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A deteção precoce de problemas de desenvolvimento e comportamento tem sido
realizada com recurso a diversas técnicas, incluindo a observação, a revisão de marcos
do desenvolvimento (developmental milestones), a utilização de listas informais de mar-
cos do desenvolvimento, a aplicação de tarefas selecionadas de instrumentos de avalia-
ção e a aplicação de instrumentos estandardizados (Centre for Community Child Health
& Royal Children’s Hospital Melbourne, 2002).
As recomendações nacionais e internacionais para a deteção precoce de proble-
mas de desenvolvimento e comportamento têm seguido duas abordagens: a vigilância
do desenvolvimento e comportamento e o rastreio.
A vigilância do desenvolvimento e comportamento foi descrita como “(…)
Capítulo II. Deteção Precoce de Problemas de Desenvolvimento e Comportamento
“De Pequenino… Uma abordagem ao desenvolvimento e comportamento da criança pequena”
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observações das crianças durante a disponibilização de cuidados de saúde. As compo-
nentes da vigilância incluem averiguar e responder às preocupações parentais, obter
uma história de desenvolvimento relevante, fazer observações precisas e informativas
da criança e partilhar opiniões e preocupações com outros profissionais relevantes.”
(Dworkin, 1993, p. 533).
A efetividade da vigilância do desenvolvimento e comportamento para a deteção
precoce de dificuldades não tem sido estudada como um todo, apenas algumas das suas
componentes. Nomeadamente, a investigação tem mostrado que a obtenção de informa-
ção disponibilizada pelos pais aumenta a precisão dos juízos formados, particularmente
quando se trata de alguns tipos de preocupações parentais (Dulcan et al., 1990; Glascoe
& Dworkin, 1995). Por outro lado, a forma como o profissional de saúde recolhe infor-
mação dos pais influencia a precisão do juízo daí derivado (Glascoe, 1997). No que se
refere à utilização das preocupações parentais, vários trabalhos sugeriram que a utiliza-
ção de abordagens estruturadas e sistemáticas para recolher e responder às preocupações
parentais melhora a comunicação durante as visitas e constitui uma forma válida e pre-
cisa de detetar problemas de desenvolvimento (Glascoe, MacLean, & Stone, 1991;
Horwitz, Leaf, Leventhal, & Deangelis, 1998; Regalado & Halfon, 2001; Wildman,
Kizilbash, & Smucker, 1999).
Outra alternativa para a deteção precoce é o rastreio. Rastreio é o processo pelo
qual doenças ou alterações não conhecidas do estado de saúde são identificadas por tes-
tes que podem ser aplicados rapidamente e em larga escala, no sentido de identificar
indivíduos aparentemente saudáveis e indivíduos que podem ter uma doença ou pertur-
bação (Beaglehole, Bonita, & Kjellstrom, 2003). O rastreio não tem geralmente um
valor diagnóstico e requer avaliação ulterior, diagnóstico e tratamento adequado (Bea-
Capítulo II. Deteção Precoce de Problemas de Desenvolvimento e Comportamento
“De Pequenino…” Uma abordagem ao desenvolvimento e comportamento da criança pequena
93 93 93 93 No caso do desenvolvimento e comportamento, o instrumento de rastreio testa a
presença de traços ou fatores de risco preditivos de problemas de desenvolvimento e
comportamento, dirigindo-se particularmente à identificação de crianças em risco ou
com problemas subtis ou menos severos e não tanto à identificação de perturbações
severas (Centre for Community Child Health & Royal Children’s Hospital Melbourne,
2002; Dworkin, 1993). Numa lógica preventiva, o rastreio pode dirigir-se à identifica-
ção da exposição a riscos, à presença de sinais precoces de um problema ou à presença
de indicadores da presença do problema (O’Connell et al., 2009). Desta forma, o ras-
treio permitirá eleger intervenções para prevenção, tratamento ou remediação.
