• No results found

As intervenções comportamentais constituem a abordagem de excelência para as

dificuldades relacionadas com o adormecer e despertares noturnos durante os primeiros

anos de vida (Kuhn & Elliott, 2003; Mindell et al., 2006; Mindell, 1999; Morgenthaler

et al., 2006). O principal objetivo destas intervenções é ajudar a criança a adormecer

sem o envolvimento dos pais e a sossegar e reconciliar o sono sem apoio dos pais quan-

do acorda durante a noite (Stein & Barnes, 2002). Desta forma, as intervenções compor-

tamentais dirigidas a estes problemas incluem, geralmente, três componentes: (1) esta-

belecer uma hora de deitar consistente e adequada à idade da criança; (2) criar condi-

ções propícias ao sono, como uma rotina breve e consistente à hora de deitar e um

ambiente envolvente adequado; (3) encorajar a criança a adormecer de forma autónoma.

Relativamente ao estabelecimento da hora de dormir, os pais são aconselhados a

Capítulo III. Promoção do Desenvolvimento e Adaptação na Infância

“De Pequenino…” Uma abordagem ao desenvolvimento e comportamento da criança pequena

140

que habitualmente tem de acordar. Em relação ao número de horas de sono, os pais

devem conhecer as recomendações habituais para a idade da criança (e.g., National

Sleep Foundation, 2011), mas também estar atentos aos sinais de necessidades adicio-

nais de sono da criança, como ter de ser acordada de manhã, ter dificuldade em ficar

desperta ao acordar, fazer muitas birras ou “quebrar” muito em determinadas alturas do

dia (Centre for Community Child Health, 2006a). Depois de estabelecido o número de

horas de sono, os pais devem subtraí-lo à hora habitual de acordar para encontrarem a

hora de dormir desejável. Quando existe um grande desfasamento entre a hora desejável

e a hora habitual de adormecer, é recomendada a utilização de uma estratégia de fading.

O procedimento consiste em começar por adiar a hora de deitar da criança, estabelecen-

do-a um pouco depois da hora a que a criança adormece habitualmente e associando

uma rotina de sono adequada (Morgenthaler et al., 2006). O objetivo é conseguir que

seja estabelecida a associação entre deitar e adormecer rapidamente. Quando a rotina de

deitar está bem estabelecida e a criança adormece num período de 15 minutos, os pais

vão fazendo aproximações graduais (e.g., 15/20 minutos) à hora desejável. A utilização

deste procedimento desencadeou um aumento na duração do sono noturno (Piazza &

Fisher, 1991)

Em relação à criação de condições propícias ao sono, habitualmente as interven-

ções recomendam uma série de medidas de higiene do sono. Nas crianças, as práticas de

higiene do sono incluem estabelecer horários de adormecer e acordar consistentes, pro-

porcionar atividade física durante o dia, evitar alimentos muito ricos em proteínas e

bebidas com cafeína próximo da hora de dormir, disponibilizar um ambiente físico ade-

quado ao sono (i.e., quarto sossegado, escurecido, com uma temperatura agradável e

Capítulo III. Promoção do Desenvolvimento e Adaptação na Infância

“De Pequenino…” Uma abordagem ao desenvolvimento e comportamento da criança pequena

141 141 141 141 141 intervenções incluírem recomendações desta natureza, as práticas de higiene do sono

não têm sido avaliadas de forma isolada (Galland & Mitchell, 2010).

As rotinas de deitar envolvem a realização de um conjunto de atividades pela

mesma ordem e sensivelmente à mesma hora todas as noites, incluindo atividades de

cuidados (e.g., tomar banho, vestir o pijama, escovar os dentes) e atividades de prazer

calmas (Centre for Community Child Health, 2006a). O início consistente destas ativi-

dades algum tempo antes da hora de deitar ajudará a criança a começar a sossegar e a

preparar-se para dormir (Galland & Mitchell, 2010). Alguns autores utilizaram as roti-

nas de forma isolada, encontrando melhorias no sono da criança: menor período de

latência, despertares menos frequentes, maior duração do sono noturno (Adams &

Rickert, 1989; Mindell, Telofski, Wiegand, & Kurtz, 2009).

