2. Forslag under det enkelte departement
2.11 Samferdselsdepartementet
2.11.6 Andre saker
De acordo com vários/as autores/a (Bajos et al., 2008; Braun et al., 2003; Ferrand et al. 2008; Ferreira, 2011; Heilborn et al., 2006 a); Heilborn e Cabral, 2006; Holland et al., 1996, 1998; McPhilips et al., 2001; Richardson, 2010; Thomson e Holland, 1998), a construção dominante da relação sexual heterossexual – o “sexo”, é a relação sexual coital (em que há a penetração do pénis pela vagina) 216. Este conceito de relação sexual tendem a ser fortemente criticado por vários/as autores/as de orientação feminista217 e/ou queer, com base na premissa de que este é associado a uma sequência convencional da relação sexual heterossexual, ditada pela ereção e pelo orgasmo do homem, como sendo definida no masculino, e, por conseguinte, construída no corpo masculino (Jackson e Scott, 2007, 2010).
Neste sentido, Bourdieu (1999) argumenta que as práticas e representações da relação sexual218 são percebidas como assimétricas, de modo que os homens concebem o ato sexual como uma forma de dominação e de apropriação, como um ato agressivo e físico de conquista, que é orientado para a penetração e o orgasmo; enquanto que as mulheres são preparadas, ao nível social, para viverem a sexualidade como uma experiência íntima e afetiva, que pode não incluir a penetração, mas que pode englobar atividades como falar, tocar, acariciar ou abraçar. No discurso masculino fala-se então num possuir sexualmente com um sentindo de dominação e de submissão ao seu poder, sendo que as manifestações de virilidade se enquadram numa lógica de proeza que traz honra ao homem. A relação
216 Neste sentido, Richardson (1996) refere que aquilo que é considerado como um comportamento sexual normal e aceitável, mesmo o que é percebido como uma prática sexual, reflete as construções dominantes da sexualidade como relação sexual (vaginal) heterossexual. A heterossexualidade está, por conseguinte, dependente de uma visão de indivíduos genderizados de forma diferente, que se complementam, e cujos corpos encaixam um no outro. Deste modo o pénis e a vagina são percebidos como encaixando “naturalmente”. Ao nível individual, estas representações podem influenciar o modo como as pessoas experimentam o seu corpo e o corpo dos/as outros/as, desencorajando determinado tipo de práticas corporais, ao mesmo tempo que encorajam outras.
217 A heterossexualidade masculina é, assim, como referido por Plummer (2005), frequentemente restringida a aspetos fálicos, e, consequentemente, entendida como ameaçadora, opressiva e predatória, assim como considerada como “causadora” dos riscos relacionados com a saúde sexual: as DST’s e a gravidez indesejada (Beasley et al., 2012).
218 De acordo com Bourdieu (1999), os órgãos sexuais são socialmente construídos, na medida em que, através do mundo social, as características biológicas dos órgãos sexuais são registadas e retificadas simbolicamente, contribuindo, parcialmente, para transformar uma construção social, numa necessidade da natureza. Os órgãos sexuais são, assim, “o produto de uma construção operada, ao preço de uma série de escolhas orientadas, ou melhor, através da acentuação de certas diferenças ou da supressão de certas semelhanças” (Bourdieu, 1999: 13).
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sexual é, assim definida, como uma relação social de dominação “...construída através do princípio de divisão fundamental entre o masculino, ativo, e o feminino, passivo”, em que “esse princípio cria, organiza, exprime e dirige o desejo” (Bourdieu, 1999: 18).
