Publicação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – INEP (2004) sobre a situação dos professores no Brasil, acentua que o montante de leis, resoluções, decretos e pareceres regulamentando a formação e a atuação dos docentes não dão conta de transformar a realidade de trabalho desses profissionais. Tal constatação explicita a complexidade da profissão, as inúmeras atribuições e exigências inerentes ao ofício e o descompasso do que é exigido em relação às condições fornecidas para o desempenho do trabalho. Quando falamos sobre o ofício docente, realçamos que o desenvolvimento de aspectos ligados à formação humana, crescimento intelectual, aprendizagem e desenvolvimento de inúmeras habilidades são esperados como produto final do trabalho realizado pelo professor. Nesse sentido, tamanha gama de expectativas nos resultados escamoteia as condições, por vezes vergonhosas, sob as quais esse produto vai sendo elaborado, produzido e formado.
A Psicologia Organizacional e do Trabalho busca incessantemente investigar os efeitos nascidos da relação do trabalhador com o processo de trabalho. Soratto e Olivier- Heckler (1999), destacaram três categorias: ciclo do trabalho, produto do trabalho e controle sobre o trabalho. Por meio destes elementos, os autores buscam identificar os sinais de prazer ou sofrimento decorrentes da relação mencionada há pouco. No trabalho do professor, podemos, de maneira bastante clara, identificar as categorias em questão.
1 CICLO DO TRABALHO – o ciclo do trabalho do professor da Educação Infantil ao Ensino Médio dura, aproximadamente, um ano. O ciclo do professor do Ensino Superior tem a duração de um semestre. Apenas com a variável tempo, já percebemos a grande diferença do ciclo de trabalho de outros trabalhadores que, para verem o produto final do seu trabalho, não demoram mais do que algumas horas, minutos ou segundos. Com este ciclo de trabalho bastante elastecido, o professor emprega tempo para planejar, reformular o que foi planejado, avaliar e monitorar constantemente seu trabalho.
2 PRODUTO DO TRABALHO – a aprendizagem, formação humana, preparação para o mercado de trabalho e progressão de um estádio para outro são o
resultado esperado no final de cada ciclo de trabalho. É óbvio que um produto revestido de tamanha complexidade não pertence ao professor, e não é ele que desfrutará, diretamente, do que produziu. Por essa produção, ele receberá em troca, apenas e quase sempre, um salário que nem de longe contempla o montante de energia física, psíquica, afetiva e cognitiva investida, uma vez que a relação humana estabelecida numa atividade dessa ordem demanda grande quantidade de energia. Essas relações não são, nem poderão ser, eminentemente objetivas. E, quando a subjetividade não é contemplada ou reconhecida, a identidade do trabalhador se vê ameaçada.
3 CONTROLE SOBRE O TRABALHO – sabendo da relatividade que permeia o controle sobre o trabalho desenvolvido, não podemos deixar de sinalizar que o professor exerce papel ativo na execução do seu trabalho, e pelo fato de realizá- lo dentro de um ciclo bastante longo, fica difícil manter o controle do processo. Tem assim sua responsabilidade aumentada, pois, mesmo sem conseguir esse controle, o produto final dirá da sua competência em gerenciar o que foi sendo produzido, uma vez que teve participação, embora que parcial, do início ao final do processo. Assim, poderá se reconhecer no sucesso ou fracasso dos seus alunos, sem, no entanto, ter tido poder de interferência em todas as etapas do processo.
A análise das três categorias nos permite contemplar elementos isolados que diferenciam o ofício docente, em muitos outros aspectos, semelhante a qualquer trabalho humano, mas bastante diferenciado pelas exigências quanto ao tempo de sua execução, destino do produto e dedicação requerida pelo trabalhador no decorrer do processo. Essa dedicação pode muito bem ser contemplada na compreensão que segue:
A verdade é que a flexibilidade do trabalho, possibilidade de controle sobre o processo, demanda de expressão afetiva, necessidade de criatividade e inovação pedem um trabalhador que esteja presente de corpo e alma no seu trabalho, que se disponha a se dedicar, enfim, que atribua importância ao que faz na vida profissional. E por que um trabalhador vai querer um trabalho tão exigente e tão mal remunerado como esse? (SORATTO; OLIVIER-HECKLER, 1999, p.121).
As respostas ao questionamento dos autores poderiam ser inúmeras: falta de opção, comportamento masoquista, gosto pelos desafios, necessidade de aventuras.
Nem de longe temos a pretensão de esgotar o repertório de respostas possíveis, mas certamente este ofício mantém seus executores em constante necessidade de encarar desafios e explorar potencialidades. O sucesso que o professor alcança com alguns alunos, em algum momento, também é percebido como sucesso pessoal. Trabalhar com o conhecimento também desencadeia um estado de constante inquietação, visto que é muito fluida sua produção, divulgação e aquisição. Sem dúvida, tal ofício é um misto de prazer e sofrimento. Prazer pelo que se consegue, pelo que se goza, constrói e realiza; sofrimento pelo que se perde, se esvai, fica interrompido por falta de condições para continuar, haja vista que,
Enquanto muitos trabalhadores suportam o trabalho e através do salário buscam satisfazer seus desejos, o professor, ao contrário, suporta o salário para continuar tendo o privilégio de satisfazer um desejo que é o de todos nós, mudar o mundo através de sua ação, transformar com seu trabalho a si mesmo e aos outros, inventar um futuro a partir de seu próprio gesto. (SORATTO; OLIVIER- HECKLER, 1999, p.121).
Além das categorias que se referem ao ciclo, produto e controle sobre o trabalho do professor, também já se estudam os ciclos vitais dos professores. No quadro seguinte veremos o trabalho de Huberman (1995) estabelecendo relações entre o tempo de exercício do ofício e características pessoais e profissionais dos professores. Embora o autor tenha feito esse estudo com professores do Ensino Médio, nesse estudo, podemos considerar muitas das idéias desenvolvidas. Este defende a idéia de que as diferentes etapas na vida pessoal e profissional influenciam no desempenho e nível de satisfação profissional. Se essas relações são pertinentes aos professores do ensino médio, certamente algumas dessas caracterísiticas estarão presentes no ensino superior.
Quadro 2 – Etapas, fases e anos da carreira docente Fonte: Huberman (1995).