No presente capítulo pretende-se apresentar algumas ideias de aprendizagem retidas da implementação do projeto.
Considera-se que a questão do paradigma da avaliação realista se encontra devidamente explicitada e que se percebe a emergência da sua aplicação.
Para além da avaliação realista, também se entende que um processo de avaliação, mesmo que através de um modelo convencional, poderá ser suficiente para medir os impactos de um projeto, isto é, o efeito líquido desse projeto, mesmo que não revele as suas causas efetivas, que neste ponto do estudo, já se incorporou o quanto é fundamental.
Dado que o projeto não foi acompanhado por qualquer modelo de avaliação, deixou de se poder medir os efeitos eventuais do projeto. Entretanto conseguiu-se aferir, pelas entrevistas realizadas, que os impactos ficaram muito aquém do esperado.
Esta foi desde logo uma aprendizagem, a ausência de qualquer modelo de avaliação traz-nos a impossibilidade de apurar os efeitos líquidos do projeto.
Outra aprendizagem que se retirou, ficando-se com a perceção de que tem uma importância muito maior do que aquela que inicialmente se considerava, é de facto as condições para se implementar um projeto. Aproveitando uma referência de Maria João Freitas
“(…) não basta ter boas ideias, é preciso perceber quais aquelas ideias que têm caminho para poderem avançar e aquelas que precisam de ficar um bocadinho em banho-maria porque antes é preciso criar as condições necessárias e essas condições necessárias muitas vezes não passam pelas dimensões financeiras, passam sobretudo pelas dimensões organizativas, passam pelas dimensões de competências, passam pelas dimensões de capacidade ou de à vontade, da relação entre as instituições (…)”
Não se quer com isso dizer que, não havendo condições iniciais, não se devem propor projetos ou aplicar medidas de políticas públicas, quer-se sim dizer que, as condições necessárias para receber um projeto ou aplicar as medidas devem ser trabalhadas de forma a permitir o seu sucesso. Também é certo que por vezes é necessário impulsionar essas mesmas condições. E este é um assunto que apenas poderá ser avaliado caso a caso, mas o que se quer deixar registado é que é necessário ter a capacidade de avaliar se a comunidade e toda a sua envolvente estão em condições ou se é possível criar as condições para que o projeto ou a medida se concretize.
Por último, uma outra aprendizagem que se retirou foi a importância de uma abordagem de intervenção integrada em todos os aspetos.
É necessário haver um envolvimento de todos os intervenientes no processo desde os beneficiários residentes, passando pelos agentes locais que atuam e interagem com os residentes, os decisores, até aos avaliadores, para que o processo possa efetivamente ser frutífero. E, por vezes, é necessário criar as dinâmicas necessárias para que tal aconteça, tendo em conta as características de cada entidade e comunidade em causa, por muitas dificuldades que isso possa representar.
Em termos de intervenção integrada, também se entende como fundamental toda a integração de informação prévia existente. Parece evidente que, se se propõe a realizar um projeto ou uma medida para determinada localidade ou determinado problema, é de facto importante integrar toda a informação
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de projetos ou medidas desenvolvidos anteriormente nessa mesma comunidade, aferir os princípios e metodologias em que se basearam, os resultados e impactos dessas medidas, etc. Também é certo que se não houve qualquer processo de avaliação desses projeto e medidas, será difícil apurar uma informação exata.
Como exemplo da importância da integração pode-se recorrer ao presente estudo, por se considerar que o seu desenvolvimento deveria focar apenas nas atividades realizadas no âmbito da dimensão dos A.Residentes expressa no projeto. Iniciou-se o estudo apenas por essa dimensão, mas rapidamente se verificou que tal não era exequível. Foi impossível dissociar a dimensão direcionada para os residentes das restantes dimensões previstas no projeto.
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Conclusão
Conclusões do estudo
Relembra-se a questão, ou melhor, as questões que se queriam responder com o presente estudo e demonstrar a necessidade, pode-se dizer obrigatória, de serem realizados exercícios de avaliação em projetos de intervenção social.