Contudo autoras, como Heilborn (1999), Jackson e Scott (2007, 2010) e Lhomond (1999), chamam a atenção para o facto de que o significado que o sexo tem para um certo grupo não é, necessariamente, o mesmo que tem para outro, sendo que as relações entre sexualidade e outros domínios da vida social também variam. Neste sentido, a relação e o prazer sexuais são socialmente mediados e as interações sexuais, tal como toda e qualquer interação, são incorporadas e genderizadas219, ocorrendo num nexo mais alargado de relações sociais (Jackson e Scott, 2007, 2010). Acresce ainda que, de acordo com Jackson e Scott,conceptualizar as relações sexuais como relações sociais implica olhar para a diversidade de modos como o corpo e a incorporação figuram nas relações sexuais220. No entanto, para as autoras, embora a materialidade dos corpos seja importante, estes não são significativos por si próprios. Os indivíduos são incorporados dentro de contextos sociais que afetam o modo com os seus corpos e os corpos dos outros são percecionados e vividos. O envolvimento numa relação sexual implica, assim, a interação, em contextos sociais, de seres sociais incorporados, que trazem consigo “uma certa bagagem biográfica e cultural” (Jackson e Scott, 2010: 101). A composição dos encontros sexuais diz, então, respeito a atos, mas também ao modo como os indivíduos interpretam o modo como se sentem, e, logo, ao que é passível de ser interpretado como sentimento para estes, e ao que pode ser transmitido aos outros. A incorporação sexual requer, deste modo, que o indivíduo construa um sentido contínuo de incorporação do eu, no contexto do espaço social, intersubjetivo, do encontro sexual (Jackson e Scott, 2007, 2010).
Tendo em conta esta controvérsia em volta do significado da relação sexual, tornou-se pertinente perguntar aos/às próprias jovens o é que a relação sexual queria dizer para estes/as. Com esta pergunta procurava aceder-se a práticas específicas que estariam incluídas neste conceito. O resultado foi o oposto. A maioria das definições que os/as jovens ofereceram para a relação sexual estão estritamente associadas com as suas representações da sexualidade. E mais do que práticas obteve-se, então, relacionamentos, sentimentos, desejos, prazeres individuais e/ou relacionais, motivações... Para além de que a relação sexual nem sempre é nomeada221, falando-se antes no “falar disso” (Vilar, 2001) ou no amor.
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Para Jackson e Scott (2007, 2010), a relação sexual heterossexual está assente numa diferença cultural socialmente construída, pelo que o desejo sexual e o prazer são representados e experimentados em termos de uma polaridade de género.
220 Connell (2002: p. 94) argumenta, também, que, nas práticas sexuais, os corpos são “empurrados” para processos sociais, estruturados por relações de género. A maior parte das práticas sexuais ocorre em instituições (como a família) e, por conseguinte, dentro dos regimes de género dessas instituições. A ordem de género delineia lugares para os corpos, distribui diferentes recursos e providencia interpretações. Deste modo, padrões específicos de práticas e de desejo sexual surgem em localizações distintas, providenciadas pela ordem de género, e em resposta a necessidades socialmente construídas.
221 Sobre a dificuldade em falar sobre sexualidade, em geral, ver capítulo 3. Sobre a comunicação sobre a sexualidade na família, na escola e com os/as amigos/as ver capítulo 4.
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Ora, tal como acontece para as representações que os/as jovens têm da sexualidade, a relação sexual tende a envolver um conjunto de coisas e não apenas algo específico222. Contudo, os aspetos relacionais da sexualidade223 tendem a estar omnipresentes, mesmo porque, primeiro que tudo, a relação sexual tende a ser pensada como envolvendo algum tipo de relacionamento entre dois/duas parceiros/as. Dois/duas parceiros/as que são, frequentemente, descritos como pertencendo a géneros opostos, reproduzindo assim o predomínio da heterossexualidade224, ainda existente nas sociedades ocidentais contemporâneas (ver, entre outros, Epstein e Johnson, 1998; Jackson, 1996; Jackson e Scott, 2004; Kehely, 2002; Mac An Ghaill, 1994; Rich, 2007 [1982/1986]; Richardson, 1996, 2000; Santos, 2012; Seidman, 2003), como se pode perceber no discurso do Luís (27 anos, 9º ano, operário): “A sexualidade é ter sexo. Ah, é algo bom. Sei lá. [Envolve] Homem e mulher, e se calhar duas pessoas que se gostam basicamente”. Embora haja, para vários/as dos/as jovens entrevistados/as, espaço para a abertura ao relacionamento entre parceiros/as do mesmo género: “Sexualidade para mim é uma relação entre duas pessoas, tanto dois homens, duas mulheres, homem e mulher... [...], dependendo dos interesses de cada um” (Victor, 22 anos, licenciatura, professor/formador).
