REFERENCIAL TEÓRICO DO AUTOCONCEITO
2.1 - HISTÓRICO
Para os fenomenologistas, bem como para alguns estudiosos do self, o autoconceito é “o construto mais central da Psicologia que proporciona uma perspectiva através da qual o comportamento humano pode ser compreendido” (EPSTEIN, 1973, p. 404).
William James foi o precursor dos estudos sobre autoconceito, rompendo a abordagem mais filosófica e focando a construção do mesmo a partir da interação indivíduo-sociedade e cultura. Para ele o autoconceito é definido como o conjunto de tudo que o indivíduo pode chamar de seu, incluindo não somente seu corpo, mas também as pessoas, objetos e ambientes que interagem com o mesmo (TAMAYO et al, 2001; COSTA, 2002; GIAVONI, TAMAYO, 2003).
James identificou dois importantes aspectos do self: a) I-self é considerado como sujeito, o conhecedor que organiza e interpreta as experiências, enquanto b) Me-self é o objeto, composto por tudo aquilo que pertence ao indivíduo sendo subdividido em três camadas: a) Self material que abrange todas as coisas com as quais nos identificamos e constituem nossa identidade (corpo, família, amigos, bens); b) Self social constitui os papéis que são aceitos (papéis sociais, relações, personalidade); e c) Self espiritual que constitui o ser interior e subjetivo de uma pessoa (EPSTEIN, 1973; BRACKEN, 1996; ALBUQUERQUE, OLIVEIRA, 2002; COSTA, 2002; FADIMAN, FRAGER, 2002; GIAVONI, TAMAYO, 2003).
Harter (1996) reconhece o I-self como o centro responsável pela avaliação e interpretação das experiências, e o Me-self como uma construção teórica realizada pelo I-self. Esses dois aspectos do Self combinam-se para criar um sentido coerente de identidade para o indivíduo.
A percepção do eu inicia-se na infância e desenvolve um papel importante, pois a partir dessa consciência, os acontecimentos, objetos e as pessoas dentro de um ambiente podem ser percebidos de forma diferente. Dessa forma, o autoconceito não é uma estrutura
inata e seu desenvolvimento e evolução ocorrem a partir das experiências do indivíduo com o meio e da influência que os outros significativos exercem na formação dessa estrutura.
Tamayo (1981, p.88) define o autoconceito como “um conjunto de percepções, sentimentos, traços, valores e crenças que o indivíduo reconhece como fazendo parte dele mesmo”. Esses atributos são fundamentados a partir de percepções e representações sociais do indivíduo em relação aos outros significativos (TAMAYO, 1985; COSTA, 2002).
Para Giavoni e Tamayo (2003, p.249), o autoconceito é “uma construção teórica que o indivíduo realiza sobre si, a partir de sua interação com o meio social”. Esta estrutura reflete as “percepções, conjecturas e imaginações que o indivíduo realiza a respeito da influência que sua imagem exerce sobre os outros; o julgamento que os outros significativos realizam sobre o indivíduo e o auto-sentimento de orgulho ou vergonha resultante desta interação social”.
Como descrito anteriormente, o autoconceito não é uma estrutura inata e sua formação ocorre através das percepções e interações do indivíduo com os outros e com o meio. Entretanto, essa formação não é definitiva. Constantes transformações ocorrem a partir de novas experiências, buscando um equilíbrio entre o indivíduo e o meio.
Shavelson, Hubner, Stanton (1976) descreveram o autoconceito como uma estrutura multidimensional, organizada e estruturada, multifacetada, hierárquica, estável, avaliativa, descritiva e diferenciada de outros construtos.
Seguindo a organização hierárquica do autoconceito, Shavelson, Hubner, Stanton (1976) representaram no topo da hierarquia um autoconceito geral que subdivide-se em dois componentes principais: a) autoconceito acadêmico e b) autoconceito não-acadêmico.
