Deve-se a Hymes a noção de “competência comunicativa” enquanto conceito que engloba a componente social da língua e o desempenho dos interlocutores. No âmbito dos seus pressupostos, para se falar uma língua, isto é, ser um utilizador proficiente, não basta aprendermos o seu vocabulário e gramática. Há que conhecer o contexto em que as palavras são usadas, os seus intervenientes, os propósitos, normas sociais, etc. Refutando o conceito de competência de Chomsky, Hymes define competência comunicacional como algo mais do que a capacidade de usar a língua segundo as normas gramaticais. O conceito de competência comunicativa por ele proposto é mais amplo e pressupõe “rules of use without which the rules of grammar would be useless” (Hymes, apud Mahdi s.d.: 6).21 O autor sublinha mesmo que a
30
produção de frases convencionalmente corretas sem olhar ao contexto em que são proferidas colocaria o emissor numa situação algo estranha.
Hymes distingue “competence” e “performance” nos termos que abaixo refe- rimos, figura 2, elencando apenas as diferenças principais, mediante consulta da obra indicada em nota de rodapé (Lin, 2004: 2).22
Linguistic competence Linguistic performance
intuition and linguistic knowledge of an abstract, isolated, ideal speaker- hearer ;
language form;
grammaticality as a criterion; internal to linguistic structure; la langue(Saussure).
real speech of interlocutors social world ;
language function and use; acceptability as a criterion; external to linguistic structure; la parole.
Figura 2: Linguistic Competence e Linguistic Performance – D. Hymes
Falar de competência comunicativa significa, para o autor, considerar “language performance”, a língua partilhada pelos membros da comunidade, em detrimento dos modelos e regras da “linguistic performance”. Como se lê no artigo “Hymes proposes a theory of language performance (i.e. language use). Its criterion is acceptability. This theory pursues the models/rules that underlying people's linguistic performance. This is what he calls communicative competence” (idem: 3).
A ideia de competência comunicativa definida no QECR não apresenta discrepâncias relativamente aos pressupostos de Hymes, pois assinala que ser comunicativamente competente implica dominar um amplo leque de conhecimentos que ultrapassam o foro linguístico.
Podemos agrupar em dois grandes conjuntos os saberes/competências que um aprendente deve dominar por forma a ser capaz de satisfazer as suas necessidades como ser social, como cidadão de um mundo progressivamente mais globalizado. Temos, de um lado o grupo das competências gerais e, do outro, o das competências comunicativas. Abaixo apresentamos primeiro, o resumo e, em seguida, os detalhes
31
referentes a cada uma das competência, (figura 3). Começamos pelas competências gerais que integram:
Figura 3: Competências Gerais – (QECR, 2001: 147-156)
Com base no descrito no QECR as competências gerais contemplam conhecimento declarativo que envolve:
O conhecimento do mundo
A imagem que o aprendente tem do mundo vive. É um saber adquirido com base na língua materna e que foi sendo enriquecido através da educação. Falamos dos lugares, das instituições e organizações, das pessoas, dos objetos, dos eventos, dos processos e operações em diferentes domínios. Se a comunicação depende da congruência das imagens do mundo e da língua interiorizadas pelos interlocutores, então o conhecimento que o aprendente deve ter sobre o país no qual essa língua é falada deve ser sempre acautelado.
O conhecimento sociocultural
Os saberes que o aprendente tem da sociedade e da cultura onde a língua é falada, dos aspetos distintos dessa sociedade e cultura – vida quotidiana; condições de vida;
32
relações interpessoais; valores, crenças e atitudes; linguagem corporal; convenções sociais; comportamentos e rituais.
O conhecimento intercultural
O conhecimento e compreensão da relação entre “o mundo de onde se vem” e “o mundo da comunidade alvo”, i.e., a consciência da diversidade dos dois mundos.
No âmbito das capacidades de realização estão contempladas: As Capacidades práticas e a competência de realização
As capacidades do utilizador de agir de acordo com o esperado, no âmbito da vida quotidiana; das relações sociais e profissionais, etc.
As capacidades interculturais e a competência de realização
A capacidade do indivíduo para estabelecer uma relação entre a cultura de L1 e de L2;de sensibilidade cultural; de ultrapassar relações estereotipadas, etc.
A Competência existencial
Aspetos pessoais que se prendem com a personalidade do indivíduo – as suas atitudes; motivações; valores; crenças; estilos cognitivos e traços de personalidade.
Ainda no contexto das competências gerais, temos as competências de aprendizagem que englobam:
A Consciência da língua e da comunicação
A capacidade de observar e participar em novas experiências e tirar partido delas, acrescentando novos conhecimentos aos já existentes.
