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Experiência e percepção ligam-se através da ideia de que a percepção é um conhecimento adquirido através dos sentidos, isto, ao admitirmos a percepção sensorial como uma função cerebral. Função esta que permite adquirir, interpretar, selecionar e organizar informações obtidas pelos sentidos e que, cognitivamente, envolve processos mentais como a memória, a atenção e o pensamento.

O modelo de Vygotsky (2003) nos propõe que a interpretação dos dados é feita a partir da nossa subjetividade, cruzando experiências, motivações, crenças e valores e que o comportamento se baseia em interpretações que fazemos do ambiente. Segundo este modelo, o intelecto focaliza e seleciona estímulos relacionando-os através da atenção. No entanto, a atenção pode ser influenciada tanto por estímulos externos (ambiente e qualidade do estímulo que se apresenta) como internos (motivação e experiência) e depende também de fatores fisiológicos (neurológicos).

A relação sujeito objeto não existe antes da experiência, porque sujeito e objeto só se constituem depois dela, portanto, somente a partir do momento em que temos alguém interagindo com um ambiente e à medida que esta interação vai acontecendo é que podemos identificar o sujeito e o objeto. Durante estas interações, atos ou objetos se ordenam de uma forma que nem o ambiente e nem a

pessoa podem deixá-los para trás, aí temos ‘uma experiência’. Esta relação então, além do físico/natural/material, abre-se para o simbólico.

Para Vygotsky (2003), articulamos relações sociais e linguagem a fim de nos apropriarmos de conceitos que nos são significativos e nosso desenvolvimento acontece através das interações sociais originando processos mentais elementares e superiores. As sensações, a percepção imediata, as emoções primárias e a memória indireta são consideradas processos elementares e são reativos. Já a atenção, a percepção, a memória e a imaginação são consideradas processos superiores, ativos e de origem sócio-cultural.

Historicamente, portanto, as relações entre experiência e percepção não permanecem as mesmas quando verificamos que através das evoluções técnicas se promoveram, e se promovem ainda, mudanças do estatuto do sujeito e consequentemente, nas formas como ele constitui sua percepção.

Percebemos o mundo não apenas com cor e movimento, mas atribuímos a ele significados. Quando pensamos na percepção como uma faculdade ativa, como algo que implica em recorte e interpretação, podemos relativizá-la e compreender que a partir do momento em que a modernidade engendrou uma nova organização das categorias de espaço e tempo, desencadeou mudanças nos padrões que estruturavam a percepção. Aliadas a esta mudança nos padrões, as condições que foram criadas pela evolução técnica permitiram novas experiências no âmbito da nossa cultura.

Trazemos novamente Walter Benjamin, que foi um dos primeiros autores a tratar desta questão da mudança na percepção moderna. Leitor do historiador de arte Alois Riegl24 (que defendia a tese de que era no espaço arquitetônico que a percepção se realizava através de aspectos táteis e óticos da percepção) Benjamin reconheceu que Riegl foi um dos primeiros a tentar extrair da arte algumas conclusões sobre a organização da percepção nas épocas em que esta tradição estava em vigor, mas as criticou por estarem “[...] limitadas a descrever características formais de um estilo de percepção em vez de tentar mostrar as convulsões sociais que se exprimiram nessas metamorfoses da percepção.” (BENJAMIN, 1975, pp. 169-170).

24 Alois Riegl foi um históriador de arte vienense que escreveu sobre arte românica e arte industrial

Para Benjamin, a percepção seria uma forma de acesso à realidade, uma realidade efetivada através do olhar, mas além de ser uma experiência que o sujeito tem da realidade, seria uma experiência coletiva. O acesso ao mundo se daria sim a partir das sensações, mas não seriam exclusivas a um “eu individual somático- espiritual”. Estas interações se dariam em relação aos corpos-sujeito e corpos- objeto, construindo uma rede de significações visuais, táteis, espaciais, temporais, gustativas, olfativas, sonoras, motrizes e linguísticas, portanto, seriam dotadas de significação e se constituiriam uma leitura, que necessita de código e interpretação.

Em sua obra póstuma, ‘Passagens’, Benjamin (2006) compilou citações que em seu projeto serviriam para discutir as ‘formas de ver’ nas representações do século XIX: imagens, signos, estilos e símbolos pictóricos. Representações que provocaram efeitos, que promoveram novas formas de sociabilidade e que construíram discursos que partiram das práticas e das experiências visuais. Em ‘Passagens’, Benjamin preocupa-se com um saber mais sensível “[...] que não apenas se alimenta daquilo que se apresenta sensível aos seus olhos, mas também consegue apoderar-se do simples saber e mesmo de dados inertes como de algo experienciado e vivido.” (BENJAMIN, 2006, p.18).

