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Como se pode constatar, o programa espacial chinês funde-se com o programa de modernização militar, resultando dessa interdependência uma militarização progressiva do espaço. É importante sublinhar que o termo “militarização do espaço” difere em muito do conceito de “armamento do espaço”. A diferença advém do facto de que o armamento do Espaço procura evitar o acesso do adversário ao mesmo para motivos militares enquanto que por outro lado, a militarização não implica a negação da utilização das mesmas capacidades a terceiros [McDonald, 2008: 5]. Esta descrição deve apesar de tudo ser utilizada com cautela, visto que o termo “militarização” pode também conter conotações que indiquem uma confrontação [Conference on Disarmament*1753,2005:6].

A China tem vindo a perceber que a cooperação lhe providencia – para além da troca de conhecimento científico – a capacidade de maximizar os seus recursos e de criar relações com outros países baseadas em relações de “Soft Power” [Johnson-Freese, 2007: 16]. Por “Soft Power” entenda-se: a capacidade de obter poder de influência através da atracção e não através da coerção, ou seja, a capacidade de fazer com que o “outro” queira o mesmo que “nós”, algo possível apenas através da transmissão de valores, políticas ou de instituições [Nye, 2004:31]. Em forma de exemplo podemos utilizar a campanha que temos vindo a assistir nos últimos anos por parte da China, na vontade em reflectir uma imagem de parceira sobretudo na região Asiática e em África [Johnson-Freese, 2007:13]. A solidificação desta motivação tem sido feita com meios políticos reais, baseados em ajudas financeiras e em acordos comerciais [idem]. O Programa Espacial parece fornecer o ornamento ideal para a imagem da China entre as Nações em Desenvolvimento, ou seja, a imagem de uma China Moderna na eminência de se tornar num Poder Espacial Internacional. Uma vez que a procura de energia é também um factor que molda a modernização do programa espacial chinês [Shambaugh, 2005-2006:77], e tendo em conta que 25% do petróleo utilizado na China

provêm do continente Africano, é compreensível esta nova viragem política e científica face ao Sul [Johnson, 2009:11].

No que respeita ao projecto Shenzou é interessante notar que a viagem ao espaço possibilitada por estes veículos representa – numa época onde o comunismo nunca foi tão irrelevante – um renascimento do prestígio nacional, de reunificação, de proeza militar e de flexibilidade. A chegada da China ao Espaço, pretende ser uma forma de compensação ao sentimento de injustiça social sentida no território ao longo das últimas décadas [Dellios, 2005]. Não estando isento de criticas, o programa espacial Chinês é normalmente acusado por sectores civis e industriais de consumir receitas que deveriam ser aplicadas na redução de problemas sociais e económicos do País [Shambaugh, 2006:82]. Os militares ligados ao programa defendem-se destas acusações, utilizando o argumento de que o programa espacial serve de facto um objectivo superior de desenvolvimento humano, que não seria possível de outra forma [Dellios, 2005].

O Conselho de Relações Externas dos E.U.A declararam em 2003 que os custos do programa militar chinês seriam na realidade duas a três vezes superiores do que o anunciado publicamente pelo Governo Chinês [Shambaugh, 2006:79]. A opacidade quanto aos números exactos, pode elevar o que os economistas chineses apelidam de “fardo da defesa” a uma carga financeira bastante superior à enunciada, cujo crescimento oficial é de cerca de 14.5% ao ano [idem:80]. Estes números reflectem por si só, a determinação do Governo e do exército chinês em prosseguir com a chamada “Revolução nos Assuntos Militares” [Ibid.].

É importante mencionar, que não existe aparentemente na China uma vontade clara em adquirir uma vontade de projecção de poder, ou seja, a China não possui bases militares em Países terceiros, não tem uma rede de comando ou de controlo sedeada no espaço, não tem bombardeadores intercontinentais e não expõe em nenhum relatório uma vontade de se projectar nas periferias [Shambaugh, 2005-06:95]. Apesar destes factos, não existem dúvidas de que a China aumentou efectivamente a sua capacidade de combate desde 2001 – 2002 [idem].

É certo que a China encontra-se actualmente mais cooperativa do que nunca, contudo, a sua posição é oficialmente definida como uma “cooperação não-alinhada” que reconhece – enquanto a leva a cabo – que os Países competem entre si [Defense White Paper, 2004:1-2]. É importante perceber também, antes de se explorar as motivações que levam a China a modernizar-se militarmente falando, que a cultura contemporânea chinesa, que pretende ser fortemente independente do exterior, possui

três pilares essenciais, que se aplicam também ao caso da sua Politica Espacial: a cultura tradicional, a ideologia comunista e mais recentemente os valores ocidentais [Johnson, 2009:3]. Trata-se de cultura que não pode ser relatada como pacífica ou bélica, tem antes uma estratégia repartida, ou seja, o Confucionismo, que prefere a defesa ao ataque, mistura-se com a Realpolitik, nomeadamente com soluções militares de orientação ofensiva [idem]. Neste âmbito, a ideia da ofensiva é difundida como sendo sempre o último recurso e enquanto a única solução para obter interesses nacionais [Ibid.]. Por estes motivos verifica-se que existe um “culto chinês da Defesa” fortemente vincado, que é despertado a cada vez que a soberania territorial da China é colocada em causa [Scobell, 2002:4].

A disputa com Taiwan, e a presença Norte-Americana no território é o factor mais importante na motivação da China em apostar na Modernização das suas forças militares e em consequência no seu Programa Espacial, sendo também o elemento mais relevante no âmbito do estudo das relações entre a China e os EUA.

Em segundo lugar, o programa nuclear da Coreia do Norte e a potencial instabilidade na Península Coreana parecem ser também um catalizador para a obtenção de recursos de defesa [Shambaugh, 2005-06:73].

Por último, são também as relações tensas com o Japão que mobilizam o plano militar chinês. A assinatura de um acordo em 2005 entre o Japão e os EUA (U.S – Japan Security “2+2 Joint Statement) onde se incluiu explicitamente Taiwan enquanto um elemento que diz directamente respeito à política de Segurança dos dois Países e as disputas marítimas entre a China e o Japão são agravantes na perspectiva da China [idem].

Deixou-se propositadamente para último o capítulo que se segue, para que se fizesse a ponte entre uma altura relativamente pacifica do programa espacial chinês e entre o episódio que fez com que a imagem da China regredisse no que respeita à transparência e às intenções manifestadas no programa. O teste anti-satélite (ASAT) de 11 de Janeiro de 2007 chocou a Comunidade Internacional e fez com que o papel da China na Comunidade Internacional fosse questionado. A efectivação de um outro teste em 2010, desta vez anti-míssil, por entre os limites entre a atmosfera e o espaço, demonstra que a China não possui intenções de voltar atrás sejam quais forem os seus objectivos.