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Conforme já discutido neste texto, há um conjunto de variáveis não diretamente observáveis que podem explicar e/ou diminuir a distância entre modelos teóricos para decisão e os comportamentos de decisão constatados na prática, sendo esse conjunto genericamente denominado “caixa preta”.

Conforme apresentam Camerer, Lowenstein e Prelec (2005), a neurociência permitiu, pela primeira, vez observar o cérebro em tempo real com o intuito de responder questões do tipo das levantadas por Cohen (2005), que estão relacionadas à interferência das emoções no processo de tomada de decisão, dentre outras. Sabe-se que na prática tais interferências estão relacionadas ao desvio do ponto ótimo da decisão e a compreensão de variáveis dessa natureza pode propiciar a abertura da “caixa preta” levando a um aprimoramento do modelo preditivo voltado para o processo de tomada de decisão.

O fato é que decisões são muito subjetivas e na maioria das vezes não se faz uso somente da razão para se alcançar uma decisão (CAMERER; LOWENSTEIN; PRELEC

,

2005). Qualquer sujeito pode perceber essa subjetividade nas suas decisões diárias. Quantas vezes se diz que se decide pelo que “manda o coração” e não pelo que “manda a razão”?

A neurociência tem alcançado um nível de avanço tecnológico que tem aumentado a possibilidade de observação do fluxo de circuitos neurais envolvidos no processamento das informações quando o sujeito toma uma decisão. Isto é um avanço que pode beneficiar as Ciências Sociais no sentido de desvendar fenômenos relacionados ao comportamento individual e social em vários aspectos da vida humana, dentre eles, os aspectos relacionados ao processo de tomada de decisão mostrando aspectos até então sugeridos pela própria Teoria da Racionalidade Limitada proposta por Simon há muitas décadas atrás (PENNINGS; GARCIA; HENDRIX, 2005). Buscando modelar o comportamento de decisão considerando esses aspectos de modo a se chegar a um resultado ótimo no processo de tomada de decisão, Pennings, Garcia e Hendrix (2005) apresentam um modelo linear para Tomada de Decisão baseado em aspectos clássicos da Psicologia Cognitiva. Sua inovação consiste na tentativa de modelagem da decisão propondo um conjunto de equações a serem testadas. Seu estudo vai além das questões clássicas propostas nos modelos econômicos, conforme já discutido, na medida em que incorpora as variáveis cognitivas responsáveis por transformar estímulos ambientais em respostas decisórias.

O modelo para tomada de decisão proposto por Pennings, Garcia e Hendrix (2005), descrito a seguir, pode ser visualizado na Figura 5.

O primeiro constructo é o Espaço de Estímulos. Refere-se ao espaço ambiental no qual o decisor está imerso. Os estímulos podem ser internos ao sujeito, como dores e imagens, ou externos, como cheiros, ruídos, pessoas ou dados de uma tabela, por exemplo. Trata-se de um espaço muito amplo com inúmeras informações a serem processadas.

O segundo constructo refere-se à Fase de transmissão dos estímulos comentados acima. Nessa fase, os estímulos coletados pelo sujeito são filtrados por um mecanismo de atenção seletiva e os estímulos selecionados compõem o que os autores chamam de Espaço de Estímulos Relevantes. Tratam-se dos inputs para o processo decisório, ou seja, do momento em que o sujeito identifica a existência de um padrão. Isto porque os estímulos são interpretados e se transformam em percepções. Tanto na filtragem dos estímulos como na transformação desses estímulos em percepções, a memória exerce uma razoável influência. Esta memória é o acúmulo de experiências que o indivíduo já obteve ao longo da sua vida e que lhe permite categorizar os estímulos para identificar a situação problema.

O terceiro constructo do modelo de Pennings, Garcia e Hendrix (2005) é o resultado da fase descrita anteriormente, que se torna o “povoamento” do Espaço de Percepção Multidimensional (Multidimensional Perceptual Space - MDPS). Este espaço é o que Simon denomina do conjunto de alternativas percebidas ou consideradas (SIMON, 1955, p. 102). São as alternativas disponíveis para o decisor desenvolver potenciais comportamentos capazes de resolver o problema, ou seja, que possam atender ao objetivo do tomador de decisão.

No processamento da informação que caracteriza o processo decisório, no modelo de Pennings, Garcia e Hendrix (2005) a fase seguinte é o Processamento Cognitivo Dinâmico (Dynamic cognitive processing - DCP), ou seja, o quarto constructo do modelo que se relaciona à decisão, em si. Esta fase se divide em dois passos: o passo computacional e o passo intuitivo.