O autoconceito acadêmico é um componente específico ligado às áreas de conhecimento escolar como matemática, história, geografia, dentre outras. O autoconceito não-acadêmico é resultado da interação do indivíduo com o meio, sendo subdividido ainda em: a) autoconceito físico que engloba a aptidão e aparência física; b) autoconceito emocional estruturado a partir dos estados emocionais manifestados de acordo com as experiências; e c) autoconceito social estruturado em função da interação com o meio e com as pessoas significativas (BRACKEN, 1996; ALBUQUERQUE, OLIVEIRA, 2002).
Em 1978, L’Écuyer apresentou o modelo teórico para o autoconceito, categorizado pelas etapas do desenvolvimento, permitindo uma verificação das dimensões e da organização do mesmo. O autor definiu o autoconceito como um sistema multidimensional, hierárquico, composto de estruturas que se desdobram em subestruturas e em categorias que caracterizam suas múltiplas facetas (NOVAES, 1985).
Sánchez e Escribano (1999) descrevem duas teorias sobre a formação do autoconceito: a) Teoria do Espelho e b) Teoria da Aprendizagem Social; e dois modelos que explicam a evolução do autoconceito utilizando: a) o enfoque cognitivo e b) o enfoque ontogênico. A Teoria do Espelho, também conhecida como simbolismo interativo, indica que o autoconceito é formado a partir da percepção do outro, ou seja, o indivíduo se reconhece a partir da percepção dos feedbacks que os outros significativos emitem de sua aparência, bem como, de suas respostas cognitivas, afetivas e comportamentais. Já a Teoria da Aprendizagem Social indica que a formação do autoconceito está baseada na observação e reprodução, onde o indivíduo incorpora atitudes e condutas de pessoas que são significativas para ele, adotando características e comportamentos que são aprovados socialmente.
De acordo com o modelo do enfoque cognitivo, a evolução do autoconceito acontece de maneira diretamente proporcional, ou seja, à medida que o tempo passa, o indivíduo percebe uma maior quantidade de características próprias, ampliando e diferenciando suas percepções em relação a si e ao meio. Já o enfoque ontogênico propõe que o autoconceito se forma e se consolida em cada período da vida, possuindo características específicas desde a infância (SÁNCHEZ, ESCRIBANO, 1999).
Observa-se nas teorias apresentadas a importância da influência social (outro significativo) na formação do autoconceito. Essa influência contribui não somente para formação do mesmo, mas, atua também, na formação da auto-estima. Considera-se que o autoconceito é composto por três componentes: a) Avaliativo - consiste na avaliação geral que o indivíduo faz de si, sendo determinado pela auto-estima, que pode ser compreendida como uma atitude valorativa emocional que o indivíduo tem de si, decorrente da interação com o meio e com os outros; b) Cognitivo – consiste nas percepções que o indivíduo tem dos traços, das características e das habilidades que possui ou que pretende possuir; e c) Comportamental – engloba as estratégias de auto-apresentação que o indivíduo utiliza, com a finalidade de transmitir uma imagem positiva de si mesmo (TAMAYO et al, 2001).
Sendo uma estrutura dinâmica, avaliativa e maleável, o autoconceito estrutura-se a partir das imagens que o indivíduo possui de si mesmo, da percepção do feedback de como os outros significativos o imaginam e de como ele gostaria de ser. Em suma, o autoconceito estrutura-se tanto na auto-descrição individual quanto na dimensão avaliativa (auto-estima), sendo que isso ocorre durante o desenvolvimento do indivíduo podendo modificar-se devido às alterações do ambiente externo (TAMAYO et al, 2001; ALBUQUERQUE, OLIVEIRA, 2002).
Para Epstein (1973, p.407) o autoconceito é visto como uma autoteoria que o indivíduo constrói a respeito de si, com a finalidade de “melhorar o equilíbrio entre o prazer - sofrimento durante a vida, proteger e conservar a auto-estima e organizar as experiências para que estas possam ser enfrentadas com eficácia”.