Em que medida é possível analisar os impactos de um projeto que não tenha sido sujeito a uma avaliação formal? Foi possível apurar os impactos gerados pelo projeto “Velhos Guetos, Novas Centralidades” na população de Rabo de Peixe que vive em situação de pobreza? Em que medida a avaliação de um projeto permite aprofundar o conhecimento das condições de mudança na população em situação de pobreza, ou seja, as causas que estão na origem dos seus problemas?
É possível desde já responder que, se não for aplicado um exercício de avaliação formal a um projeto, essencialmente através da abordagem da “avaliação realista”, não será possível apurar as condições de mudança existentes na população e nem aferir os impactos gerados pelo projeto, que foi precisamente o que se verificou ao fazer a análise do projeto “Velhos Guetos, Novas Centralidades” em Rabo de Peixe.
Com a análise realizada aos relatórios e informação disponível do projeto “Velhos Guetos, Novas Centralidades” em Rabo de Peixe aferiu-se que não era possível deduzir os impactos que o projeto eventualmente tivesse causado na população de Rabo de Peixe.
Por isso, só foi possível chegar a uma aproximação desses impactos através das entrevistas, da sensibilidade dos inquiridos, de entrevistas informais que não foram aqui reproduzidas e da própria observação presencial da comunidade.
Os impactos que o projeto se propunha alcançar em Rabo de Peixe, de facto, não foram atingidos. Relembra-se que passaram seis anos após a conclusão do projeto e que, por isso, caso tivessem sido criadas condições para se proporcionar uma trajetória de mudança na população, é certo, que já seriam visíveis sinais de mudança. E foi a essa conclusão a que se chegou, sendo essa opinião unânime entre os intervenientes deste processo. Infelizmente, não é possível também quantificar o desfasamento entre o proposto e o alcançado pelo projeto, dada a falta da implementação de um processo de avaliação.
No entanto, não seria justo dizer que não houve qualquer melhoria na qualidade de vida da população em situação de pobreza. Efetivamente houve melhorias, como por exemplo, no que diz respeito ao saneamento básico que a população passou a usufruir e daí, evidentemente, melhores condições de habitabilidade, e que poderá, por exemplo, ter repercussões na saúde.
Também relativamente às infraestruturas construídas, que entretanto Rabo de Peixe passou a beneficiar, não se pode deixar de dizer que certamente se percebeu que todas elas foram construídas sob um acompanhamento rigoroso e cuidado, não havendo lugar a qualquer derrapagem de custos e prazos, graças à monitorização muito bem-sucedida da intervenção física. No entanto, o que se propunha aqui estudar eram os impactos do projeto em termos societais, mesmo que provocados pela componente física.
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E parece poder concluir-se que os impactos do projeto ficaram do aquém do desejado, numa comunidade como Rabo de Peixe, que necessitaria de valer-se de todos os recursos e meios que lhe fossem disponibilizados. Ficou-se com a perceção de que Rabo de Peixe esteve perante a oportunidade e as condições necessárias para uma transformação, mas que, de facto, essa transformação não se proporcionou.
Para esta situação convergiram vários fatores. Tensões de natureza institucional, como por exemplo a falta de confiança mencionada anteriormente, poderão não ter contribuído para o melhor desenvolvimento do projeto. Esta foi uma questão referenciada diversas vezes por alguns dos entrevistados.
A possível dificuldade das entidades para a compreensão das dinâmicas proporcionadas e do benefício das mesmas ou a dificuldade de comunicação entre as entidades, de facto demonstraram um obstáculo na criação de condições de mudança na comunidade de Rabo de Peixe.
É certo que toda a ajuda prestada à comunidade, mesmo que assistencialista, é necessária e recomendável, mas Rabo de Peixe precisa mais do que isso para quebrar o seu ciclo de pobreza e de área urbana em crise. É necessário uma intervenção clara no sentido de querer retirar a população da sua condição de pobreza.
Como se sabe, consegue-se com alguma facilidade ter pobres letrados, mas será que é essa a intenção das atuações? Que é esse o objetivo das intervenções? É isso que se pretende? Não parece de todo que seja esse o caminho que se queira para a sociedade em geral.
