5. DLD I BERGEN BY
5.4 D EN VANLIGE BORGER I B ERGEN BY
Esta é uma seção reservada a ‘milagres’, a shows com fogos de artifício.
Conforme colocado nos comentários finais, seção 2.8, organizações de aprendizagem são uma atitude, e não um rótulo para ser exibido. A atitude é construída e praticada nas pequenas tarefas do dia-a-dia. Com isto foram construídos os grandes resultados neste caso relatado. Os objetivos propostos originalmente foram plenamente alcançados: reportar os aspectos relevantes da obra, defender os interesses da Empresa Telecom em campo, assegurar
44 A definição do presidente da MacDonnell Douglas Corporation ilustra isso: “É difícil
mudar uma companhia que está lutando com dificuldades, mas é praticamente impossível mudar uma companhia que vem mostrando todos os sinais exteriores de sucesso. Sem o estímulo de uma crise ou de uma fase de sérias dificuldades, a maioria das organizações –
a segurança dos trabalhadores, e outros já informados. Além disso há indicadores indiretos de sucesso na missão, dos quais são enumerados dois: (1) o alto grau de satisfação pessoal na equipe e (2) o fato do autor, como responsável pela equipe, ter sido o único funcionário da região geográfica relacionada à obra a ser contratado diretamente pela empresa Supervisora e, posteriormente, o único a ser promovido de cargo. É preciso enfatizar que o mérito era da equipe como um todo, pois cada um contribuiu de maneira muito importante para o resultado final45. A aprendizagem organizacional provavelmente se torna muito limitada se não há um grupo coeso. A ênfase no fato do autor ter sido o único a receber determinado tratamento é uma forma indireta de demonstrar que aquele sistema de gestão – de organização de aprendizagem – tinha propriedades únicas, ou seja, muito do mérito pelos resultados pode ser atribuído ao sistema de gestão. Aquelas promoções não eram almejadas ou esperadas, cada uma foi uma surpresa em si, e mudaram em quase nada a forma de trabalho. Mas se não tivessem ocorrido tais promoções, poderia ficar a impressão de que tudo aquilo não passava de uma interpretação equivocada do autor. A beleza e a sorte de tais promoções terem ocorrido é que funcionaram como um termômetro para a presente pesquisa, criando uma medida, uma evidência de que organizações de aprendizagem tendem a se distinguir.
Mas o que explica o ‘milagre’ de uma equipe ter um desempenho superior em relação ao padrão médio de equipes equivalentes ? Como diz um provérbio alemão, “todo mundo como a maioria das pessoas – é incapaz de mudar os hábitos e as atitudes de toda uma vida” (Leonard-Barton, 1995, p. 47).
45 Por diversas questões práticas relacionadas à execução de Projetos, não seria possível
estender tais reconhecimentos explícitos – como contratações diretas e promoções – a todos os membros do grupo. Houve reconhecimentos indiretos. Além disso, no que diz respeito a organizações de aprendizagem, o papel da motivação intrínseca (Leonard & Swap, 1999, p. 183-190) associado a um salário base, elevado o suficiente para suprir as necessidades básicas de cada um – as remunerações eram diferenciadas individualmente – e permitir a formação de poupança, parece ser plenamente suficiente de acordo com o presente estudo de caso, abrangendo um horizonte de tempo médio, de 14 meses. Qualquer forma de reconhecimento externo – motivação extrínseca – pode eventualmente ferir a ética de trabalho e criar uma série de problemas (Kohn, 1993). Motivações extrínsecas deveriam ser utilizadas caso a caso, e não em pacotes ostensivos.
cozinha com água”. Não há nada de transcendental, ou, dito de outra forma, a magia estava nas pequenas coisas feitas sob aquela atitude de aprendizagem. Nas outras equipes houve muitas mortes em acidentes sérios – inclusive uma colisão entre locomotiva e trator –, houve rupturas de cabo óptico quando este já estava em operação comercial, e uma série de outros problemas graves. Na perspectiva do autor, todos estes problemas puderam ser evitados a partir dos conceitos de aprendizagem organizacional.
Textos sobre AO geralmente passam muito entusiasmo, e podem passar a idéia de que acontecem coisas grandiosas, porém o que é realmente grandioso é o simples fato de que as pessoas façam o trabalho bem feito e estejam felizes.
A seguir são descritos de forma sucinta algumas soluções fora do comum que foram criadas a partir da operação da equipe como organização de aprendizagem.
