A metodologia de projetos foi de início delineada por Dewey (1990), na década de 30, à luz das propostas da chamada Escola Nova.
Segundo ele (1990: 15):
É com convicção que identificamos liberdade com o poder de conceber projectos, de os traduzir em actos. Esta liberdade é, por sua vez, idêntica ao auto-controlo, porque a concepção dos fins e a organização dos meios são um trabalho da inteligência. Outrora, Platão definia o escravo por estas palavras: “Aquele que executa os projectos concebidos pelos outros”, e, como acabamos de dizer, não é menos escravo a pessoa submetida aos seus próprios desejos, se eles forem cegos. Penso que não há, em toda a
filosofia da educação progressiva, disposição mais judiciosa que esta importância dada à participação do educando na concepção dos projectos que inspiram as suas actividades, no decurso do ensino que lhes ministramos. E também não há, na educação tradicional, defeito mais grave que tornar o educando incapaz de cooperar activamente na construção dos projectos intelectuais que os seus estudos implicam. Mas a significação dos objectivos e das finalidades não é coisa evidente.
Portanto, esta opção por um processo educativo baseado em projetos abre a educandos e professores a possibilidade de uma aprendizagem pluralista, permitindo articulações diferenciadas e individualizadas, porque ambos, alunos e professores, em comum acordo, podem optar por variadas formas de pesquisa, após debates coletivos, abertos e reflexivos, nos quais os envolvidos exercitem sua criticidade, criatividade, respeito, ética e convivência com a diversidade de opiniões, colaborando para uma aprendizagem rica e significativa.
Continua Dewey (1990:15) explicando o que seria um projeto, como surge, o que o motiva e qual sua importância:
Quanto mais insistimos sobre o seu valor educativo, mais importante é compreendermos o que é um projecto, como surge no decurso da experiência e como funciona. Um autêntico projecto encontra sempre o seu ponto de partida no impulso do educando. A brusca inibição dum impulso transforma-o em desejo. Todavia, e é preciso insistir nisso, nem o impulso nem o desejo realizam um projecto. O projecto supõe a visão de um fim. Implica uma previsão de consequências que resultariam da acção que se introduz no impulso inicial. A previsão das consequências implica, ela mesma, o jogo da inteligência. Esta exige, em primeiro lugar, a observação objectiva das condições e das circunstâncias. Porque impulso e desejo produzem consequências, não por elas, mas pela sua interacção e cooperação com as condições envolventes.
Ou seja, o que Dewey refere é que não basta observar, mas atribuir um sentido ao projeto, determinar seus pontos de contato com a realidade circundante, com a ação concreta, delimitar suas etapas e atividades a desenvolver.
aluno, como cada um deles pode participar, partindo do conhecimento (repertório) já “estocado”. Tudo, no entanto, tem de ser construído, discutido e deliberado em ação conjunta, visando a desenvolver tanto nos alunos como nos mestres o aprender a aprender e aprender a pesquisar, a curiosidade, o gosto pela investigação, ao docente cabendo a responsabilidade de desencadear o processo e fornecer o suporte teórico ao aluno. Estes, por sua vez, terão que pesquisar, discutir, elaborar e, especialmente, decidir conjuntamente o que é ou não relevante para a construção do conhecimento durante o processo.
Dewey (1990:23) acrescenta:
O verdadeiro método pedagógico consiste primeiro em tornarmo-nos inteligentemente atentos às aptidões, às necessidades, às experiências vivenciadas pelo educandos e, em segundo lugar, em desenvolver estas sugestões de base de tal forma que elas se transformem num plano ou num projecto que, por sua vez, se organize num todo assumido pelo grupo. Por outras palavras, o plano é um empreendimento cooperativo e não ditatorial: a sugestão do professor não deve evocar a idéia de um molde para fundir objectos duros, pesados e inertes, mas a de um ponto de dilatação susceptível de se transformar num todo ordenado pelas contribuições de todos aqueles que se empenham em comum na mesma experiência educativa.
Passaram-se anos e esta metodologia continua sendo cada vez mais difundida e aplicada no mundo todo. A proposta original de Dewey foi sendo aprimorada e detalhada por acréscimos e refinamentos metodológicos de diversos autores, na busca por métodos críticos e reflexivos, com foco na aprendizagem.
No caso específico dos cursos tecnológicos, a metodologia de projetos se inicia com a busca de uma situação-problema existente na área (ou subárea) do conhecimento para a qual o curso está focado. Mas não só: a temática, objetivos, recursos e suportes, acordados por alunos, coordenadores e professores, devem levar em conta a complexidade, diversidade e interdisciplinaridade do objeto e/ou fenômeno a ser estudado, explicado, solucionado.
O objeto de estudo deve, em primeiro lugar, referir-se a algo concreto (via de regra, a uma empresa) a ser pesquisado, buscando-se soluções a problemas reais no segmento ao qual o curso se destina. Em segundo lugar, a proposta deve oferecer alternativas propícias a uma abordagem interdisciplinar, a partir das disciplinas ofertadas em cada módulo (ou no curso todo, se for o caso), devendo ser estabelecidas, portanto, no planejamento inicial, conexões entre pesquisa, ação, reflexão e produção do conhecimento (planejamento não como algo pronto e acabado, mas provisório, sujeito a correções ao longo do processo).
Em seguida, este “rascunho” é submetido a cada professor, para que ele faça as devidas adequações aos objetivos de sua disciplina e visualize as possíveis interfaces com as demais disciplinas, recomendando métodos de pesquisa (qualitativa e quantitativa), locais a visitar, fontes a consultar, sugerindo recursos e esboçando as etapas. Em seguida, o projeto inicial é consolidado e colocado em execução. Durante sua execução, um orientador geral e o professor de cada disciplina supervisionam o andamento, seja diretamente (acompanhando os alunos a visitas, por exemplo), ou indiretamente, avaliando, corrigindo e orientando cada etapa do processo, a fim de que os objetivos sejam cumpridos.
Finalmente, um rascunho do trabalho final é redigido e passado aos professores. Depois de examinado, corrigido, criticado e debatido, dá origem ao projeto integrador.