Como se viu no início do presente estudo a pobreza abrange várias dimensões e da mesma forma que a pobreza não se cinge ao rendimento, também é verdade que não se poderá cingir exclusivamente à educação e a outra qualquer variável. A pobreza representa-se também pela falta de capacidade que as pessoas têm em sair da sua situação e se as pessoas são letradas mas não entendem as vantagens ou não têm capacidade de sair da sua condição, então, não foram criadas as condições para se sair da situação de pobreza.
Entretanto surgiu também uma outra inquietação, que embora não seja o objetivo do presente estudo, se deixa aqui registada. Ao longo deste processo ouviu-se de forma recorrente uma expressão: “pobreza de espírito”. É-se da opinião que qualquer intervenção futura em Rabo de Peixe, ou outra localidade com semelhantes problemáticas, deve olhar e entender aprofundadamente o que é esta pobreza de espírito, ou o que leva a esse enraizamento naquela comunidade. Quando se fala em pobreza de espírito, de facto, a que é que se refere. Refere-se a limitações cognitivas, a falta de interesse e de envolvimento na forma de vida, falta de conhecimento e educação (não confundir educação com formação), refere-se a pura e simples resignação ou até preguiça? O que é isso de pobreza de espírito? Mas essa é uma questão que se deixa em aberto e que se acredita que numa intervenção futura, com a devida implementação de um processo de “avaliação realista”, conseguir-se- á descodificar.
Retomando os fatores que se consideram que podem ter influenciado o curso do projeto. Um deles, para além do já apontado, é o facto das ações e alguns dos processos de metodologias de intervenção, para atingir determinados resultados e impactos, não estarem devidamente detalhados na candidatura. Realmente, na candidatura, é referido o que se pretende atingir a nível de impactos, fala-se das
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relações entre as componentes e dimensões de intervenção, as interligações entre ações, mas acaba por não detalhar e quantificar o que realmente deveria ser executado para atingi-los.
Assumindo que seria a equipa de coordenação da candidatura a acompanhar a implementação do projeto, entende-se que poderiam, eventualmente, ter uma ideia precisa do que iriam introduzir em termos de atividades nas ações de intervenção social. No entanto, tal como aconteceu no projeto, houve uma coordenação distinta na fase da implementação do projeto, levando a que essa nova equipa não tivesse uma base perfeitamente sólida de orientação a nível de desenvolvimento de atividades para prosseguir de forma a atingir os impactos. Identifica-se, desde logo, um bloqueio na comunicação entre a fase da candidatura e a fase da implementação do projeto, que poderão ter levado a uma dificuldade acrescida no desenvolvimento da implementação do projeto.
Ainda relativamente aos impactos, considera-se que por muito difícil que seja quantificar os impactos de um projeto, esse exercício deve ser feito, pois só assim se poderá ter uma medida comparável e metas orientadoras durante a sua implementação.
Novamente, se estivesse previsto ou fosse implementado um exercício de avaliação ao longo do projeto, esses impactos teriam que estar obrigatoriamente definidos de forma quantificável e, certamente, que a avaliação seria uma ferramenta que obrigaria constantemente a tê-los presente e se necessário ir readaptando as ações desenvolvidas no projeto, de forma a atingir os impactos definidos. Também parece relevante que, para a dificuldade de produção de efeitos do projeto, parecem ter contribuído as diferentes perspetivas de intervenção, entre a fase da proposta e da implementação do projeto. A intervenção adotada parece ter demonstrado uma dificuldade na obtenção de impactos mais alargados.
Finalmente, não havendo uma avaliação ao projeto, essencialmente através da abordagem da “avaliação realista”, isto é, de forma intercalar e com métodos que permitam identificar as causas dos efeitos (ou da falta deles), perdeu-se também a oportunidade de perceber exatamente o que acabou por dificultar o sucesso desta metodologia, nomeadamente no que possa relacionar-se com a forma de criar laços entre entidades, na forma de criar elos com a população, pela dificuldade no envolvimento da população com o projeto, se pela própria falta de capacidade da população em receber e interiorizar o projeto (embora aqui, acredite-se que a falta de competência pode e deve ser trabalhada, havendo formas de capacitar a população), etc., não se sabe e nem será possível vir a saber. Perdeu-se a oportunidade.
