1. Introduction
1.5 Justification and Relevance
Numa época caracterizada por uma crise de amplo espectro, é de suma importância resga- tar o papel que as ciências sociais aplicadas desempenha tanto em diagnosticar as causas reais da crise quanto em repensar novas teorias organizacionais e novas práticas sociais.
Levando-se em consideração as teorias organizacionais, o diagnóstico da crise e o repensar de novas práticas sociais podem abrir diversos caminhos, entre eles o caminho que nos le- va à abordagem do tema da racionalidade.
A escolha por esse caminho proporciona o questionamento de um dos argumentos mais utilizados pelas práticas sociais da “gestão moderna”, qual seja: a busca da racionalidade como meio de se atingir a eficiência e eficácia administrativa. Dessa forma, aprofundar o debate referente à racionalidade atinge o âmago das questões presentes na atualidade.
Com esse intuito, o presente estudo buscou se apoiar nos alicerces teóricos referentes ao conceito de racionalidade utilizando como diretriz a complementaridade entre a abordagem substantiva das organizações, elaborada por Guerreiro Ramos e a teoria da ação comunica- tiva, estabelecida por Jürgen Habermas, a fim de fornecer uma contribuição ao tema e pro- porcionar a sua análise à luz da prática administrativa das cooperativas estudadas.
Através da complementaridade entre a abordagem substantiva da organização e a teoria da ação comunicativa é possível apontar uma direção para que a proposta de Guerreiro Ramos seja conduzida ao campo da ação. Através da ação comunicativa torna-se possível a im- plementação da racionalidade substantiva organizacional.
Levando-se em consideração a amostra pesquisada, pôde-se observar que a ação comunica- tiva presente nas tomadas de decisões das cooperativas proporcionava a implementação da
racionalidade substantiva da organização, propiciando assim a emancipação do sujeito e sua liberdade.
Utilizando-se como diretriz a hipótese deste trabalho e os dados primários e secundários obtidos, foi possível observar que apesar de existir um número relativamente pequeno – em média a metade – de cooperados presentes nas assembléias gerais e reuniões, fato consta- tado na maioria das cooperativas analisadas, os cooperados presentes nos espaços públicos criados para as tomadas de decisões demonstram que as mesmas são mediadas por meio do diálogo entre os agentes sociais do processo e que a linguagem funciona como um meio para se alcançar um tipo de processo de entendimento, corroborando desta forma para a confirmação parcial da hipótese levantada (já que não são todos os cooperados presentes nestes espaços públicos).
Ao longo das entrevistas realizadas pôde-se observar que nos espaços públicos proporcio- nados para as discussões referentes às questões das cooperativas a linguagem funciona co- mo um meio para o entendimento do grupo, ao entenderem-se entre si para organizar suas ações, os cooperados perseguem cada um determinada meta. Através da linguagem, os co- operados apresentam uns frente aos outros seus argumentos que são reconhecidos ou pos- tos em questão, abrindo espaço para novas discussões e consensos.
Dessa forma, os cooperados procuram, através do entendimento, coordenar de comum a- cordo seus planos de ação e conseqüentemente, suas ações individuais. Tal fato não se tra- duz num cálculo egocêntrico – talvez este ocorra com os cooperados que não participam destes espaços para discussões – mas sim na busca que seus fins individuais possam har- monizar-se através de uma situação compartilhada.
A partir deste contexto, a razão é implementada socialmente através de um processo de in- teração dialógica entre os atores envolvidos na situação vivenciada pelos cooperados pre- sentes. Dessa forma, o que se propicia é um processo dialógico, intersubjetivo, no qual os cooperados buscam através da exposição de argumentos fundados, o consenso possível. Vale ressaltar que este processo de decisão requer uma estrutura democrática que necessa- riamente deve superar eventuais problemas de comunicação causados, por exemplo, pela timidez e pela omissão por parte dos cooperados. Tais problemas devem ser superados tan-
to no ambiente interno quanto no ambiente externo, pois se faz necessário que a cooperati- va se comunique com clientes externos e outras organizações sociais.
Assim, o processo dialógico existente nestes espaços públicos e o debate racional que ocor- re nas assembléias e reuniões propiciam aos cooperados conduzir sua vida pessoal na dire- ção da auto-realização, contrabalançando essa busca da emancipação e da auto-realização com o alicerce da satisfação social, ou seja, considerando também o direito dos outros coo- perados de fazê-lo.
Dessa forma, pode-se considerar a ação comunicativa como uma ferramenta prática para a implementação de uma racionalidade substantiva da organização, como apresentado nas práticas sociais presentes nas cooperativas analisadas.
Torna-se possível apontar a cooperativa stricto-sensu como uma organização que propor- ciona uma prática social que corrobora para a implementação da ação comunicativa e que traz como conseqüência a racionalidade substantiva da organização em prol da emancipa- ção do homem no espaço social do trabalho. Soma-se a este fato, a possibilidade que a mesma oferece para o início de pequenas ‘revoluções locais’ que buscam não só o enfren- tamento do desemprego e da exclusão social a partir da qualificação social e profissional mas também a mudança do relacionamento inter e intrapessoal, fazendo com que a coope- rativa represente um modelo de organização democrática e igualitária, na qual é proporcio- nado o espaço para o processo dialógico contrastando assim com modelos autoritários e hi- erárquicos, tão presentes na nossa sociedade atualmente.