoa muito sexual e por isso é que para mim isso é um assunto importante e com muita influência na minha vida [...] Mas acho que tem a ver não só com a própria relação física mas muito também com a forma como nós nos sentimos em relação ao nosso próprio corpo [...] uma pessoa conseguir aceitar-se como é e sei lá…aprender a lidar com o corpo e a conhecer o nosso corpo e as reações do nosso corpo...” (Raquel, 21 anos, licenciatura, à procura de primeiro emprego)

Acresce ainda que a sexualidade pode ser percebida como central na definição da identidade no que toca à orientação sexual e ao género. Por um lado, esta pode ser percebida como uma das características principais que define os indivíduos como homens ou mulheres; enquanto pessoas, na sua forma de agir para consigo próprio e para com os outros, quer sejam amigos/as ou possíveis parceiros/as; e como meio de criar a imagem dos indivíduos para o Eu e/ou para os/a(s) outros/a(s), por exemplo quando as mulheres usam determinadas roupas, sapatos e/ou maquilhagem.

“A sexualidade é se calhar o que nos define como mulheres e como homens. Ah, tudo o que nos envolve, ah, acho que é a maneira de sermos, a maneira de agirmos para connosco, para com os nossos amigos, para com, se calhar, um possível companheiro ou um namorado. Tudo à nossa volta basicamente, acho que podemos identificar com isso.” (Isabel, 25 anos, estudante do ensino superior, empregada de loja)

Por outro lado, no caso de alguns/algumas jovens com uma orientação sexual não heterossexual, a sexualidade é também significado de uma identidade sexual com forte visibilidade social (ver, por exemplo, Weeks, 1995, Richardson, 2000 e/ou Seidman, 2002). Para além disso, a primeira relação sexual heterossexual, no caso dos/das jovens heterossexuais, e a primeira relação sexual com uma pessoa do mesmo género, no caso dos/das jovens não heterossexuais (não necessariamente a primeira relação sexual em si) são, frequentemente, percebidas como elementos significativos na construção da identidade de género e sexual, sobretudo, enquanto homens e mulheres heterossexuais adultos e

201 Durante o século XX, a par dos processos “sexualização do amor” e da “erotização do sexo” (Seidman, 1991), e como consequência destes, o sexo passou a ser percebido como algo de positivo, divertido e capaz de melhorar a vida dos indivíduos (embora a ideia do sexo como negativo e perigoso não tenha desaparecido) (Jackson e Scott, 1997). O “bom sexo” passou a ser entendido como um “objetivo de vida chave e uma fonte de realização pessoal: o sexo como uma salvação secular” Jackson e Scott, 1997: 559). Uma trajetória de vida bem- sucedida passa a ser entendida como permeada por uma vida sexual satisfatória (Bajos et al., 2008).

165

enquanto jovens com uma identidade sexual não heterossexual. Mas a esta questão voltar-se-á mais tarde.

A ideia da sexualidade enquanto algo de importante para a identidade pessoal é bastante difundida, especialmente entre os jovens homens com o ensino secundário, e entre as jovens mulheres a frequentar o ensino superior ou já com a licenciatura. In teressante é de notar que os/as jovens católicos não praticantes com forte socialização religiosa tendem a associar à sexualidade algum tipo de importância para a sua identidade pessoal. Neste sentido, pode levantar-se a hipótese de que, como se referiu no capítulo I, embora a sexualidade seja fortemente condicionada no Catolicismo (ver, por exemplo, Hunt, 2010), esta torna-se um elemento importante da construção da identidade pessoal, no sentido em que o indivíduo deve orientar os seus comportamentos em determinado sentido. Assim, uma sexualidade relacional pode elevar o valor do indivíduo, ao contrário do que acontece numa sexualidade separada da intimidade e do amor, que transforma o Eu apenas num veículo para o prazer, de forma não muito diferente do que acontece com os animais (Seidman, 2003).

In document (2020–2021) (sider 43-46)