Ou seja, não havendo um exercício de avaliação formal do projeto, tornou vulnerável o reforço ou a alteração na metodologia de intervenção que foi realizada. Decerto, que a avaliação permitiria traduzir as evidências dos impactos aquém dos esperados e acredita-se que, atempadamente, poder-se-ia tomar medidas para alterar o rumo do projeto.
O que é mais importante deixar aqui registado é que, de facto, a falta do exercício de avaliação em projetos, nomeadamente uma abordagem pela “avaliação realista”, que é a que se acredita que poderá produzir resultados mais férteis em termos da perceção dos impactos de um projeto, pode deixar “cair” oportunidades únicas de intervenção, fragilizando todo um processo, que não afetarão apenas o eventual desperdício de verbas públicas, mas sim todo um processo de mudança ou de criação de condições que proporcionem futuras mudanças numa comunidade.
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Considera-se, por tudo o que foi exposto, poder ter demonstrado a relevância de exercícios de avaliação que possam concorrer para a estruturação do conhecimento produzido através do financiamento excecional do projetos locais e que permitam contribuir para a capacitação da sociedade na conceção de novas formas de resposta na sociedade contemporânea.
Sugestões para ações futuras
Sendo a avaliação realista um paradigma que se considera ainda pouco explorado, a sugestão que se deixa é que sejam realizados, de forma experimental, dois processos de avaliação a um mesmo projeto que venha a ser implementado.
É evidente que a implementação do processo de avaliação realista irá influenciar o processo de avaliação dita convencional também a ser aplicado, mas será interessante analisar a informação a que se chegue quer por um método, quer por outro. Certamente que nos trará resultados distintos de avaliação desse mesmo projeto.
Ao longo do estudo percebeu-se haver uma questão que pareceu ser relevante ou influenciadora na análise feita pelos próprios inquiridos relativamente aos impactos que consideraram ter sido alcançados pelo projeto: a expetativa.
Portanto, considera-se interessante, numa perspetiva mais académica, elaborar uma espécie de barómetro para medição das expetativas criadas com as intervenções sociais e perceber a sua influência na própria intervenção. Deixa-se aqui o repto: Será que as expetativas podem vir a influenciar a intensidade das ações ao longo das intervenções sociais? Será que num determinado momento, se se perceber que os efeitos estão abaixo do expectável, poderá desmotivar a continuidade das ações e piorar ainda mais o resultado desses efeitos? Ou pelo contrário, se os efeitos forem maiores que o expetável, poderá reforçar e intensificar a produção de efeitos futuros?
Por último, outra sugestão que se prende com uma inquietação, entretanto insurgida, está relacionada com a medida do RSI.
Pelos contactos e inquéritos feitos diretamente aos beneficiários do RSI, ficou-se com a opinião de que a implementação do RSI não está a surtir os efeitos últimos desejados. Pois de facto o RSI pretende resolver situações de urgência, mas de forma temporária e com efeitos na integração social dos beneficiários. E verificou-se nas entrevistas realizadas aos beneficiários do RSI e nas entrevistas também informais que, para muitos, o RSI é dado como adquirido, transformando-se, pode-se mesmo dizer, num modo de vida.
Portanto, considera-se que o RSI deveria também ser avaliado à luz do paradigma da avaliação realista, de forma a se identificar melhor as causas que aí estão instaladas e geradoras desse ciclo. E estando as causas identificadas, introduzir-se um trabalho integrado na potenciação das dinâmicas de capacitação de competências.
Quer-se ainda deixar uma mensagem que se considera importante e que deve estar sempre presente em qualquer intervenção de luta contra a pobreza, que é o de analisar a problemática através de outra perspetiva da que tem vindo a ser feita. Como diz Joseph Wresinski17 "Não é de alimentos nem de
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roupa que mais precisam (os pobres), mas sim de dignidade. Precisam, sobretudo, de não estarem dependentes do que querem ou não querem os outros, dependentes dos caprichos da boa vontade alheia.", ou seja, precisam de ser olhados como pessoas capazes e que lhes sejam proporcionados os instrumentos que lhes permitam sair da armadilha instalada.
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