Sendo assim, o autoconceito é uma estrutura cognitiva que organiza uma série de informações sobre si mesmo. Possui um núcleo que armazena auto-representações mais centrais relacionadas à identidade, as quais Markus (1977) denomina de esquemas cognitivos ou auto-esquemas.
Os auto-esquemas são “construções que resumem nossas experiências passadas e que permitem aos indivíduos compreenderem suas próprias experiências sociais e a organizar a ampla variedade de informações que possuem sobre si mesmos” (MARKUS et al, 1982, p.38). Ao serem estimulados, os auto-esquemas reúnem-se formando estruturas cognitivas maiores, denominadas de esquemas cognitivos.
Segundo Eysenck e Keane (1994, p.245) os esquemas cognitivos são “agrupamentos estruturados de conceitos que envolvem conhecimento genérico e poderão ser utilizados para representar eventos, situações, relações e até mesmo objetos”.
Dessa forma, eles funcionam como lentes que assimilam, organizam e dão significado as situações que são pertinentes a eles (GIAVONI, TAMAYO, 2005). Os esquemas “moldam as percepções que os indivíduos possuem das situações, suas memórias dos eventos e seus sentimentos sobre si mesmos e sobre os outros” (CANTOR, 1990).
Essas estruturas de natureza subjetiva são formadas a partir da organização das informações e percepções provenientes da interação do indivíduo com o meio e os outros significativos (BEM, 1984). “O resultado desta organização é um modelo, o qual será utilizado como base para futuros julgamentos, decisões, inferências ou predições sobre o self” (MARKUS, 1977, p.65).
A aquisição do esquema pode ocorrer através da: a) incorporação da informação, baseada em recordações; b) sintonização, onde a elaboração do esquema acontece baseada nas experiências; c) reestruturação, onde o esquema é adquirido através de analogias, ou seja, influência assimiladora de uma informação sobre a outra (EYSENCK, KEANE, 1994).
Dentre os esquemas que formam o autoconceito encontram-se aqueles ligados a masculinidade e a feminilidade, denominados de esquemas de gênero: esquema masculino e esquema feminino.
Cabe, entretanto, ressaltar que gênero difere de sexo, uma vez que este último refere- se exclusivamente a características biológicas que permitem a reprodução humana, definindo
as características anatômicas e fisiológicas específicas do homem e da mulher. Quando a esta definição são somadas características psicológicas típicas (masculinidade e feminilidade) de cada sujeito, seus comportamentos, interesses, estilo de vida, papéis sociais e centrais e a consciência de si, então, designa-se este amplo construto pelo termo gênero (STREY, 1999; MYERS, RILEY, ROBINSON, 2003).
Como a construção do autoconceito é influenciada pela cultura (TAMAYO et al, 2001) e nesta encontram-se inseridos os construtos de masculinidade e feminilidade, então, a partir das vivências pessoais, o indivíduo acaba incorporando, em proporções diferentes, traços, valores e papéis relativos a este construto. Assim, o esquema masculino é composto por experiências, traços, valores e papéis associados à masculinidade, enquanto o esquema feminino abrange componentes semelhantes, mas relacionados à feminilidade. Estes esquemas de gênero são ativados na presença de estímulos relacionados ao gênero. Quando estimulados, indivíduos com auto-esquemas relacionados à masculinidade, agrupam estes auto-esquemas formando uma rede de associações cognitivas – o esquema masculino. Segundo Giavoni (2000) a estrutura fatorial do esquema masculino é composta pelos fatores Negligência, Racionalidade, Ousadia, Agressividade e Indiferença.
Processo semelhante ocorre com indivíduos portadores de auto-esquemas relacionados à feminilidade. Quando estimulados, estes auto-esquemas agrupam-se formando o esquema feminino. Segundo Giavoni (2000) a estrutura fatorial do esquema feminino é composta pelos fatores Tolerância, Insegurança, Sensualidade, Emotividade, Responsabilidade e Sensibilidade.