Outro aspeto significativo da relação sexual, enquanto uma atividade relacional, remete para o facto de esta ser descrita pelos/as jovens enquanto meio de expressão da intimidade revelada. O conhecimento do parceiro é sentido como dando garantia de segurança na relação sexual, ajudando a clarificar o que é que as pessoas querem e esperam desta, e permitindo a existência de intimidade entre os/as parceiros/as. Por seu turno, a intimidade entre os parceiros permite um sentimento de bem- estar com o/a parceiro/a e a confiança e a garantia de que se tem a relação sexual quando a pessoa se sente preparada.
“O que é que envolve [uma relação sexual]?…abertura basicamente e... sei lá, tem que haver descoberta um do outro. [...] Se uma pessoa na relação sexual consegue ser aberta acho que não há momento mas intimo do que esse. E daí vem o resto da intimidade, ou estende-se a intimidade ao resto dos campos da relação. [...] Acho que isso fortalece muito, não só as relações, mas as próprias pessoas. [...] Se eu não conseguir falar com a pessoa abertamente, se eu não conseguir estabelecer uma ligação dentro da relação sexual, para mim é difícil manter a relação nos outros campos.” (Raquel, 21 anos, licenciatura, à procura do primeiro emprego)
No entanto, este enfoque no aspeto relacional da relação sexual, não impede que a questão da atração, do desejo e do prazer estejam também presentes. Estes fazem, assim, parte das motivações que os/as jovens dão para terem uma relação sexual, sendo, mesmo, um aspeto essencial para alguns/algumas deles/as. Mais uma vez é possível ver como aspetos relacionais e hedonísticos da
222 McPhilips et al. (2001) mostram também como, para os indivíduos que entrevistaram, o “sexo” não é percebido como sendo apenas a penetração vaginal, mas antes como uma categoria mais alargada e difusa de experiência, embora esta faça sempre parte das suas representações.
223 Estes dados vão de encontro ao referido por Jackson e Scott (2004: 243), quando estas argumentam que um dos aspetos centrais da ideia de que o sexo é “especial” está relacionado com o facto de este ser particularmente valorizado como algo de partilhado.
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Sobre o conceito de heterossexualidade e a sua normatividade como forma de relacionamento sexual adulto (Jackson e Scott, 2004), ver capítulo 2.
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relação sexual podem coexistir na biografia de um mesmo indivíduo: “O ato em si? [...] É importante, faz parte de nós. É uma sensação de libertação [...], sei lá, de desejo, de prazer. [...] Se for com a tua namorada ou com o teu namorado, [...] faz parte do amor que tens, do sentimento que sentes pela outra pessoa” (Filipe, 26 anos, 12º ano incompleto, empregado de armazém).
O prazer, apesar de ser percebido, geralmente, como algo individualizado, e acessível, sobretudo, aos homens heterossexuais e aos indivíduos com uma orientação sexual não heterossexual, é referido aqui de duas formas distintas: por um lado, como orientado para o prazer individual, especialmente quando não associado com um relacionamento sexual e amoroso225; e, por outro lado, como algo relacional: o dar e receber prazer, sobretudo quando há sentimentos envolvidos226. Esta segunda representação do prazer distingue-se da representação de prazer referida em primeiro lugar, no sentido em que pressupõe uma certa igualdade de género, onde ambos os parceiros têm o direito a saírem satisfeitos da relação sexual: “O sexo em si é dar prazer, ter prazer. Para mim é muito importante dar prazer. Eu, ao estar dar prazer, estou a dar prazer a mim próprio” (Paulo, 22 anos, 12º ano, eletricista/pizzeiro). O ideal de democracia no casal (Weeks, 1998) e a suspensão da desigualdade de género que o amor deve proporcionar (Bourdieu, 1999), estão aqui expressos no modo como os/as jovens sublinham a importância da reciprocidade do prazer na relação sexual227, e, por conseguinte, a importância dos aspetos relacionais desta, e da sexualidade em geral, dando conta da existência de um novo ideal de reciprocidade nas relações sexuais.
