A maior parte da informação disponível sobre intervenções parentais foi condu-
zida com pais de crianças que apresentavam fatores de risco e não com amostras comu-
nitárias (Socolar et al., 2004). Uma exceção é a investigação sobre intervenções dispo-
nibilizadas no âmbito do aconselhamento antecipatório, mas os tópicos estudados são
muito escassos (Regalado & Halfon, 2001). Por outro lado, a literatura sobre os pro-
gramas de educação e treino parental tem permitido verificar a efetividade das aborda-
gens utilizadas, mas não especificar detalhadamente quais os ingredientes ativos das
intervenções implementadas (Locke & Prinz, 2002). Desta forma, não existem propria-
mente recomendações quanto aos comportamentos parentais que devem constituir a
prioridade em intervenções de base universal.
Assim, os conteúdos a incluir na intervenção foram selecionados com base na
melhor evidência disponível, utilizando critérios de relevância científica e/ou clínica. A
relevância científica diz respeito a conteúdos relativamente aos quais existia evidência
disponível quanto à efetividade de os abordar no contexto de intervenções parentais. A
relevância clínica refere-se a conteúdos cuja abordagem é fundamentada na prevalência,
impacto e evolução previsível do problema ou na existência de recomendações nesse
Capítulo IV. Objetivos e Metodologia
“De Pequenino…” Uma abordagem ao desenvolvimento e comportamento da criança pequena
190
volvimento infantil; envolvimento parental; disciplina; literacia precoce; sono; aprendi-
zagem da higiene; comportamento; ansiedade e medos (Caixa 5).
Caixa 5
Resumo das evidências de relevância científica ou clínica para os conteúdos incluídos no programa “De Pequenino…”
Desenvolvimento. A investigação mostrou que a disponibilização de informação aos pais acer-
ca do desenvolvimento da criança pode melhorar os conhecimentos dos pais sem ter qualquer impacto ao nível dos resultados de desenvolvimento da criança ou mesmo da interação pais- criança (Chamberlin & Szumowski, 1980; Dworkin et al., 1987). Contudo, os conhecimentos dos pais acerca do desenvolvimento normativo podem melhorar o seu contributo para a vigilân- cia do desenvolvimento da criança. Por outro lado, o conhecimento acerca do desenvolvimento da criança associado às necessidades em termos de comportamentos parentais apropriados pode contribuir para o efeito de outras componentes importantes dos programas parentais (e.g., como responder a uma birra ou que atividades disponibilizar em função do nível de desenvolvimento da criança) (Kaminski et al., 2008).
Envolvimento. O envolvimento parental tem sido repetidamente associado aos resultados das
crianças, nomeadamente através do papel do afeto e responsividade (Eshel et al., 2006; McKee et al., 2007; Richter, 2004; Trentacosta et al., 2008), envolvimento positivo em atividades (Russell & Russell, 1996) e disponibilização de um ambiente estimulante (Gutman & Feinstein, 2007). Alguns trabalhos mostraram a efetividade de intervenções breves para a promoção da interação pais-criança no contexto da vigilância de saúde infantil (Mendelsohn et al., 2005, 2007; Mendelsohn, Dreyer, et al., 2011; Mendelsohn, Huberman, et al., 2011). Por outro lado, disponibilizar aos pais competências específicas para melhorar o envolvimento constitui um dos ingredientes ativos das intervenções parentais (Kaminski et al., 2008).
Disciplina. A utilização de estratégias de disciplina eficazes tem sido associada a melhores
resultados da criança, ao passo que estratégias ineficazes têm sido associadas a um pior ajusta- mento da criança (Capaldi et al., 1997; Lansford et al., 2009; McKee et al., 2007; Russell & Russell, 1996). Vários programas parentais empiricamente validados visam o aumento da expo- sição da criança a estratégias eficazes e diminuição da exposição a estratégias ineficazes (Caughy, Miller, Genevro, Huang, & Nautiyal, 2003; O’Connell, Boat, & Warner, 2009; Sanders et al., 2007; Sanders, 2012; Webster-Stratton, Rinaldi, & Jamila, 2011). Ensinar aos pais como responder de forma consistente ao comportamento da criança e como utilizar o iso- lamento foi identificado como um dos preditores mais fortes dos resultados dos programas parentais (Kaminski et al., 2008). Assim, algumas orientações internacionais recomendam o
Capítulo IV. Objetivos e Metodologia
“De Pequenino…” Uma abordagem ao desenvolvimento e comportamento da criança pequena
191 191 191 191 191 fornecimento de informação e aconselhamento a todos os pais sobre estratégias de disciplina
para aumentar comportamentos desejáveis, estratégias eficazes para reduzir comportamentos indesejáveis e sobre o impacto negativo da punição física (Canadian Paediatric Society, 2004; Committee on Psychosocial Aspects of Child and Family Health, 1998).