O conhecimento e compreensão dos princípios subjacentes à organização e à utilização das línguas e das suas potencialidades enriquecedoras de L1.
33 A Consciência e capacidades fonéticas
A Capacidade de aprender, de produzir sons desconhecidos e esquemas prosódicos, de encadear sequências de sons novos e de decompor um contínuo sonoro numa cadeia estruturada de elementos fonológicos, de compreender os processos envolvidos na perceção e produção de uma qualquer língua.
Capacidade de estudo,
Capacidade para fazer uso eficaz das todas as oportunidades de aprendizagem disponíveis
Capacidades heurísticas
Capacidade de aceitar uma nova experiência e mobilizar competências numa situação de aprendizagem dada; de utilizar a língua alvo de modo a encontrar, compreender e, se necessário, a transmitir uma informação nova; de utilizar novas tecnologias.
Dominar uma língua passa também pelo controlo de um outro leque de
competências essenciais à comunicação: a sociolinguística, a linguística e a pragmática. Estas competências comunicativas são explicitadas no QECR do seguinte modo:
Competência linguística
o Competência lexical que consiste no conhecimento e na capacidade de usar o vocabulário de uma língua e compreender os seus elementos lexicais, como expressões fixas: expressões feitas, idiomáticas; estruturas e combinatórias fixas; palavras isoladas, e elementos gramaticais, isto é, os que integram as classes de palavras como sejam adjetivos, quantificadores, determinantes, etc.
o Competência gramatical diz respeito ao conhecimento que o aprendente tem dos recursos gramaticais da nova língua e à sua capacidade de os utilizar para expressar significados.
34
o Competência semântica corresponde à consciência e controlo que o utilizador tem sobre a organização do significado. Aqui incluem-se semântica lexical que trata das questões de significado das palavras; a semântica gramatical que trata do significado de elementos, categorias, estruturas e processos gramaticais e a semântica pragmática que trata de relações lógicas, tais como a implicação, a implicação estrita, a pressuposição.
o Competência fonológica abrange o conhecimento e capacidade de perceção de unidades fonológicas (fonemas); os traços fonéticos; a composição fonética das palavras – estrutura silábica, sequência de fonemas, acento de palavras, tons; a fonética da frase (prosódia),etc.
o Competência ortográfica inclui o conhecimento que o aluno tem dos símbolos com que produz textos escritos, da ortografia correta das palavras, dos sinais de pontuação, das convenções tipográficas, etc.
o Competência ortoépica envolve o conhecimento das convenções ortográficas, das implicações da formas escritas, dos sinais de pontuação, para o ritmo e a entoação, que lhe permite pronunciar corretamente as palavras encontradas pela primeira vez num texto escrito.
Competência sociolinguística
Está relacionada com a dimensão social do uso da língua e envolve os/as o Marcadores linguísticos de relações sociais;
o Regras de delicadeza;
o Expressões de sabedoria popular; o Diferenças de registo;
o Dialetos e sotaques.
Competência pragmática
35 o Competência discursiva
É o conhecimento que aprendente tem para estruturar e gerir o discurso em termos de organização temática, coesão e coerência, ordenação lógica, estilo e registo, e eficácia retórica. A capacidade de organizar frases em sequência, de modo a produzir discursos coerentes.
o Competência funcional
Está diretamente com uso do discurso falado/escrito na comunicação para fins específicos, tais como os listados no capítulo 7 do Threshold Level, 1990; com o seu uso numa sequência mais longa de frases - descrição, narração ou exposição, e com o uso de esquemas padrão, sequências estruturadas de ações, intrínsecas à comunicação, ou seja, as atividades comunicativas interativas que implicam sequências estruturadas de ações do tipo: pergunta: resposta; afirmação: acordo/desacordo, efetuadas à vez pelos intervenientes no ato comunicacional.
Na figura 4, abaixo, exibimos em resumo as competências comunicativas atrás
36
O desenvolvimento pleno da totalidade destas capacidades assegura, àquele que as domina, eficácia plena em qualquer ato comunicativo. Sabemos, contudo, que nem todos os aprendentes de uma LE necessitam de as adquirir na íntegra. A aquisição de uma competência parcial prende-se com as necessidades ou objetivos específicos de aprendizagem de uma nova língua. Há aprendentes que têm em vista exigências ao nível da escrita, enquanto outros pretendem adquirir competências no âmbito da compreensão oral, ou de um determinado domínio ou até mesmo para o desenvolvimento de tarefas específicas. Esta competência parcial, que faz parte de uma competência múltipla, é também uma competência funcional, pois está ligada a um objetivo pré-definido.