No lugar dos conceitos, surgiram imagens. Imagens de sonho que se configuraram a linguagem imagética do séc. XIX: “O século XIX é o sonho do qual se deve despertar: um pesadelo que pesará sobre o presente enquanto permanecer intacto seu fascínio.” (BENJAMIN, 2006, p.19). Mercadorias e fantasmagorias seriam as imagens mágicas daquele século, imagens de desejo. Os panoramas surgem junto com as ‘passagens’ e são incentivados pelo desejo de representar de maneira mais similar possível a natureza. Nos panoramas “a cidade se amplia, transformando-se em paisagem.” (BENJAMIN, 2006, p. 42).

Outro filósofo que também tratou de esclarecer aspectos desta mudança da experiência no campo da percepção foi o arquiteto e urbanista francês Paul Virilio (1996). Seu trabalho nos legou alguns estudos sobre como a técnica modificou o olhar sobre a realidade a partir das experiências visuais. Em “A Arte do motor”, mostra estas transformações na experiência visual relacionadas à uma história moderna organizada por cinco motores: o motor a vapor, que serviu à revolução industrial, que permitiu a criação do trem e que gerou a visão do mundo através do trem - em desfile e consequentemente, criou a visão que é característica do cinema; depois o motor de explosão, que propiciou o desenvolvimento do automóvel e de

uma infinidade de outras máquinas como o avião e que permitiu a visão aérea; o motor elétrico, que originou a turbina e favoreceu a eletrificação permitindo a visão da cidade à noite; o motor-foguete que satelizou nossa experiência, permitindo a visão da Terra a partir da Lua e o último motor, que seria o motor informático, da inferência lógica, do software, que favorece a digitalização da imagem e do som, assim como a realidade virtual. Para Virilio (1996), este último motor modifica em grande escala as relações com o real, na medida em que permite duplicar a realidade através de uma outra realidade, que é uma realidade imediata, funcionando em tempo real, live.

Embora permitam cada vez mais uma expansão e uma reconfiguração da experiência da percepção, tonando-a mais ampla na contemporaneidade, estas tecnologias não apenas oferecerem novas oportunidades mas também desestabilizam a familiaridade que temos com as nossas instituições e práticas culturais. Esta desestabilização do que é familiar em nós corresponde à ideia de imagem dialética: quando o familiar torna-se estranho, temos que redirecionar nosso entendimento e a nossa experiência. E Virilio entende estas transformações como uma crise.

Seu posicionamento crítico em relação à estas transformações pode ser lida em “A máquina da visão” (1988), onde dedica-se a definir uma nova lógica da imagem, na qual as diferentes tecnologias, de logística da imagem, definem lógicas diferentes. A era da lógica formal: pintura, gravura e arquitetura que vai acabar no século XVIII. A era da lógica dialética, da fotografia e do cinema (fotograma) no século XIX. E a era da lógica paradoxal que se inicia com a videografia, holografia e infografia. Dentro desta nova lógica da percepção, que cria um choque entre o que está próximo e o que está distante, nossa capacidade de compreender as distâncias, por exemplo, é afetada. Virilio nos fala de uma amnésia topográfica, criada pela multiplicidade de visões de mundo que ocorreu com a explosão comunicacional, como uma espécie de esquecimento do lugar em que se encontra aquele que não despertou completamente. Este esquecimento começa pela incapacidade de gerar imagens, de selecionar imagens no tempo e espaço e criar imagens mentais, por isso gerações recentes têm mostrado dificuldade para ler, porque se tornaram incapazes de representar.

As palavras não se transformam mais em imagens porque o que se lê são as próprias imagens e estas são percebidas mais rapidamente

Com a memória topográfica pode-se falar de gerações da visão e de uma arbitrariedade visual de uma pra outra geração. O advento da logística da percepção e de seus vetores de deslocalização renovados da óptica geométrica inaugura, ao contrário, um eugenismo do olhar, aborto originário da diversidade das imagens. (VIRILIO, 1994, p. 29).

Virilio (2002) nos fala de uma imagem fática, uma imagem que força o olhar e que prende atenção, que se fecha e não permite a reflexão, uma imagem que nos envolve e que não é somente domínio de ambientes técnicos e virtuais.

Neste sentido, atrelar a experiência da percepção com uma noção inicial de imersão, partindo da palavra latina ‘immersione’ – que significa ato ou efeito de imergir, de mergulhar - podemos erigir uma definição inicial de imersão que se liga à experiência perceptiva (sensorial, emocional) de encontrar-se envolvido por um meio. E relacionando esta definição inicial com a perspectiva de Virilio pode-se dizer que neste meio, entre as imagens, nossa imaginação se perde. Mas surge o paradoxo: seria o perder-se na imaginação ou perder a capacidade de imaginar? A precisão da resposta talvez não seja tão importante quanto sua consequência: ambas limitam qualquer tipo de ação.