A Teoria do Auto-Esquema (MARKUS, 1977) concebe que os esquemas de gênero fazem parte do autoconceito, sendo resultantes da formação de conceitos e das experiências do indivíduo a partir de sua interação com o meio social. Markus (1977) demonstra que o indivíduo pode ser portador de quatro combinações dos esquemas de gênero, sendo denominados de: a) esquemático feminino, b) esquemático masculino, c) biesquemático e d) aesquemático (ausência de esquemas). Estes indivíduos diferem em relação à memorização e atribuição de palavras, comportamentos e percepções.
Com relação à memorização, Bueno (1996, p.425) definiu memória como a “faculdade de reter as informações adquiridas anteriormente; lembrança”. Essa lembrança só ocorrerá se o estímulo for consistente ao esquema do indivíduo.
Visto que assimilar todos os detalhes de uma situação é impossível, faz-se necessário captar o mais relevante para o esquema. Assim os esquemas: a) processam as informações coerentes com sua estrutura mais rapidamente; b) influenciam na capacidade de memorizar e
relembrar informações consistentes com sua estrutura; c) na presença de lacunas permitem fazer inferências e julgamentos que sejam consistentes a sua estrutura; e d) são resistentes aos estímulos considerados inconsistentes à sua estrutura. (MARKUS, 1977; MILLS, 1983; MICHENER, DeLAMATER, MYERS, 2005).
Como dito anteriormente, os esquemas são responsáveis por organizar as informações na memória. Dessa forma, as lembranças e os esquecimentos estão diretamente ligados aos esquemas. Quanto mais consistente ao esquema for o estímulo, mais rápido será processada a informação e, consequentemente, as lembranças. Estímulos inconsistentes ao esquema caem no esquecimento (MICHENER, DeLAMATER, MYERS, 2005).
Em relação à memorização e atribuição de palavras, estudos demonstraram que as palavras memorizadas e atribuídas a si foram consistentes ao esquema do indivíduo, ou seja, indivíduos esquemáticos masculinos memorizaram mais palavras referentes a masculinidade do que a feminilidade e atribuíram mais rapidamente para si palavras com características consistentes ao esquema masculino do que ao feminino. O inverso aconteceu com os esquemáticos femininos (BEM, 1981; MILLS, 1983).
A partir da Teoria do Auto-Esquema (MARKUS, 1977), Giavoni (2000) afirma que todos os indivíduos são portadores dos dois esquemas, os quais variam quanto ao desenvolvimento e à proporcionalidade. Do estudo da interação entre os esquemas masculino e feminino, Giavoni (2000) propõe o Modelo Interativo. Este modelo busca avaliar a síntese resultante da interação entre construtos com naturezas opostas, como é o caso da masculinidade-feminilidade ao nível cultural e, ao nível individual, com os esquemas masculino e feminino do autoconceito.
2.2 – MODELO INTERATIVO
O Modelo Interativo (GIAVONI, 2000) permite avaliar constructos bidimensionais. Inicialmente foi proposto para avaliar os esquemas de gênero do autoconceito. Dessa forma, os pares opostos – esquema masculino (EM) e esquema feminino (EF) – formaram os eixos do plano vetorial do Modelo. O cruzamento dos pares opostos resultou em duas variáveis matemáticas: Variável Ângulo e Variável Distância.
A variável ângulo avalia a proporcionalidade entre os esquemas, permitindo subdividir o plano vetorial do Modelo em três campos principais. Quanto mais distante o campo encontra-se da bissetriz (â=45º) maior a desproporção entre os grupos.
Os indivíduos pertencentes ao campo central, denominados de Isoesquemático, são caracterizados pela proporção entre o esquema masculino e o esquema feminino, ou seja, possuem uma simetria dos dois esquemas. À medida que o ângulo se afasta da bissetriz em direção ao eixo y (EM), ocorre o predomínio do esquema masculino sobre o esquema feminino, sendo os indivíduos desse campo denominados de Heteroesquemáticos Masculinos. Quando esse desvio ocorre em direção ao eixo x (EF) ocorre o predomínio do esquema feminino sobre o esquema masculino, e esses indivíduos são chamados de Heteroesquemáticos Femininos (figura 1).