Então, se a relação sexual é uma questão de conhecimento, de intimidade, de amor, de carinho e de afeto; de “à vontade com a pessoa que tem de ser criado com tempo (Sandra, 26 anos, licenciatura); mas, também, de desejo, prazer e atração, geralmente, em diversas combinações, os aspetos corporais e as práticas a eles associados parecem desaparecer das representações dos/as jovens. Quando a
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Neste contexto, o prazer pode ser considerado como fazendo parte de uma representação e/ou orientação individualizada da sexualidade, no sentido de Bozon (2001, 2004, 2005 [2002]; Bozon e Le Van, 2008).
226 O prazer enquanto algo que se dá e se recebe não pode ser percebido, unicamente, como uma demonstração de virilidade masculina em que um “verdadeiro” homem deverá “satisfazer” a sua parceira. Num contexto em que, como se tem vindo a referir, existe uma valorização dos aspetos relacionais, nomeadamente da intimidade revelada, mesmo que a nível discursivo e idealizado, o dar e receber prazer é parte integrante de um relacionamento amoroso e sexual, em que há respeito, companheirismo e comunicação com o/a parceiro/a; e em que o bem-estar do indivíduo surge tanto da sua satisfação pessoal, como da satisfação do/a parceiro/a. Neste sentido, a reciprocidade sexual tornou-se normativa, constituindo, atualmente, um elemento central para o sucesso dos relacionamentos conjugais heterossexuais (Braun et al., 2003; Cvajner, 2010; Jackson e Scott, 1997, 2010). Contudo, Braun et al. (2003) não deixam de sublinhar como o discurso da reciprocidade pode exprimir ou intensificar a desigualdade de género nas práticas sexuais, na medida em que o orgasmo masculino continua a ser sentido como mais importante e/ou necessário do que o feminino (mesmo quando as mulheres têm agora o direito a reclamá-lo). Acresce ainda que, o ideal de reciprocidade pode criar ansiedades sobre a competência masculina, no sentido em que o orgasmo feminino pode ser percebido como importante para os homens não (só) em termos de mutualidade, mas acima de tudo como um indicador das suas performances e das suas habilidades enquanto parceiros sexuais.
227 Está-se aqui perante a defesa, ao nível discursivo, do ideal de igualdade de género, presente nas sociedades ocidentais atuais (Inglehart e Norris, 2003; Inglehart, 2008). De forma semelhante, Aboim (2010) refere que os jovens homens das gerações mais jovens, que entrevistou, dão conta, em termos ideológicos, de uma hegemonia do discurso da igualdade sexual, em que se defende o direito, tanto de homens como de mulheres, em experimentar e sentir prazer.
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corporalidade da relação sexual aparece, surge, geralmente, associada à ideia, à primeira vista autoevidente, de que uma relação sexual envolve sexo ou (dois) corpos. Procurou, assim, insistir-se na pergunta228. Como resposta, obteve-se o que parece ser mais um processo do que uma única prática sexual. Assim, para os/as jovens, a relação sexual tende a decorrer em fases distintas, associadas a diferentes práticas, e a diferentes sentimentos e/ou emoções, relacionados, geralmente, com diferentes tipos de parceiros/as sexuais. A ideia geral é a de que uma relação sexual não se resume à penetração vaginal, mas é um processo que envolve: o tipo de sentimento, a sedução e/ou a comunicação entre os/as parceiros/as; os preliminares; o acto sexual; e que pode ou não acabar num periodo de relaxamento e de intimidade entre os/as parceiros/as, expresso, por exemplo, no abraçar, no dormir junto, no fumar um cigarro, ou no ver um filme; dependendo do tipo de relacionamento, do próprio indivíduo, do contexto e/ou do/a parceiro/a envolvido/a.