A introdução de um programa de rastreio deve obedecer a um conjunto de crité-
rios, que se referem às características da doença, do tratamento e do teste de rastreio
(Beaglehole et al., 2003). Ao aplicar esses critérios ao caso do desenvolvimento e com-
portamento (Tabela 2), tem sido apontado que a evidência disponível é insuficiente para
fazer recomendações a favor ou contra a introdução de programas de rastreio (Centre
for Community Child Health & Royal Children’s Hospital Melbourne, 2002; Hall &
Elliman, 2006; O’Connell et al., 2009). Contudo, é importante salientar que esses crité-
rios foram desenvolvidos sob a perspetiva da deteção precoce de doenças, com o objeti-
vo de disponibilizar tratamento antes de a doença se tornar sintomática, e não no con-
Capítulo II. Deteção Precoce de Problemas de Desenvolvimento e Comportamento
“De Pequenino… Uma abordagem ao desenvolvimento e comportamento da criança pequena”
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Tabela 2
Critérios para a introdução de programas de rastreio
Critérios Problemas de Desenvolvimento e Comportamento Problema de saúde Grave Alta prevalência
História natural conhecida
Longo período entre os primeiros sinais e a doença estabelecida
a Instrumento de rastreio Sensível e específico
Simples, rápido, fácil de interpretar e barato Seguro e aceite Fiável e válido b b b b Diagnóstico e tratamento
Existência de instalações e de meios suficientes
Existência de um tratamento efetivo, aceitável e seguro
/c
Nota. Adaptado de: “Epidemiologia básica”, por R. Beaglehole, R. Bonita e T. Kjellstrom, 2003; “Child
health screening and surveillance: a critical review of the evidence” por Centre for Community Child Health e Royal Children’s Hospital Melbourne, 2002; “Preventing mental, emotional, and behavioral disorders among young people: progress and possibilities”, por M. O´Connell, T. Boat e K. Warner, 2009. a
Embora a história natural dos problemas não seja completamente conhecida, O’Connell, Boat e Warner (2009) sugeriram que este critério fosse adaptado e considerasse a extensa literatura sobre fatores de risco e relação temporal entre indicadores precoces e diagnósticos posteriores.
b
Depende do instrumento, mas existem instrumentos que cumprem todos estes requisitos. c
Existe evidência de que a deteção e intervenção precoces melhoram os resultados das crianças e famílias, reduzindo os fatores de risco, aumentando os fatores de proteção e diminuindo o impacte das dificulda- des, mas a efetividade das intervenções é muito variável e não existem tratamentos específicos universal- mente aceites.
Apesar de os problemas de desenvolvimento e comportamento não cumprirem
de forma estrita todos os critérios para a introdução de um programa de rastreio, a utili-
zação de instrumentos de rastreio estandardizados e validados tem sido sugerida como
uma estratégia para melhorar a vigilância (Dworkin, 1993). A sua utilização sistemática
mostrou melhorar as taxas de deteção de problemas de desenvolvimento e comporta-
Capítulo II. Deteção Precoce de Problemas de Desenvolvimento e Comportamento
“De Pequenino…” Uma abordagem ao desenvolvimento e comportamento da criança pequena
95 95 95 95 venção precoce (Earls & Hay, 2006; Hix-Small, Marks, Squires, & Nickel, 2007; Pinto-
Martin, Dunkle, Earls, Fliedner, & Landes, 2005; Rydz et al., 2006; Schonwald,
Huntington, Chan, Risko, & Bridgemohan, 2009). Desta forma, várias organizações e
autores recomendam a utilização sistemática de instrumentos de rastreio do desenvol-
vimento e comportamento (Carter et al., 2004; Committee on Children with Disabilities,
2001; Council on Children With Disabilities, Section on Developmental Behavioral
Pediatrics, Bright Futures Steering Committee, 2006; Regalado & Halfon, 2001).
A utilização de instrumentos de rastreio de problemas de desenvolvimento e
comportamento tem sido também recomendada como forma de melhorar a abordagem
às famílias. Alguns autores salientaram que uma recolha mais sistemática das capacida-
des e dificuldades da criança permite ajustar as expectativas parentais quanto ao desen-
volvimento e comportamento da criança (Earls & Hay, 2006). Por outro lado, a infor-
mação recolhida permite adaptar o aconselhamento às necessidades das famílias, tor-
nando-o mais eficaz (Glascoe, Oberklaid, Dworkin, & Trimm, 1998; L. Sices et al.,
2008). Aliás, os pais classificam a abordagem do profissional de saúde como mais cen-
trada na família quando ocorre uma avaliação estruturada do desenvolvimento e com-
portamento (Halfon et al., 2004).