Literacia precoce. Vários trabalhos têm mostrado o impacto positivo da disponibilização de
intervenções de promoção da literacia precoce, incluindo o aconselhamento antecipatório sobre a leitura de histórias em voz alta para a criança e a oferta de livros infantis. Programas como o Reach Out and Read têm evidenciado efeitos positivos no desenvolvimento da linguagem rece- tiva e expressiva da criança (Klass et al., 2009; Needlman & Silverstein, 2004; Needlman et al., 2005; Zuckerman, 2009).
Sono. Os problemas de sono são muito frequentes durante a primeira infância e idade pré-
escolar e têm um impacto negativo para a criança e para a família (Gregory, Van der Ende, Willis, & Verhulst, 2008; Owens, 2004; Thunström, 2002; Touchette et al., 2009; Wake et al., 2006). A utilização de rotinas de sono, horários de deitar e acordar consistentes e redução do envolvimento parental relacionado com o adormecer melhoram os hábitos e padrões de sono da criança (Galland & Mitchell, 2010; Mindell, Telofski, et al., 2009; Morgenthaler et al., 2006; J. Owens et al., 1999). A inclusão de conteúdos relacionados com o sono em intervenções paren- tais mais abrangentes foi considerada uma oportunidade para melhorar os resultados de sono infantil (Martin et al., 2011).
Aprendizagem da higiene. A aprendizagem da higiene constitui um marco importante no
desenvolvimento da criança pequena e tem sido associada a algum risco para a ocorrência de dificuldades na relação pais-criança (Schmitt, 2004). A utilização de uma abordagem centrada na criança para promover esta aprendizagem é largamente recomendada (American Academy of Pediatrics, 1999; Brazelton et al., 1999; Choby & George, 2008; Community Paediatrics Committee & Canadian Paediatric Society, 2000; Howell, Wysocki, & Steiner, 2004; Luxem & Christophersen, 1994; Robson & Leung, 1991; Stadtler, Gorski, & Brazelton, 1999). De forma consistente, é também recomendado que a recusa à aprendizagem da higiene seja abordada seguindo os princípios da abordagem centrada na criança (Community Paediatrics Committee & Canadian Paediatric Society, 2000). As dificuldades na aprendizagem da higiene durante a noite devem ser normalizadas junto dos pais e introduzidas algumas recomendações facilitadoras (National Clinical Guideline Centre, 2010).
Comportamento. Durante os primeiros anos, várias dificuldades relacionadas com o compor-
tamento da criança (e.g., choramingar, fazer birras, resistir, morder ou bater) são muito comuns, refletindo na maior parte das vezes aspetos normativos e não problemas clínicos (Centre for Community Child Health, 2006b). Contudo, as preocupações dos pais com o comportamento da criança e a manifestação de necessidades de aconselhamento e apoio a este nível são muito comuns (Young et al., 1998). Vários programas parentais têm mostrado a sua eficácia na pre-
Capítulo IV. Objetivos e Metodologia
“De Pequenino…” Uma abordagem ao desenvolvimento e comportamento da criança pequena
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venção e tratamento de problemas de comportamento, apostando nomeadamente no treino de estratégias parentais eficazes (Dretzke et al., 2009). Alguns trabalhos constataram que a promo- ção de interações pais-criança positivas (i.e., dar atenção positiva, envolver-se em brincadeiras guiadas pela criança, disponibilizar atividades apropriadas) e a aprendizagem da utilização do isolamento (time-out) e da importância da consistência parental estão entre as componentes repetidamente associadas a maiores efeitos dos programas parentais na redução de comporta- mentos de externalização (Kaminski et al., 2008). A disponibilização de aconselhamento aos pais sobre formas de encorajar comportamentos desejáveis e de desencorajar comportamentos indesejáveis tem sido assim apontada como resposta às preocupações normativas dos pais (Centre for Community Child Health, 2006b).
Ansiedade e medos. Os problemas de ansiedade estão entre os problemas de saúde mental mais
comuns na infância, tendo um impacto muito negativo no funcionamento da criança e da família (Costello, Egger, & Angold, 2004; Kessler, Ruscio, Shear, & Wittchen, 2002; Rapee, Schniering, & Hudson, 2009). A eficácia dos programas de tratamento para a ansiedade infantil tem sido repetidamente demonstrada (Rapee et al., 2009) e alguns estudos apoiaram também o impacto positivo de programas de prevenção (Donovan & Spence, 2000; Lau & Rapee, 2011). Intervenções preventivas dirigidas a crianças em idade pré-escolar têm procurado reduzir a superproteção parental e aumentar a estimulação do confronto, com resultados promissores (Rapee, Kennedy, Ingram, Edwards, & Sweeney, 2005).
Portanto, partindo do mote do desenvolvimento infantil, foram selecionados con-
teúdos mais relacionados com os seus determinantes (envolvimento parental, disciplina,
atividades de promoção da literacia precoce), outros relacionados com aquisições espe-
cíficas (aprendizagem do sono autónomo e da higiene) e outros presos a manifestações
de dificuldades (dificuldades relacionadas com o sono e aprendizagem da higiene, pro-
blemas de comportamento, manifestações de ansiedade e medos).