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7. ANALYSE

7.2 L ØNN SOM VIRKEMIDDEL I REKRUTTERINGSPROBLEMET

7.2.3 Innføring av mer differensiert fastlønn basert på prestasjoner

SCHMIDT, Augusto F. A propósito de

Macunaíma. A Ordem: Rio de Janeiro, [dez.?] 1928, p. 34-38. [IEB-USP – CAP- MP].

Macunaíma, de Mário de Andrade, é o livro mais complexo, mais difícil de ser criticado, que se escreveu até hoje no Brasil. Não estou fazendo arbitrariamente esta afirmação. Falo por experiência própria e alheia.

Há quatro meses já que tento, sempre inutilmente, dizer alguma coisa sobre a última produção de Mário de Andrade.

Tinha assumido, comigo mesmo, um sério compromisso em escrever logo da saída de Macunaíma (e o primeiro exemplar, por acaso, eu o tive antes mesmo que o seu próprio autor) alguma coisa sobre tão grave e significativa obra. Mas quantos obstáculos tive! Não que Macunaíma seja algo de massudo, de digerível apenas penosamente, antes pelo contrário, a gente sente sempre interesse e prazer à medida que vai conhecendo as aventuras extraordinárias do extraordinário herói da lenda brasileira que é Macunaíma.

A complexidade do livro é muito essencial, muito escondida1. Sua origem está, talvez, na simplicidade conseguida do trabalho em contraste com a profunda e atormentada gênese dele. Para mim “Macunaíma” é simples à força de ser difícil.

É simples porque é excessivamente complexo. Esta complexidade só é verdadeiramente sentida quando se principia a pensar na significação da obra, o que não acontece na ocasião da leitura mas bem depois.

Mesmo não podendo enquadrar Macunaíma, pois ele é a própria indeterminação, a gente tem a noção de que este livro é alguma coisa de realmente importante, importante principalmente em relação ao momento brasileiro.

O maior elogio que, a meu ver, se pode fazer de uma obra é o relato das preocupações provocadas por esta mesma obra.

1

Nunca fiquei tão perturbado e indeciso com livro nosso, o que não quer dizer absolutamente que tivesse ficado emocionado. Macunaíma me causou séria irritação, logo nos primeiros momentos, após a leitura.

Veio-me encontrar num estado de espírito completamente antagônico ao de Mário de Andrade, e[,] quem sabe, se não contribuiu para uma ligeira modificação deste meu estado de espírito mesmo.

O que se sente em Mário de Andrade, e que muito mal nos impressiona a nós dispersivos e diluídos homens do Brasil, é este poder de organização que ele tem. Parece que Mário se colocou prudentemente ao abrigo das nossas perturbações de caráter pois universalista, escudado num programa delineado e, aos poucos, executado com uma segurança admiravelmente anti-brasileira.

Certa vez me propus, sem o ter conseguido naturalmente, a determinar as suas partes germanizadas pelo espírito alemão. Com efeito, a persistência com que Mário de Andrade trabalha para conseguir a fisionomia exata da arte brasileira (a personalidade artística nacional) assombra a gente pela disciplina, pela energia, pelo heroísmo, anti-personalista mesmo, que revela a todo o momento. Deixa Mário de Andrade de ouvir as profundas vozes que, por certo, constantemente o solicitam, para se concentrar no seu plano de trabalho. O prejuízo que trará, individualmente, a Mário criador este pré-estabelecimento, esta determinação de caminho, pouco parece impressioná-lo. No momento, Mário de Andrade prefere sacrificar o homem, o geral ao brasileiro. Que conseguirá ele com esta fixidez, com este trabalho lento e terrível de crítico?

Não será um esforço inútil este em que se empenha? À clarividência de Mário de Andrade não importa a impossibilidade2 de apreensão de certos detalhes, desta fisionomia verídica da arte brasileira, os quais estão mais dificilmente escondidos, e que só se tornam perceptíveis por intuição?

Não sei bem ainda responder.

A procura de uma expressão verdadeiramente nacional é o eixo de toda a sua obra. Mas Mário de Andrade, não ficou apenas nas indagações exteriores. Analisou-se cuidadosamente, e, quem sabe, se friamente também.

Talvez por isto, sua obra seja mais obra de crítico.

2

Mesmo fazendo ficção permaneceu ele um homem atormentado pelo desejo do real.

Não se abandonou à adivinhação. Seus poemas, por exemplo, são procuras de expressão e de sinceridade. Não passam, porém, de procuras, o que não exclui deles, absolutamente, grandes belezas.

Faltou a Mário de Andrade o que se pode chamar propriamente de imaginação criadora.

Em Macunaíma a gente nota um desejo; às vezes, de despojar o personagem central do seu ambiente lendário, a fim de transformá-lo em alguma coisa de mais amplo, e, direi, mais significativa como símbolo de espírito, de feição, de subconsciente nacional.

E muitas vezes Mário de Andrade consegue elevar até esse ponto a sua obra.

Macunaíma tem um vivíssimo caráter, à força de não ter caráter nenhum talvez.

Este problema de caráter tem ultimamente preocupado muito Mário de Andrade.

O que é caráter afinal?

Afirmação contínua de idêntico sentido (— sempre em correlação —) da existência?

Não sei bem. Temo perder-me num terreno enorme e complicado como é a moral, quando desejo apenas dar minhas expressões sobre um livro que é de arte (e não é de arte também).

A lucidez de Mário, insisto, é uma realidade.

Tudo tinha nele esta capacidade de organização a que já me referi.

No entanto, estou vendo que, em certas fases, Macunaíma vai além da lucidez e do espírito orgânico de seu autor. Desprende-se de Mário a

Macunaíma e principia a viver à parte do escritor.

É um livro bem brasileiro, o que, diga-se de passagem, não mais constitui qualidade ou defeito para mim.

Como ao Brasil, Macunaíma, falta consciência. Em lugar de “herói sem nenhum caráter”, que é o subtítulo da obra, a meu ver estaria bem mais certo,

atos. O herói da lenda brasileira (ao contrário do herói da literatura brasileira) age sempre por impulso e sem intenção. Mário de Andrade, o lúcido e determinista não lhe pode delinear o caminho. Macunaíma não aceita indicações.

Tem saltos bruscos, ouve vozes absurdas, desencontradas, vindas dele mesmo. É uma criança. Criança sabida; mas criança assim mesmo. Criança como o Brasil, se me permitem a insistência da aproximação.

A espontaneidade do herói do livro se choca com o espírito crítico e nada apriorístico do autor. E por quê? Ou Macunaíma é um tipo legítimo e próprio, criação do autor, mas já em absoluto independente deste autor, ou Mário é simplesmente padrasto, embora amoroso, de Macunaíma. Há entre o herói do livro e seu autor, herói da literatura nacional, um certo desencontro, uma certa falta de acordo, quanto ao que não é apenas pitoresco, apenas expressível [sic], e antes íntimo e irredutível. Macunaíma é instintivo, inconseqüente, acatólico, bárbaro, arrastado pelos sentidos. O Mário é o contrário. Para Macunaíma a verdade não tem importância; para Mário a verdade, pelo menos a brasileira, tem muita importância.

E foi essa falta de identidade entre os dois heróis, na minha opinião, que não consentiu que Mário de Andrade escrevesse um livro genial.

OLGA LIANE ZANOTTO MANFIO JASCHKE