4. METODE
4.3 I NTERVJU
4.3.4 Intervjuguiden
A pesquisa-ação foi conduzida na equipe supra-citada ao longo de quatorze meses. A empresa será doravante denominada Empresa Telecom. Trata-se de empresa privada de grande porte, prestadora de serviços públicos. Mesmo seu sub-setor operacional possui ainda grande porte, podendo ser dividido em Equipamentos e Rede. Equipamentos se refere principalmente às estações para telefonia e dados, com todos os equipamentos de transmissão, recepção, comutação, bilhetagem, monitoração estatística, segurança, fontes de energia, entre outros. Rede se refere principalmente às interconexões entre estações e destas com os clientes, envolvendo grandes obras civis – abrangendo Engenharia Civil e Engenharia de Telecomunicações – para o lançamento de cabos contendo fios metálicos ou fibras ópticas, dentro de cidades ou entre cidades. No caso da interconexão de capitais estaduais, aplicava- se o nome de rotas ópticas.
O presente trabalho foi desenvolvido principalmente numa rota óptica com cerca de 1.700 km de extensão, orçada em US$ 35 milhões, e que foi construída ao longo da ferrovia26 que une as duas capitais. Chegou a envolver 5.000 trabalhadores, totalizando mais de 7 milhões de homens-hora. Era uma obra de infraestrutura de telecomunicações, no sistema brasileiro de telefonia de longa distância. A rota foi construída por uma empresa de engenharia terceirizada, denominada doravante Construtora, por escolha de um dos sócios estrangeiros da Empresa Telecom. A Construtora contratou ainda dezenas de sub-empreiteiras
26 A título de esclarecimento, vale informar que rotas ópticas são construídas ao longo de
ferrovias ou rodovias para minimizar problemas relacionados com a titularidade de terras. Cada proprietário é uma potencial fonte de problemas, tanto antes, como durante e após a obra de instalação dos cabos ópticos e dos demais elementos associados. Construir uma rota óptica em linha reta possui a vantagem de torná-la mais curta, porém implica em passar por milhares de propriedades. Já a ferrovia ou rodovia é propriedade em geral uma única pessoa jurídica e, quando muito, há entre duas capitais alguns poucos trechos com donos diferentes. A simplificação é imensa, tanto em termos de contratos jurídicos como em termos de negociações durante a obra.
– ‘quarteirização27’ –, atingindo por curtos períodos uma produção total de até 15 km/dia. O
diligenciamento – supervisão – de tais obras era realizado por uma empresa denominada doravante de Supervisora. Esta foi designada por um outro sócio estrangeiro da Empresa Telecom. A equipe de diligenciamento que trabalhou como organização de aprendizagem – e está sendo descrita neste estudo de caso – pertencia à Supervisora.
O autor desta pesquisa trabalhou como líder de uma equipe de diligenciamento, desempenhando as seguintes tarefas:
§ Organizar a equipe de inspetores da Supervisora, engenheiros responsáveis pela obtenção de informações de campo.
§ Acompanhar as obras civis em campo, envolvendo o uso de valetadeiras, retro- escavadeiras, escavação manual, plow ferroviária (arado), perfuração direcional28
(Navigator), explosivos, fixação de tubos galvanizados em pontes;
§ Acompanhar as obras de telecomunicações em campo, envolvendo a instalação de caixas de emenda, a construção dos sites29 repetidores (a cada 100 km), testes de desobstrução de sub-dutos, lançamento de bobinas de cabo óptico de 8000 metros, testes de capacidade e de parâmetros ópticos pós-lançamento, execução de emendas, teste de link bidirecional; § Produzir relatórios bilíngües referentes à produção, acidentes, deficiências técnicas,
consultas, e análises;
§ Estar em contato permanente com os engenheiros-residentes da Construtora e com os gerentes de campo de todas as sub-empreiteiras, para esclarecer situações da obra;
27 Embora fosse formalmente proibido, as sub-empreiteiras em muitos casos contratavam sub-
empreiteiras menores, delegando-lhes uma parte das tarefas, o que poderia ser chamado de quinteirização. Isto foi comprovado por demonstrativos contábeis, obtidos pela equipe de diligenciamento a partir de desentendimentos entre quarteirizados e quinteirizados.
28 Trata-se de um equipamento que possui uma broca, capaz de escavar um fino túnel –
diâmetro de 15 centímetros – no solo, mudando de direção conforme comandos emitidos da superfície, e capaz de cobrir distâncias de até 200 metros.
29 São contêineres contendo amplificadores ópticos, seus diversos equipamentos de suporte, e
§ Interagir com os representantes de outras companhias envolvidas na obra: empresas ferroviárias, empresas mineradoras, empresas de telecomunicações, prefeituras municipais – plantas de tubulações de luz, gás, água e esgoto;
§ Organizar, filtrar e arquivar informações, fotos, documentos, diários-de-obra;
§ Participar de reuniões em diferentes cidades por todo o Brasil para cursos de treinamento interno, discussão de aspectos técnicos da obra, e para cobrir ausências em outras rotas; § Organizar reuniões de segurança locais e verificar as condições de segurança dos
funcionários em campo;
§ Requisitar a re-execução de setores que foram construídos em desacordo com especificações técnicas;
§ Colaborar na resolução de conflitos interpessoais na obra;
§ Interagir com a equipe de Projeto da Construtora, para avaliar mudanças em soluções técnicas;
§ Propor modificações na obra de acordo com as observações de campo.
As fotografias da página seguinte – Fotos 1 – foram tiradas no curso desta atividade, e servem para ilustrar a atividade fim, mostrando o contexto em que operou a organização de aprendizagem que será descrita.
Este trabalho foi o único que reuniu condições suficientes para produzir um resultado consistente, como pesquisa-ação sobre AO, dentre os cinco casos considerados. Tinham sido amadurecidas diversas habilidades que parecem ser úteis para AO, bem como já havia uma compreensão melhor da abordagem por AO. Isto, associado a características próprias deste trabalho – por exemplo um elevado nível de empowerment, a cultura predominante de orientação a resultados, e o fato do trabalho se desenvolver a maior parte do tempo em campo –, favorecia de forma muito intensa a implantação de práticas de AO. De certa forma havia uma demanda por isto, é como se fosse a solução mais natural a adotar.
O início foi muito prudente e comedido, devido às duas questões colocadas na seção 1.1. A adoção de tal atitude de aprendizagem foi feita sem o conhecimento da chefia, por conta e risco do autor da presente pesquisa. Tais níveis hierárquicos superiores conheceram apenas os resultados, o que posteriormente levaria o autor a duas promoções, vindo a ser o único engenheiro diretamente contratado pela Supervisora. A equipe operando como organização de aprendizagem teve desempenho superior a diversas outras equipes espalhadas pelo território nacional. A equipe se manteve coesa e estável mesmo num ambiente bastante hostil. Os resultados foram excelentes.