O passo Computacional é bem analítico e na fase de cálculo ele considera as perspectivas armazenadas no espaço de percepção multidimensional (MDPS) e as relaciona com os objetivos a serem alcançados. É o que Simon (1955, p. 102) denomina como a relação entre alternativas selecionadas e possíveis estados futuros (ou resultados futuros) associados a cada tipo de alternativa. Nesse relacionamento a memória tem um papel importante e o resultado dessa interação são as possibilidades de comportamento que são armazenados em outro espaço, denominado Espaço de Alternativas de Comportamento. Esse relacionamento entre alternativas e resultados é um desafio para o tomador de decisão, pois geralmente se trata da associação de padrões ambientais a padrões de resposta (ou seja, memorização de “qual foi a minha decisão na situação X, parecida com a situação Y atual?”). Trata-se de um enorme universo de possibilidades com uma capacidade limitada de processamento.

A partir daí, essas possibilidades de resolver os problemas são mais uma vez reavaliadas para se decidir qual dentre as possíveis respostas pode ser a mais promissora (busca da otimização). Nessa reavaliação, está presentes novamente a memória, que registra a experiência passada e os objetivos a serem atingidos no presente. O resultado desta reavaliação forma o constructo denominado por Pennings, Garcia e Hendrix (2005) como Espaço de Resultados Comportamentais (Behavioral Outcomes Space - BOS). Tratam-se dos potenciais comportamentos a serem produzidos, que podem ser influenciados (muito ou pouco) pela a Intuição do tomador de decisão. Esses potenciais comportamentos são o que Simon (1955, p. 102) apresenta como a díade memorizada sobre a relação entre uma determinada alternativa de resposta (dentro de um conjunto de alternativas) e um determinado resultado (dentro de um conjunto possível de resultados).

Assim, pode-se dizer que este passo computacional se aproxima bastante da teoria econômica que descreve o comportamento do ser humano como fruto de um processamento matemático e que visa otimizar a escolha das alternativas viáveis para se atingir o objetivo.Segundo apontam Pennings, Garcia e Hendrix (2005), são modelos defensores da teoria racional.

O passo Intuitivo, presente no final do modelo de Pennings, Garcia e Hendrix (2005) não aparece formalmente no texto de Simon (1955). Trata-se de um constructo definido como uma escolha feita em uma análise formal (KHATRI; ALVIN, 2000). É o que explica a decisão por uma alternativa cujo resultado a ela associado possa não ser o ponto ótimo almejado.

Finalmente os resultados obtidos com a interação do passo intuitivo com o passo computacional, se complementam geram o comportamento efetivo do tomador de decisão, que retroalimenta o sistema porque se a relação alternativa-resultado for considerada “bem sucedida” ela tende a se repetir frente a novos estímulos que sigam o mesmo padrão da situação na qual a decisão foi anteriormente tomada. Ou, ao contrário, se a decisão não for “bem sucedida” o decisor memoriza que a resposta dada não atingiu o ponto ótimo. Trata-se de um mecanismo de aprendizagem que permeia o processo decisório.

Figura 5 - Modelo conceitual do processo de tomada de decisão individual

Fonte: Pennings, Garcia e Hendrix (2005)

Enfim, os comportamentos de um decisor podem se relacionar com os de outros indivíduos, gerando ou não novos estímulos que alterem a situação de decisão. Assim, vê-se que o resultado individual interfere no social e vice-versa, proporcionando fenômenos econômicos por vezes não racionais (PENNINGS; GARCIA E HENDRIX, 2005).

Nas empresas, percebe-se que gerentes usam a Intuição, principalmente para resolver problemas desestruturados, onde haja ambiguidade da informação, o que leva a objetivos nebulosos e estímulos confusos. Para Pennings, Garcia e Hendrix (2005), a afirmação realizada por gerentes, “Eu sei que deveria escolher a opção A, mas não sei o porquê da minha escolha pela opção B”, é uma evidência de que a Intuição é por vezes dominante e influencia bastante o processo de tomada de decisão.

Nessa interação entre o passo computacional e o passo intuitivo, ambos contidos no Processamento Cognitivo Dinâmico, nem sempre o mesmo passo exerce maior influencia do que o outro. Por exemplo:

a) Se o problema for inédito, o passo computacional tende a ser o que vai influenciar mais no comportamento (não há díades memorizadas);

b) Se o problema for rotineiro, menos complexo, o passo intuitivo pode ser o que mais vai influenciar no comportamento (há díades memorizadas e o sujeito pode decidir sem um processo formal de análise; simplesmente escolhe “o que deu certo no passado”, por exemplo).

Como representado na Figura 6, por outro lado, se o problema exigir um esforço muito grande, maior do que a capacidade do agente tomador de decisão, o mesmo será mais influenciado por sua intuição. Se o problema for relativamente simples com relação à capacidade do agente tomador de decisão, o que deverá prevalecer é o passo computacional, onde análises mais críticas serão realizadas (PENNINGS; GARCIA; HENDRIX, 2005).