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1. Introduction

1.2 Goal of the thesis

Na literatura, o conceito de economia solidária aparece no Brasil em 1993, no livro “Eco- nomia de solidariedade e organização popular”, organizado por Gadotti e Gutierrez, onde o autor chileno Luís Razeto (1993, p. 40) o define como:

“uma formulação teórica de nível científico, elaborada a partir e para dar conta de conjuntos significativos de experiências econômicas que compartilham alguns traços constitutivos e essenciais de solidariedade, mutualismo, cooperação e autogestão comunitária, que definem uma racionalidade especial, diferente de outras racionalidades econômi- cas”.

A partir da disseminação de alguns conceitos, alguns encontros vão constituir um marco para a construção de um pensamento e/ou movimento social em prol da economia solidária no Brasil.

O primeiro evento que ocorreu foi uma mesa redonda sobre o tema “Formas de combate e de resistência à pobreza” realizada em setembro de 1995 durante o 7º Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Sociologia e o segundo ocorreu no III Encontro Nacional da Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Autogestão e Participação Acio- nária - ANTEAG -, que teve lugar em São Paulo nos dias 30 e 31 de maio de 1996. Segun- do Gaiger (1996, p. 11):

“A comparação entre essas diversas experiências permite identificar, como tipo promissor e como alternativa viável para a economia popu- lar, os empreendimentos solidários que reúnem, de forma inovadora, características do espírito empresarial moderno e princípios de solida- riedade e da cooperação econômica apoiados na vivência comunitá- ria”.

Já no III Encontro da ANTEAG não se usou o termo economia solidária, mas no prefácio do livro que apresenta as intervenções dos participantes, redigido em 1998, Paul Singer es- creve:

“No bojo da crise do trabalho começou a surgir a solução. (...) Algum milagre? Não, mas grande vontade de lutar, muita disposição ao sacri- fício e sobretudo muita solidariedade. É deste modo que a economia solidária ressurge no meio da crise do trabalho e se revela uma solu- ção surpreendentemente efetiva” (SINGER, 1998, p. 31).

Mance (1999, p. 163) diz que propostas similares também tinham sido defendidas pela o- posição democrática popular em Curitiba em 1992 e em 1988 na cidade de Piraquara, no Paraná. Já em dezembro de 1996, Arruda (1996, p. 27) apresentou o cooperativismo auto- gestionário e solidário como proposta para um desenvolvimento que “reconstrua o global a partir da diversidade do local e do nacional”.

“É nesse processo que ganha enorme importância a práxis de um coo- perativismo autônomo, autogestionário e solidário, que inova no espaço da empresa-comunidade humana e também na relação de troca entre os diversos agentes; (...) o associativismo e o cooperativismo autogestio- nários, transformados em projeto estratégico, podem ser os meios mais adequados para a reestruturação da sócio-economia na nova era que se anuncia” (ARRUDA, 1996, p. 4).

O Instituto PACS criou também um canteiro de socioeconomia solidária e organizou vários novos encontros como em 1998 em Porto Alegre e de 11 a 18 de junho 2000 em Mendes, Rio de Janeiro (Encontro de Cultura e Socioeconomia Solidária). Segundo seu boletim, es- te último encontro foi fruto de um “conjunto de encontros internacionais sobre experiên- cias de autogestão e economia popular solidária [que aconteceram] entre 1988 e 1998” e foi o berço da RBSES.

Já no Rio de Janeiro, além do PACS, apresenta-se a UFRJ, onde professores e técnicos do COPPE atenderam aos pedidos de formação de cooperativas de trabalho. Em meados de 1995, criaram a ITCP. Além da ajuda da Ação pela Cidadania, ganharam apoio financeiro da FINEP e do Banco do Brasil. Tal iniciativa funcionou como um “pontapé inicial” para que várias universidades implantassem incubadoras tecnológicas de cooperativas populares e para a formação da Rede Universitária das Incubadoras.