Figura 1: Campos dos grupos tipológicos dos esquemas de gênero Fonte: Giavoni, 2000.
Em termos psicológicos, a variável ângulo, descreve que os indivíduos com predomínio de um esquema sobre o outro tenderão a: a) memorizar melhor atributos relativos ao esquema dominante, b) engajar em comportamentos consistentes ao esquema dominante e evitar comportamentos consistentes ao domínio do esquema rudimentar c) ter a percepção dos eventos regida pelo esquema dominante, dentre outros aspectos. Enquanto indivíduos que apresentam simetria entre os esquemas tenderão a memorizar, engajar e perceber os eventos, utilizando-se tanto dos elementos que formam um esquema quanto do outro. Assim, por não apresentarem predomínio de um dos esquemas, tenderão a apresentar maior flexibilidade cognitiva, afetiva e comportamental quando comparados aos demais grupos.
EM
A variável distância verifica o nível de desenvolvimento dos constructos. Em termos psicológicos, a variável define o nível de desenvolvimento dos esquemas e apresenta correspondência com a consistência das respostas dos indivíduos, ou seja, quanto maior o nível de desenvolvimento dos esquemas, maior será a consistência comportamental e vice- versa (RUSHTON, JACKSON, PAUNONEN, 1981; MARKUS et al, 1982; BURKE, KRAUT, DWORKIN, 1984). No modelo, esta variável caminha da micrometria (esquemas pouco desenvolvidos) à macrometria (esquemas desenvolvidos), definindo esquemas de baixa complexidade ou rudimentares (Simples) a esquemas de alta complexidade (Complexos).
A avaliação do nível de síntese dos construtos opostos é feita através da relação entre as variáveis ângulo e distância. Do cruzamento dessas variáveis originam-se, pelo menos, seis grupos principais apresentados no quadro 1, que diferem em suas respostas cognitivas, afetivas e comportamentais.
Quadro1 – Correspondências entre os campos das variáveis ângulo e distância e grupos tipológicos. Variável Ângulo
Variável Distância
Heterometria
Masculina Isometria Heterometria Feminina
Micrometria Heteroesquemático
Masculino Simples Isoesquemático Simples Heteroesquemático Feminino Simples
Macrometria Heteroesquemático Masculino Complexo Isoesquemático Complexo Heteroesquemático Feminino Complexo
Em função da abrangência do Modelo, neste estudo utilizou-se apenas a variável ângulo e seus domínios que prevê ao menos três grupos principais denominados de Heteroesquemático Masculino (HM), Heteroesquemático Feminino (HF) e Isoesquemático (ISO). Outros subgrupos foram previstos de acordo com a síntese entre os esquemas. A figura 2 apresenta os grupos finais previstos pelo Modelo Interativo, quando aplicado aos esquemas de gênero.
Como as respostas cognitivas, afetivas e comportamentais são consistentes à estrutura do esquema dominante, os indivíduos HM tendem a perceber e assimilar melhor os estímulos representativos da masculinidade e evitar estímulos representativos da feminilidade. Os HF tendem a perceber e assimilar mais rapidamente estímulos provenientes da feminilidade do que da masculinidade. E, devido à simetria no desenvolvimento dos esquemas, os ISO tendem
a apresentar respostas consistentes à estrutura tanto do esquema masculino quanto do esquema feminino.
Figura 2: Grupos tipológicos dos Esquemas de Gênero do Modelo Interativo Legenda: Esquema masculino (EM); Esquema Feminino (EF)
Fonte: Giavoni, 2000.
Custódio e Giavoni (2007) avaliaram mulheres sedentárias de diferentes grupos tipológicos de esquemas de gênero quanto à aquisição de força máxima, resistência e grau de satisfação com o treinamento. Os resultados obtidos demonstraram que o treinamento foi eficaz para os três grupos, entretanto, as mulheres HM obtiveram ganhos de força e resistência maiores que os demais grupos. Como o treinamento na musculação possui fortes traços da masculinidade, os indivíduos com predomínio do esquema masculino tenderam a perceber e se engajar melhor nesta atividade.