§ Trabalho não-remunerado nos finais de semana: Cerca de duas semanas após o efetivo início das obras, foi constatado um problema sério, de que durante os finais-de-semana as sub-empreiteiras trabalhavam de forma completamente errada, infringindo uma série de padrões técnicos e normas, e produzindo resultados em ritmo acelerado. Geralmente produziam em um dia de final-de-semana o dobro do que conseguiam produzir durante um dia de semana. Isto era feito às custas da qualidade. Como o resultado era enterrado, era complicada a aferição posterior. As sub-empreiteiras se aproveitavam do fato de que nos finais-de-semana, por metas da Empresa de Telecom de conter despesas com horas-extra, havia um único membro da equipe de diligenciamento em campo, ao invés de onze. Era humanamente impossível acompanhar tudo. Então, numa reunião da equipe de diligenciamento, o assunto foi debatido, e se chegou à conclusão de que não seria esforço algum permanecerem três membros ao invés de um, dois sem remuneração, e fazendo um esquema de rodízio, de forma que a cada cinco finais-de-semana cada um estaria neste tipo de atividade não-remunerada. Isso aumentou drasticamente a eficiência do
acompanhamento, até porque as sub-empreiteiras não tinham mais como informar às outras por celular onde cada membro da equipe de diligenciamento se encontrava.
§ Férias para romper ciclo de sobrecarga planejada: Cerca de três meses após o início das obras, devido a problemas com corrupção envolvendo funcionários de nível médio/alto da própria Empresa de Telecom, foram baixadas novas rotinas de trabalho, extremamente desgastantes e no perfil do burocratismo, que tinham por objetivo impedir na prática a equipe de diligenciamento de realizar seu trabalho. Esta equipe não poderia ser simplesmente desligada ou substituída, pois se isto fosse feito, chamaria a atenção dos sócios estrangeiros da Empresa de Telecom, que iriam querer saber o que estava ocorrendo, e contactariam a empresa Supervisora. O esquema foi bem planejado para que a equipe de diligenciamento se tornasse um bode expiatório, recebendo tarefas impossíveis de realizar, para depois poder ser acusada. Novamente, numa reunião da equipe de diligenciamento o assunto foi debatido. O autor propôs que todos ‘tirassem férias’ – parassem de trabalhar e fossem passear – e apenas ele ficaria em campo, emitindo relatórios com dados fictícios baseados em projeções dos dados anteriores. Cinco membros ficariam ainda nas proximidades, e os demais poderiam ir para onde bem entendessem. Isto foi feito na premissa de que ‘não ver’ era melhor do que ‘ver e não poder relatar’. Na prática, esta metade que ficou acabou continuando a coletar dados, só que ao invés disto ser feito de forma ‘desesperada’, eram colhidos tranqüilamente, e utilizados para atualizar e corrigir as estimativas que eram feitas sempre dois dias antes. Após duas semanas deste esquema, a Empresa de Telecom voltou atrás e retornou às rotinas usuais.
§ A busca noturna do trabalhador perdido nos trilhos: Certa vez um trabalhador braçal de uma das sub-empreiteiras, aparentemente por insolação, começou a caminhar sem rumo ao longo dos trilhos, abandonando seu grupo às 16:00 hs. Embora fosse chamado pelo capataz e pelos colegas, não atendia, e desapareceu. Às 18:00 hs um dos membros da equipe de
diligenciamento chegou ao local, quando a turma se preparava para ir embora – deixando aquele um para trás. Percebendo que havia algo de errado, começou a fazer perguntas, e logo apareceu o problema. O responsável por aquela sub-empreiteira foi contactado e, como de costume, lhe foi informado que o evento seria documentado. Isto o tornaria responsável por qualquer acidente, dali para frente. Então ele, muito a contra-gosto, comprou lanternas, providenciou rádios, e montou três equipes de busca. O trabalhador foi encontrado às 23:00 hs numa fazenda distante, longe dos trilhos. A relevância deste evento estava mais na questão do exemplo. Ficava assim muito claro que havia comando ali, que havia coerência entre discurso e ação. Cada trabalhador também passou a saber que se lhe sucedesse o mesmo, também não seria deixado para trás, e isto fomenta coesão. Obrigou-se a afixação do celular de alguns membros da equipe de diligenciamento nos locais onde eram realizadas as reuniões matinais de cinco minutos sobre segurança no trabalho, junto com o café-da-manhã. Eram um tipo de ‘disque-denúncia’. Por solicitação do autor, também, aquele trabalhador foi demitido.
§ A inspeção linear com bicicleta: Havia um sério problema no acompanhamento das obras, que era o fato de as estradas cruzarem a ferrovia apenas em alguns pontos, e com isso o acesso aos locais de obra era lento e pontual. Não se tinha uma visão de conjunto. A solução para isso foi a contratação de ciclistas para, de bicicleta, percorrerem quinzenalmente certos trechos. Os membros da equipe de diligenciamento em si não poderiam fazer isso, por questões de segurança trabalhista. Tinham que andar de bota de cano alto para proteger tornozelos, com capacete, faixa-X, e protetores de couro nas pernas contra cobras. Já os ciclistas seriam uma pessoa a mais na beira da ferrovia, um simples desconhecido. Recebiam uma máquina fotográfica, um celular, e uma breve instrução com fotos ilustrativas sobre o que deveria observar e fotografar, e com quem e como conversar.
Tais inspeções eram financiadas com recursos da própria equipe de diligenciamento, em benefício de melhor realizar o seu trabalho.