Os empreendimentos da economia solidária são extremamente variados e dispersos pelo Brasil, porém, possuem ligações com movimentos ou instituições com visibilidade e conta- tos a nível macro permitiram-lhes aflorar para a consciência social do momento. Em 1997, a Fundação Unitrabalho toma a decisão de criar um grupo de trabalho de economia solidá- ria. A coordenação foi feita pelos professores Cândido Vieitez, da UNESP, Newton Brian da UNICAMP e Paul Singer da USP. Foram chamados pesquisadores universitários de to- do Brasil para participar do grupo. Até que em janeiro de 1999, após a realização de vários seminários, foi elaborado um projeto de pesquisa de âmbito nacional intitulado ‘economia solidária e autogestionária’ em vista de um amplo levantamento desta realidade no Brasil.

Algumas propostas identificadas a partir de Gaiger, Singer e Arruda, com suas especifici- dades e divergências, vão ser reunidas pela primeira vez em 1999, na Universidade Católi- ca de Salvador, por ocasião do seminário “Economia dos setores populares: entre a reali- dade e a utopia” e foram publicadas num livro com o mesmo título.

A partir deste panorama, serão utilizados alguns pontos abordados por Paul Singer (2003) a fim de para apresentar a evolução do movimento no País. Segundo Singer (2004, p. 122):

“o cooperativismo chegou ao Brasil no começo do século XX, trazidos pelos emigrantes europeus. Tomou principalmente a forma de coopera- tivas de consumo nas cidades e de cooperativas agrícolas no campo”.

Porém, segundo o autor, nenhuma destas cooperativas era ou é autogestionárias, pois sua direção e as pessoas que a operam são assalariadas, dessa forma, não podem ser considera- das parte da economia solidária. Ainda de acordo com o autor:

“A economia solidária começou a ressurgir, no Brasil, de forma espar- sa na década de 1980 e tomou impulso crescente a partir da segunda metade dos anos 1990. Ela resulta de movimentos sociais que reagem à crise de desemprego em massa, que tem seu início em 1981 e se agrava com a abertura do mercado interno às importações, a partir de 1990” (SINGER, 2003, p. 25).

Com a crise social das duas décadas perdidas de 1980 e de 1990, nas quais ocorreu a de- sindustrialização do País, milhões de postos de trabalho foram perdidos, acarretando o de- semprego em massa e a acentuação da exclusão social, a economia solidária ressurgiu no Brasil, assumindo forma de cooperativas ou associações produtivas, sob diferentes modali- dades mas sempre autogestionárias (SINGER, 2004, p. 122).

Em 1980, a Cáritas, entidade ligada à CNBB, financiou diversos projetos nos quais uma boa parte destinava-se a gerar trabalho e renda de forma associada para moradores de peri- ferias pobres das metrópoles e zonas rurais. De acordo com Singer (2004, p. 122), “uma boa parte dos PACS acabou se transformando em unidades de economia solidária”.

Outra modalidade apresentada por Singer (2004, p. 122), refere-se às empresas falidas ou em via de falir tomadas pelos trabalhadores, que as ressuscitam como cooperativas auto- gestionárias, como é o caso, em 1981, da empresa calçadista Makerli, de Franca (SP), que deu lugar à ANTEAG. A mesma atividade de fomento e apoio à transformação de empre- sas em crise em cooperativas de seus trabalhadores é desenvolvida pela UNISOL. Confor- me Singer (2004, p. 123):

“Um outro componente da economia solidária no Brasil é formado pe- las cooperativas e grupos de produção associada, incubados por enti- dades universitárias, que se denominam Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs)”.

Outra iniciativa refere-se à CUT, a maior central sindical brasileira, criou em 1999, em parceria com a Unitrabalho e o DIEESE, a ADS. De acordo com Singer (2004, p. 124):

“A ADS vem difundindo conhecimento sobre a economia solidária en- tre lideranças sindicais e militantes de entidades de fomento da econo- mia solidária, por meio de cursos pós-graduados em várias universida- des, em parceria com a Unitrabalho”.

Devido ao primeiro Fórum Social Mundial, realizado em 2001 em Porto Alegre, foi lança- da a Rede Brasileira de Sócioeconomia Solidária, integrada por diversas entidades de fo- mento da economia solidária de todo o país, como apresenta Singer (2004, p. 124).

Em todos esses sentidos, é possível notar o movimento crescente da economia solidária no âmbito da realidade brasileira através de diversas iniciativas que vão, aos poucos, compon- do este novo panorama sócio-econômico.