Gomes e Giavoni (2007) compararam os níveis de aptidão física de atletas de alto rendimento no futsal e verificaram as possíveis diferenças entre os grupos tipológicos de esquemas de gênero. Os resultados demonstraram que os HM são mais potentes e menos resistentes à fadiga, pois apresentam uma menor resistência de força devido à impulsividade e alta competitividade quando comparados aos HF e ISO. Devido às suas características psicológicas, os atletas HM não conseguiram manter a mesma intensidade durante o teste, apresentando queda no desempenho, fato esse que ocorreu de maneira menos acentuada nos atletas ISO e HF.
Melo e Giavoni (2008) avaliaram o perfil psicológico dos atletas brasileiros segundo a teoria do Individualismo-Coletivismo e através da metodologia do Modelo Interativo. Os
resultados demonstraram que os perfis dos atletas diferiram quanto aos grupos tipológicos. Os Heteroidiocêntricos apresentaram traços como objetividade, racionalidade, competitividade, etc., enquanto os indivíduos Heteroalocêntricos apresentaram traços como a submissão, hierarquia, lealdade, fidelidade e responsabilidade. O grupo Isocêntrico possui uma simetria entre os traços dos grupos Heteroidiocêntricos e Heteroalocêntricos permanecendo entre os dois.
Dessa forma, os indivíduos Heteroidiocêntricos tendem a apresentar uma conduta mais individualista, enquanto os Heteroalocênctricos tendem a apresentar uma conduta mais coletivista. Já os Isocêntricos tendem a apresentar condutas intermediárias. As autoras concluem que não existe um único perfil psicológico que seja ideal para atletas. Os perfis podem se adequar melhor a um ou outro esporte, dependendo das características do mesmo, da posição em quadra e da situação do jogo.
Como dito anteriormente, devido à alta complexidade do modelo, neste estudo utilizou-se apenas os domínios da variável ângulo para definir os campos e classificar os sujeitos amostrais em Heteroesquemático Masculino (HM), Heteroesquemático Feminino (HF) e Isoesquemático (ISO).
2.3 – ESQUEMAS DE GÊNERO E A DOR
Segundo Guyton e Hall (2002) as informações memorizadas são resultantes do processo de habituação ou do processo de sensibilização. No processo de habituação, as vias sinápticas são inibidas e a informação irrelevante é ignorada, ou seja, não há memorização. Já no processo de sensibilização, ocorre facilitação das vias sinápticas permitindo o armazenamento de informações importantes como a dor e o prazer.
O armazenamento de informações como a dor é de conhecimento exclusivo e baseado em experiências prévias, resultando em um modelo perceptivo, o qual permite que o indivíduo perceba, interprete e reaja de forma distinta frente ao estímulo doloroso.
A vivência de um quadro álgico gera uma representação esquemática que permite ao sujeito “reconstruir” a sensação anterior diante de uma situação semelhante. Eysenck e Keane (1994) afirmam que a partir das experiências específicas, os esquemas podem ser induzidos ou abstraídos de acordo com a consistência do estímulo.
Em situações inesperadas, como no caso da dor, as expectativas criadas em relação a sensação a ser experimentada gera diferentes lembranças prévias (EYSENCK, KEANE, 1994) o que pode interferir na percepção, na intensidade e na tolerância da mesma. A resposta desencadeada vai depender de como foi a aquisição do esquema e o quão relevante foi a informação armazenada para aquele estímulo.
Como visto no capítulo anterior, existem diferenças na percepção da dor, pois estão englobados tanto os fatores fisiológicos como os fatores psicológicos. Em relação às diferenças perceptivas da dor aguda entre homens e mulheres, os estudos demonstram que as mulheres apresentam um quadro mais freqüente de dor, melhor habilidade para discriminá-la, menor limiar sensitivo, menor tolerância e maior sensação desagradável.