Finalmente, para ensinar a criança a adormecer de forma autónoma têm sido uti-

lizadas diferentes intervenções, sendo que as diferentes formas de extinção e os desper-

tares programados constituem as estratégias com maior suporte empírico (Mindell,

1999; Sadeh, 2005). Os procedimentos de extinção focam o papel da atenção parental

na manutenção do problema de sono, pelo que a intervenção consiste na retirada dessa

consequência positiva (Morgenthaler et al., 2006; J. Owens et al., 1999). A extinção tem

sido aplicada em diferentes formatos, nomeadamente a extinção padrão, a extinção gra-

dual e a extinção modificada (Caixa 3). Embora o procedimento de extinção padrão

produza mudanças eficazes e duradouras, muitos pais têm dificuldade em aderir ao

mesmo (Mindell, 1999; M. J. Reid, Walter, & O’Leary, 1999). Por essa razão, as formas

alternativas de extinção têm sido apontadas como preferenciais, uma vez que combinam

Capítulo III. Promoção do Desenvolvimento e Adaptação na Infância

“De Pequenino…” Uma abordagem ao desenvolvimento e comportamento da criança pequena

142

Caixa 3

Procedimentos de extinção

Extinção padrão. Os pais devem ignorar sistematicamente os protestos ou pedidos da criança.

Se a criança se levantar, os pais devem simplesmente voltar a conduzi-la para a cama sem inte- ragir com ela.

Extinção gradual. Os pais devem intercalar a estratégia de extinção com conforto breve, dimi-

nuindo gradualmente a resposta às solicitações da criança. Depois de seguirem a rotina de sono e deitarem a criança, devem sair do quarto. Quando a criança protesta, chama ou faz um pedido, os pais devem ignorar por um período de tempo determinado e só depois vão junto dela, confor- tam-na brevemente e voltam a sair. Os períodos de tempo que os pais esperam antes de respon- der à criança podem ir aumentando gradualmente em cada noite (e.g., 2 minutos, 4 minutos, 6 minutos) ou ao longo de várias noites (e.g., na primeira noite, intervalos de 2 minutos; na segunda noite, intervalos de 5 minutos).

Extinção com presença parental (camping out). Este procedimento assume que as dificulda-

des da criança se associam a ansiedade de separação. Desta forma, os pais permanecem no quar- to até a criança adormecer, mas ignoram os seus protestos de forma sistemática. Uma versão modificada deste procedimento prevê a redução gradual de medidas de conforto ativo para a criança adormecer (e.g., ser embalada, ter contacto físico com um adulto). Para isso, os pais devem distanciar-se progressivamente da criança até que seja capaz de adormecer sem a presen- ça de um adulto (e.g., inicialmente, o adulto senta-se ou deita-se perto da criança e acaricia-a para dormir. Depois, o adulto fica perto da cama da criança até a criança adormecer, numa cadeira, mas já não a acaricia nem lhe toca. Quando a criança se habitua, o adulto vai mudando progressivamente a cadeira para um pouco mais longe da cama da criança até ficar fora do quar- to).

Os despertares programados têm sido utilizados maioritariamente nas parassó-

nias, mas também tem sido verificada a sua eficácia nos despertares noturnos quando

não estão associadas outras dificuldades à hora de adormecer (Rickert & Johnson,

1988). O procedimento consiste em acordar a criança um pouco antes da hora a que

habitualmente acorda de forma espontânea e depois voltar a fazê-la consolidar o sono

usando a rotina de sono habitual. Quando a frequência dos despertares espontâneos

diminui, o intervalo entre despertares programados é aumentado até que sejam elimina-

Capítulo III. Promoção do Desenvolvimento e Adaptação na Infância

“De Pequenino…” Uma abordagem ao desenvolvimento e comportamento da criança pequena

143 143 143 143 143 4.2. Prevenção de problemas de sono

A literatura disponível sobre a prevenção de problemas de sono foca essencial-

mente intervenções dirigidas a pais de bebés para o estabelecimento de bons hábitos de

sono (J. Owens et al., 1999). De uma forma geral, estas intervenções forneceram infor-

mação e aconselhamento aos pais sobre o estabelecimento de horários e rotinas de sono

consistentes, a promoção da autonomia do bebé para adormecer e as repostas parentais

aos despertares noturnos (Mindell, 1999; Morgenthaler et al., 2006; Sadeh, 2005). Os

resultados destes programas mostraram que os bebés do grupo de intervenção dormiam

mais horas seguidas durante a noite e acordavam menos vezes do que os bebés do grupo

de controlo (Adair et al., 1992; Pinilla & Birch, 1993; Wolfson et al., 1992).

5. Dos Estudos de Eficácia à Disseminação ao Nível Populacional