“É o antes o durante e o depois. Sei lá, o que é que envolve uma relação sexual? [...] Sentimento, atitude, tudo, aqueles sinais, que te levam a teres a relação sexual, passando sempre pelo que vem antes, preliminares, etc., e o depois também, ou seja, o cigarro pós-coito, faz parte. Isso é superimportante, para mim a coisa não fica terminada sem isso. E o dormir depois assim juntinhos, o rir depois um bocadinho e ver um filme. Tudo.” (Carolina, 22 anos, licenciada, empregada de loja/barmaid)
“O ato em si” tende a ser conotado, pelos/as jovens heterossexuais, com a penetração vaginal, embora haja algum espaço para o sexo oral. Contudo este último, tal como referido por McPhillips et al. (2001), tende a pertencer mais ao domínio dos preliminares, juntamente com as carícias e os beijos229. Mas a penetração, especialmente entre algumas das jovens entrevistadas, nem sempre é o aspeto considerado como mais importante da relação sexual, lugar este ocupado pelos preliminares, sendo, antes, pensado como um remate final do processo. Já o beijo, no contexto de uma relação sexual ou não, é, frequentemente, percebido, sobretudo, por estas jovens mulheres (mas não só!), como um aspeto de grande importância, desempenhando também um papel na criação da intimidade e/ou na escolha de um(a) parceiro/a: “Acho que não é preciso ter penetração para ter uma relação sexual. [...] Sinceramente dou muita importância ao beijo, muito mais do que a penetração, nem se fala!” (Joana, 23 anos, licenciatura, desempregada).
Também entre os/as jovens com uma orientação sexual não heterossexual, o significado da relação sexual esteve longe de ser atribuído a uma prática específica, ajudando a reforçar a ideia desta como um processo. Mais uma vez, as respostas remetem, sobretudo, para um conjunto de coisas, em que o carinho, o “jogo” de sedução, a envolvência do contexto, a comunicação entre parceiros/as são sublinhados, a par da penetração, dos beijos, do uso de utensílios, etc.: “Não é só o ato em si. É toda a
228 Apesar de a pergunta ter sido bastante direcionada, as respostas não foram, como se pretendia, mais concisas ou esclarecedoras da prática sexual. A pergunta foi então: “O que é para si uma relação sexual (p. ex., relações oro-genitais, penetração vaginal/anal; carícias sexuais, - o que envolve?)”.
229 De acordo com McPhillips et al. (2001) e Braun et al. (2003), apesar de existirem definições mais abrangentes de “sexo”, as outras práticas sexuais tendem a ser descritas como suplementares ao “sexo” (entendido como penetração vaginal) e não como algo que o possa substituir. De acordo com os/as autores/as (McPhillips et al., 2001; Braun et al., 2003), o “sexo” é de tal modo tomado como garantido, como algo de normal, que a sua exclusão tem que ser justificada.
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envolvência que conduz a esse mesmo ato. E se calhar é muito mais aliciante haver aquele jogo todo, do que: “[...] vamos fazer tacataca e já está.”. Ah, é bom falarmos sobre isto e é bom sabermos qual o nosso papel no meio disto.” (Francisco, 26 anos, licenciatura, perito/formador). Mas se nem sempre é fácil definir em concreto quais as práticas que constituem uma relação sexual, é seguro dizer que vários/as destes/as jovens consideram que, nas relações sexuais entre pessoas do mesmo género, existe uma maior tentativa de diversificar as práticas sexuais e de concretizar as fantasias de cada parceiro/a do que nas relações sexuais entre parceiros/as de géneros diferentes. Os indivíduos com uma orientação sexual não heterossexual são, assim, pensados como tendo uma mentalidade mais aberta, um melhor conhecimento do corpo do/a parceiro/a, e, no caso das mulheres, um maior à vontade na comunicação com a parceira, o que resulta, segundo eles/as numa prática sexual mais intensa e numa maior liberdade de experimentação: “Somos muito mais flexíveis e experimentamos, se calhar, muito mais coisas… Estamos sempre a tentar inovar… [...] Ok, em posições ou em brincadeiras [...]. Eu não oiço tanto os heterossexuais a falar nisso, entendes? [...] E acho que nós talvez estejamos mais abertos” (Mariana, 24 anos, licenciatura, empregada de balcão/barmaid).
Tendo agora a ideia da relação sexual como um processo social, geralmente difícil de definir e caracterizado por uma certa ambiguidade, que remete, frequentemente, mais para sentimentos e motivações do que para práticas; e da centralidade que a penetração vaginal tem na definição daquilo que é o “sexo”, ao nível do senso comum, vai passar-se à análise do modo como os/as jovens se referem aos relacionamentos e práticas sexuais em que se envolvem (ou não) e para os significados que estes/as lhes atribuem.